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MENSAGEM DE SUA SANTIDADEO PAPA FRANCISCOPARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES DE 2019 [20 de outubro de 2019]   Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo   Queridos irmãos e irmãs! Pedi a toda a Igreja que vivesse um tempo extraordinário de missionariedade no mês de outubro de 2019, para comemorar o centenário da promulgação da Carta apostólica Maximum illud, do Papa Bento XV (30 de novembro de 1919). A clarividência profética da sua proposta apostólica confirmou-me como é importante, ainda hoje, renovar o compromisso missionário da Igreja, potenciar evangelicamente a sua missão de anunciar e levar ao mundo a salvação de Jesus Cristo, morto e ressuscitado. O título desta mensagem – «batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo» – é o mesmo do Outubro Missionário. A celebração deste mês ajudar-nos-á, em primeiro lugar, a reencontrar o sentido missionário da nossa adesão de fé a Jesus Cristo, fé recebida como dom gratuito no Batismo. O ato, pelo qual somos feitos filhos de Deus, sempre é eclesial, nunca individual: da comunhão com Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, nasce uma vida nova partilhada com muitos outros irmãos e irmãs. E esta vida divina não é um produto para vender – não fazemos proselitismo –, mas uma riqueza para dar, comunicar, anunciar: eis o sentido da missão. Recebemos gratuitamente este dom, e gratuitamente o partilhamos (cf. Mt 10, 8), sem excluir ninguém. Deus quer que todos os homens sejam salvos, chegando ao conhecimento da verdade e à experiência da sua misericórdia por meio da Igreja, sacramento universal da salvação (cf. 1 Tm 2, 4; 3, 15; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 48). A Igreja está em missão no mundo: a fé em Jesus Cristo dá-nos a justa dimensão de todas as coisas, fazendo-nos ver o mundo com os olhos e o coração de Deus; a esperança abre-nos aos horizontes eternos da vida divina, de que verdadeiramente participamos; a caridade, que antegozamos nos sacramentos e no amor fraterno, impele-nos até aos confins da terra (cf. Miq 5, 3; Mt 28, 19; At 1, 8; Rm 10, 18). Uma Igreja em saída até aos extremos confins requer constante e permanente conversão missionária. Quantos santos, quantas mulheres e homens de fé nos dão testemunho, mostrando como possível e praticável esta abertura ilimitada, esta saída misericordiosa ditada pelo impulso urgente do amor e da sua lógica intrínseca de dom, sacrifício e gratuidade (cf. 2 Cor 5, 14-21)! Sê homem de Deus, que anuncia Deus (cf. Carta ap. Maximum illud): este mandato toca-nos de perto. Eu sou sempre uma missão; tu és sempre uma missão; cada batizada e batizado é uma missão. Quem ama, põe-se em movimento, sente-se impelido para fora de si mesmo: é atraído e atrai; dá-se ao outro e tece relações que geram vida. Para o amor de Deus, ninguém é inútil nem insignificante. Cada um de nós é uma missão no mundo, porque fruto do amor de Deus. Ainda que meu pai e minha mãe traíssem o amor com a mentira, o ódio e a infidelidade, Deus nunca Se subtrai ao dom da vida e, desde sempre, deu como destino a cada um dos seus filhos a própria vida divina e eterna (cf. Ef 1, 3-6). Esta vida é-nos comunicada no Batismo, que nos dá a fé em Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte, regenera à imagem e semelhança de Deus e insere no Corpo de Cristo, que é a Igreja. Por conseguinte, neste sentido, o Batismo é verdadeiramente necessário para a salvação, pois garante-nos que somos filhos e filhas, sempre e em toda parte: jamais seremos órfãos, estrangeiros ou escravos na casa do Pai. Aquilo que, no cristão, é realidade sacramental – com a sua plenitude na Eucaristia –, permanece vocação e destino para todo o homem e mulher à espera de conversão e salvação. Com efeito, o Batismo é promessa realizada do dom divino, que torna o ser humano filho no Filho. Somos filhos dos nossos pais naturais, mas, no Batismo, é-nos dada a paternidade primordial e a verdadeira maternidade: não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como mãe (cf. São Cipriano, A unidade da Igreja, 4). Assim, a nossa missão radica-se na paternidade de Deus e na maternidade da Igreja, porque é inerente ao Batismo o envio expresso por Jesus no mandato pascal: como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós, cheios de Espírito Santo para a reconciliação do mundo (cf. Jo 20, 19-23; Mt 28, 16-20). Este envio incumbe ao cristão, para que a ninguém falte o anúncio da sua vocação a filho adotivo, a certeza da sua dignidade pessoal e do valor intrínseco de cada vida humana desde a conceção até à sua morte natural. O secularismo difuso, quando se torna rejeição positiva e cultural da paternidade ativa de Deus na nossa história, impede toda e qualquer fraternidade universal autêntica, que se manifesta no respeito mútuo pela vida de cada um. Sem o Deus de Jesus Cristo, toda a diferença fica reduzida a ameaça infernal, tornando impossível qualquer aceitação fraterna e unidade fecunda do género humano. O destino universal da salvação, oferecida por Deus em Jesus Cristo, levou Bento XV a exigir a superação de todo o fechamento nacionalista e etnocêntrico, de toda a mistura do anúncio do Evangelho com os interesses económicos e militares das potências coloniais. Na sua Carta apostólica Maximum illud, o Papa lembrava que a universalidade divina da missão da Igreja exige o abandono duma pertença exclusivista à própria pátria e à própria etnia. A abertura da cultura e da comunidade à novidade salvífica de Jesus Cristo requer a superação de toda a indevida introversão étnica e eclesial. Também hoje, a Igreja continua a necessitar de homens e mulheres que, em virtude do seu Batismo, respondam generosamente à chamada para sair da sua própria casa, da sua família, da sua pátria, da sua própria língua, da sua Igreja local. São enviados aos gentios, ao mundo ainda não transfigurado pelos sacramentos de Jesus Cristo e da sua Igreja santa. Anunciando a Palavra de Deus, testemunhando o Evangelho e celebrando a vida do Espírito, chamam à conversão, batizam e oferecem a salvação cristã no respeito pela liberdade pessoal de cada um, em diálogo com as culturas e as religiões dos povos a quem são enviados. Assim a missio ad gentes, sempre necessária na Igreja, contribui de maneira fundamental para o processo permanente de conversão de todos os cristãos. A fé na Páscoa de Jesus, o envio eclesial batismal, a saída geográfica e cultural de si mesmo e da sua própria casa, a necessidade de salvação do pecado e a libertação do mal pessoal e social exigem a missão até aos últimos confins da terra. A coincidência providencial do Mês Missionário Extraordinário com a celebração do Sínodo Especial sobre as Igrejas na Amazónia leva-me a assinalar como a missão, que nos foi confiada por Jesus com o dom do seu Espírito, ainda seja atual e necessária também para aquelas terras e seus habitantes. Um renovado Pentecostes abra de par em par as portas da Igreja, a fim de que nenhuma cultura permaneça fechada em si mesma e nenhum povo fique isolado, mas se abra à comunhão universal da fé. Que ninguém fique fechado em si mesmo, na autorreferencialidade da sua própria pertença étnica e religiosa. A Páscoa de Jesus rompe os limites estreitos de mundos, religiões e culturas, chamando-os a crescer no respeito pela dignidade do homem e da mulher, rumo a uma conversão cada vez mais plena à Verdade do Senhor Ressuscitado, que dá a verdadeira vida a todos. A este respeito, recordo as palavras do Papa Bento XVI no início do nosso encontro de Bispos Latino-Americanos na Aparecida, Brasil, em 2007, palavras que desejo transcrever aqui e subscrevê-las: «O que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do Batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. (...) O Verbo de Deus, fazendo-Se carne em Jesus Cristo, fez-Se também história e cultura. A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando-as de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, mas uma regressão. Na realidade, seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado» [Discurso na Sessão Inaugural (13 de maio de 2007), 1: Insegnamenti III/1 (2007), 855-856]. A Maria, nossa Mãe, confiamos a missão da Igreja. Unida ao seu Filho, desde a encarnação, a Virgem colocou-se em movimento, deixando-se envolver-se totalmente pela missão de Jesus; missão que, ao pé da cruz, havia de se tornar também a sua missão: colaborar como Mãe da Igreja para gerar, no Espírito e na fé, novos filhos e filhas de Deus. Gostaria de concluir com uma breve palavra sobre as Pontifícias Obras Missionárias, que a Carta apostólica Maximum illud já apresentava como instrumentos missionários. De facto, como uma rede global que apoia o Papa no seu compromisso missionário, prestam o seu serviço à universalidade eclesial mediante a oração, alma da missão, e a caridade dos cristãos espalhados pelo mundo inteiro. A oferta deles ajuda o Papa na evangelização das Igrejas particulares (Obra da Propagação da Fé), na formação do clero local (Obra de São Pedro Apóstolo), na educação duma consciência missionária das crianças de todo o mundo (Obra da Santa Infância) e na formação missionária da fé dos cristãos (Pontifícia União Missionária). Ao renovar o meu apoio a estas Obras, espero que o Mês Missionário Extraordinário de outubro de 2019 contribua para a renovação do seu serviço missionário ao meu ministério. Aos missionários e às missionárias e a todos aqueles que de algum modo participam, em virtude do seu Batismo, na missão da Igreja, de coração envio a minha bênção. Vaticano, 9 de junho – Solenidade de Pentecostes – de 2019. FRANCISCO  
DIOCESE DE COIMBRA CELEBRAR A VIDA NA DOR E NA MORTEORIENTAÇÕES PASTORAIS PALAVRA DO BISPO A Igreja é chamada a uma atenção contínua à pessoa humana em todas as suas alegrias e dores. Para ser fiel à sua vocação, precisa de refletir e atualizar permanentemente o modo como acompanha os fiéis, tendo em conta as grandes mudanças operadas na sociedade e na Igreja, que deram origem a uma atitude diferente face à vida, à dor, à morte e ao luto. Frequentemente assistimos a uma crescente privatização de tudo o que respeita à doença e à morte, com um consequente afastamento das pessoas e da comunidade nesses momentos tão marcantes para todos. A comunidade cristã, precisamente por ser comunidade, há de estar presente de modo ativo e acompanhar esses passos decisivos da vida dos seus membros, manifestando solidariedade, comunhão e amor. Quando as pessoas estão numa situação de maior debilidade é mais urgente uma presença animadora e consoladora da comunidade cristã. Trata-se de um imperativo da lei da caridade de Jesus, desenvolvida pelo Evangelho de Mateus e pela tradição cristã nas obras de misericórdia corporais e espirituais. Toda a ação da Igreja deve estar marcada por um dinamismo e uma intenção evangelizadora, pois ela existe para anunciar o Evangelho da salvação de Jesus Cristo[1]. Significa que também a ação da comunidade junto dos doentes, dos idosos, das famílias em luto, deve ter uma intenção evangelizadora, embora no respeito total pelas opções de cada pessoa. O Conselho Presbiteral da Diocese de Coimbra, consciente da necessidade que temos de melhorar o modo como acompanhamos as pessoas na doença, na morte e no luto, refletiu longamente sobre a realidade que temos e apresentou algumas linhas de ação pastoral julgadas oportunas. Proponho, agora, a todo o Povo de Deus da Diocese o resultado desse trabalho e convido os presbíteros e diáconos, juntamente como os conselhos pastorais, as equipas de animação pastoral e outros agentes da ação pastoral, a refletirem atentamente sobre este texto e a encontrarem as formas mais adequadas para o concretizar. Coimbra, 3 de julho de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra   INTRODUÇÃO «Sei que um dia vou morrer embora não saiba como, nem quando. Num certo lugar, bem no fundo de mim, sei disso. Sei que um dia terei de deixar os que me são mais queridos, a não ser que sejam eles a deixar-me antes. É esse saber mais profundo, mais íntimo, o que tenho de comum com todos os outros humanos. Por isso é que a morte de outrem me toca. Ela permite-me penetrar no âmago da única verdadeira questão: que sentido tem, então, a minha vida?»[2]. Os seres humanos são os únicos que enterram os seus mortos e a teologia vê nos ritos uma expressão dos valores de uma comunidade de crentes. A finalidade dos ritos cristãos não é apenas honrar os corpos, mas celebrar a memória do defunto e, principalmente, colocar o acontecimento da morte no horizonte da esperança cristã porque ninguém celebra a morte - celebramos a vida: a vida terrena e a vida eterna. A morte é o ‘tempo da passagem’, uma Páscoa, da terra da escravidão para a Terra Prometida. É claro que os ritos assumem um significado mais profundo na medida em que os presentes os compreendem e participam neles. O desafio missionário está no saber interpretar a dor, os anseios e as dúvidas e em iluminar a escuridão da morte com a luz da fé. «Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há de chegar a todos, sem exceção. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, ‘àqueles que não têm com que te retribuir’ (Lc 14, 14). (…) Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!»[3] O Evangelho revela-nos com clareza a atitude de Jesus diante da doença e da morte: aproxima-se, enche-se de compaixão, chora, toca, anima e dá vida. Basta recordar os seus gestos e as suas palavras quando se encontra com o filho único da viúva de Naim, com a filha (única) de Jairo e com o seu amigo Lázaro (cf. Lc 7,11-17; Lc 8,49-55 e Jo 11,1-44). A comunidade cristã é desafiada a ‘continuar’ estes gestos e estas palavras do Senhor, é desafiada a sair da própria comodidade e a ter a coragem de levar a luz do Evangelho a todos os que vivem a dor e o sofrimento.   I. ACOMPANHAR E CELEBRAR NA DOR E NA MORTE 1. ACOMPANHAR A PESSOA DOENTE A comunidade cristã não pode descurar o acompanhamento dos doentes e das suas famílias, especialmente os doentes que estão em fase terminal ou em situação de sofrimento prolongado. Esta atenção especial faz parte do múnus pastoral da comunidade, de modo especial dos sacerdotes[4]. Neste sentido, «a Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta arte do acompanhamento, para que todos aprendam a descalçar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Ex 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã»[5]. «Os Evangelhos e sobretudo o sacramento da Unção mostram claramente a solicitude corporal e espiritual do Senhor para com os doentes. Instituído por Ele e promulgado na epístola de S. Tiago, logo se introduziu na Igreja o costume de o celebrar, por meio da unção e da oração dos presbíteros pelos doentes, recomendando-os ao Senhor padecente e glorificado para que Ele os alivie e salve (cf. Tg 5, 14-16) e ainda exortando-os a que se associem livremente à paixão e morte de Cristo (Rom 8, 17), e assim contribuam para o bem do povo de Deus»[6]. Por isso, devemos reconhecer e valorizar o muito que a comunidade cristã já faz, nomeadamente a visita regular aos doentes e a tantas pessoas que vivem a difícil experiência da solidão levando-lhes Cristo na sagrada comunhão, no sacramento da reconciliação, na unção dos doentes. Uma missão que conta com o empenho de muitos sacerdotes, ministros extraordinários da comunhão e tantos voluntários ligados a grupos paroquiais ou a movimentos. A estes pede-se que ajudem as famílias a reconhecer a importância e o valor salvífico destes gestos sacramentais para quem na debilidade, no sofrimento e na solidão pode encontrar no Senhor alívio e esperança. Faça-se uma catequese, especialmente do sacramento da unção dos doentes, tanto individual como comunitária, para que este seja celebrado sem receios e com uma verdadeira compreensão cristã do mistério da doença e da morte. Frequentemente este sacramento ainda é visto como um pré-anuncio da morte – extrema unção – e, por isso, evitado ou adiado para os últimos momentos da vida, quando o próprio já não está consciente. 2. REZAR NA HORA DA MORTE Quando as famílias são confrontadas com a notícia da morte de um ente querido, a dor deve ser iluminada com a esperança que só a oração pode dar. Importa que todos procurem criar um ambiente sereno e profundo que possa ajudar a viver este momento de dor. Neste sentido, a comunidade deve promover práticas de oração. Assim, «é muito aconselhável que, segundo os costumes locais, na casa do defunto ou na casa mortuária, os amigos e familiares do defunto se reúnam, antes da celebração das Exéquias, para celebrar uma vigília de oração. Esta vigília ou celebração da Palavra de Deus, pode ser presidida por um ministro sagrado ou, na sua ausência, pode ser dirigida por um fiel leigo»[7]. Nesta vigília é «muito oportuno que se celebre, total ou parcialmente, a Liturgia das Horas»[8], podendo esta ser enriquecida com outros textos da Sagrada Escritura ou da Tradição da Igreja. «Em muitos lugares, durante a vigília (…), é costume rezar-se o terço ou o rosário»[9]. É bom que se conserve este oportuno e salutar ‘exercício de piedade cristã’[10].  Este momento de oração pode ser uma forma de ajudar a criar um ambiente de recolhimento e de profundidade espiritual evitando, deste modo, o frequente ruído e a conversa banal que, tantas vezes, cansa os familiares e não os ajuda a celebrar a fé. 3. CUIDAR DA CELEBRAÇÃO EXEQUIAL Na preparação da celebração exequial procure-se, quanto possível, uma maior articulação entre aquele que irá presidir e a própria família. Para que tenha em conta, não só a pessoa do defunto e as circunstâncias da sua morte, mas também a dor dos seus familiares[11], esta articulação deve procurar uma maior envolvência da família e da comunidade na própria celebração exequial.  Com efeito, «ao celebrar as exéquias dos seus irmãos, procurem os cristãos afirmar sem reservas a esperança na vida eterna (…), acolham de boa vontade tudo o que de bom encontrarem; mas o que de algum modo pareça contrário ao Evangelho, procurem transformá-lo, de modo que as exéquias celebradas pelos cristãos exprimam a fé pascal e manifestem o espírito verdadeiramente evangélico»[12]. Neste sentido, «lembrem-se também todos, especialmente os sacerdotes, de que, ao encomendarem a Deus os defuntos na liturgia exequial, têm o dever de reanimar nos presentes a esperança e reavivar a fé no mistério pascal e na ressurreição dos mortos; façam-no, porém, com delicadeza e com tacto, de modo que, ao exprimir o amor materno da Igreja e a consolação da fé, as suas palavras animem os crentes, mas não ofendam os tristes»[13]. O sacerdote, enquanto ministro da consolação[14], deve ter presente que a celebração, especialmente a eucaristia, é um momento privilegiado de evangelização quer para a família enlutada quer para todos os que estão presentes. Nestes momentos, muitos dos que andam mais afastados da prática cristã, regressam à comunidade e esperam uma palavra que toque o coração e possa reacender a fé em Cristo. Que todas as celebrações exequiais sejam bem preparadas a fim de proporcionarem um ambiente sereno, profundo e adequado à natureza do mistério celebrado. Cuide-se especialmente das celebrações quando se trata de pessoas mais novas, de situações de morte inesperada ou de pessoas mais visivelmente intervenientes na vida da comunidade cristã. 4. ACOMPANHAR AS FAMÍLIAS ENLUTADAS Acompanhar as famílias enlutadas é uma fase muito importante do todo este processo que requer sabedoria, presença e gestos concretos. Para reforçar esta atitude e dinamismo consideramos necessário estar atento a vários aspetos que possam ajudar os vivos a conviver com a perda de uma pessoa querida. É precisamente com essa finalidade que, de modo sucinto, seguindo de perto Arnaldo Pangrazzi[15], deixamos alguns elementos que nos podem ajudar nesta reflexão: a. Familiarizar-se com todo o processo de luto através de leituras de artigos informativos, de conversas com pessoas especializadas e de diálogos com pessoas que já viveram situações semelhantes. Este conhecimento mais concreto permite acompanhar quem sofre com maior serenidade e com a consciência fundamental de que a própria presença significa apenas companhia na caminhada e não eliminação da dor. b. Evitar frases feitas tão frequentes nestes momentos como ‘procure esquecer’, ‘foi melhor assim’, ‘ele está melhor que nós’, ‘foi vontade de Deus’, ‘só Deus tem os que mais ama’, ‘Deus levou-o’, ‘Deus precisava dele!’, ‘tem sorte, pois tem outros filhos’, ‘coloque uma pedra sobre o passado’, ‘seja forte diante das crianças’, ‘Deus gostava da tua mãe e levou-a para junto d’Ele’, ‘o vosso filho é a flor que desabrocha na primavera da eternidade’... Estas e outras frases feitas podem magoar a pessoa que tentamos consolar, porque não se pode com uma simples frase minimizar o sofrimento decorrente de uma perda nem evitar o vazio afetivo que fica depois da morte de uma pessoa querida. É precisamente nestes momentos que compreendemos que é mais importante saber o que não se deve dizer do que o que se há de dizer. c. Dar espaço aos sentimentos e aos desabafos daquele que sofre sem julgar nem criticar. Um saber ouvir que não procura dar logo respostas a todas as questões levantadas, nem tem a preocupação de resolver todos os problemas sugerindo soluções prematuras. Uma relação de profunda empatia, que diz: ‘é natural que te sintas assim’ em vez de ‘não deves sentir-te assim’, ou ‘a perda do teu marido causa-te profunda tristeza’ em vez de ‘não fiques triste’, ou ainda ‘é duro recomeçar’ em vez de ‘tens que esquecer o que aconteceu’. d. ‘Estar junto de’ através de uma palavra sincera, de um gesto simples, de um silêncio. É preciso valorizar esta presença, de tal modo, que aquele que sofreu a perda se sinta acolhido totalmente como é e na situação em que se encontra. No fundo, uma presença que compartilha a dor e o sofrimento de quem está em luto. Este contacto pode ser feito de várias maneiras: uma visita, um telefonema, uma carta, um e-mail, propor um passeio, convidar para tomar café... Na verdade, com frequência corre-se o risco de se concentrar toda a solidariedade humana no dia do funeral e, depois, quando precisamente o vazio se torna doloroso, essa solidariedade desaparece. Neste manter o contacto revestem-se de particular importância as datas especiais como o dia de aniversário e o natal. e. Cultivar das recordações, através de fotografias e de momentos da vida familiar, dá sentido ao seu amor e, por isso, à dor da sua perda. Nestas fases iniciais do luto, a tendência é de olhar para trás e não para a frente, o que sendo bem orientado, permite encontrar a força que brota do passado para poder encarar o futuro. Quem quer ajudar deve estimular a fazer escolhas construtivas que superem os sentimentos de impotência e depressão em que muitos caem depois da morte de uma pessoa que amam. Aquele que é motivado a olhar em frente começa a crescer, assume a dor e integra-a, sem a evitar ou ignorar, na sua vida. f. Respeitar a diversidade das reações. Há quem reaja a uma perda serenamente e há quem chore desoladamente; há quem sinta necessidade de visitar o túmulo todos os dias e quem não queira voltar ao local; há quem deseje companhia e quem queira ficar só; há quem fique a folhear o álbum de fotografias e quem não as queira ver mais... Quem quiser realmente ajudar não pode determinar o que para o outro é certo ou errado porque cada pessoa tem o seu ritmo e faz o seu percurso – desde que não se caia num ‘luto patológico’. g. Ser um sinal se esperança que ajuda a reagir à dor sem colocar expectativas irreais, que ajuda a olhar para além do sofrimento sem o esquecer, que ajuda a investir a energia no futuro sem escamotear o passado. Ser sinal de esperança é educar para a esperança, transformando cada pequeno passo num estímulo para prosseguir. h. Promover o envolvimento de toda a comunidade no acompanhamento de quem está de luto. Com efeito, o sofrimento de um membro interpela toda a comunidade que se deve mobilizar e tornar presente, principalmente a comunidade cristã. Desde logo, os vizinhos ou os que estão mais próximos afetivamente são desafiados a serem ‘bons samaritanos’ (cf. Lc 10,29-37), a compadecer-se e a cuidar, lutando assim contra a ‘globalização da indiferença’ (cf. EG 54).   II. ORIENTAÇÕES PASTORAIS 1. Que cada unidade pastoral procure anunciar a esperança cristã nos momentos de luto e de dor, desenvolvendo uma pastoral de acompanhamento aos doentes e às famílias enlutadas. Neste sentido, procure-se que, em cada paróquia ou unidade pastoral, haja grupos dedicados a esta missão (ministros da comunhão, visitadores dos doentes, Movimento da Mensagem de Fátima, Legião de Maria, grupos sócio caritativos, irmandades e outros). 2. Estes grupos poderão ser de grande ajuda à comunidade na reflexão sobre a concretização do evangelho da consolação e da esperança: propondo a celebração comunitária do sacramento da unção dos doentes; promovendo tempos de oração, antes e depois da morte; preparando materiais de apoio para os diferentes momentos.   3. Os párocos e os grupos de acompanhamento promovam a cooperação com as capelanias hospitalares e outras instituições (lares, unidades de cuidados continuados e paliativos…), atendendo ao facto de hoje grande parte das pessoas viverem os últimos momentos da vida fora do seu ambiente familiar. 4. Na programação das exéquias procure-se que haja uma articulação harmoniosa entre todos os intervenientes: a família, o pároco e a agência funerária. 5. Proporcionem-se momentos de oração e de vigília durante o velório, respeitando sempre a vontade dos familiares, sem deixar de apresentar a oração como um encontro reconfortante com o Senhor ressuscitado. 6. O velório realiza-se na casa do defunto ou nas casas mortuárias. Não havendo casa mortuária pode realizar-se em capelas onde não se conserve o Santíssimo Sacramento. As casas mortuárias não devem ser designadas como capelas mortuárias uma vez que não são lugares de culto. 7. O levantamento do corpo, do local de velório para a igreja, seja feito pelo ministro ordenado, ou um ministro idóneo indicado pelo pároco, desde logo, os orientadores das celebrações das exéquias. 8. Nas celebrações exequiais, incentive-se uma maior participação da assembleia reunida nos vários ministérios litúrgicos (leitores, cantores e outros), valorizem-se os sinais litúrgicos (o círio pascal, a cruz, o Evangelho ou a Bíblia, o incenso e a água benta) e as procissões sejam dignificadas com a cruz e as lanternas que a acompanham bem como com as Irmandades, caso as haja. 9. Sempre que possível, seja um presbítero ou um diácono a presidir às celebrações fúnebres, admitindo-se que só extraordinariamente seja um ministro leigo designado pelo bispo diocesano. 10. Conserve-se, quanto possível, o costume de celebrar as exéquias com a eucaristia, memorial da páscoa de Cristo em que a Igreja eleva orações de sufrágio pelos defuntos. 11. As exéquias sejam celebradas na igreja paroquial, porque nela se nasce para a vida cristã, nela se alimenta a fé e dela se parte para a casa do Pai. Excecionalmente, dada a localização de alguns cemitérios, admite-se outro lugar de culto mais conveniente. Não se celebrem as exéquias nas casas mortuárias. 12. Valorize-se e recorde-se a dor do luto e a vivência da esperança nas celebrações da comunidade. Neste contexto, sempre que possível, mantenham-se as celebrações do 7º dia, do 30º dia ou ainda do aniversário, sendo estas sempre integradas no calendário habitual das celebrações da comunidade. 13. «A Igreja prefere que se conserve o costume tradicional de sepultar os corpos dos cristãos, porque com este gesto se imita melhor a sepultura do Senhor. Os fiéis têm, contudo, a liberdade de preferir a cremação do seu próprio corpo, sem que esta escolha impeça a celebração dos ritos cristãos»[16]. 14. As cinzas do defunto devem ser conservadas no cemitério[17]. «Em caso algum a urna com as cinzas do defunto poderá levar-se de novo à igreja para a comemoração do aniversário ou noutras ocasiões»[18]. 15. «Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não seja permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar. Exclui-se ainda a conservação das cinzas cremadas sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos, tendo presente que para tal modo de proceder não podem ser adotadas razões de ordem higiénica, social ou económica a motivar a escolha da cremação»[19]. «No caso de o defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das mesmas na natureza por razões contrárias à fé cristã, devem ser negadas as exéquias, segundo o direito»[20].   CONCLUSÃO A dor da morte, para os cristãos, é iluminada pela esperança na ressurreição. De facto, o grande milagre que Deus fez não foi acabar com a nossa morte mas mostrar que a morte não tem a última palavra, não foi explicar o sofrimento mas mostrar como podemos lidar com ele. A verdade é que a fé não protege da dor, mas ajuda a enfrentá-la. A fé não preenche o vazio da perda de um ente querido mas diz que a morte não é o fim… porque o ‘amor é tão forte como a morte’ (cf. Ct 8,6).   Notas [1] Cf. PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, 27. [2] Marie Hennezel, Diálogo com a morte, Lisboa 31999, 11. [3] PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, 48. [4] Cf. Ritual da Celebração das Exéquias, nº 26. [5] PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, 169. [6] Ritual da Unção e Pastoral dos Doentes, nº 5.                                       [7] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 39. [8] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 41. [9] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 42. [10] Cf. Ritual da Celebração das Exéquias, nº 42. [11] Cf. Ritual da Celebração das Exéquias, nº 19. [12] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 2. [13] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 18. [14] Cf. Cf. Ritual da Celebração das Exéquias, nº 17. [15] Cf. A. PANGRAZZI,Conviver com a perda de uma pessoa querida, Lisboa 1999, 147-158. [16] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 149. [17] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Ad resurgendum cum Christo, 25 de out de 2016, nº 5. [18] Ritual da Celebração das Exéquias, nº 152. [19] Congregação para a Doutrina da Fé, Ad resurgendum cum Christo, 25 de out de 2016, nº 7. [20] Congregação para a Doutrina da Fé, Ad resurgendum cum Christo, 25 de out de 2016, nº 8.
DIOCESE DE COIMBRA A INICIAÇÃO CRISTÃORIENTAÇÕES PASTORAIS PALAVRA DO BISPO Por vontade de Jesus, as portas da fé devem abrir-se a toda a humanidade, pois todos são chamados a conhecer o nome de Jesus, a acreditar n’Ele como o Senhor e a encontrarem a salvação que alcançou na cruz. A Igreja sente sempre atual o convite para anunciar o Evangelho e fazer discípulos de todas as nações. Sente-se, por isso, impelida a criar as condições adequadas para a iniciação cristã das crianças recém-nascidas, das crianças que frequentam a catequese, dos jovens e dos adultos, dada a diversidade de situações próprias dos tempos em que vivemos. O objetivo de toda a iniciação cristã é fazer cristãos que, movidos pela fé em Jesus Cristo, assumam, por um lado, a sua condição de pertença à Igreja, Povo de Deus e, por outro, a missão de ser no meio do mundo, sal, fermento e luz. Neste sentido, o mais importante em todo o processo da iniciação cristã é o encontro pessoal com Cristo: um encontro que seduza, apaixone e mobilize a totalidade da pessoa. Por sua vez, os princípios, as regras e as orientações pastorais procurarão favorecer esse caminho de fé iniciado na infância e de forma natural no seio familiar ou noutras idades e de forma inesperada nas variadas circunstâncias dos percursos de vida. Há já bastante tempo que a Diocese de Coimbra sente a necessidade de refletir sobre a iniciação cristã e de definir algumas orientações pastorais relativas à celebração dos sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia. O Conselho Presbiteral quis assumir essa missão e deteve-se longamente sobre este tema, chegando ao presente texto. Esperamos que estas orientações pastorais nunca sejam barreiras para a aproximação à fé em Jesus Cristo nem para a integração livre e feliz na Igreja, mas que sejam sempre um auxílio conducente a uma maior humildade e verdade dos que são chamados a entrar neste grande mistério. As orientações pastorais, que agora apresentamos, procuram ir ao encontro das muitas pessoas de todas as idades que não fizeram a sua iniciação cristã segundo o programa mais comum na Igreja. Numa verdadeira atitude de acolhimento a todos, precisamos de encontrar respostas, caminhos e programas que não deixem de fora nenhum dos que foram tocados pelo desejo de viver a fé cristã. Por sua vez, é urgente que se criem alguns critérios comuns de ação pastoral, pois a disparidade de modelos praticados nas comunidades cristãs, a falta de informação dos fiéis e o individualismo constituem grande dificuldade para os párocos e estão na origem de alguns conflitos muito prejudiciais para a relação entre os fiéis e a Igreja. Coimbra, 03 de julho de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra   INTRODUÇÃO «Quando a comunidade se torna um lugar de comunhão e uma verdadeira família dos filhos de Deus, ela exprime uma força generativa que transmite a fé; onde, pelo contrário, ela cede à lógica da delegação e prevalece a organização burocrática, a iniciação cristã é entendida erroneamente como um curso de instrução religiosa que habitualmente termina com o sacramento da confirmação»[1]. O percurso de iniciação cristã – batismo, confirmação e eucaristia - introduz-nos na profundidade e beleza da experiência da fé. Por estes «sacramentos da iniciação cristã, os homens, libertos do poder das trevas, mortos com Cristo, e com Ele sepultados e ressuscitados, recebem o Espírito de adoção filial e celebram, com todo o povo de Deus, o memorial da morte e ressurreição do Senhor»[2]. «Com efeito, unidos a Cristo pelo batismo, eles são constituídos em povo de Deus e, depois de recebido o perdão de todos os pecados, libertos do poder das trevas, passam ao estado de filhos adoptivos, feitos nova criatura pela água e pelo Espírito Santo, pelo que são chamados e são de verdade filhos de Deus. Assinalados na Confirmação com o dom do mesmo Espírito, são mais perfeitamente configurados ao Senhor e repletos do Espírito Santo, para levarem o Corpo de Cristo, o mais depressa possível, à plenitude, dando testemunho d’Ele no mundo. Finalmente, participando na assembleia eucarística, comem a carne do Filho do Homem e bebem o seu sangue para receberem a vida eterna e exprimirem a unidade do povo de Deus; oferecendo-se a si mesmos com Cristo, participam no sacrifício universal, que é toda a cidade redimida oferecida a Deus pelo sumo sacerdote; e fazem com que, por uma efusão mais plena do Espírito Santo, todo o género humano chegue à unidade da família de Deus. Por isso, os três sacramentos da iniciação de tal modo estão unidos entre si, que, por eles, os fiéis chegam ao seu pleno desenvolvimento e exercem a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo»[3].     I - INICIAÇÃO CRISTÃ DAS CRIANÇAS ANTES DA IDAE DA CATEQUESE 1. Aos pais pertence o pedido do batismo. Procure o pároco em diálogo com eles clarificar e conhecer as motivações e disposições com que fazem o pedido. 2. Atendendo às muito variadas circunstâncias hodiernas, pode aceitar-se, com o consentimento «dos pais ou ao menos um deles, ou quem legitimamente fizer as suas vezes» (Cânone 868 §1), que outrem os substitua no que se refere ao pedido do batismo e à educação cristã da criança: avós, tios, encarregados da educação, membros da comunidade cristã que lhe sejam próximos. 3. «A preparação do batismo e a formação cristã são grande dever do povo de Deus, isto é, da Igreja, que transmite e alimenta a fé recebida dos apóstolos. Pelo ministério da Igreja, os adultos são chamados pelo Espírito Santo ao evangelho, e as crianças são batizadas e educadas na fé da mesma Igreja. Importa muito, pois, que, já na preparação do batismo, os catequistas e outros leigos cooperem com os sacerdotes e diáconos»[4]. Constitua-se, assim, em cada unidade pastoral ou paróquia conforme as circunstâncias, uma equipa de preparação para o batismo que inclua leigos que cooperem com os diáconos e sacerdotes. Tal preparação é dirigida não só aos pais, mas também aos padrinhos sempre que possível (cf. Cânone 851, nº2). 4. «Para que a graça batismal possa desenvolver-se, é importante a ajuda dos pais» (CIC 1255). «Pela ordem da própria criação, o ministério e a função dos pais no batismo das crianças têm prioridade sobre a função dos padrinhos»[5]. Contudo, deve haver quanto possível (cf. Cânone 872) um padrinho e/ou uma madrinha (cf. Cânone 873), «que represente a família do batizando espiritualmente ampliada e a Igreja Mãe, e que, oportunamente, ajude os pais para que a criança venha a professar a fé e a exprimi-la na vida»[6]. 5. Os padrinhos devem reunir as qualidades e condições referidas no Código de Direito Canónico e nos livros litúrgicos. O pároco deve fazer todo o esforço por criar as condições para que tais normas sejam observadas, inclusive fazendo as propostas de formação e de aprofundamento da vida cristã que possam promover tais condições, a saber: a. «tenha sido designado (…) pelos pais ou por quem as vezes destes fizer ou, na falta deles, pelo pároco ou pelo ministro, e possua a capacidade e intenção de desempenhar este múnus; b. tenha maturidade suficiente para desempenhar esta função, o que se presume se já completou os dezasseis anos de idade, a não ser que (…), por justa causa, o pároco ou o ministro entendam que deve admitir-se excepção; c. tenha sido iniciado pelos três sacramentos do baptismo, da confirmação e da eucaristia, e leve vida de acordo com a fé e a função que vai desempenhar; d. não seja o pai ou a mãe do baptizando; e. haja um só padrinho ou uma só madrinha, ou então um padrinho e uma madrinha; f. pertença à Igreja católica e não esteja impedido, pelo direito, de exercer esta função. Todavia, um batizado que não pertença à comunidade católica, e possua a fé de Cristo, pode, se os pais o desejarem, ser admitido juntamente com um padrinho católico (ou uma madrinha católica) como testemunha cristã do batismo (…)»[7]. 6. Muitas pessoas não preenchem estas condições, ocasionando frequentemente tensão na comunidade. Procure-se fazer desta dificuldade objetiva uma oportunidade de aproximação e não de afastamento. Proponham-se itinerários de formação e aprofundamento da fé que ajudem a uma melhor integração na Igreja. São muitas as paróquias que já beneficiam desta atitude de caridade pastoral, constituindo sobretudo grupos de catequese de adultos.   7. Quando não é possível encontrar um padrinho ou uma madrinha idóneos, procure-se que haja ao menos uma testemunha pela qual se possa comprovar a colação do batismo (cf. Cânone 875). De facto, se as pessoas não preencherem estas condições podem ser admitidas apenas como testemunhas. Garanta-se, no entanto, a complementaridade de sexos quer nos padrinhos quer nas testemunhas. 8. «A celebração do batismo deve fazer-se dentro das primeiras semanas após o nascimento da criança. Se falhar totalmente a esperança fundada de que ela irá ser educada na religião católica, o batismo deve ser diferido (…), explicando-se o motivo aos pais»[8].   9. Para manifestar a natureza pascal do batismo, recomenda-se que o sacramento seja celebrado ao domingo e na igreja paroquial onde os pais residem e testemunham a sua fé. 10. «Para todas as crianças (…) deve realizar-se, na medida do possível, uma celebração comum do batismo no mesmo dia. Mas, na mesma igreja e no mesmo dia, não deve celebrar-se duas vezes o sacramento, a não ser por justa causa»[9]. Assim se poderá ver mais claramente que o batismo é o sacramento da fé da Igreja e da agregação ao povo de Deus[10]. Na verdade «é de toda a conveniência que o povo de Deus, representado não só́ pelos padrinhos, pais e parentes mais próximos, mas também, na medida do possível, pelos amigos e familiares, vizinhos e alguns membros da Igreja local, tome parte ativa na celebração do batismo, para que deste modo se manifeste a fé comum e se exprima comunitariamente a alegria com que os neobatizados são recebidos na Igreja» [11]. 11. A iniciação cristã destas crianças completar-se-á observando o itinerário de catequese de 10 anos em vigor, aprovado pela Conferência Episcopal Portuguesa.   II - INICIAÇÃO CRISTÃ DE CRIANÇAS EM IDADE DE CATEQUESE 12. «As prescrições dos cânones relativas ao Batismo dos adultos aplicam-se a todos os que, saídos da infância, alcançaram o uso da razão» (Cânone 852 §1). Estão neste caso as «crianças que, não tendo sido batizadas na infância e tendo atingido a idade da discrição e da catequese, se apresentam para receber a Iniciação Cristã, trazidas pelos pais ou pelos responsáveis da educação, ou vindo espontaneamente com a permissão daqueles»[12]. Por isso, ao iniciarem a catequese, devem ser logo informados do itinerário a fazer com elas e também com a participação dos pais e eventualmente dos padrinhos, e serão integradas nos grupos de catequese da sua faixa etária ou num grupo constituído para esse efeito. 13. Entrando no início do itinerário catequético, a criança percorre os três anos iniciais partilhando tudo o que é comum às crianças já batizadas que se preparam para receber a eucaristia. Se entra mais tarde, o tempo de preparação não será inferior a dois anos, devendo, quer num caso, quer noutro, seguir-se os ritos e etapas propostos no Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA), cap. V, a saber: a. Ritos de admissão, no início do percurso catequético (n. 314 a 329); b. Escrutínio ou rito penitencial, que se celebra na quaresma, se a celebração dos sacramentos for durante as solenidades pascais; de contrário, pode ser realizado noutro tempo mais oportuno (n. 330 a 342); c. Celebração dos sacramentos (n. 343 a 369). 14. Estas crianças celebram, conjuntamente na mesma celebração, os sacramentos do batismo e da eucaristia, diferindo-se a confirmação para o final do itinerário catequético. 15. As crianças já batizadas que cheguem à catequese numa idade superior à prevista no plano nacional de catequese, integrar-se-ão no grupo de catequese da sua idade e farão o itinerário catequético comum recebendo a eucaristia com pelo menos dois anos de catequese. 16. Aquelas que tendo recebido a eucaristia interromperam o itinerário catequético, completá-lo-ão num grupo da sua faixa etária sendo integrados depois no grupo de preparação para o crisma de adultos.   III - INICIAÇÃO CRISTÃ DE ADULTOS 17. «Aqueles que receberam de Deus por meio da Igreja a fé em Cristo, sejam admitidos ao catecumenado, mediante a celebração de cerimónias litúrgicas; o catecumenado não é mera exposição de dogmas e preceitos, mas uma formação e uma aprendizagem de toda a vida cristã; prolongada de modo conveniente, por cujo meio os discípulos se unem com Cristo seu mestre. Por conseguinte, sejam os catecúmenos convenientemente iniciados no mistério da salvação, na prática dos costumes evangélicos, e com ritos sagrados, a celebrar em tempo sucessivos, sejam introduzidos na vida da fé, da liturgia e da caridade do Povo de Deus» (Ad Gentes, 14). 18. Os catecúmenos adultos que vão receber os sacramentos da iniciação cristã são ajudados pela comunidade cristã, especialmente através da formação que lhes é ministrada durante o tempo do catecumenado, para a qual se pode usar quer a catequese de adultos de inspiração catecumenal adotada pela Diocese[13], quer outros planos e subsídios de formação específicos para o catecumenado de adultos devidamente aprovados já existentes[14]. Como a experiência comunitária é fundamental na vida cristã, para isso muito contribui que os párocos proporcionem uma equipa que, em nome de toda a comunidade, cuidará da organização e acompanhamento do catecumenado, em unidade pastoral ou arciprestado, conforme as circunstâncias[15]. 19. O tempo de catecumenado não será inferior a dois anos[16]. 20. Institua-se um percurso diocesano de catecumenado de adultos, sob a presidência do bispo diocesano, que contemple a inscrição, escrutínios e celebração, sendo a formação feita idealmente no arciprestado ou unidade pastoral. De facto, «compete ao bispo por si mesmo ou por um seu delegado, criar, dirigir e fomentar a instituição pastoral dos catecúmenos e também admitir os candidatos à eleição e aos sacramentos. É para desejar que, na medida do possível, presida à liturgia quaresmal, celebre ele próprio o rito da eleição e, na vigília pascal, administre os sacramentos da iniciação»[17]. 21. O adulto não deve ser admitido aos sacramentos da iniciação sem um padrinho, escolhido de entre os membros da comunidade cristã, o qual o ajudará pelo menos na última preparação para o sacramento - desde o rito de eleição - e, após o batismo, contribuirá para a sua perseverança na fé e na vida cristã[18]. 22. Os adultos celebram conjuntamente na mesma celebração os três sacramentos da iniciação cristã. 23. Para os adultos apenas batizados na infância, seja organizado um itinerário catequético de inspiração catecumenal não inferior a dois anos que inclua a preparação para os sacramentos da reconciliação, confirmação e eucaristia, para o que se recomendam os catecismos de catequese de adultos adotados pela Diocese. 24. Os adultos, batizados na infância e que ainda chegaram a receber a eucaristia, mas não o crisma, não tendo podido “fazer de modo nenhum o itinerário diocesano da catequese devem preparar-se para o crisma através de um tempo adequado de formação»[19], tendo como referência o itinerário de preparação para o crisma integrado nos catecismos de adultos adotados pela diocese de Coimbra, com cerca de 26 encontros (anexo I). 25. Uma vez que o objetivo final é “fazer cristãos”, a celebração dos sacramentos deve acontecer numa progressiva integração destes fiéis na Igreja e ser seguida por alguma catequese consequente que conduza e promova a perseverança na vida da fé.   Anexo I Itinerário formativo proposto pelo “Guia Prático da Catequese de Adultos” da Comissão Diocesana da Catequese de Adultos da Diocese de Coimbra, com base no catecismo intitulado “Catequese de Adultos de Inspiração Catecumenal, vol. I, II, III e IV”, editado pelo Secretariado da Coordenação Pastoral da Diocese de Coimbra.   Da etapa pré catequética - Somos experiência! (Volume I, encontro introdutório) - O ser humano, esse grande mistério (Volume I, tema 6)  - “Anunciamos-vos uma grande notícia: Jesus, o crucificado, ressuscitou!” (Volume I, experiência cristã fundamental) Da etapa catequética - Jesus de Nazaré, o Cristo, nosso Salvador (Volume II, tema 6) - Em Jesus encontramos e descobrimos Deus (Volume II, tema 9) - Em Jesus encontramos e descobrimos o Homem (Volume II, tema 10) - Cristão, és um seguidor de Jesus Cristo (Volume III, tema 4) - “Jesus é o Senhor” (Volume II, tema 1) - A Igreja de Jesus, o Senhor (Volume III, tema 1) Da etapa mistagógica - O Batismo. Os batizados, homens e mulheres novos (Volume IV, tema 3) - A Reconciliação, “segundo Batismo” (Volume IV, tema 4) - A Confirmação. O Espírito, eterno companheiro (Volume IV, tema 5) - A Eucaristia. “Memorial” e alimento de vida (Volume IV, tema 7)     Notas [1] Documento final da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, Roma, 3-28 de outubro de 2018, nº 19. [2] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 1. [3] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 2. [4] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 7. [5] Ritual da Celebração do Batismo das Crianças, Preliminares, nº 5. [6] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 8. [7] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 10. [8] Ritual da Celebração do Batismo das Crianças, Preliminares, nº 8, §3. [9] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 27. [10] Cf. Ritual da Celebração do Batismo das Crianças, Preliminares, nº 9 e 10. [11] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 7. [12] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, nº 306. [13] Catequese de Adultos de Inspiração Catecumenal, Diocese de Coimbra, 4 volumes. [14] Catequeses para a Iniciação Cristã dos Adultos, Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima 2016. [15] Cf. Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 7. [16] Cf. XII Sínodo Diocesano, Coimbra 1999, pp. 169-170. [17] Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares nº 44. [18] Cf. Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, Preliminares Gerais, nº 8. [19] XII Sínodo Diocesano, Coimbra 1999, p. 169.  
ABERTURA SOLENE DO ANO PASTORAL 2019-2020MISSA DO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM C Caríssimos irmãos e irmãs!A Abertura Solene do Ano Pastoral constitui um momento de fortalecimento da comunhão da Igreja Diocesana de Coimbra, que é verdadeira Igreja de Deus e quer caminhar na unidade e no amor para melhor manifestar que está alicerçada em Cristo e disponível para a anunciar o Evangelho da salvação.A parábola do homem rico e do pobre Lázaro centra-se na questão da salvação eterna e na necessidade que temos de escutar o anúncio da Boa Nova do Salvador, por um lado, e de realizarmos a missão profética de evangelizar, por outro.Do meio dos tormentos e ao contemplar o pobre Lázaro no seio de Abraão, o homem rico pede-lhe que envie alguém a anunciar a Boa Nova para que todos sejam salvos. “Têm Moisés e os profetas: que os oiçam”, é a resposta que, põe toda a responsabilidade sobre aqueles que, estando neste mundo, podem escutar e anunciar o Evangelho da salvação. Deus enviou o Seu Filho como Salvador, manifestou o seu desejo de salvar por meio d’Ele toda a humanidade e Ele deixou à Igreja a missão de acolher e anunciar. Jesus é o profeta que havia de vir ao mundo e a Igreja, Seu Povo Santo, recebeu a missão de dar continuidade a essa mesma missão profética para que em todos os tempos da história não falte a Palavra e os gestos sempre novos e cheios do Espírito que atualiza e renova todas as coisas.A Igreja de Coimbra é chamada pelo Senhor a acolher a salvação realizada por Jesus Cristo como um dom e a proclamá-l’O corajosamente como o Salvador no tempo em que vivemos, no hoje da nossa história. A Igreja de Coimbra é chamada a ser esse povo de profetas referidos no Evangelho que escutámos e não pode deixar que se perca nenhum daqueles por quem Jesus ofereceu a Sua vida na cruz, ao Pai. Acolher e anunciar a salvação eterna é a nossa vocação e a nossa missão de Povo de Deus.Acontece que a linguagem da fé que hoje utilizamos se tornou uma linguagem muito débil e o seu conteúdo exprime frequentemente apenas uma parte do que significou na tradição doutrinal da Igreja. A salvação quando se reduz a uma dimensão terrena e intramundana fica reduzida à busca do bem estar temporal e perde a sua força bíblica, que aponta sempre para a dimensão eterna, como mostra o texto do Evangelho de Lucas que ouvimos. Pelo seu mistério pascal, Jesus oferece-nos a esperança terrena para vivermos intensamente a vida que agora temos, e oferece-nos a esperança da vida eterna na comunhão com o Deus Trindade que nos criou para a glória. Quando a palavra salvação perde parte do seu conteúdo, esvazia-se a fé em Cristo, desvaloriza-se o Seu sacrifício na cruz, a sua ressurreição torna-se dispensável e o anúncio do Evangelho fica refém da edificação da sociedade terrena.Ao mesmo tempo que acolhemos o dom de Deus que nos salva por meio de Jesus Cristo, manifestamos a nossa disponibilidade para anunciar o Evangelho da salvação a todos os povos da terra, como nos foi pedido pelo Senhor. Tanto a leitura da profecia de Amós, com a sua dura linguagem, como a parábola do Evangelho do rico e do pobre nos fazem um forte apelo à responsabilidade que temos em relação à nossa salvação e à salvação do nosso próximo. Viver na justiça e na caridade constitui, segundo os referidos textos bíblicos, o sinal que havemos de dar ao Senhor, a resposta à graça que nos oferece, a da vida eterna. E nós queremos assumir essa responsabilidade no tempo em que agora vivemos sem desperdiçar a graça recebida e aguardamos na esperança a comunhão com Deus na eternidade. Incluímos na Liturgia da Palavra desta missa solene o texto da Primeira Epístola de S. João, donde retirámos a frase chave que orienta o nosso ano pastoral: “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos” (1 Jo 1, 3).É bem claro para João que nós vimos e ouvimos o Verbo da Vida, Jesus, o Cristo, o Filho de Deus incarnado. É também claro para João que anunciamos a Vida eterna, pois Jesus Cristo é a Vida que estava junto de Deus e se manifestou aos homens.Jesus Cristo é o conteúdo do anúncio profético que somos convidados a fazer. Se não O vimos, O não ouvimos e O não tocámos com as nossas mãos, não podemos anunciá-l’O.Ao mesmo tempo que fazemos a profissão de fé em Jesus Cristo, que é a Salvação e a Vida Eterna, aprendemos que o único método válido para a evangelização é o encontro com Cristo, que nos leva a permanecermos n’Ele, a estarmos com Ele, a experimentarmos a sua presença salvadora nas nossas vidas.Falar da ação pastoral da Igreja é o mesmo que falar da ação conducente a proporcionar às pessoas o encontro salvífico com Cristo; falar de comunicação da fé é, do mesmo modo, falar da comunicação da experiência de vida de pessoas que se sentem salvas por Cristo. Os Apóstolos comunicaram o que viram, ouviram e tocaram acerca do Verbo da Vida; a Igreja só pode comunicar o mesmo Senhor Jesus que a habita, a renova, a santifica e faz dela testemunha da salvação eterna.A linguagem e os meios de comunicação, a ação pastoral, as estruturas organizativas que propomos na nossa Diocese são úteis e válidas se prestam um verdadeiro serviço ao encontro com o Verbo da Vida, se ajudam a entrar com comunhão com Cristo e abrem as portas da Vida Eterna.Interrogamo-nos frequentemente acerca das razões que dificultam ou impedem maior sucesso no crescimento da fé e da vida cristã. Sabemos que se trata de uma questão muito complexa, que tem a ver com a mentalidade do mundo, mas que tem também a ver com o que se vive na Igreja. Não podendo nós mudar o mundo de um momento para o outro, havemos de procurar em primeiro lugar trabalhar em ordem à mudança de nós mesmos e da comunidade eclesial que formamos. Podemos identificar duas grandes debilidades da Igreja que somos e que dificultam a comunicação da fé. A primeira debilidade é a falta de fundamentos teológicos e de profundidade doutrinal e catequética dos cristãos e das comunidades. O pensamento débil também entrou na Igreja e os cristãos vivem na ignorância e na insegurança acerca do conteúdo da fé, desconhecem a Sagrada Escritura e têm muita dificuldade de dar as razões da sua esperança. Abre-se, assim, um imenso campo de ação para a nossa Igreja Diocesana, que há de desenvolver formas adequadas de levar ao encontro com a Bíblia, ao conhecimento da doutrina e ao encontro com Cristo por meio da catequese.A segunda debilidade tem a ver com a falta de meios atualizados para comunicar a fé no mundo atual. Sofremos da falta de criatividade e da pouca capacidade de inovação; usamos linguagens e métodos que já não produzem adesão à fé e não têm capacidade para a apresentar de forma atrativa e vital. Também neste capítulo se abre um mundo novo de propostas que o Espírito tem vindo a suscitar e que havemos de usar adequadamente na fidelidade à Tradição viva de uma Igreja sempre aberta à renovação. “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos”. Que este ano pastoral seja rico no enraizamento em Cristo por meio da liturgia, da evangelização e da catequese, do encontro com a Palavra de Deus, da espiritualidade e da oração; que sejamos ousados na renovação da linguagem e na utilização dos meios adequados para comunicar Jesus Cristo e a fé que nos salva.Acompanhe-nos a Virgem Maria, que viu, ouviu, tocou o Verbo da Vida com amor. Seja Ela a acompanhar-nos na missão de O anunciar. Coimbra, 29 de setembro de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra  
ANIVERSÁRIO DA BATALHA DO BUÇACO - 2019 MISSA DA MEMÓRIA D S. VICENTE DE PAULO Caríssimos irmãos e irmãs! Estamos a celebrar o aniversário da Batalha do Buçaco, um episódio triste da história da humanidade. Juntamente com tantos outros acontecimentos similares ou diferentes é sinal da desordem existente no mundo quando falta o amor e o respeito pelos outros, pessoas ou instituições, ideias ou valores, quando falta o respeito pela natureza, quando falta o respeito por Deus. A coincidência deste dia com a memória de S. Vivente de Paulo, um homem e um cristão que deu a sua vida na prática das obras de misericórdia e na ação concreta em favor do seu próximo, concretamente, dos mais pobres, levanta a bandeira da caridade como atitude fundamental que nos define enquanto pessoas. Na fidelidade à sua humanidade e à sua fé cristã, seguindo os apelos da sua consciência e do Evangelho de Jesus, compreendeu que a única via para construir uma sociedade em que todos tenham um lugar é avia do amor. Saiu do círculo vicioso da preservação dos seus direitos e privilégios para se ocupar dos outros, de cada pessoa, daqueles que não tinham nada nem ninguém que os socorresse e precisavam de mãos e corações abertos para os fazer sentir-se amados e queridos por alguém. Nas ruas da grande cidade povoadas por homens e mulheres deserdados, vítimas de si mesmos ou dos outros, levou uma centelha de luz e de esperança com a generosidade das suas mãos e o calor do seu coração. As obras de caridade foram as suas armas e a caridade foi o seu cartão de identidade. Acolheu com realismo a grande máxima do Apóstolo, “Deus é caridade” e incarnou-a na sua vida, mostrando a todos que, afinal, a “Humanidade também é caridade” ou acaba por não ser nada. Em vez de pregar com palavras a misericórdia como um imperativo da razão ou da consciência, optou por mostrar Deus como rico de misericórdia e a humanidade como vocacionada a ser imagem de Deus, precisamente pela misericórdia, que é a coroa da justiça. Segundo o texto do Evangelho, Jesus, ao ver as multidões, encheu-se de compaixão por elas porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Não é difícil, mesmo para quem tem a tendência para o otimismo, descortinar no horizonte as fadigas e sinais de abatimento interior das pessoas bem como os efeitos da desorientação das sociedades e dos povos. Felizmente também temos a possibilidade de ler os sinais dos tempos e de descobrir as portas de esperança que sempre se nos abrem. O nosso tempo é pródigo na oferta de sintomas de uma luta entre bem e mal, justiça e exploração, continua a ser lugar de confronto entre a guerra e a paz, o amor e o ódio. É preciso e é urgente termos a lucidez para escolher, ancorados numa consciência reta, numa sabedoria que está inscrita na nossa condição humana, vocacionada para  a liberdade. Esta não existe se não está vinculada ao respeito pela igual dignidade de todos ou, como dizia a Primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios, à sabedoria de Deus, que é justiça, santidade e redenção. Este lugar de silêncio e de contemplação em que nos encontramos pode ser símbolo da paz que desejamos para todos e que estamos dispostos a construir. A sociedade que formamos precisa de sinais dessa paz e o planeta em que habitamos não tolera mais o som ruidoso da guerra entre os irmãos, nem os gritos de horror que tem ouvido ao longo dos séculos. O convento do Buçaco, lugar de habitação dos homens, a natureza que o envolve, sinal da grandeza do Criador e a espiritualidade do amor e da fraternidade universal aqui pregadas, levantam-se sempre de novo como baluartes de um paraíso desejado, mas constantemente ameaçado pelo vírus da desorientação das mentes e dos corações. A seara de que fala o Evangelho e que é o mundo que nós somos, precisa de trabalhadores, homens e mulheres disponíveis para darem o primeiro passo, para irem e se olharem nos olhos como irmãos, para se curvarem humildemente uns diante dos outros a fim de curarem todas as suas doenças e enfermidades. A seara que é o mundo será construção de todos, povos e nações, todos pequenos irmãos diante da grandeza de Deus que é tudo e diante do qual nenhuma criatura se pode gloriar, pois é o único a quem pertence toda a honra e toda a glória, porque é amor. Este lugar do Buçaco encerra em toda a sua história um forte apelo àquilo a que o Papa Francisco, na Carta Encíclica Laudato Síi, chamou a ecologia integral. Já a Bula do papa Urbano VIII decretando a plantação de árvores e a proibição de as abater neste lugar, neste “monte santo”, se fazia eco do respeito pela natureza, sinal do respeito reverencial pelo Deus Criador e pela humanidade, que tem o direito a ser feliz nesta casa comum. O papa Francisco, referindo-se a S. Francisco de Assis diz que “Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (LS 10). Trata-se de um tema de extrema atualidade, não só porque o planeta em que habitamos corre sérios riscos de degradação, mas sobretudo porque a pessoa é esquecida e fica frequentemente refém dos interesses desmedidos, da cobiça, dos mecanismos económico-financeiros que matam e dos ferozes atropelos à sua dignidade humana. Também hoje se põe-se em causa a paz pessoal, a paz social, a paz com a natureza e a paz com Deus; também hoje se minam os fundamentos do bem estar pessoal e comunitário, material e espiritual. Que a nossa celebração seja um hino de gratidão a Deus pelo seu amor à humanidade que criou e redimiu, um hino de gratidão por todos os que acolhem com alegria a missão de ser construtores da paz. Buçaco, 27 de setembro de 2019Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra