Conferência Episcopal Portuguesa  Instru&ccedi...

A Conferência Episcopal Portuguesa, na Assembleia Plen...

Notícias em Destaque


MISSA DO DIA DE PÁSCOA 2019SÉ NOVA – COIMBRA Caríssimos irmãos e irmãs! Chegamos às festas pascais desejosos de ouvir o anúncio de Jesus Ressuscitado, vencedor do pecado e da morte, pois os acontecimentos que povoam o mundo de perto e de longe trazem-nos muitos sinais de morte. Dizermos uns aos outros: Cristo ressuscitou ou feliz e santa Páscoa, é uma palavra de ânimo e de esperança no meio de muitos motivos para o desânimo. Os discípulos de Jesus experimentaram em primeira pessoa o que é o desânimo, a perseguição e a falta de esperança. Também tiveram a graça de conhecer em primeira mão o que significa acreditar na ressurreição de Jesus. Nós, pelo facto de terem já passado dois mil anos e de termos recebido a notícia à distância temporal e por meio de muitas gerações, sentimos que ela perdeu o impacto inicial. Além das Sagradas Escrituras que nos narram o modo como os acontecimentos da Páscoa foram vividos e sentidos pelos apóstolos e discípulos de Jesus, temos a possibilidade do encontro com esses mesmos acontecimentos por meio da celebração da liturgia, que faz memorial da morte e da ressurreição de Jesus. Esperamos ainda poder contar com a alegria vivida e expressada pelos crentes, pois ela é sinal do impacto que, a partir da fé, sentem e torna-se um testemunho ímpar da força do acontecimento pascal ao longo de todos os tempos da história. Esta Páscoa fica marcada por muitos acontecimentos de alcance global. Deles refiro o incêndio da Catedral de Notre-Dame e o atentado contra as igrejas cristãs no Sri Lanka, que fez dezenas de mortos. Dois acontecimentos muito diferentes, tanto em si mesmos como nas causas que os produziram. O primeiro, provavelmente fruto de um acidente casual, destruiu um lugar profundamente significativo para a fé cristã e para a Igreja de Deus, que é, ao mesmo tempo, um património cultural de elevadíssimo valor, pois representa o que de melhor se fez no Ocidente cristão do ponto de vista arquitectónico e artístico. Causa, no entanto, alguma estranheza ouvir os que procuram erradicar os valores cristãos e a tradição religiosa do Ocidente a proclamar a Catedral como o símbolo da Europa. Será, porventura, o símbolo duma Europa rejeitada, de valores que paulatinamente se vão substituindo por ideologias de última hora. Notre-Dame é, de facto, um grande símbolo da Europa, porque ela nasceu e cresceu alicerçada na fé cristã, nos valores humanos inscritos na matriz de cada pessoa e elevados pelo Evangelho. É o símbolo de uma arquitetura, pintura, escultura, música e muitas outras artes que nasceram num contexto muito concreto e que se assumem ao serviço da expressão da fé, do interior gozo humano de contemplar a criação e o Seu Criador. Esperamos a sua rápida reconstrução, mas mais ainda desejamos ver ressuscitar tudo aquilo que ela significa e simboliza para uma Europa marcada por muitos sinais de morte espiritual, cultural e humana. Em tempo de Páscoa, gostamos de pensar que a notícia de reedificação do templo do corpo de Jesus ao terceiro dia, conforme referia a profecia, continua a ser sinal da profecia sempre presente na história da fé cristã: o Evangelho de Jesus pode entrar em todas as culturas e em todos os tempos, mesmo na Europa que persiste em descartar-se dele. Os atentados contra os cristãos no Sri Lanka e em tantas outras partes do Oriente juntamente com muita vandalização de igrejas no Ocidente e outros variados incidentes com motivação religiosa, fazem-nos pensar nos primeiros tempos da vida da Igreja e de profissão da fé cristã. É  preciso passar por muitas provações, vindas de fora e que nascem de dentro, e elas aí estão bem patentes, mas fica-nos sempre a certeza de que o amor de Deus nunca se apartará de nós. Podem morrer fisicamente cristãos em muitas partes do mundo, podem ser aniquilados psicologicamente, podem até ser alvo fácil de acusação nas lutas éticas ou quando se procuram as raízes dos males que povoam a atualidade, mas ninguém nos pode roubar a esperança que, pela morte e ressurreição de Seu Filho, Deus depositou nos nossos corações. Ao tomarmos conhecimento destes acontecimentos trágicos que marcam a família cristã onde se mata o corpo, longe de nós, e de muitos outros acontecimentos destinados a matar o espírito, bem perto de nós, compreendemos melhor o alcance da Páscoa, pois sentimo-la na nossa própria pele, na pele da comunidade dos discípulos de Jesus. A morte de alguém pelo simples facto de se afirmar como filho de Deus, por professar a fé cristã, por pertencer a uma religião, aproxima-nos muito de Jesus, d’Aquele que foi condenado à morte por se afirmar Filho de Deus. Também nos aproxima da sua Páscoa, pois Deus não deixará sob o poder da morte nenhum daqueles que redimiu pelo preciosos sangue de Seu Filho. Nesta Páscoa sentimos de modo novo o que significa anunciar que Cristo ressuscitou e venceu o pecado e a morte, porque a sentimos tocar a nossa família humana e a nossa família espiritual, tanto no corpo como no espírito. Cala, por isso, mais fundo a proclamação do Evangelho: “Não está aqui: ressuscitou.” Sente-se mais ardor quando se ora: “Fica connosco, Senhor, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite”. Respondendo ao apelo da segunda leitura, celebremos a festa da Páscoa do Senhor e peçamos-lhe a graça da pureza e da verdade. Qua luz do Ressuscitado ilumine as trevas do nosso coração e do nosso mundo e que nada nos separe do amor de Deus. Que esta Páscoa seja ocasião para reconstruirmos as igrejas e o templo de Cristo vivo nos nossos corações, na nossa família e na nossa comunidade. Coimbra, 21 de abril de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra
VIGÍLIA PASCAL 2019SÉ NOVA – COIMBRA Caríssimos irmãos e irmã! Bendito seja Deus por esta noite santa que nos oferece! Hoje experimentamos com profundidade a alegria de sermos salvos pelo Senhor Jesus Cristo morto e ressuscitado. Sentimo-nos felizes por Ele ser o Senhor da nossa vida e por nos dar esperança renovada para continuarmos o caminho da fé, na Igreja e no testemunho do mistério que nos envolve. Na celebração do batismo dos eleitos acompanharemos os irmãos a quem o Senhor chamou pelo nome e sobre os quais derrama a abundância dos Seus dons. Acolhemo-los na Igreja, comunidade de filhos e manifestamos a alegria de receber novos irmãos nesta família de Deus, que sente o apelo a viver em comunhão de caridade. Pela renovação das promessas do nosso próprio batismo tornamos atual a graça de seguir Cristo e refazemos o desejo de sepultar o homem velho e permitir que nos ressuscite para a vida nova. Sentimos que o batismo não é um momento encerrado no passado da nossa existência, mas um sacramento dinâmico, que se pode tornar realidade permanente. Recordamos que não fomos simplesmente homens e mulheres batizados, mas que somos homens e mulheres que atualizam continuamente o batismo, enquanto sacramento determinante da totalidade da nossa vida. Nesta Páscoa do Senhor, convido-vos, caríssimos irmãos e irmãs, a redescobrirmos a beleza do dom que recebemos pelo batismo. Estamos no tempo da indiferença de muitos em relação à fé, no tempo da oposição de outros em relação aos valores da tradição cristã, no tempo das perseguições aos cristãos por parte de alguns marcados pelos fundamentalismos ideológicos, religiosos ou culturais, no tempo da afirmação das novas faces do materialismo, no tempo dos sincretismos religiosos e espirituais, no tempo dos relativismos em que tudo parece ter exatamente o mesmo valor, no tempo do individualismo em que cada um se sente capaz de eleger isoladamente o que acredita, o que faz, os valores éticos que assume, como se fosse o único critério da verdade. Precisamos de redescobrir a beleza do dom que recebemos porque tudo isto tem também repercussões em nós, cristãos e dentro da Igreja a que temos a graça de pertencer pelo batismo na água e no Espírito. Sem um novo ardor da fé e sem um amor apaixonado por Cristo, facilmente nos deixamos enredar pela indiferença e nos deixamos sucumbir diante das adversidades. A Igreja tem um lugar menos relevante na sociedade e no caminho de grande parte da humanidade, particularmente no Ocidente, não tanto porque tenha ficado para trás na história, como é voz corrente, mas sobretudo porque foi perdendo o ardor da fé no Senhor Vivo no meio de nós, porque os cristãos se acomodaram à cultura dominante, porque arrumou o Evangelho na prateleira dos esquecidos e desnecessários. Pedir o batismo quando a fé cristã era maioritária e quase universal entre nós era pôr-se do lado da maioria, porventura dominante e poderosa tanto a nível social, como ético ou cultural. Desejar viver o batismo numa sociedade secularizada e batida por outros ventos é uma atitude verdadeiramente evangélica, pois o Senhor convidou-nos sempre a ser fermento que leveda a massa, sal que dá sabor ao que é insípido, grão de trigo que morre para dar vida, luz no candelabro que alumia todos os que estão na escuridão desta casa comum. Viver o batismo, hoje, é assumir a vocação cristã de seguir Cristo Vivo, de levar a cruz com Ele e com os irmãos, de ser testemunha autêntica do amor de Deus no mundo, ou seja, é assumir a vocação de ser mártir da fé, de acordo com o sentido etimológico deste termo. Os cristãos não são heróis nem pessoas dotadas de poderes especiais para mudar o mundo. Também não são um grupo de iluminados que conheça tudo, tenha certezas sobre tudo e encontre facilmente soluções para tudo. Assumem-se, porém, como homens e mulheres que, com humildade, querem acolher o dom de Deus, que desejam caminhar no conhecimento da verdade, que aceitam o Evangelho de Jesus como caminho nas suas decisões, que trabalham para deixar uma marca de caridade e fraternidade no mundo, que procuram viver na alegria e na esperança alicerçadas na morte e na ressurreição do Senhor. Viver o batismo e ser cristão não é uma condenação à infelicidade, nem a uma vida carregada de dores e cruzes. Quando se descobre o amor de Deus derramado em nossos corações, encontra-se a Luz para ser feliz e a motivação para levar a própria cruz e ajudar a levar a cruz dos outros. O Cristo vivo proclamado pela Páscoa é essa Luz, o encontro com Ele na fé e no batismo constitui a possibilidade do acesso à Sua iluminação, a prática da vida cristã na Igreja fornece o alimento indispensável para este caminho na Luz, o testemunho da alegria de acreditar no meio do mundo alarga os raios dessa Luz e permite a muitos outros o acesso à sua claridade. Caríssimos irmão e irmã, cujo nome foi inscrito no livro dos eleitos e dos santos, considera uma graça sem igual teres sido escolhido pelo Senhor para fazer parte do Seu Corpo e entrar na intimidade do Seu coração por meio dos sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia. Irmão e irmã, alegra-te pelo dom de seres, hoje, acolhido na condição de filho de Deus e irmão de Jesus Cristo; louva o Senhor por Ele vir ao teu encontro a fim de iluminar a tua vida com o Seu Espírito Santo; agradece-Lhe por te tornar participante do banquete da Eucaristia; estremece de comoção por Ele se ter entregue à morte por ti. Irmão e irmã, a Igreja que, hoje, te acolhe como seu membro de pleno direito, convida-te a seres um membro fiel, apóstolo do Evangelho, pedra viva deste templo santo de Deus, na comunhão e no amor.  Contigo louvamos o Senhor e, com o coração em festa, acompanhamos-te nesta passagem pelas águas da Vida, nesta tua feliz e santa Páscoa. Ámen. Coimbra, 20 de abril de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra    
CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR 2019SÉ NOVA – COIMBRA Caríssimos irmãos e irmãs! Somos, hoje, convidados a contemplar a cruz de Jesus, o sinal da nossa redenção.  Numa sociedade que esconde os problemas, o sofrimento e a morte, a cruz tornou-se pouco popular. Prefere-se exaltar o bem estar, mesmo que falso, a alegria, mesmo que superficial, a vida, mesmo que ferida de morte. A contemplação do mistério da cruz de Cristo e da nossa cruz é um exercício de humildade e de humanidade. Afinal ele está presente e faz parte de nós como fez parte da vida terrena de Jesus, apesar de ser o Filho de Deus. Os grandes santos e místicos encontraram na sua contemplação um caminho de luz para as suas vidas, viram nela a expressão da condição humana e encontraram nela a condição para se aproximarem de Deus e para viverem a solidariedade com o próximo. A espiritualidade da cruz não é uma busca doentia do sofrimento nem uma contemplação fechada na dor, mas a única possibilidade para a abertura a um caminho de fé e de amor. A cruz de Cristo choca e interpela como choca e interpela a cruz da humanidade. Os próprios discípulos de Jesus embatem contra essa realidade difícil de compreender e aceitar, tão entusiasmados estavam com a possibilidade de verem implantado um reino isento de sinais de morte. Depressa perceberam que esse mundo não existe, ao verem o próprio Filho de Deus passar pela dureza do sofrimento como caminho para a vitória.  Hoje, como há dois mil anos, são variadas as tentativas de fugir à cruz, embora ela se imponha sempre. Muitos dos que viram passar Jesus com a cruz aos ombros ou dos que passaram pelo calvário enquanto ali estava suspenso, procuraram não olhar para não ver, quiseram a todo o custo ser-lhe indiferentes. Quanto mais fugiram dela mais a sentiram pesada na sua vida e mais se viram oprimidos pelo seu peso. A indiferença é uma das mais comuns tentações diante da cruz: fazer de conta que não existe e que a vida pode passar-lhe ao lado. Quantas tentativas de alienação diante das dificuldades que surgem das mais diversas formas! A indiferença torna-se uma das mais perniciosas ilusões da sociedade que anseia por esconder os sinais da debilidade, da pobreza, das injustiças e da morte.  A negação da cruz é outra atitude frequente no tempo de Jesus e no nosso tempo. Muitos pensavam que Jesus não podia morrer porque era Filho de Deus. O Pai não o deixaria passar pela morte e não permitiria que fosse suspenso no madeiro. Pedro declara não conhecer aquele Jesus que caminha para o calvário, nunca O ter visto antes e não poder aceitar que o projeto de instauração do seu Reino tivesse de passar por aquela humilhação. O sonho da humanidade consiste em eliminar todos os sinais da cruz, em ter uma vida sempre bela e forte, em alcançar uma felicidade que não inclua nenhum resquício de sacrifício. Esquece que faltaria o amor, que passa sempre pela doação, pela entrega, pela solidariedade e pelo esquecer-se de si para estar com todos, mesmo com os que sofrem e perderam a esperança.  Maria e João permanecem de pé junto à cruz do Senhor. Não lhe são indiferentes nem a negam, pois não podem passar ao lado do amor por aquele Homem e Filho de Deus que conhecem e amam como filho e como irmão. Acreditam que a cruz é sinal de superação do mal e da morte pelo poder de Deus. A fé cristã proclama a cruz como sinal da superação, como lugar da esperança contra toda a esperança, pois aponta sempre para a aurora da ressurreição. Aquilo que não podemos vencer por nós, torna-se possível pelo poder do amor de Deus. Mesmo quando falham todas as esperanças humanas, não falta a esperança que nasce da força do amor redentor de Deus que não poupa o Seu próprio Filho, mas O entrega à morte por todos nós.  Jesus aceita a cruz e faz dela o lugar da maior solidariedade no amor. Mesmo que falhe o amor humano, mesmo que falte a solidariedade dos outros, não falta a solidariedade do amor de Deus expressa na cruz de Cristo elevada sobre o mundo e impressa no coração dos crentes. Na cruz, Jesus é o Rei do amor, o Senhor da esperança, o Deus da misericórdia, o Irmão ao lado de cada irmão, a companhia na maior solidão. Quando tudo e todos falham, Ele permanece eloquente no seu silêncio, que somente o coração pode ouvir. A cruz de Jesus é o sinal maior da solidariedade no amor. Convida-nos a acompanhar as cruzes dos outros e a estar lá, de pé, na certeza de que, pelo poder de Deus, sempre se abre a porta da redenção.  Este dia de Sexta Feira Santa convida-nos à contemplação da cruz do Senhor, a aceitarmos a nossa própria cruz e a estarmos presentes junto da cruz dos outros. A fé tem o poder de nos dar um sentido para a vida em todas as situações, nas de bem estar e nas de desolação, como mais nada nem mais ninguém nos pode oferecer. Não nos aliena da realidade com tudo o que ela tem, mas abre-nos à possibilidade da esperança no amor. Para que a cruz de Cristo não seja estéril, a sua contemplação na fé precisa de ser acompanhada pela solidariedade para com os outros, particularmente para com os que sentem mais duro o caminho, em virtude da solidão, da doença, da divisão, da indiferença ou do ódio. Para que a cruz de Cristo seja luz de esperança na aridez do caminho, a sua contemplação completa-se com a caridade para com os pobres, tanto no corpo como no espírito. A contemplação da cruz de Cristo pode tornar-se para nós um programa de vida, o maior programa de vida que nos permite estar em paz connosco, com os outros e com Deus. Enquanto a adoramos solenemente nesta tarde em que Cristo morre suspenso entre o céu e a terra, peçamos ao Senhor a graça de transfigurar a nossa cruz e a cruz dos nossos irmãos em luz de ressurreição. Coimbra, 19 de abril de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra
MISSA DA CEIA DO SENHOR 2019SÉ NOVA – COIMBRA Caríssimos irmãos e irmãs! Estamos a celebrar o sacramento da caridade, no qual Deus reparte connosco o Seu Corpo e Sangue, para matar a nossa fome e a nossa sede, para encher a nossa pobreza com a sua riqueza, para apagar em nós os sinais de morte e fazer brilhar os sinais de vida. Estamos a celebrar o sacramento da caridade, no qual nos sentimos impelidos a repartir com os outros aquilo que temos e aquilo que somos, para que ninguém se sinta excluído do banquete da humanidade, para que todos tenham o necessário para viver com dignidade no seu corpo e no seu espírito. A Eucaristia ou sacrifício de ação de graças de Jesus ao Pai é o sacramento da gratidão que nasce do amor reconhecido e retribuído. Tudo recebeu do Pai e tudo agradece ao Pai, pela oferta da Sua vida em favor da humanidade. Com Ele aprendemos a agradecer ao Pai o amor que nos tem e a retribuir com a oferta do sacramento e com a oferta da nossa vida em favor da mesma humanidade. Não se pode falar de Eucaristia sem se falar de amor, pois nessa altura, da parte de Jesus seria uma obrigação decorrente do facto de ser Filho, que tem o dever de obedecer ao Pai. Ninguém mais livre do que Jesus, Aquele que pode chamar com verdade a Deus Seu Pai, Abbá, porque conhece e reconhece o Seu infinito amor. Dar a vida é um gesto de liberdade no amor, é a síntese de toda a Sua vida: por amor oferece a Sua vida ao Pai e por amor reparte a Sua vida com todos os que lhe são dados como irmãos. A Última Ceia, de que nós fazemos memorial, hoje e em cada Eucaristia que celebramos, de acordo com o mandato que recebemos – “fazei isto em memória de Mim” – é o sacramento da caridade de Deus ao qual se une o sacramento da caridade dos homens. Assim como toda a vida de Jesus se resumiu num gesto sacramental e ritual, também a nossa vida tem a possibilidade de ali se representar no amor que recebemos e que damos. Aquele gesto sacramental torna-se o centro da nossa fé, que ali se exprime e se alimenta; o centro da nossa esperança, que cresce e se purifica; o centro da nossa caridade, que se aprofunda na relação com Deus e que projeta a relação com os irmãos. Nada pior para a compreensão da Eucaristia e para a participação na sua celebração do que entendê-la como uma obrigação ou numa perspetiva ritualista. A oferta da vida é o que há de mais livre e de mais generoso, tal como Jesus nos ensinou quando disse: “a vida ninguém ma tira, sou Eu que a ofereço livremente” (Jo 10, 18). A participação no sacramento da Eucaristia, sinal da oferta livre da vida, também não tem sentido como uma obrigação, pois contrariaria o sentido profundo da oferta, negaria a gratidão e o amor, que não se impõem, mas brotam do coração livre. Muitos cristãos lidam mal com a participação na celebração da missa dominical por vários motivos. Primeiro devido à debilidade da fé, que é um sentimento vago, mas determina pouco da realidade da vida. Uma fé intimista, espiritualista, intelectual e desligada da vida não sente necessidade de Eucaristia. No dia em que passar a significar uma relação de amor a Deus, uma relação de gratidão àquele que nos amou primeiro, passará a fazer parte do projeto que nos move e do coração que pulsa com ardor. Em segundo lugar, há cristãos que lidam mal com a participação na Eucaristia devido à pobreza dos laços que os unem à Igreja, comunidade do Povo de Deus. Quando falta o sentido da comunhão de Deus connosco e de nós com Ele e com os irmãos, que receberam o mesmo batismo, fica apenas o sentido humano dos laços que nos unem e não se sente a dimensão sagrada da pertença ao Corpo de Cristo. Quando nos sentirmos membros do Corpo de Cristo e sentirmos a Igreja como mistério de comunhão, que ultrapassa os laços da nossa humanidade, desejaremos participar na Eucaristia como o  sacramento que exprime e realiza essa comunhão. Em terceiro lugar, a dificuldade de ler a vida como um dom de amor, que se recebe para se dar, cria indiferença para com a celebração da Eucaristia, que é, por excelência, o sacramento da vida que se recebe e se dá em ato de amor a Deus e ao próximo. O egoísmo que se instala no coração de qualquer pessoa, mesmo que batizada, contraria radicalmente o significado da Eucaristia de Jesus e afasta da sua celebração do memorial da fé. Não pode haver Eucaristia sem caridade nem verdadeira caridade do homem crente sem Eucaristia. O nosso caminho de vida cristã incluirá sempre o aprofundamento da fé no mistério de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, a comunhão com a Igreja, sacramento da salvação e um estilo de vida assente na caridade, ou seja, na oferta da própria vida em favor dos irmãos. O gesto de Jesus, que lava os pés aos seus discípulos, apresenta-se-nos, hoje, como o sinal concreto da identificação de Eucaristia e caridade, como marca distintiva da condição cristã. Não se trata de uma caridade teórica ou racional, mas de contínuos gestos de amor e serviço, que hão de incluir a totalidade da nossa inteligência e vontade. Queremos, nesta celebração da Missa da Ceia do Senhor, realizar o gesto simbólico do lava pés, para assinalar a nossa decisão pessoal e eclesial de acolher os outros como irmãos e a nossa vontade de estar sempre alerta para os servir como pessoas iguais em dignidade. Os jovens são também pessoas vulneráveis, apesar da vitalidade que os anima; são também pessoas pobres, apesar da grandeza dos seus sonhos; são também irmãos para quem devemos olhar com misericórdia, pois enfrentam enormes desilusões. A nossa cidade de Coimbra acolhe uma multidão imensa de jovens estudantes e tem de estar atenta às suas pessoas e anseios. Quando proclamamos que todos são iguais em dignidade e devem ter as mesmas oportunidades na vida, nem sempre estamos dispostos a acolhê-los e a dar-lhes o lugar que lhes cabe. Frequentemente os deixamos entregues à sua sorte; aos cuidados das suas famílias, quer elas tenham as possibilidades adequadas ou não; outras vezes reenviamo-los para as instituições, mesmo que elas estejam atrofiadas pelas suas normas gerais e demasiado burocratizadas. Coimbra precisa de estar mais atenta a cada jovem, precisa de desenvolver um acompanhamento personalizado, tem de estar atenta às debilidades e necessidades dos seus estudantes. Há quem chega e se sente sozinho, há quem se perde no meio da massa, há quem se deixa seduzir pela novidade de estar fora de casa e sem a moderação e o aconchego familiar, há quem perca o ritmo nas atividades académicas, há quem encontra o vazio do sentido para a vida, há quem entra na noite escura da fé, e há quem vive na pobreza económica. O nosso gesto de lavar os pés aos jovens estudantes de Coimbra pretende chamar a atenção para o lugar daqueles a quem o Papa Francisco chamou o hoje ou o presente da sociedade e da Igreja. Não podemos permitir que, em Coimbra, haja jovens estudantes sem carinho, sem presente nem futuro ou deixados de lado por não terem nascido num berço dourado ou por se terem deixado perder nas malhas enredadas da vida. Cada jovem estudante precisa muito mais de propostas e oportunidades que o levem a sentir-se bem consigo, com os outros e com a vida,  do que de atrativas formas de se alienar do presente e do futuro. E nós temos a responsabilidade de lhas oferecer. Enquanto Igreja Diocesana de Coimbra, manifestamos a nossa disponibilidade para estar no terreno, na atenção a todos e a cada um. As nossas instituições, serviços e movimentos procurarão alargar a sua ação, simplesmente por amor aos jovens. O Fundo Solidário do Instituto Universitário Justiça e Paz, para auxílio material aos estudantes pobres e para o qual reverte a nossa renúncia quaresmal deste ano, é também um sinal de um desejo de os acompanhar melhor. Não há Eucaristia sem caridade, nem caridade cristã sem Eucaristia. Nesta Páscoa, Cristo passa também pela nossa cidade de Coimbra, põe a toalha à cintura e lava os pés aos nossos jovens estudantes. Rogamos-lhe que nos ensine a fazer o mesmo com caridade para que haja mais Eucaristia. Coimbra, 18 de abril de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra  
MISSA DO CRISMA 2019SÉ NOVA - COIMBRA Caríssimos irmãos e irmãs! A Igreja não cessa de cantar os louvores do Senhor por todos os seus dons. Nesta celebração da Missa do Crisma, ela canta de modo especial a sua gratidão a Deus pelo dom do sacerdócio e por aqueles que lhe foram enviados para tornar presente no hoje da nossa história a palavra profética de Jesus proclamada na sinagoga de Nazaré. A mesma Igreja implora a graça da fidelidade e o ardor da fé, da esperança e da caridade para os seus sacerdotes.  O início do ministério público de Jesus, na Sinagoga de Nazaré, e a leitura do texto do profeta Isaías oferecem-nos as linhas fundamentais do percurso do novo Povo de Deus, que foi estabelecido no mundo para tornar atual o acontecimento salvífico realizado pela Sua paixão, morte e ressurreição. Jesus vai a Nazaré onde se tinha criado e, segundo o seu costume, entra na sinagoga e faz a leitura. Essa ação manifesta a sua disponibilidade para acolher o chamamento do Pai, em quem confia plenamente e ao qual adere de todo o coração. Toda a vida de Jesus tem uma referência única: o amor do Pai, a quem chama Abbá, e que O mobiliza totalmente em ordem à realização da missão que dele recebera. Ao ler o texto da Escritura mostra que não tem outra segurança senão a do amor do Pai. Só isso lhe dá a força para oferecer a Sua vida pela humanidade e o leva a dizer: Pai, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres! Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito! A unção do Espírito para o anúncio da boa nova manifesta que a missão tem origem no Pai. A missão de Jesus é obra de Deus e, por ela, realiza-se a obra de Deus: a salvação por meio do Evangelho. Não é obra humana, mas é ação divina, que toca a totalidade da pessoa humana. Por meio da unção do espírito manifesta-se a graça de Deus, que redime e salva a humanidade perdida. A missão concretiza-se quando Jesus aceita ser enviado pelo Pai e submete a sua vontade livre à vontade do Pai. Não veio para Si mesmo, mas oferece-se livremente em favor dos outros e, no seu gesto, realiza-se o ano da graça do Senhor. O sacerdócio nasce do coração misericordioso de Deus e encontra no Seu Povo homens cheios de fé e de amor, que respondem com a entrega total da sua vida para que a salvação chegue a toda a humanidade. Jesus Cristo, o Bom Pastor é o Eterno Sacerdote e quis associar a Si alguns homens que deem continuidade ao anúncio do mistério pascal, o mistério que nos salva. Não podemos entender o mistério que nos envolve, se não entramos no mistério de Jesus, o Filho de Deus, pois fomos associados à Sua Pessoa para realizar a Sua missão. Na humildade da nossa condição de membros do Povo de Deus, movidos por uma fé, que é dom, fomos crescendo na relação de confiança no Pai que nos amou e nos chamou pelo nome. Não sabemos explicar tudo, mas recordamos uma experiência de vida que nos levou ao conhecimento do Deus amor e misericórdia. Um dia, fomos tocados pela Palavra da Escritura, sentimos o desejo já semeado pelo Senhor no nosso coração, de o seguir de perto, de pormos a nossa vida ao seu serviço, de nos deixarmos levar até onde Ele quisesse. Aberta a porta do coração, o Espírito do Senhor foi-nos concedido, para que não nos apoiássemos em coisas humanas, mas no dom da Sua graça. Acreditamos, agora, que nada se deve às nossas capacidades humanas nem à nossa força pessoal, pois o que em nós se gerou é dom de Deus, que supera infinitamente aquilo que podemos por nós. A missão de anunciar a boa nova aos pobres e proclamar o ano da graça do Senhor confiada ao Povo de Deus é a missão de Jesus. A Igreja não tem uma missão diferente da de Jesus e o sacerdócio é um serviço ou ministério orientado para a realização dessa mesma missão. Nada nos pertence, nem a missão nem o Evangelho, apenas a possibilidade de acolher a graça que nos foi confiada por meio da fé e da disponibilidade para amar e servir Aquele que nos amou e nos serviu primeiro. Caríssimos irmãos, somos chamados a ser sacerdotes nesta Igreja e neste tempo, em que os desafios são os de sempre. Também no nosso tempo é possível deixar-se tocar pela fé no amor de Deus que oferece ao mundo a salvação de Cristo por meio da Igreja. Hoje, sentimos de forma mais clara que não podemos apoiar-nos senão na graça que recebemos. O ministério sacerdotal tem hoje melhores condições para ser um sinal mais perfeito da Pessoa de Jesus, o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas; o mistério da vocação tem agora um significado mais denso, uma vez que as seguranças humanas perderam a sua força passada. Ser padre, hoje, só pode ser o fruto de um dom, que é ao mesmo tempo, participação na paixão e na morte de Cristo para o anúncio do Evangelho. Esta é a única motivação que pode levar alguém a aceitar viver a fé na Igreja como um serviço, como um modo de dar a vida, perdendo-a. A Igreja Diocesana precisa muito dos padres. Sem eles, a missão fica por realizar e o testemunho vivo da fé está comprometido. A pastoral das vocações sacerdotais precisa de um novo rumo, de novas metodologias e de um novo ardor. Somente a paixão por Cristo que perde a Sua vida e a paixão pela humanidade que precisa da salvação podem orientar esses novos caminhos, que havemos de percorrer. Sendo a pastoral das vocações transversal a toda a ação pastoral da Igreja, ela precisa de comunidades cristãs que sejam protagonistas, pondo em tudo aquilo que se faz com as crianças, os adolescentes, os jovens e as famílias uma intencionalidade vocacional. Há, no entanto, necessidade de uma pastoral especificamente vocacional, que conta especialmente com os sacerdotes felizes e entusiasmados com a sua vida e vocação, disponíveis para dar testemunho das razões da sua alegria e da sua esperança. Ao contrário do que, por vezes, pensamos, isso não depende tanto das circunstâncias em que somos chamados a exercer o ministério, como do fogo da fé e do amor que ardem dentro de nós. Os jovens precisam que lhes apresentemos o rosto de Jesus Cristo como Aquele que vive e dá resposta a todas as suas ânsias de verdade, como Aquele que nos dá esperança contra toda a esperança, como Aquele que confia totalmente no Pai e aceita perder a Sua vida por causa da multidão. A pastoral das vocações sacerdotais é, em primeiro lugar, tarefa dos sacerdotes. Convido-vos a acolhê-la como questão central na vossa ação junto das comunidades cristãs e, particularmente na atenção privilegiada aos jovens. Não podemos estar diretamente em todas as ações pastorais da nossa comunidade, mas faremos todo o possível para incluir nas nossas prioridades o trabalho com os grupos juvenis e para fazer um acompanhamento personalizado dos jovens, que os ajude a crescer na fé, no amor a Deus e à Sua Igreja, no discernimento da sua vocação, como nos pediu o Papa na sua última Exortação Apostólica Pós Sinodal, Christus vivit. O Povo de Deus que servimos tem muita estima por nós, reza por nós e deposita no nosso ministério uma imensa confiança. Sentimo-nos muito pequenos quando vemos que põem em nós e no ministério que nos foi dado uma esperança demasiado elevada e de que não somos dignos.   Que este dia nos leve a meditar profundamente na graça que recebemos, a dar graças a Deus por ela e a saborear com fé a unção do Espírito Santo para a missão de anunciar a boa nova aos pobres. Que Nossa Senhora, Mãe de Cristo Sacerdote e Mãe de todos os sacerdotes, nos acompanhe e nos dê a alegria de levar ao mundo a Boa Nova que salva. Coimbra, 8 de abril de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra