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Palavras de otimismo realista na Festa de Encerramento da Visita Pastoral D. Virgílio confessou-se otimista, sem deixar de ser realista, em relação ao futuro da Igreja no Arciprestado do Nordeste, na Festa de Encerramento da sua Visita Pastoral a este arciprestado. A Festa decorreu no Santuário de Nossa Senhora das Preces, no dia 18 de junho, juntando cerca de mil pessoas oriundas das cinco unidades pastorais que compõem o Nordeste: Oliveira do Hospital, Tábua, Arganil, Góis e Pampilhosa da Serra. Apesar da alegria de estarem reunidos em Igreja com o seu bispo, ninguém ficou indiferente aos trágicos acontecimentos de Pedrógão, e D. Virgílio propôs que se fizesse uma oração especial por quem estava a sofrer e por aqueles que tinham falecido no incêndio. A partir das 10 horas foram chegando os participantes que foram acolhidos diante da Igreja do Santuário, onde alguns membros da Irmandade de Nossa Senhora das Preces ofereciam desdobráveis com a apresentação do mesmo. No palco principal fez-se uma pequena oração da manhã e deu-se início às diversas atividades: na Igreja iniciou-se uma Oração de Adoração ao Santíssimo dirigida por dois Diáconos Permanentes, alguns dirigentes escuteiros dinamizaram algumas brincadeiras com as crianças, três jovens animadores desenvolveram algumas dinâmicas com o pequeno grupo de jovens que se juntou. No palco, dois jovens apresentaram os diversos intervenientes, começando pelo Pe. Borges, que fez uma resenha histórica das origens do arciprestado. Deram o seu testemunho dois animadores da Catequese de Adultos de Oliveira do Hospital, o casal que dinamiza a Pastoral Familiar no arciprestado e dois jovens sobre o Curso Alpha Jovem. Finalmente, o Pe. Paulo Filipe entrevistou o Sr. Bispo sobre as suas impressões no que diz respeito a esta visita pastoral e as suas perspetivas para o futuro. Terminadas estas atividades, todos procuraram uma sombra para partilhar os farnéis. Às 15 horas teve início a atuação do Grupo de Concertinas “Os Oliveirenses”, a que se seguiu a atuação do Grupo AMA (Associação de Melhoramentos Aldeiense) com os seus cantares tradicionais. O ponto alto da Festa foi a celebração da Missa que decorreu ao ar livre, com o colorido das Irmandades, com a música litúrgica de um coro de Arganil a que se juntaram elementos de outros coros, com a nomeação dos membros do novo Conselho Pastoral do Arciprestado. D. Virgílio deixou a todos uma mensagem de esperança, com um otimismo cristão cheio de realismo, sem esconder as dificuldades que a Igreja, neste arciprestado, precisa de enfrentar, apontando para os desafios que é preciso agarrar – nomeadamente a continuação do esforço de primeira evangelização aos que estão mais afastados –, indicando o papel decisivo que os leigos têm na missão da Igreja.    Link para Album Fotográfico do Pe João Fernando Dias  
INCÊNDIOS NA DIOCESE DE COIMBRA NOTA AO POVO DE DEUS    Estamos todos profundamente chocados com o drama que se abateu sobre algumas das nossas comunidades em virtude dos incêndios que deflagraram nos últimos dias e deixaram inúmeras pessoas a sofrer com a perda dos seus bens e muito mais com a perda dos seus familiares. A Diocese de Coimbra, as suas paróquias, os seus pastores e o povo de Deus em geral sentem profundamente a dor de todos os seus membros e querem estar próximos, de acordo com as suas possibilidades e dentro das modalidades que se considerem mais adequadas. São irmãos em humanidade e irmãos na fé, que precisam de consolação e comunhão da parte de todos nós e queremos estar presentes. Já tive oportunidade de estar localmente presente e de deixar um pequeno sinal da comunhão da Igreja Diocesana e pude sentir como isso é importante para que as pessoas renovem a confiança e a esperança no Deus misericordioso, que não esquece nenhum dos seus filhos, particularmente os que se encontram em tribulação. Peço-lhe que continue a ajudar as comunidades cristãs a sentirem como suas as dores destes seus irmãos e que intensifiquem a oração em favor do fortalecimento da esperança dos atribulados e pelo eterno descanso dos defuntos. Informo que o ofertório das celebrações dominicais de 2 de julho reverterá a favor das necessidades das pessoas e famílias vítimas dos incêndios ocorridos na área da nossa Diocese. A Caritas de Coimbra está encarregada de gerir um fundo de auxílio em nome da Diocese de Coimbra e em articulação com as paróquias atingidas pelo flagelo dos incêndios. Os donativos deverão ser encaminhados para a conta aberta para esse efeito, com os seguintes dados:   IBAN: PT50 0018 000344379659020 66 BIC/SWIFT: TOTAPTPL com a seguinte designação: CARITAS de COIMBRA - Incêndios 2017.   Grato pela comunhão e pela disponibilidade para levar por diante esta obra de caridade prestando auxílio aos que sofrem e rezando pelos defuntos, peço ao Senhor que abençoe pastores e fiéis.   Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra
MISSA DA BÊNÇÃO DOS CAPACETES DAS ASSOCIAÇÕES HUMANITÁRIASDOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DO DISTRITO DE COIMBRA IGREJA DE TÁBUA - 2017-06-17   Caríssimos irmãos e irmãs! Voltamos a reunir-nos para agradecer a Deus a Sua proteção ao longo de um ano de trabalho, de generosidade e de apoio ao próximo, nas diversas associações humanitárias de bombeiros voluntários do distrito de Coimbra. Estamos em comunhão solidária com todos os outros que, espalhados por um país inteiro e pelo mundo, têm no coração a mesma atitude de gratidão a Deus, movidos pela fé de que Ele é o Senhor da vida e de que acima de tudo quer que tenhamos a vida e a vida em abundância. Este momento celebrativo leva-nos a reconhecer a responsabilidade que temos, pelo fato de homens e mulheres, crianças e idosos, porem em nós uma imensa confiança, sobretudo nos momentos de aflição e de sofrimento. Mesmo que, por vezes, se espere dos bombeiros mais do que aquilo que eles podem fazer no que diz respeito à salvaguarda da vida e dos bens, está sempre ao seu alcance o autêntico milagre de acolher cada pessoa com um coração grande, que a pacifique e lhe dê a esperança de que precisa nos momentos difíceis. Este momento celebrativo leva-nos também a reconhecer a grandeza da missão que nos foi confiada, a de cooperar com Deus e com os homens na preservação e salvação da vida dos outros. Não há nada maior, nem mais belo, nem mais humano do que pôr-se inteiramente ao serviço da vida e vós estais entre aqueles que o fazem dia após dia, mesmo que, algumas vezes, carregados com o peso das próprias dificuldades, problemas e sofrimentos, que não podem fazer abrandar o fogo interior que vos leva a olhar para os outros como irmãos e a cuidar deles como filhos. São Paulo, na Primeira Leitura, oferecia-nos duas grandes certezas de fé, que são, ao mesmo tempo, dois grandes projetos. Em primeiro lugar dizia: “o amor de Cristo nos impele”; o afirmar que “o amor de Cristo nos impele”, o apóstolo está a dizer-nos que a nossa capacidade de amar nasce de Deus, daquele que nos criou e pôs em nós as sementes do amor como centro, fundamento, centro e projeto de vida. Está também a dizer que, cada pessoa, sente dentro de si um chamamento, uma vocação para amar, para se aproximar, para sair de si e das suas comodidades, para ir ao encontro dos outros. Trata-se do fundamental projeto de vida: sou para os outros e quero pôr a minha vida, o que sou ao serviço dos outros. Em segundo lugar, São Paulo, dizia-nos: “Cristo morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si mesmos”. A partir da fé temos sempre diante de nós duas realidades: uma é o testemunho de Cristo, que morreu por nós, no gesto mais significativo que conhecemos – dar a vida ou morrer por alguém; a segunda realidade que conhecemos bem é da nossa fragilidade e da pobreza do nosso testemunho, pois quando damos por nós vemos o egoísmo que nos assalta e a dificuldade de abrir o coração e a alma aos outros. Caríssimos irmãos e irmãs, convido-vos a não deixar passar nenhum dia sem procurarmos tomar consciência daquilo que somos e da vocação a que somos chamados. Quem não é crente, nem cristão, procure encontrar na sua condição de pessoa o fundamento humano e natural para orientar a sua vida, segundo consciência, na retidão e na justiça, e na certeza de que existe para se construir como pessoa feliz e ajudar os outros a viverem e a serem felizes. O impulso para a bondade, a generosidade e o amor está inscrito na matriz mais secreta de cada pessoa, faz parte da sua identidade mais profunda. Trata-se de procurar dar-lhe lugar efetivo na vida. Quem é crente em Deus e, concretamente, cristão, como é o nosso caso, encontra na sua fé um dinamismo sobrenatural que o leva a olhar para Jesus Cristo e a ver n’Ele o modelo mais perfeito de pessoa que vive, promove a vida e olha para os outros como pessoas pelas quais está disponível para dar a sua vida. O exemplo de Jesus é, de fato, universal, não pode ser superado, inquieta qualquer pessoa, não nos permite passar ao lado de ninguém, o seu amor impele-nos de forma irresistível a amar. O Evangelho que escutámos deixava-nos um forte apelo àquilo a que podemos chamar a autenticidade de vida, por meio da expressão proverbial: “a vossa linguagem deve ser «sim, sim; não, não»”. Sentimos que esta palavra tem uma grande atualidade, uma vez que é igualmente grande a tentação de, em vez de servir, ser servido; em vez de se procurar o bem comum, se procurar o bem pessoal; em vez da luta pela verdade e pela transparência, se jogar na falsidade e na ocultação; em vez da justiça e da legalidade, se cair na injustiça e corrupção. “A vossa linguagem deve ser «sim, sim; não, não»”. Significa também que a autenticidade das pessoas ou das instituições está mais nas suas ações do que nas suas palavras ou discursos. Quando as palavras contrariam as ações ou vice versa, perde-se a credibilidade e põe-se em causa o trabalho de todos, pois mina-se a condição fundamental para a bom êxito, mina-se a confiança nas pessoas e nas instituições. Dizer “sim, sim; não, não” significa promover uma cultura da justiça contra qualquer forma de corrupção. Segundo o Papa Francisco, sempre atento à sociedade e ao mundo, “A corrupção, na sua raiz etimológica, define uma dilaceração, uma ruptura, decomposição e desintegração. A corrupção revela uma conduta antissocial tão forte que dissolve as relações e os pilares sobre os quais se fundam uma sociedade: a coexistência entre as pessoas e a vocação a desenvolvê-la”. E continua: “a corrupção quebra tudo isso, substituindo o bem comum pelo interesse pessoal que contamina toda perspectiva geral. Nasce de um coração corrupto. É a pior praga social, pois cria problemas graves e crimes que envolvem todas as pessoas” (Papa Francisco, Prefácio ao livro do Cardeal P. Turkson, Corrupção). Caríssimos irmãos e irmãs! Temos diante de nós uma vocação humana e cristã, que nos impele à caridade, a olhar para os outros como nosso próximo e a considerarmos sempre a nossa vida vale mais pelas obras de justiça e de verdade do que por todas as palavras que possamos pronunciar. A vossa vida é, acima de tudo, a daqueles que apostam nas obras em favor do próximo. Que nunca vos falte a coragem interior, pois a força de Deus e a sua bênção estarão sempre convosco. A vossa ação, o vosso serviço, o vosso testemunho e a vossa caridade são muito importantes para transformação da cultura do egoísmo em cultura do amor. Que a Virgem Maria, Senhora dos Aflitos vos acompanhe sempre a vós e àqueles a quem socorreis, que ela seja o socorro de todos, que ela vos proteja e vos guarde. Ámen.   Coimbra, 17 de junho de 2017 Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra
MISSA NOS OITO SÉCULOS DA PRESENÇA FRANCISCANA EM PORTUGAL IGREJA DE SANTO ANTÓNIO DOS OLIVAIS - COIMBRA Leituras da sexta-feira da X Semana do Tempo Comum, anos ímpares     Caríssimos irmãos e irmãs! A celebração dos oito séculos da presença franciscana em Portugal é um acontecimento memorável. Portugal não seria o mesmo sem este testemunho evangélico incarnado na vida de tantas pessoas e ao longo de tanto tempo. Em primeiro lugar, a fé em Jesus Cristo e a vivência eclesial, mas depois, também, a inegável dimensão cultural e civilizacional, que caldeou e transformou o povo que nós somos. Pode hoje dizer-se que o país que nós somos tem uma matriz cristã, em grande parte modelada pelo dinamismo franciscano. A própria vocação universalista e cosmopolita de Portugal e dos portugueses bebeu à saciedade de Francisco de Assis e dos seus mais fiéis seguidores. Nesta Missa de ação de graças, o nosso louvor vai para o Deus inspirador de todos os carismas por meio do seu Espírito Santo. Agradecemos a Deus, particularmente pela pessoa e pelo testemunho de São Francisco de Assis, o homem e o cristão que irrompe na história da Europa como verdadeira novidade a desafiar o mundo adormecido à sombra de uma fé e de uma Igreja instaladas e sem capacidade de renovação. A figura de Francisco de Assis foi sempre provocadora. De tal modo se configura com a Pessoa de Jesus e incarna o Seu Evangelho que, não deixa ninguém indiferente. Seduz pela profundidade da fé e pela entrega total, desinstala sempre os que se refugiam numa fé espiritualista, não permite concessões fáceis àqueles que querem ser fiéis ao mandamento do amor a Deus e ao próximo. Ele incarna o que há de mais original na fé cristã, a confiança inabalável em Jesus Cristo, e o que há de mais caraterístico na condição humana, o ser para os outros em doação e entrega, ou seja, no amor. O despojamento de Francisco de Assis, que está disponível para livremente renunciar a tudo por amor do Reino dos Céus e por amor à humanidade, é, em primeiro lugar, cumprimento das palavras de Jesus que pede aos seus discípulos que renunciem a tudo por sua causa; é, em segundo lugar, uma imagem bem expressiva da atitude do próprio Jesus que, sendo Deus, se fez homem, sendo rico se fez pobre e sendo senhor se fez o servo de todos.   A Liturgia da Palavra conduziu-nos hoje à compreensão do mistério central da fé cristã, que somos chamados a viver e que foi de forma exemplar incarnada por Francisco de Assis. Em primeiro lugar, a certeza de que o que somos e fazemos enquanto cristãos se deve ao dom de Deus que recebemos. O tesouro que transportamos nas nossas frágeis mãos vem de Deus e não de nós. Trata-se do primado absoluto da graça, trata-se da obra de Deus, por um lado, e da vocação a que somos chamados, por outro. Somos terreno que o Senhor criou e cultiva, somos barro e pó da terra, mas cheios dos dons d’Aquele que renova todas as coisas. Francisco de Assis assumiu-se como servo, apesar da sua ascendência de senhor, frágil apesar da nobreza e da fortaleza mundana dos seus atributos. Em segundo lugar, levamos no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que também no nosso corpo, se manifeste a vida de Jesus. Ele é a vida que no batismo recebemos, Ele é a eternidade que já entrou em nós e que se consumará na feliz ressurreição. A nossa esperança tem um nome, o nome de Jesus morto e ressuscitado; nenhum outro nome nos salva e em nenhum outro encontramos a plenitude da vida. Francisco de Assis não se iludiu com o tempo e aspirou à eternidade, compreendeu que a vida é passagem e que as glórias do mundo são vãs. Em terceiro lugar, acolhemos a missão, expressa nas palavras do Apóstolo: “acreditei; por isso falei”. O tesouro do Evangelho da esperança e da vida que na fé, recebemos, deve ser partilhado, em gestos e palavras de evangelização. Quando nos deixamos enraizar em Cristo, formamos sempre comunidades de discípulos para o anúncio do Evangelho. Francisco de Assis deixou-se encontrar e seduzir por Cristo, conheceu-O e nunca mais pôde deixar de anunciar. Em quarto lugar, percebemos que, sempre que estamos em Cristo, sempre que O conhecemos e amamos, fazemos caminho de conversão de toda a nossa pessoa, de tudo o que somos e de tudo o que temos. Nessa altura, tudo é relativo e secundário, diante da grandeza do Senhor que habita em nós. Francisco de Assis esqueceu-se de si, pôs de parte os seus bens, ofereceu o seu corpo em sinal de despojamento das suas riquezas diante da pobreza livre do seu Senhor. Durante dois mil anos de cristianismo, a Igreja passou por muitas vicissitudes. Viveu tempos e momentos de fidelidade ao Evangelho e outros de negações e pecados. Estamos num tempo cheio de contradições e marcado por grandezas e misérias, mas temos a graça de ver com mais clareza a frescura inesgotável do Evangelho, como tesouro, como caminho e como luz. O Espírito Santo pôs no nosso caminho de fé e como sinal visível da caridade e da comunhão da Igreja o papa Francisco. Acreditamos que é um sinal providencial do Altíssimo que sempre assiste o seu Povo, para que volte à radicalidade do Evangelho. Quando tantos homens e mulheres, de dentro e de fora, têm dificuldade de contemplar na Igreja o rosto de Jesus e do Evangelho, o Espírito suscita um profeta, alguém que vê na figura de Francisco de Assis um servo do mais genuíno modelo da mesma Igreja. O Evangelho é sempre o mesmo, Jesus Cristo é de ontem, de hoje e de sempre, mas ninguém mais o vê exatamente da mesma maneira depois da revolução humilde e silenciosa de Francisco de Assis, como nenhum de nós o lê da mesma maneira diante da revolução despojada do papa Francisco. O Evangelho que proclama bem aventurados os pobres em espírito, o Evangelho do acolhimento e da misericórdia, o Evangelho do perdão e da inclusão de todos, o Evangelho da ecologia integral, o Evangelho do serviço e do amor... é o verdadeiro Evangelho de Jesus e só esse pode dar um rosto santo à sua Igreja. Temos pela frente um enorme desafio, o de regressar ao Evangelho de Jesus com coração e espírito abertos. Temos, porventura, de sacudir muito do pó que a história colou aos nossos corações e às nossas instituições. Temos, com certeza, de erradicar muito espírito farisaico mascarado de religiosidade e espiritualidade. Temos um duro caminho de conversão pela frente, mas o Espírito nos há de guiar. Ajudar-nos-á o carisma sempre atual de Francisco de Assis e continuará a provocar-nos a palavra e o testemunho profético do Papa Francisco. Que a Virgem Maria, a primeira a acolher na radicalidade da sua fé e da sua entrega a Boa Nova de Deus, nos conduza a ver o verdadeiro rosto de Jesus e a acolher, como Francisco de Assis, o convite: Vai, reconstrói a minha Igreja. Ámen.   Coimbra, 2017.06.16 Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra
SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO 2017 IGREJA DE SANTA CRUZ DE COIMBRA MISSA E PROCISSÃO DO SANTÍSSIMO - PRAÇA 8 DE MAIO   Caríssimos irmãos e irmãs! A celebração do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo constitui o louvor que a comunidade quer elevar ao Senhor nosso Deus por nos deixar o memorial da Sua Páscoa de morte e ressurreição. Semana após semana podemos encontrar-nos com este mistério da presença salvadora de Jesus Cristo em nós e no coração do mundo por meio da Eucaristia, o sinal da Sua entrega ao Pai em sinal de amor. A igreja nunca deixará de cantar, na alegria, os louvores de Deus, que a chamou, a enviou e a alimenta constantemente com a Palavra da Vida e com o Pão do Céu. Agradeceremos sempre o dom de Deus e pedimos que nos conceda a graça de o acolher com um coração disponível, bom e justo. Dentro da arquitetura plural das nossas aldeias e cidades, entrecruzam-se os lugares de habitação e de trabalho, num conjunto mais ou menos ordenado de relações. Distinguem-se normalmente pelas suas formas e peculiares caraterísticas os templos, os lugares de culto, as igrejas, num apelo constante a que não nos fixemos nas coisas da terra, mas ergamos os olhos ao céu. Os batizados, constituídos em Povo de Filhos ou Povo de Deus, precisam de estar na Casa do Pai, de entrar e celebrar, de escutar e rezar, de reconciliação e conversão, de acolher a fé e crescer nela, de ouvir a Palavra e de a meditar silenciosamente no coração. A Missa, memorial da Páscoa de Jesus Cristo, que por nós morre e ressuscita, constitui o centro da ação de graças dos cristãos ao seu Deus e Senhor. De tal modo que uma igreja, seja ela rica nas suas formas, na sua história e no seu património ou completamente despojada, sem arte, nem história, traz sempre ao pensamento o dom do amor de Deus e um Povo de homens e mulheres que se dispõem a acolhê-lo com fé. “Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer”; “não te esqueças do Senhor teu Deus”. Duas frases fortes que Moisés dirige ao Povo de Deus que caminha, por entre alegrias e dores, através do deserto da vida. A sua fé e a sua religião nasce deste reconhecimento dos dons de Deus e deste sentido de gratidão, próprio de quem se recorda da bondade de Deus e não pode esquecer que Ele esteve sempre presente nos momentos bons e maus. “Foi Ele quem, da rocha dura, fez nascer água para ti e, no deserto, te deu a comer o maná” (o pão). A certeza da providência de Deus e a esperança que nasce da confiança que n’Ele se deposita fazem acorrer a Ele com o coração suplicante, mas sempre eternamente agradecido. Ao olharmos para a nossa vida com um sentido de fé no Deus que cuida de nós, ao recordarmos a nossa história pessoal e familiar com todos os seus pormenores e detalhes, não podemos esquecer os inúmeros sinais da sua solicitude amorosa: Deus esteve connosco, nunca nos abandonou, sempre nos abriu caminhos de esperança, apontou-nos sempre para o alto, aqueceu-nos o coração... e isso nos bastou. A nossa passagem pelas ruas da cidade tem, hoje, um significado muito especial. Tantas vezes passamos por estes mesmos lugares, apressados ou tranquilos, com a mente e o coração ocupados e preocupados, desejosos de chegar a qualquer parte ou intensamente ávidos de fugir de qualquer coisa. Hoje é o dia de percorrermos as ruas da cidade, na tranquilidade e na paz, proclamando para dentro de nós que vimos de Deus, estamos em Deus e vamos para Deus. É o dia de sentirmos de forma mais forte que em todos os caminhos da vida o Senhor vai connosco, como foi com os seus apóstolos e como caminhou com os discípulos de Emaús. Podemos nem sempre O reconhecer, mas, pela fé, acreditamos na sua companhia e procuramos vê-lo no nosso coração, nas pessoas e nos acontecimentos. A nossa saída do templo, do lugar do culto litúrgico, de junto do altar onde partimos o Pão do Céu e onde escutamos a Palavra da Vida, revela-nos o que nós somos em Cristo e a missão que d’Ele recebemos. Quem come o pão vivo descido do Céu permanece em Cristo; a sua missão consiste em ser no mundo sinal da vida eterna. A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo convida-nos a esta peregrinação ritual pelas ruas da cidade, levando Jesus no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. É um momento de louvor a gratidão pelo Seu amor e pela Sua presença no meio de nós. Convoca-nos para todos os outros momentos da vida, quando, envolvidos com o trabalho, a vida familiar, as dificuldades, as esperanças e derrotas, é mais difícil ler, na fé, a mesma presença e força amiga de Deus. Convoca-nos ainda para a missão de sermos protagonistas do anúncio do Evangelho de Jesus, portador de renovação humana, de justiça e de paz, de desenvolvimento e liberdade, de esperança divina e de vida eterna. Esta solenidade e a procissão que faremos convocam-nos no sentido de unirmos a fé com a vida. Tal como as igrejas estão entrosadas com a malhas das cidades, vilas e aldeia, não se confundindo com elas e não se separando delas, assim o cristão há de estar completamente envolvido nas realidades da sociedade e do mundo, não se confundindo, no entanto com elas e, ao mesmo tempo, sem se separar delas. O gesto religioso que hoje vivemos na praça pública de pouco valeria se fosse um gesto desligado da vida quotidiana de todos os filhos de Deus e membros de Cristo que, diariamente percorrem as ruas das cidades, ocupam os lugares de trabalho, agem na sociedade e nas famílias. O gesto religioso de hoje, supõe e sugere toda a atitude de fé dos cristãos e da Igreja, portadores de Cristo, da Sua Palavra e do seu estilo de vida. Quem hoje peregrina pelas ruas da cidade em nome de Cristo e da Sua Igreja, não pode amanhã ficar em casa ou fechado no templo, como se a sua fé fosse questão de alguns momentos ou intervalos da sua vida. Quem hoje peregrina pelas ruas da cidades há de peregrinar todos os dias pelas avenidas ou vielas da vida, com a mesma fé no coração, o eterno cântico de louvor nos seus lábios e o estilo de Cristo em todos os seus gestos. E último lugar, caríssimos irmãos e irmãs, não posso deixar de vos recordar que a Eucaristia, lugar mais alto do culto cristão que celebramos, é sempre mistério de caridade: sinal do amor de Deus por nós e sinal do nosso amor pelos irmãos. De acordo com o Evangelho e com o ensino da Igreja, a nossa fé e o  nosso culto, sem a caridade, soam a vazio. Por sua vez, o maior sinal da autenticidade da nossa celebração da Eucaristia e o seu fruto mais precioso, é a caridade, marca decisiva da vida do cristão na relação com o seu próximo. Agradecemos ao papa Francisco por nos recordar constantemente esta realidade, que faz parte do âmago da fé cristã. Não se pode adorar a Deus em espírito e em verdade, se não na comunhão com Ele e na caridade com os irmãos. A humanidade inteira nas suas fragilidades, mas particularmente os pobres, os idosos e doentes, as crianças sem amor nem pão, as famílias divididas, os abandonados e sós, têm de fazer parte da família dos que celebram a Eucaristia, como fazem parte da família mais querida de Deus. Por intercessão da Virgem Maria, peçamos ao Senhor que nos conceda a graça da fé na sua presença real no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, a graça de celebrarmos em espírito e verdade os mistérios do seu amor por nós, e a graça de sermos portadores da esperança às multidões que se cruzam nos caminhos das cidades e das vidas. Ámen.  Coimbra, 2017-06-15 Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra