Gravação audio da Homilia do Sr. D. Virg&iacut...

Audio da Homilia do Sr. D. Virgílio na Celebraç...

Gravação audio da Homilia do Sr. D. Virg&iacut...

Plano Pastoral


Bispo Diocesano


Vaticano


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Queridos irmãos e irmãs doentes! Como disse na homilia, o Senhor sempre nos precede: quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Na sua Paixão, tomou sobre Si todos os nossos sofrimentos. Jesus sabe o que significa o sofrimento, compreende-nos, consola-nos e dá-nos força, como fez a São Francisco Marto e a Santa Jacinta, aos Santos de todos os tempos e lugares. Penso no apóstolo Pedro, acorrentado na prisão de Jerusalém, enquanto toda a Igreja rezava por ele. E o Senhor consolou Pedro. Isto é o mistério da Igreja: a Igreja pede ao Senhor para consolar os atribulados como vós e Ele consola-vos, mesmo às escondidas; consola-vos na intimidade do coração e consola com a fortaleza. Amados peregrinos, diante dos nossos olhos, temos Jesus escondido mas presente na Eucaristia, como temos Jesus escondido mas presente nas chagas dos nossos irmãos e irmãs doentes e atribulados. No altar, adoramos a Carne de Jesus; neles encontramos as chagas de Jesus. O cristão adora Jesus, o cristão procura Jesus, o cristão sabe reconhecer as chagas de Jesus. Hoje a Virgem Maria repete a todos nós a pergunta que fez, há cem anos, aos Pastorinhos: «Quereis oferecer-vos a Deus?» A resposta – «Sim, queremos!» – dá-nos a possibilidade de compreender e imitar as suas vidas. Viveram-nas, com tudo o que elas tiveram de alegria e de sofrimento, em atitude de oferta ao Senhor. Queridos doentes, vivei a vossa vida como um dom e dizei a Nossa Senhora, como os Pastorinhos, que vos quereis oferecer a Deus de todo o coração. Não vos considereis apenas recetores de solidariedade caritativa, mas senti-vos inseridos a pleno título na vida e missão da Igreja. A vossa presença silenciosa mas mais eloquente do que muitas palavras, a vossa oração, a oferta diária dos vossos sofrimentos em união com os de Jesus crucificado pela salvação do mundo, a aceitação paciente e até feliz da vossa condição são um recurso espiritual, um património para cada comunidade cristã. Não tenhais vergonha de ser um tesouro precioso da Igreja. Jesus vai passar junto de vós no Santíssimo Sacramento para vos mostrar a sua proximidade e o seu amor. Confiai-Lhe as vossas dores, os vossos sofrimentos, o vosso cansaço. Contai com a oração da Igreja que de todo o lado se eleva ao Céu por vós e convosco. Deus é Pai e nunca vos esquecerá.
«Apareceu no Céu (…) uma mulher revestida de sol»: atesta o vidente de Patmos no Apocalipse (12, 1), anotando ainda que ela «estava para ser mãe». Depois ouvimos, no Evangelho, Jesus dizer ao discípulo: «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 26-27). Temos Mãe! Uma «Senhora tão bonita»: comentavam entre si os videntes de Fátima a caminho de casa, naquele abençoado dia treze de maio de há cem anos atrás. E, à noite, a Jacinta não se conteve e desvendou o segredo à mãe: «Hoje vi Nossa Senhora». Tinham visto a Mãe do Céu. Pela esteira que seguiam os seus olhos, se alongou o olhar de muitos, mas… estes não A viram. A Virgem Mãe não veio aqui, para que A víssemos; para isso teremos a eternidade inteira, naturalmente se formos para o Céu. Mas Ela, antevendo e advertindo-nos para o risco do Inferno onde leva a vida – tantas vezes proposta e imposta – sem-Deus e profanando Deus nas suas criaturas, veio lembrar-nos a Luz de Deus que nos habita e cobre, pois, como ouvíamos na Primeira Leitura, «o filho foi levado para junto de Deus» (Ap 12, 5). E, no dizer de Lúcia, os três privilegiados ficavam dentro da Luz de Deus que irradiava de Nossa Senhora. Envolvia-os no manto de Luz que Deus Lhe dera. No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para Lhe pedir, como ensina a Salve Rainha, «mostrai-nos Jesus». Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus, pois, como ouvíamos na Segunda Leitura, «aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo» (Rm 5, 17). Quando Jesus subiu ao Céu, levou para junto do Pai celeste a humanidade – a nossa humanidade – que tinha assumido no seio da Virgem Mãe, e nunca mais a largará. Como uma âncora, fundeemos a nossa esperança nessa humanidade colocada nos Céus à direita do Pai (cf. Ef 2, 6). Seja esta esperança a alavanca da vida de todos nós! Uma esperança que nos sustente sempre, até ao último respiro. Com esta esperança, nos congregamos aqui para agradecer as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra. Como exemplo, temos diante dos olhos São Francisco Marto e Santa Jacinta, a quem a Virgem Maria introduziu no mar imenso da Luz de Deus e aí os levou a adorá-Lo. Daqui lhes vinha a força para superar contrariedades e sofrimentos. A presença divina tornou-se constante nas suas vidas, como se manifesta claramente na súplica instante pelos pecadores e no desejo permanente de estar junto a «Jesus Escondido» no Sacrário. Nas suas Memórias (III, n. 6), a Irmã Lúcia dá a palavra à Jacinta que beneficiara duma visão: «Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre numa Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?» Irmãos e irmãs, obrigado por me acompanhardes! Não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas. Sob o seu manto, não se perdem; dos seus braços, virá a esperança e a paz que necessitam e que suplico para todos os meus irmãos no Batismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados. Queridos irmãos, rezamos a Deus com a esperança de que nos escutem os homens; e dirigimo-nos aos homens com a certeza de que nos vale Deus. Pois Ele criou-nos como uma esperança para os outros, uma esperança real e realizável segundo o estado de vida de cada um. Ao «pedir» e «exigir» o cumprimento dos nossos deveres de estado (carta da Irmã Lúcia, 28/II/1943), o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida. «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24): disse e fez o Senhor, que sempre nos precede. Quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Assim, não subimos à cruz para encontrar Jesus; mas foi Ele que Se humilhou e desceu até à cruz para nos encontrar a nós e, em nós, vencer as trevas do mal e trazer-nos para a Luz. Sob a proteção de Maria, sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor.
Amados peregrinos de Maria e com Maria! Obrigado por me acolherdes entre vós e vos associardes a mim nesta peregrinação vivida na esperança e na paz. Desde já desejo assegurar a quantos estais unidos comigo, aqui ou em qualquer outro lugar, que vos tenho a todos no coração. Sinto que Jesus vos confiou a mim (cf. Jo 21, 15-17) e, a todos, abraço e confio a Jesus, «principalmente os que mais precisarem» ― como Nossa Senhora nos ensinou a rezar (Aparição de julho de 1917). Que Ela, Mãe doce e solícita de todos os necessitados, lhes obtenha a bênção do Senhor! Sobre cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente, dos excluídos e abandonados a quem negam o futuro, dos órfãos e injustiçados a quem não se permite ter um passado, desça a bênção de Deus encarnada em Jesus Cristo: «O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz» (Nm 6, 24-26). Esta bênção cumpriu-se cabalmente na Virgem Maria, pois nenhuma outra criatura viu brilhar sobre si a face de Deus como Ela, que deu um rosto humano ao Filho do eterno Pai, podendo nós agora contemplá-Lo nos sucessivos momentos gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos da sua vida, que repassamos na recitação do Rosário. Com Cristo e Maria, permaneçamos em Deus. Na verdade, «se queremos ser cristãos, devemos ser marianos; isto é, devemos reconhecer a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele» (Paulo VI, Alocução na visita ao Santuário de Nossa Senhora de Bonaria-Cagliari, 24/IV/1970). Assim, sempre que rezamos o Terço, neste lugar bendito como em qualquer outro lugar, o Evangelho retoma o seu caminho na vida de cada um, das famílias, dos povos e do mundo. Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma «Mestra de vida espiritual», a primeira que seguiu Cristo pelo caminho «estreito» da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora «inatingível» e, consequentemente, inimitável? A «Bendita por ter acreditado» (cf. Lc 1, 42.45) sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma «Santinha» a quem se recorre para obter favores a baixo preço? A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjetivas que A veem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar: uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso; mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós? Grande injustiça fazemos a Deus e à sua graça, quando se afirma em primeiro lugar que os pecados são punidos pelo seu julgamento, sem antepor – como mostra o Evangelho – que são perdoados pela sua misericórdia! Devemos antepor a misericórdia ao julgamento e, em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia. Naturalmente a misericórdia de Deus não nega a justiça, porque Jesus tomou sobre Si as consequências do nosso pecado juntamente com a justa pena. Não negou o pecado, mas pagou por nós na Cruz. Assim, na fé que nos une à Cruz de Cristo, ficamos livres dos nossos pecados; ponhamos de lado qualquer forma de medo e temor, porque não se coaduna em quem é amado (cf. 1 Jo 4, 18). «Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes (…). Esta dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros é aquilo que faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 288). Possamos, com Maria, ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo. Tomados pela mão da Virgem Mãe e sob o seu olhar, podemos cantar, com alegria, as misericórdias do Senhor. Podemos dizer-Lhe: A minha alma canta para Vós, Senhor! A misericórdia, que usastes para com todos os vossos santos e com todo o vosso povo fiel, também chegou a mim. Pelo orgulho do meu coração, vivi distraído atrás das minhas ambições e interesses, mas não ocupei nenhum trono, Senhor! A única possibilidade de exaltação que tenho é que a vossa Mãe me pegue ao colo, me cubra com o seu manto e me ponha junto do vosso Coração. Assim seja.
Santo Padre: Salve Rainha, bem-aventurada Virgem de Fátima, Senhora do Coração Imaculado, qual refúgio e caminho que conduz até Deus! Peregrino da Luz que das tuas mãos nos vem, dou graças a Deus Pai que, em todo o tempo e lugar, atua na história humana; peregrino da Paz que neste lugar anuncias, louvo a Cristo, nossa paz, e para o mundo peço a concórdia entre todos os povos; peregrino da Esperança que o Espírito alenta, quero-me profeta e mensageiro para a todos lavar os pés, na mesma mesa que nos une. Refrão cantado pela assembleia: Ave o clemens, ave o pia! Salve Regina Rosarii Fatimæ. Ave o clemens, ave o pia! Ave o dulcis Virgo Maria. Santo Padre: Salve Mãe de Misericórdia, Senhora da veste branca! Neste lugar onde há cem anos a todos mostraste os desígnios da misericórdia do nosso Deus, olho a tua veste de luz e, como bispo vestido de branco, lembro todos os que, vestidos da alvura batismal, querem viver em Deus e rezam os mistérios de Cristo para alcançar a paz. Refrão… Santo Padre: Salve, vida e doçura, Salve, esperança nossa, ó Virgem Peregrina, ó Rainha Universal! No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração, vê as alegrias do ser humano quando peregrina para a Pátria Celeste. No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração, vê as dores da família humana que geme e chora neste vale de lágrimas. No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração, adorna-nos do fulgor de todas as joias da tua coroa e faz-nos peregrinos como peregrina foste Tu. Com o teu sorriso virginal robustece a alegria da Igreja de Cristo. Com o teu olhar de doçura fortalece a esperança dos filhos de Deus. Com as mãos orantes que elevas ao Senhor a todos une numa só família humana. Refrão… Santo Padre: Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria, Rainha do Rosário de Fátima! Faz-nos seguir o exemplo dos Bem-aventurados Francisco e Jacinta, e de todos os que se entregam à mensagem do Evangelho. Percorreremos, assim, todas as rotas, seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus. Seremos, na alegria do Evangelho, a Igreja vestida de branco, da alvura branqueada no sangue do Cordeiro derramado ainda em todas as guerras que destroem o mundo em que vivemos. E assim seremos, como Tu, imagem da coluna luminosa que alumia os caminhos do mundo, a todos mostrando que Deus existe, que Deus está, que Deus habita no meio do seu povo, ontem, hoje e por toda a eternidade. Refrão… O Santo Padre junto com os fiéis: Salve, Mãe do Senhor, Virgem Maria, Rainha do Rosário de Fátima! Bendita entre todas as mulheres, és a imagem da Igreja vestida da luz pascal, és a honra do nosso povo, és o triunfo sobre o assalto do mal. Profecia do Amor misericordioso do Pai, Mestra do Anúncio da Boa-Nova do Filho, Sinal do Fogo ardente do Espírito Santo, ensina-nos, neste vale de alegrias e dores, as verdades eternas que o Pai revela aos pequeninos. Mostra-nos a força do teu manto protetor. No teu Imaculado Coração, sê o refúgio dos pecadores e o caminho que conduz até Deus. Unido aos meus irmãos, na Fé, na Esperança e no Amor, a Ti me entrego. Unido aos meus irmãos, por Ti, a Deus me consagro, ó Virgem do Rosário de Fátima. E, finalmente envolvido na Luz que das tuas mãos nos vem, darei glória ao Senhor pelos séculos dos séculos. Amen. Refrão…
Fátima, Sinal de Esperança para o Nosso Tempo Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima No centenário das aparições da Virgem Maria, em Fátima, desejamos dar graças a Deus por nos permitir viver este acontecimento, que nos enche de júbilo, e reafirmar a atualidade da sua mensagem para a revitalização da nossa fé e do nosso compromisso evangelizador.   O acontecimento centenário de Fátima As aparições As aparições tiveram lugar na Cova da Iria, no ano de 1917, com três crianças entre os sete e os dez anos de idade, Lúcia, Francisco e Jacinta, como protagonistas. O contexto nacional e internacional era dramático: Portugal atravessava uma crise política, religiosa e social profunda e a Europa estava, como nunca antes na sua história, imersa numa guerra mundial, em que também o nosso país estava envolvido. No ano de 1916, as mesmas crianças já tinham sido testemunhas de três manifestações de um anjo que se apresentou como Anjo da Paz e Anjo de Portugal. Em 13 de maio de 1917, foram testemunhas da aparição da Senhora «mais brilhante que o sol»[1] no cimo de uma azinheira. Convidou-as a regressar àquele mesmo lugar no dia 13 dos meses seguintes, até outubro. E ao longo destes encontros, comunicou-lhes uma mensagem de misericórdia e paz, depois transmitida através dos interrogatórios a que as crianças desde o princípio foram submetidas e das Memórias escritas pela Lúcia anos mais tarde. Assim que a notícia se divulgou, multiplicaram-se as reações. Muitos acorreram ao local, dando crédito ao testemunho das crianças; mas houve também dúvidas, incompreensões e mesmo perseguições, que tantos sofrimentos causaram aos pastorinhos. Entretanto, eram cada vez mais os que acorriam no dia de cada aparição, sempre a 13 de cada mês, à exceção de agosto, em que a aparição foi adiada uns dias, devido à prisão dos videntes. A última deu-se a 13 de outubro, na presença de cerca de setenta mil pessoas, umas crentes, outras céticas, para verem o sinal prometido pela Virgem, o chamado “milagre do sol”, divulgado pela imprensa da época. Poucos anos depois, os três videntes deixam a sua terra: os dois mais novos, os irmãos Francisco e Jacinta, morrem de uma epidemia de gripe, respetivamente em 1919 e 1920; a sua prima Lúcia, aconselhada pelo bispo de Leiria, afastou-se em 1921 para iniciar a sua formação, acabando por se recolher à vida religiosa. Faleceu em 2005, no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra. A fama de santidade de Francisco e de Jacinta cedo se espalhou pelo mundo inteiro e foram beatificados no ano 2000, sendo as primeiras crianças não-mártires. Em 2008 iniciou-se o processo de beatificação de Lúcia, abreviando, por concessão do papa Bento XVI, os prazos canónicos requeridos.   A receção do acontecimento e da mensagem de Fátima No acontecimento de Fátima teve um papel decisivo o sensus fidei dos batizados, cuja função eclesial foi destacada pelo Concílio Vaticano II e revalorizada pelo papa Francisco: «Como parte do seu mistério de amor pela humanidade, Deus dota a totalidade dos fiéis com um sentido da fé – o sensus fidei – que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A presença do Espírito confere aos cristãos uma certa conaturalidade com as realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite captá-las intuitivamente»[2]. O povo fiel de Deus começou desde muito cedo a reunir-se ao pé da azinheira para rezar. E em 1919 torna possível a edificação de uma capelinha, como havia pedido Nossa Senhora. É ele quem responde com atos de desagravo aos ataques e profanações dos adversários, de que é exemplo a dinamitação da capelinha, em 6 de março de 1922. A capela foi novamente reerguida e consagrada em 13 de janeiro de 1923. Paulatinamente, foram-se ampliando e consolidando o culto e as práticas de piedade naquele lugar. Finalmente, o bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, apoiando-se no Relatório de uma Comissão Canónica por ele nomeada, publicou, em 13 de outubro de 1930, a Carta Pastoral «A Providência Divina» sobre o Culto de Nossa Senhora de Fátima, declarando como dignas de crédito as visões das três crianças e permitindo oficialmente o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Nas palavras do cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira, «não foi a Igreja que impôs Fátima, foi Fátima que se impôs à Igreja»[3]. De facto, a devoção a Nossa Senhora do Rosário de Fátima e a espiritualidade que brota da sua mensagem rapidamente passaram a marcar a pastoral da Igreja em Portugal e em todo o mundo. A mensagem é essencialmente um dom inefável de graça, misericórdia, esperança e paz, que nos chama ao acolhimento e ao compromisso. Esta interpelação à Igreja a que responda ao dom misericordioso de Deus está profundamente vinculada aos dramas e tragédias da história do século XX, mas conserva ainda a mesma força e exigência para os crentes do nosso tempo. Em sintonia com a piedade do nosso povo e sob a iluminação do Espírito Santo, nós, os bispos, sentimos a responsabilidade de aprofundar o significado deste acontecimento, de destacar a sua atualidade para a nossa vida cristã e de explicitar as suas potencialidades para nutrir a nossa conversão espiritual, pastoral e missionária.   Uma bênção para a Igreja e para o mundo Dom e interpelação O ciclo das aparições de 1917 encerrou em 13 de outubro e as últimas palavras do relato de Lúcia, na sua “Quarta Memória”, falam da bênção então dirigida ao mundo: «Desaparecida Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. S. José com o Menino pareciam abençoar o Mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora […]. Nosso Senhor parecia abençoar o Mundo da mesma forma que S. José»[4]. Esta bênção vinha sendo anunciada pelos pastorinhos desde os meses precedentes[5]. E não era algo apenas para eles, mas para a humanidade inteira. Essa bênção era a motivação de quanto estava a acontecer e permite-nos penetrar no núcleo da iniciativa de Deus que, na presença cheia de luz e de beleza da Virgem Maria, mostrava a sua proximidade misericordiosa, junto do seu povo peregrino. No meio de situações verdadeiramente dramáticas, quando muitos contemporâneos estavam dominados pela angústia e a incerteza, quando a força do mal e do pecado parecia impor o seu domínio, a Virgem Maria faz brilhar em todo o seu esplendor a vontade salvífica de Deus, uma bênção que revela a extensão da sua ternura a todas as criaturas. O seu convite à conversão, à oração e à penitência pretende desbloquear os obstáculos que impedem os seres humanos de experimentar uma bondade que procede de Deus e foi depositada no coração humano. A Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, sai ao encontro dos seus filhos peregrinos a partir da glória da ressurreição de seu filho Jesus, para lhes oferecer consolação, estímulo e alento. Envolvidos por essa bênção, os três pastorinhos mostraram-se dispostos, pela boca de Lúcia, a serem louvor da glória de Deus[6] e a entregarem-se plenamente aos desígnios de misericórdia que Deus manifestava através das aparições.   Bênção e interpelação para a Igreja em Portugal Esta bênção derramou-se sobre o nosso povo, que a tem acolhido e agradecido de forma constante e variada. Desde muito cedo, os portugueses encontraram no Santuário de Fátima, em volta da Capelinha e da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, consagrada em 7 de outubro de 1953, uma casa maternal[7], na qual se sentem acolhidos, compreendidos, consolados, perdoados, reconfortados e renovados. O Santuário de Fátima converteu-se no coração espiritual de Portugal[8], tornando-se um dos traços identificadores do nosso catolicismo, como um carisma da nossa Igreja em sintonia com o carisma dos três pastorinhos. Esta singular ligação da Igreja em Portugal a Fátima tornou-se patente na consagração de Portugal ao Imaculado Coração de Maria, em 13 de maio de 1931, por ocasião da primeira peregrinação nacional. E manifestou-se mais recentemente, de 13 de maio de 2015 a 13 de maio de 2016, quando a Imagem Peregrina percorreu as nossas dioceses. Foi um convite à jubilosa celebração do centenário das suas aparições em Fátima e, simultaneamente, uma refontalização espiritual e pastoral, no compromisso com a sua mensagem. Ao longo de todos estes cem anos, a peregrinação a Fátima revitalizou a fé de muitos crentes cansados, suscitou a conversão de muitos corações endurecidos, reafirmou a pertença eclesial de muitos batizados desorientados, tornou possível que muitos indiferentes redescobrissem o Evangelho, suscitou uma religiosidade que plasmou a vida de grande parte do nosso povo. As peregrinações a nível individual e comunitário têm sido experiências de Deus e ocasiões para o louvor, estímulo para nos abrirmos à sua vontade e para a realização da nossa conversão permanente. Fiel à missão de difundir e aprofundar a mensagem de Fátima, o Santuário tornou-se espaço de acolhimento para quantos o procuram, solidário com as necessidades e as angústias do mundo. Hoje, é sobretudo lugar de oração mas também polo de dinamização cultural, centro eclesial de reflexão teológica, a partir dos acontecimentos de há cem anos e dos desafios que eles continuam a propor à Igreja.   Bênção e interpelação para a Igreja Universal Esta bênção alargou-se, entretanto, a toda a Igreja. Graças a ela, temos podido experimentar a catolicidade da nossa fé e a comunhão com todas as Igrejas do mundo, e muito especialmente com o papa, fundamento da unidade da Igreja, tão presente na mensagem de Fátima. É para nós uma graça o reconhecimento das aparições de Fátima pelos sucessivos papas na sua ligação a Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Pio XII consagrou o mundo ao Coração Imaculado de Maria, por ocasião do 25.º aniversário das aparições, em 31 de outubro de 1942. São João XXIII afirmou que as aparições fazem recordar a «glória divina» num mundo «de materialismo e de ódio»[9]. O Beato Paulo VI, na solene clausura da terceira sessão do Vaticano II, em 21 de novembro de 1964, concedeu a Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima, que ele próprio visitou em 13 de maio 1967, na celebração do cinquentenário das aparições. São João Paulo II, além de uma profunda devoção pessoal a Nossa Senhora de Fátima, visitou o Santuário em três ocasiões: em maio de 1982, para agradecer a sobrevivência ao atentado sofrido no ano anterior; em maio de 1991, no décimo aniversário do atentado, para agradecer as surpreendentes mudanças no Leste da Europa; em 13 de maio de 2000, para beatificar Jacinta e Francisco e dar a conhecer a terceira parte do segredo de Fátima. Bento XVI, que já como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tinha contribuído muito significativamente para a interpretação e o aprofundamento teológico da mensagem de Fátima, visitou o Santuário em maio de 2010. E agora esperamos pelo papa Francisco para a celebração do centenário. Mas também ele já consagrou o mundo ao Coração Imaculado de Maria, na Praça de S. Pedro, em outubro de 2013, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima que se venera na Capelinha das Aparições e que, a seu pedido, fora levada a Roma para a Jornada Mariana no Ano da Fé. O reconhecimento dos papas tem estado em sintonia com o sensus fidei do povo cristão a nível mundial. Em 1947, a imagem da Virgem de Fátima fez-se peregrina, percorrendo numerosos países como mensageira da paz e da reconciliação. A sua presença testemunha a graça que vence sempre o pecado, suscitando, por onde passa, acolhimento cordial e entusiasmo transbordante. Mas Fátima tem-se irradiado de múltiplas outras formas: milhares de igrejas dedicadas a Nossa Senhora do Rosário de Fátima; em numerosas dioceses celebra-se o 13 de maio com a recitação do terço; divulgou-se a prática dos cinco primeiros sábados e intensificou-se a oração do Rosário; multiplicaram-se as publicações para divulgar a mensagem e a espiritualidade de Fátima; surgiram confrarias, associações e movimentos diversos sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário de Fátima; a sua imagem é venerada um pouco por todo o lado; há correntes de espiritualidade que se alimentam da mensagem de Fátima; e são numerosos os institutos de vida consagrada cujo carisma assenta no compromisso com essa mensagem.   Bênção e interpelação para o mundo inteiro Esta bênção estendeu-se ao mundo inteiro como mensagem de esperança e fonte de paz. O convite à oração e ao compromisso com a construção da paz sacudiu as consciências no limiar de um século conflituoso e trágico. Quando a humanidade agonizava numa violência de alcance mundial, a Virgem de Fátima veio pedir a oração do Rosário pela paz, anunciando para breve o fim da guerra e pedindo a conversão dos homens para que não ocorresse outro conflito; nesse sentido, que o mundo e a Rússia fossem consagrados ao seu Coração Imaculado, sob a promessa de que «por fim, […] triunfará», e será concedido ao mundo «algum tempo de paz»[10]. Ainda hoje, quando vivemos, como diz o papa Francisco, uma «terceira guerra combatida em episódios»[11], a mensagem da Senhora de Fátima agita as nossas consciências para que reconheçamos a tarefa desta hora histórica: a tarefa de não nos deixarmos cair na indiferença diante de tanto sofrimento; de respeitarmos a memória de tantas vítimas inocentes; de não deixarmos que o nosso coração se torne insensível ao mal tantas vezes banalizado. Neste sentido, São João Paulo II recorda-nos que a «mensagem de Fátima é destinada de modo particular aos homens do nosso século, marcado pelas guerras, pelo ódio, pela violação dos direitos fundamentais do homem, pelo enorme sofrimento de homens e nações e, por fim, pela luta contra Deus, impelida até à negação da sua existência»[12]. Por isso é que a mensagem de Fátima continua profundamente atual.   O dom e o convite da mensagem de Fátima Uma mensagem que nos interpela, hoje A mensagem de Fátima mostra-nos uma experiência universal e permanente: o confronto entre o bem e o mal que continua no coração de cada pessoa, nas relações sociais, no campo da política e da economia, no interior de cada país e à escala internacional. Cada um de nós é interpelado a corresponder ao chamamento de Deus, a combater o mal a partir do mais íntimo de si mesmo, a compreender o sentido da conversão e do sacrifício em favor dos outros, como fizeram os três pastorinhos, na sua pureza e inocência.   Voltar a centrar o olhar em Deus Trindade: a atitude adorante O acontecimento de Fátima está desde o início centrado em Deus Trindade. A luz e a beleza que irradiavam da presença do Anjo e da Senhora e inundavam as três crianças eram as mãos estendidas de Deus, que na bondade do seu Amor a todos abraça. A presença de Deus, recorda Lúcia, «era tão intensa que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. […] A paz e felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus»[13]. Esta experiência tão íntima de Deus não deve ser entendida como simples perceção extraordinária do sagrado ou do mistério. Deus não é simplesmente o arquiteto do mundo ou a chave para explicar a realidade. Deus é Pessoa viva que está próxima das suas criaturas. Os pastorinhos foram protagonistas de um encontro pessoal com Alguém que vinha ao seu encontro, desvelando os seus desígnios de misericórdia: foi assim que compreenderam «quem era Deus, como [os] amava e queria ser amado»[14]. Esse Deus que ama e quer ser amado é a Trindade, «que [os] penetrava no mais íntimo da alma»[15]. E por isso à Trindade Santa é dirigida uma das orações mais originárias e genuínas de Fátima: «Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente…»[16]. O encontro com Deus é vivido pelas três crianças como fonte de profunda felicidade e alegria. A oração brota, por isso, de modo espontâneo na sua intimidade, como uma disposição constante que há de manter vivo um diálogo que transformara definitivamente as suas vidas. E, desde o princípio, sentem que a adoração é o modo de estar diante d’Aquele que está acima de todos os ídolos que pretendem seduzir os seres humanos.   Contemplação, compaixão e anúncio: os carismas dos videntes Francisco, Jacinta e Lúcia viveram o espírito de adoração de distintos modos, igualmente profundos, que deixam aflorar a sua experiência mística. Os diferentes carismas de cada um marcarão profundamente a espiritualidade de Fátima e continuam a atrair e a contagiar os peregrinos. Francisco reconhece simultaneamente a transcendência de Deus e o júbilo pela sua presença. Confessa: «do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!»[17]. Sente-se «a arder, naquela luz que é Deus […]. Como é Deus! Não se pode dizer!»[18]. Esta união com Deus fá-lo perceber a dor que lhe provocam as ofensas humanas. Dá-lhe pena por «Ele estar tão triste» e, por isso, brota nele a resposta enternecedora: «Se eu O pudesse consolar!»[19]. Jacinta era especialmente sensível a Cristo crucificado, que para ela condensava o amor de Deus e suscitava, por isso, uma imensa gratidão: «enterneceu-se e chorou» ao contemplá-lo, «porque morreu por nós»[20]. É assim levada a desenvolver um diálogo constante de amor: gosta tanto de Jesus e de sua Mãe que não se cansa de lhes dizer que os ama[21]; busca a solidão para «estar muito tempo sozinha, a falar com Jesus escondido»[22]. Lúcia assumirá como missão da sua vida transmitir a todos o amor de Deus manifestado no Coração Imaculado de Maria[23]. Viverá para recordar ao mundo, não a miséria do que existe, mas a grandeza da misericórdia divina, deixando assim transparecer «o que as aparições de Nossa Senhora, na Cova da Iria, tinham de mais íntimo»[24]. É na fidelidade a esta missão que, mesmo a partir da clausura da sua vida monástica, dará testemunho ao mundo de que o segredo da felicidade é viver no amor[25].   Ícone de ternura e de misericórdia: a presença de Maria O protagonismo de Deus Trindade na nossa história, a sua proximidade e a sua providência tornam-se visíveis na Virgem Maria, de modo mais concreto no seu Coração Imaculado. Para os pastorinhos, o coração da Senhora era o Santuário do seu encontro com Deus: «Não nos diz o Sagrado Evangelho que Maria guardava todas as coisas em Seu coração? E quem melhor que este Imaculado Coração nos poderia descobrir os segredos da Divina Misericórdia?»[26]. Esse coração é o “lugar” onde experimentavam a luz divina e a mensagem lhes era comunicada: «O que seria, se soubessem o que Ela nos mostrou em Deus, no seu Imaculado Coração, nessa luz tão grande!»[27]. A misericórdia de Deus, o palpitar do seu coração diante dos pecadores e dos desgraçados, encontra um ícone privilegiado no coração de Maria. Neste coração imaculado reflete-se a força da graça, a ação do Espírito, que no momento da anunciação a cobriu com a sua sombra, e já desde a sua conceção tinha antecipado nela a ação redentora do mistério pascal: é eleita para ser «Mãe de Deus “toda santa” e “imune de toda a mancha de pecado”, visto que o próprio Espírito Santo a modelou e dela fez uma nova criatura»[28]. O coração da Mãe é verdadeiramente ícone da «graça e misericórdia», as palavras que, na aparição de Tuy, em 13 de junho de 1929, ilustram a visão da Trindade, que Lúcia acolhe; duas palavras que tão bem condensam a mensagem de Fátima. Por isso, a devoção ao Imaculado Coração de Maria converteu-se num traço característico da espiritualidade de Fátima. O facto de Maria se tornar presente corresponde ao dinamismo da história da salvação e ao papel que a Virgem desempenhou no mistério da encarnação[29]. Tendo colaborado de forma totalmente singular com a obra do Salvador, a sua missão maternal para com os homens perdura sem cessar na economia da graça. Com a sua assunção aos céus, não abandonou esta missão: continua, com mais intensidade, a cuidar dos irmãos de seu Filho que peregrinam neste mundo, entre angústias e perigos, e procura, com a sua intercessão, alcançar os dons da salvação, mostrando assim a eficácia da mediação única e insuperável de Jesus Cristo[30]. A partir do seu estado glorioso, Maria mostra, nas suas aparições, o significado sempre permanente da Páscoa, o constante triunfo da graça e da misericórdia. Deste modo, na Virgem Maria, no seu coração materno, transparece a vontade misericordiosa de um Deus Trindade que não é indiferente à situação das suas criaturas, que não abandona o pecador na sua culpa, que não esquece os desgraçados no seu sofrimento, que não ignora as vítimas e os excluídos, que sempre oferece o seu perdão e a sua consolação, que abre sempre a porta da esperança, quando os seres humanos se fecham no seu egoísmo ou na sua inconsciência.   O convite à conversão e ao combate contra o mal: uma mensagem profética De entre os sinais dos tempos, afirmou São João Paulo II, «sobressai Fátima, que nos ajuda a ver a mão de Deus, guia providente e Pai paciente e compassivo também deste século XX»[31]. Por sua vez, Bento XVI reforçou este aspeto dizendo que Fátima é a «mais profética das aparições modernas»[32]. De facto, denuncia as máscaras do mal, que provoca no mundo tanta dor injusta e atinge, por vezes, os membros da Igreja: por um lado, os mecanismos que conduzem à guerra, o ateísmo que quer apagar as pegadas de Deus neste mundo, os poderes económicos que não buscam mais que o seu próprio benefício à custa dos pobres e dos débeis, a perseguição contra a Igreja e contra os santos que se opõem aos ídolos criados pelos interesses humanos; por outro lado, a hipocrisia ou a infidelidade daqueles que, na Igreja, se deixam dominar pela apatia ou pelo espírito mundano: a comodidade, a corrupção ou a busca de poder. O sofrimento da Igreja, dizia Bento XVI a caminho de Fátima, vem também do pecado que existe na Igreja, pelo que necessitamos de aprender a penitência, aceitar a purificação, pedir perdão[33]. A mensagem de Fátima é um veemente apelo à conversão e à penitência. O pedido repetido para que os homens não ofendam mais a Deus, a tristeza de Nossa Senhora como expressão da não indiferença diante dos pecados cometidos, o convite à oração e ao sacrifício pelos pecadores são simultaneamente denúncia do mal, apelo à conversão e afirmação categórica do amor de Deus. Como afirmava o cardeal Ratzinger, no comentário teológico ao segredo de Fátima, a «palavra-chave desta [terceira] parte do ‘segredo’ é o tríplice grito: “Penitência, Penitência, Penitência!” Volta-nos ao pensamento o início do Evangelho: “Pænitemini et credite evangelio” (Mc 1, 15). Perceber os sinais do tempo significa compreender a urgência da penitência, da conversão, da fé»[34]. Sacrifício e reparação: a identificação com Cristo O acontecimento de Fátima é um convite a colaborarmos com os desígnios de misericórdia, segundo o exemplo dos três pastorinhos. A pergunta que lhes foi dirigida em 13 de maio de 1917 é-nos dirigida também a nós: «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?»[35]. Os pastorinhos foram respondendo desde logo com a oração, pois no seu ato de adoração a Deus estão presentes os outros: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam»[36]. A partir das primeiras palavras do Anjo, foram descobrindo que a sua vocação era uma missão e que o dom recebido levava consigo a entrega da própria vida em favor dos outros. A urgência das necessidades dos outros reclamava a penitência, o sacrifício e a reparação. O sacrifício do cristão só pode ser vivido a partir da oração e como oração. Partindo da sua profunda união com Deus, os pastorinhos tomaram consciência de que os outros são tão importantes que se sacrificaram por eles. Foi assim despertando a sua responsabilidade: não podiam abandonar o pecador na sua culpa ou o que sofre no seu sofrimento. Como dirá mais tarde Lúcia, não podiam ir felizes para o céu sozinhos, não poderiam ser felizes sem os outros[37]. O convite à conversão e à reparação desafia-nos a não nos resignarmos diante da banalização do mal, a vencermos a ditadura da indiferença face ao sofrimento que nos cerca. Neste caminho de purificação pessoal para a solidariedade está presente uma espiritualidade que aprofunda as suas raízes no núcleo do mistério cristão. Esta espiritualidade educa-se e concretiza-se em práticas que alimentam a atitude teologal e a identificação com Cristo: na Eucaristia, em que Cristo se faz sacramentalmente presente, e na oração do Rosário, em que Ele se faz narrativamente presente na meditação dos seus mistérios. A partir da experiência tão íntima com Deus e da confiança que a Senhora lhes comunica, os pastorinhos dão testemunho do triunfo do Amor que abraça a criação inteira e que transparece no Coração Imaculado de Maria. Precisamente sob o pano de fundo da visão do inferno, as palavras da Senhora ganham relevo: «Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará»[38], em última análise, o triunfo do amor de Deus que se revelou à humanidade. Deste modo, a mensagem de Fátima converte-se num hino de esperança. Como disse o cardeal Ratzinger[39], a Virgem Maria não provoca medo nem faz previsões apocalíticas, mas conduz ao Filho, ao essencial da revelação cristã. Repetiu-o como papa: a mensagem de Fátima, condensada na promessa da Senhora, é «como uma janela de esperança que Deus abre quando o homem lhe fecha a porta»[40].   Fátima no futuro da Igreja, de Portugal e do mundo Pedagogia evangelizadora da espiritualidade de Fátima Na sua dupla dimensão mística e profética, Fátima – na sua mensagem e no seu Santuário – tem uma missão a cumprir na Igreja e no mundo: ser farol e estímulo para a conversão pastoral da Igreja e critério e bússola a orientar o compromisso dos cristãos nos conflitos do nosso mundo. A espiritualidade de Fátima, que acompanha e sustém as peregrinações, purifica e eleva atitudes puramente naturais da religiosidade para as transformar em atitudes filiais. Oferece a pedagogia da mistagogia: através da figura de Maria e dos três pastorinhos, torna possível o encontro com o Deus Trindade, na sua beleza e na sua proximidade, como experiência salvífica. Mostra, desta forma, como é insuficiente todo o projeto de autorredenção, que tanto seduz os nossos contemporâneos. O nosso Deus não é autoritário nem concorrente do ser humano, mas fonte de esperança e de humanização. Fátima irradia assim o dinamismo evangelizador apoiado na piedade popular, isto é, na «espiritualidade encarnada na cultura dos simples» de que fala o papa Francisco: como «maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários»[41]. Peregrinar, caminhar juntos, leva-nos a sair de nós próprios e a abrirmo-nos aos outros, escutando-os e partilhando a própria existência, com o espírito missionário e sinodal que se espera hoje da Igreja. É particularmente significativa a atenção que em Fátima se dá aos mais frágeis e vulneráveis – as crianças, os doentes, os idosos, as pessoas com deficiência, os migrantes – que neste lugar e na sua proposta espiritual encontram hospitalidade, cuidado, rumo e energia.   Uma Igreja com rosto mariano A mensagem de Fátima inspira a Igreja a encontrar e a aprofundar os traços do seu rosto mariano. Acolhendo esta interpelação, a Igreja, sacramento universal da salvação, é levada a acolher com Maria e como ela a missão que procede de Deus, a seguir Jesus como discípula fiel e crente, a ser sensível às necessidades dos próximos e aos clamores dos distantes, a estar disposta a permanecer junto à cruz, a assumir o peso da incompreensão e da perseguição, a irradiar a glória e as primícias da ressurreição, a ser “hospital de campanha” que sai ao encontro dos feridos e não “alfândega” que fecha as portas. A Igreja, que encontra consolação e força no coração maternal de Maria, atuará, assim, como mãe dos batizados e oferecerá cuidado maternal aos que a veem de fora, qualquer que seja a distância a que se encontrem. Maria, como nova Eva, é para cada cristão um modelo do ser humano, convidando-o à conversão pessoal: ainda que desapareçam as ditaduras, melhorem as condições económicas e se eliminem os conflitos bélicos, tem de ser erradicada a tentação de domínio que se instala no coração humano. Maria, imaculada e assunta e, por isso, modelo de humanidade, ajuda a compreender a graça como dom que nos transforma, a fidelidade como disposição que nos humaniza, a generosidade e o serviço como expressão de respeito pelos outros, o amor universal como dignificação de todos os filhos de Deus. A Igreja encontra, assim, em Nossa Senhora do Rosário de Fátima, da Senhora do Coração Imaculado, e na sua mensagem um valioso instrumento catequético para a sua vida e missão de evangelizadora no nosso milénio.   Anúncio profético da misericórdia e da paz A mensagem de Fátima alimenta também o compromisso profético com o mundo presente face às injustiças e a todos os fenómenos de exclusão, qualquer que seja a sua raiz. Desde a sua génese, o acontecimento de Fátima revela os desígnios de misericórdia que Deus desejava realizar através dos pastorinhos sob o olhar maternal da Mãe de Jesus. Concluído o Ano Santo da Misericórdia, é necessário conservar e desenvolver este manancial, dar o primado à misericórdia, numa cultura contemporânea que a quer erradicar, como dizia São João Paulo II e o papa Francisco nos recorda na Bula Misericordiae vultus. A misericórdia é o que nos impele a abrir o coração ao outro, aprisionado pelo mal ou pelo sofrimento, e a sermos sensíveis às interrogações recordadas pelo papa Francisco em Lampedusa[42] e que já Bento XVI tinha exposto em Fátima[43]: «Onde estás, Adão? Onde está o teu irmão? Somos capazes de chorar diante da exclusão e da marginalização de que padecem os mais débeis?». Fiéis ao carisma de Fátima, somos chamados a acolher o convite à promoção e defesa da paz entre os povos, denunciando e opondo-nos aos mecanismos perversos que enfrentam raças e nações: a arrogância racionalista e individualista, o egoísmo indiferente e subjetivista, a economia sem moral ou a política sem compaixão. Fátima ergue-se como palavra profética de denúncia do mal e compromisso com o bem, na promoção da justiça e da paz, na valorização e respeito pela dignidade de cada ser humano. A missão dos cristãos manifesta-se no esforço por tentar tudo fazer, para que o poder do mal seja detido e continuem a crescer as forças do bem. Na fortaleza da Mãe revela-se a fortaleza de Deus; e nesta convicção se aviva e revitaliza a fortaleza dos crentes. No trilho da imensa multidão dos peregrinos que desejam beber do Evangelho nas fontes de Fátima e se confiam ao cuidado materno da Senhora do Rosário, a Igreja rejubila com o dom do acontecimento de Fátima neste seu centenário. O seu Santuário continua como lugar de refontalização da fé e de vivência eclesial. A sua mensagem interpela-nos e incita-nos a seguirmos o caminho da renovação interior, apoiados na afirmação de Jesus, o filho de Maria: «Tem confiança: Eu já venci o mundo» (Jo 16,33). Na medida em que por ela se deixar habitar, a comunidade dos crentes pode oferecer ao mundo a Luz de Deus que preenche o Coração cheio de graça e misericórdia da Virgem Mãe, custódia da inabalável esperança no triunfo do amor sobre os dramas da história.   Fátima, 8 de dezembro de 2016, Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria   [1] Lúcia de Jesus, Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, 15.ª ed., Fátima 2011, p. 173. [2] Francisco, Exortação apostólica Evangelii Gaudium, n.º 119. [3] Manuel Gonçalves Cerejeira, «Fátima e a Igreja», in Obras Pastorais. Vol. II (1936-1942), Lisboa 1943, p. 272. [4] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 181. [5] Documentação Crítica de Fátima. I. Doc. 3, p. 34. [6] Cf. Lúcia de Jesus, Como vejo a mensagem através dos tempos e dos acontecimentos, 2.ª ed., Fátima 2007, p. 13. [7] Cf. Bento XVI, Oração a Nossa Senhora, Capela das Aparições, Fátima, em 12 de maio de 2010. [8] Cf. Bento XVI, Discurso no encontro com os bispos de Portugal, Fátima, em 13 de maio de 2010. [9] João XXIII, Carta ao Patriarca de Lisboa por ocasião da segunda peregrinação de Portugal a Fátima, em 8 de outubro de 1961. [10] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 177. [11] Francisco, Homilia da Missa no Sacrário de Redipuglia por ocasião do centenário do início da Primeira Guerra Mundial, Redipuglia, em 13 de setembro de 2014. [12] João Paulo II, Homilia da Missa de dedicação da Igreja Paroquial ao Coração Imaculado de Maria, Zakopane, em 7 de junho de 1997. [13] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 171. [14] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 170. [15] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 145. [16] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 170. [17] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 141. [18] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 145. [19] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 145. [20] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, pp. 139 e 140. [21] Cf. Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 56. [22] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 55. [23] Cf. Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 130. [24] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 190. [25] Cf. Lúcia de Jesus, Apelos da Mensagem de Fátima, 4.ª ed., Fátima 2007, p. 42. [26] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 34-35. [27] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 144. [28] Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n.º 56. [29] Cf. Lumen Gentium, n.º 57. [30] Cf. Lumen Gentium, n.º 60-62. [31] João Paulo II, «Mensagem ao bispo de Leiria-Fátima por ocasião do 80.º aniversário das aparições milagrosas de Nossa Senhora», in L’Osservatore Romano (edição em língua portuguesa), 18 de outubro de 1997, p. 4. [32] Bento XVI, Regina Coeli, Esplanada do Santuário de Aparecida, em 13 de maio de 2007. [33] Bento XVI, Encontro do papa Bento XVI com os jornalistas durante o voo para Portugal, em 11 de maio de 2010. [34] Joseph Ratzinger, «Comentário Teológico», in Congregação para a Doutrina da Fé, A mensagem de Fátima. O Segredo, Lisboa 2000, p. 50. [35] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 173. [36] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 169. [37] Cf. Como vejo a mensagem através dos tempos e dos acontecimentos, p. 32. [38] Memórias da Irmã Lúcia. Vol. I, p. 177. [39] Cf. A Voz da Fátima, novembro 1996. [40] Bento XVI, Discurso de saudação à chegada a Portugal, em 11 de maio de 2010. [41] Francisco, Exortação apostólica Evangelii Gaudium, n.º 124, citando a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de junho de 2007), n.º 263 e 264. [42] Francisco, Homilia da Missa pelas vítimas dos naufrágios, Lampedusa, em 8 de julho de 2013. [43] Bento XVI, Homilia da Missa no 10.º aniversário da beatificação de Francisco e Jacinta, Fátima, 13 de maio de 2010.