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Faleceu o Cónego João Coutinho Veríssimo Partiu para a Casa do Pai o Reverendo Cónego João Coutinho Veríssimo, pároco se São Julião da Figueira da Foz e de Tavarede. O Padre João Veríssimo nasceu a 19 de Agosto de 1937 na Vinha da Rainha, Concelho de Soure. Foi ordenado de presbítero na Sé Nova de Coimbra a 28 de Julho de 1963, por D. Ernesto Senna de Oliveira. O funeral realiza-se amanhã, dia 3 de Agosto pelas 11h00, na igreja matriz da Figueira da Foz. A missa exequial será presidida pelo senhor Dom Virgílio Antunes, realizando-se de seguida o funeral para o cemitério Oriental, na Figueira da Foz. Paz a sua Alma!  
MISSA DA BÊNÇÃO DAS PASTAS - 2020CAPELA DE SÃO MIGUEL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRAXVII DOMINGO COMUM A Caríssimos irmãos e irmãs! Quiseram as circunstâncias que este ano a bênção das pastas tivesse um modelo diferente do habitual, com tristeza para muitos finalistas da Universidade de Coimbra e do Ensino Superior desta cidade. Viram-se igualmente os vossos pais e outros familiares privados de um dia de festa e altamente significativo para a história do seu cuidado em relação aos filhos, a quem amparam em tudo e também no seu percurso académico, preparação para uma vida, que desejam seja cheia de bênçãos e feliz. Permitam que faça também uma referência especial aos vossos avós, esse reduto incomparável de ternura, não somente por ser hoje o dia de S. Joaquim e Santa Ana, mas sobretudo porque eles vêm em vós, seus netos, o fruto da fecundidade das suas vidas,  acompanham-vos sempre com o seu amor amadurecido e provado, todos os dias rezam a pedir a Deus a bênção para a família, mas sobretudo a pedir a bênção para vós. Pedem, com toda a certeza, neste dia, a Deus, a bênção das vossas pastas, o mesmo é dizer, a bênção das vossas vidas, e invocam, de todo o coração, a proteção da Imaculada Conceição, a padroeira da Universidade de Coimbra, para o vosso percurso futuro. Também nós, aqui reunidos na capela de S. Miguel, docentes e alunos, autoridades académicas e familiares, representando todos os outros que gostariam de aqui estar e em comunhão com eles, pedimos a Deus que vos abençoe e à Imaculada Conceição, a Virgem Santa Maria, que vos proteja em todos os vossos caminhos. Aos que nos acompanham pela transmissão televisiva deixamos a certeza de que os temos bem presentes e pedimos que aceitem o sacrifício de aqui não estar fisicamente como um sinal do cuidado que todos temos de ter uns para com os outros, um sinal da atitude de respeito e de serviço que queremos como marca da nossa fé e da nossa humanidade. Tendes a graça de frequentar boas escolas, que vos oferecem a possibilidade de desenvolver os vossos dotes naturais e de progredir intelectualmente, realizando assim os sonhos de uma vida. Umas vezes de forma responsável e séria, como tantas vezes vos pediram em casa e na academia, outras vezes, porventura, desperdiçando oportunidades e capacidades, podereis ter cedido ao facilitismo de deixar correr o tempo e de permitir verdadeiros hiatos num percurso de vida em que todos os momentos e todas as fases são essenciais para a construção do grande edifício, da mais importante obra, que sois vós. Hoje, é também o dia de reconhecer grandezas e debilidades, é também o dia de um compromisso adulto e responsável em ordem ao futuro. A história de cada pessoa contempla aspetos muito diversos, altos e baixos, mas deve comportar também a capacidade de corrigir objetivos, metas e erros, o desejo de se ancorar mais profundamente no sentido de construir personalidades mais completas, bem enquadradas pessoal e socialmente, decididas a ser um contributo feliz para toda a comunidade humana. A escola, a academia, constituiu elemento estruturante do que sois. O percurso no caminho do conhecimento intelectual de caráter humanista, científico, tecnológico, enquanto possibilidade de desenvolvimento dessa dimensão humana que é a razão, dá-vos uma capacitação, que de outra forma não poderíeis ter. Seríeis, no entanto, meros tecnocratas, talvez extensas bases de dados se, ao mesmo tempo, não desseis lugar a um coração inteligente de que falava o Livro dos Reis. Também essa é dimensão igualmente essencial na construção de toda a pessoa. A Sagrada Escritura chama-lhe sabedoria, enquanto capacidade de distinguir o bem do mal, para poder discernir o que é bom e o que é justo, e livremente, seguir por aí. Nesta celebração, que é também de gratidão, agradecemos-vos tantos sinais de sabedoria que manifestais e que caraterizam a vossa condição juvenil, quando sois capazes de sonhar para além dos desejos imediatos de longa vida, de riqueza, de competitividade, de poder, e acalentais a esperança de ser pessoas sábias e esclarecidas que querem respeitar, servir e amar o seu próximo. Agradecemos a vossa determinação e o vosso esforço no sentido de tornar o mundo melhor, confrontados como sois diariamente com inúmeros sintomas de vazio, de egoísmo e de injustiça que, energicamente e bem, reprovais. Pedimos a Deus e pedimos-vos também a vós que o desfazer-se da juventude e o embrenhar-se nas atividades futuras e na dureza da vida não venham a tornar-vos insensíveis e desprovidos de um coração inteligente, tornando-vos incapazes de distinguir o bem do mal e fazendo de vós autênticos reféns da cultura do “vale tudo”. Pedimos que com o passar dos anos não deixeis definhar por inanição e envelhecimento as sementes de bondade e verdadeira sabedoria que Deus pôs dentro de vós, que a vossa família vos comunicou e que o conhecimento adquirido na escola ajudou a esclarecer. Quando o Evangelho de Jesus nos fala do tesouro escondido no campo pelo qual está disposto a vender tudo quanto possuía, está a ensinar-nos que nada há de maior e melhor do que uma vida edificada no amor e na justiça. Ela exige escolhas em tudo: em primeiro lugar a escolha pela vida pessoal e dos outros; em segundo lugar o modo como a sonhamos e os valores que a preenchem. Deus, é sem dúvida a maior decisão que se nos impõe, pois concentra em si as respostas a todas as perguntas que nunca nos abandonam acerca do que somos e das linhas chave que nos orientam. Tanto a pessoa mais simples e iletrada como aquela que progrediu nos caminhos da razão e da ciência, transportam em si esse tesouro, que importa conhecer, descobrir e trazer para a vida. Quando fazemos a experiência de conhecimento e encontro pessoal com Ele por meio de Jesus Cristo, compreendemos o que dizia a Epístola aos Romanos: “Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam”. Mesmo no meio de todas as debilidades e turbulências que nos podem afetar profundamente e transtornar o curso da humanidade, fica-nos a certeza de que Deus é o tesouro que nos leva a reorientar tudo para permanecermos n’Ele e na busca do Seu Reino. Numa perspetiva mais concreta e no confronto com a realidade quotidiana, uma pessoa bem formada nos valores do Reino, confronta-se com a necessidade de decidir onde e como gastar a vida. Há campos em que as fronteiras são muito ténues, pois o confronto entre os objetivos a alcançar e os meios a utilizar fazem a diferença: a economia pode matar ou ser serviço ao bem de todos; a política pode ser lugar de poder ou ato de doação em favor da comunidade; o trabalho pode ser lugar de realização ou de confronto e luta feroz pelo domínio dos bens materiais; a escola pode ser espaço de crescimento na autonomia e nos valores ou laboratório de autómatos; a família pode ser lugar de partilha de vida ou campo de batalha de disputa de direitos; até a religião pode ser caminho de alienação ou de libertação. Fica-nos a certeza de que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam. Este pode ser o lema fundamental da vida de cada jovem que agora entra no mundo após a sua formação académica: concorrer em tudo para o bem dos que Deus ama, isto é para o bem de todos, sabendo que é preciso começar pelos que estão ao nosso lado. Este pode ser o tesouro escondido que nunca deixareis de procurar, sem desistências e com humildade. A sociedade espera isso de vós e a bênção de Deus, que, hoje invocais será a vossa força e consolação. Coimbra, 26 de julho de 2020Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra  
ORDENAÇÃO DE PRESBÍTEROS DA COMPANHIA DE JESUSXIV DOMINGO COMUM ASÉ NOVA – COIMBRA Caríssimos irmãos e irmãs! A ordenação sacerdotal é sempre um momento alto da vida da Igreja. É uma nova esperança que se abre para que os fiéis sejam confortados, fortalecidos e animados na fé. Os cristãos sentem a necessidade de pastores que os ajudem a fazer o caminho árduo, mas feliz, do seguimento de Cristo e do testemunho no meio do mundo. A celebração do Sacramento da Ordem teve várias roupagens ao longo da história da Igreja e a vivência do sacerdócio ministerial teve muitos contornos concretos. Tendo em conta todo o caminho que nos precede, nós não cessamos de procurar ir às fontes da fé, à Pessoa de Jesus Cristo, ao sentido mais profundo dos seus gestos e da sua vontade, pois aí encontraremos a possibilidade de ser a Igreja que Deus quer, os sacerdotes segundo o coração de Deus, os discípulos que seguem o Mestre. Por sua vez, não cessamos de estar profeticamente atentos a tudo o que se passa e se vive à nossa volta, na comunidade humana e na Igreja, pois o sacerdócio ministerial que o Senhor concede à sua Igreja, é para ser vivido neste tempo de graça, que é o nosso. O Espírito Santo, de muitas formas, mas particularmente por meio do Magistério da Igreja, tem-nos levado a acolher os maiores desafios para o nosso tempo. “Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da terra...”. Palavras de Jesus, que manifestam a gratidão infinita e o louvor que brotam do seu coração de Filho, que tudo recebeu do Pai. A resposta de Jesus ao amor do Pai é gratidão e é louvor dos lábios, do coração e da vida, que comporta o compromisso do entendimento, da vontade, da liberdade, ou seja o compromisso total de Si mesmo, como tão bem sintetizou Santo Inácio de Loyola. A gratidão a Deus é uma das marcas mais fortes da vida do padre. Parece uma coisa simples, quando a reduzimos a um conjunto de palavras ou de frases ditas de louvor e de ação de graças ou até a uma única palavra carregada de sentido, um obrigado. As orações dos cristãos podem estar carregadas de palavras e vazias de compromisso. As poucas palavras orantes de Jesus, “Eu Te bendigo, ó Pai”, são palavras de louvor agradecido, que levam consigo o reconhecimento do amor do Pai e o compromisso assumido de dar a vida, como suprema palavra de gratidão. A gratidão de Jesus tem um conteúdo muito sério e profundo: é compromisso de realizar sempre e em tudo a vontade do Pai. Levou-O a oferecer a própria vida pelos irmãos, sem reservar nada para si. A escola dos discípulos seguiu pelo mesmo caminho: depois daqueles momentos fundantes da vocação de cada um, marcados pela alegria e até pelo entusiasmo de seguir Jesus, cresce o sentido da gratidão por tão grande dom, mas sempre acompanhado do desejo de viver o compromisso na fidelidade, que leva a dar a vida. Muitas vezes nos interrogamos acerca do significado das expressões teológicas que falam da configuração do sacerdote com Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja. Podemos ficar-nos pela consideração de aspetos espirituais, formais, orgânicos ou outros, que estão, com certeza incluídos no vasto leque de significados. Não podemos deixar de fora a força de amor agradecido de Jesus ao Pai, que se manifesta no compromisso de fidelidade plena: Pai, sempre e em tudo a Tua vontade. Quando a gratidão e o louvor compreendem o compromisso, não se corre o risco de encerrar o padre ou os cristãos em geral, mas abrem-se sempre as portas do anúncio integral da Boa Nova, com palavras e com a vida. Trata-se de um compromisso que tem contornos muito concretos e que tem como horizonte de concretização a comunidade cristã na sua abertura universal ao mundo criado por Deus e à humanidade pela qual Cristo ofereceu a Sua vida. Outra marca forte da vida do padre e da sua configuração com Cristo, é o serviço. Quem é chamado a tocar o coração de Deus, é igualmente chamado a tocar o coração da humanidade e a revelar aos pequeninos os caminhos do alívio e do descanso para as suas almas. Tocar o coração de Deus e tocar o coração dos homens é o serviço de Jesus e daqueles que O seguem e se configuram com Ele. A capacidade de conhecera  humanidade com todos os seus cansaços e opressões, mas também com as suas alegrias e esperanças, supõe o discernimento adequado, verdadeiro dom do Espírito que recebemos, como referia a Epístola aos Romanos. A imposição das mãos e a unção com o óleo do Crisma garantem a força sacramental do Espírito Santo e enviam para o serviço aos irmãos, na humildade de quem acredita que tudo recebeu para tudo poder dar. Ao apresentar a chegada do Rei justo e salvador, montado numa jumentinha, a destruir os carros de combate e os cavalos de guerra, a quebrar o arco da guerra e anunciar a paz às nações, o Profeta Zacarias está a traçar o modo de ser do Messias, o modo de ser dos discípulos e da própria Igreja que O acolhe. Pode continuar a discutir-se acerca do modo como há de a Igreja de hoje realizar a sua missão ou acerca do estilo de padre de que ela tem necessidade para servir a causa do Evangelho. Iluminados pelo Espírito, chegamos sempre à conclusão de que a via do serviço que somos chamados a prestar à humanidade é a via do coração manso e humilde, mais uma vez, autêntica configuração com o coração de Jesus Cristo. A humanidade de hoje busca tanto ou mais a Deus que a humanidade de outras épocas. Porventura de formas diferentes e dando outros sinais, que é preciso conhecer por meio do estudo, do diálogo e da relação humana fundada num amor autêntico a todos aqueles que Deus põe no nosso caminho. É a esta humanidade, com características peculiares, que somos chamados a servir. Temos em conta os seus problemas de falta de sentido para a vida, as suas idolatrias, porventura o seu materialismo e os seus egoísmos, a secularização, mas temos em conta também as suas aspirações espirituais e os seus anseios mais profundos. Nada do que é humano e com todos os seus contornos atuais nos pode ser alheio, pois queremos ser padres deste tempo e sacerdotes, verdadeiros servidores da graça, no contexto em que nos encontramos. Acreditamos que há uma palavra e uma resposta para os anseios de cada pessoa e de toda a humanidade, que tem um nome: a pessoa de Jesus Cristo. Conhecemos o caminho para O encontrar e para O propor: aquilo a que o Papa Francisco, na Evangelii gaudium, chamou “a suave e reconfortante alegria de evangelizar” (10). Este é o nosso serviço manso e humilde: Evangelizar “o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança”, mas que espera sempre, “receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo”, como referira já o Papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi (80). Estar na Companhia de Jesus significa acolher uma graça específica e assumir um modo particular de viver a gratidão e o louvor, de realizar o serviço da evangelização, ou seja, de entrar no coração de Deus e de entrar no coração da humanidade. Acolhendo a riqueza e a complementaridade dos carismas que Deus concede à Sua Igreja, tendes a missão irrenunciável de ser padres à maneira dos apóstolos, comprometidos com um modelo de evangelização integral, que compreenda o seu caráter sacerdotal como serviço da fé e promoção da justiça, diálogo com a cultura e o cuidado da nossa casa comum (cf P. João Norton, site Ponto SJ). Entrai, por isso, cada vez mais no coração de Deus, entrai no coração da humanidade e procurai, à maneira de Santo Inácio, acolher o amor e a graça de Deus, restituindo tudo no serviço aos irmãos, sabendo que isso vos basta. Coimbra, 05 de julho de 2020Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra
SOLENIDADE DE SANTA ISABEL DE PORTUGAL – 2020SANTA CLARA A NOVA Leituras: Is 58, 6-11; 1Jo 3, 14-18; Mt 25, 31-46 Caríssimos irmãos e irmãs! Fomos contemplados com a graça de ter em Coimbra das figuras mais insígnes de Portugal, que são ao mesmo tempo das mais queridas da Igreja de Deus presente na Diocese de Coimbra. Santa Isabel e Santo António são, sem dúvida duas delas, que foram elevadas à honra dos altares e que se distinguiram pela adesão incondicional ao Evangelho. Continuarão para sempre a ser modelo de vida e das virtudes humanas e espirituais, que defendemos, procuramos assimilar e testemunhar no meio de um mundo tão carecido de verdadeiros líderes, capazes de mobilizar a comunidade em geral e os cristãos, em particular, para o sentido de Deus e da autêntica cidadania. Trata-se de verdadeira santidade, que conjuga a fé em Deus com o amor ao próximo, completando, assim o leque de caraterísticas capazes de ajudar verdadeiramente a mudar a face da terra. Quando se vivem tempos tão difíceis e situações de tão grande falta de valores humanos, e numa sociedade tão pobre de vozes que se façam ouvir com amor e verdade, precisamos de olhar atentamente para os maiores expoentes que, afinal são da nossa terra, e continuam a testemunhar a força inscrita no mais profundo de cada pessoa que se deixa seduzir e alicerçar no poder de Deus. A sociedade que agora somos corre o risco de entronizar e cumular de glória pessoas e realidades que nada têm a dizer de perene, deixando na sombra outras que manifestaram com a oferta da sua vida a profundidade e a grandeza da humanidade, que crê, que adora, que espera e que ama. De modo especial, os jovens precisam de modelos de vida, que não os centrem exclusivamente na busca de respostas momentâneas e frágeis para o seu dia a dia, mas que lhes ofereçam a possibilidade de considerar com consciência e responsabilidade o sentido cabal da sua existência. Quando não temos mais para oferecer aos jovens senão modelos centrados no desejo incontido de sucesso, na luta pelo bem pessoal ou na conquista do poder por meio do conhecimento, da economia, do trabalho, estamos a edificar uma sociedade que se corrói por dentro. Porque acreditamos que é possível edificar um mundo melhor e conhecemos o caminho a partir do Evangelho e dos seus mais autênticos seguidores, estamos aqui a celebrar a Solenidade de Santa Isabel de Portugal, com o coração agradecido, por um lado, e disponível para acolher o seu testemunho, por outro. O Evangelho de Jesus foi sempre uma força arrebatadora e capaz de transformar o mais íntimo de cada pessoa que se deixou tocar por ele. Quando se conhece e se assimila de verdade, oferece uma alegria diferente e um sentido radicalmente completo à vida de uma pessoa, mesmo que com toda a clareza contrarie aquilo que são alguns dos sonhos mais fúteis da mente humana. O Evangelho faz passar dos sonhos pequenos, fechados e até mesquinhos, às realidades mais nobres que se aninham na alma dos seduzidos por Deus. Em Coimbra, temos a graça de ter rostos vivos do Evangelho, que continuam a mostrar-nos por onde ir e que ainda não valorizámos suficientemente. Santo António, figura ímpar da nossa história, cujo jubileu estamos a celebrar, sendo já homem culto e inflamado pelo Evangelho de Deus quando chegou à nossa cidade, não se resignou diante do caminho já feito. Ao ter conhecimento do modo como os Mártires de Marrocos tinham dado a vida, compreendeu melhor o que significa amar a Deus e amar o próximo – significa dar a própria vida. “Nós sabemos que passámos da morte para a vida porque amamos os nossos irmãos”, dizia a Epístola de S. João. O seu desejo de partir para anunciar o Evangelho não tinha outra motivação senão a de manifestar o seu amor pelos irmãos para os quais conhecer o Senhor e amar como Ele os seus irmãos significa passar da morte para a vida. As circunstâncias em que se fez uma luz mais brilhante na sua alma não deixam de ser admiráveis e esclarecedoras da sua incondicional afeição por Jesus e pela Sua mensagem única. Em primeiro lugar a contemplação das relíquias dos mártires, numa aparente contradição, mas uma ocasião de graça que lhe fez abrir os olhos para outras realidades. Quis amar a Deus até à morte, não por desejar a morte, mas por querer dar tudo à semelhança de Jesus, o Mestre. Em segundo lugar, e igualmente um aparente contrassenso, deixa-se impressionar pelos Frades da Ordem dos Menores Franciscanos que, vivendo junto à ermida de Santo Antão – Santo António dos Olivais – chegam ao Mosteiro de Santa Cruz a pedir esmola. Numa clara iluminação acerca do sentido da fé e da vida, deseja identificar-se com eles, não lhe bastando as seguranças espirituais, humanas e materiais que o Mosteiro lhe oferecia. Quer amar os irmãos sem reservas, de tal modo que a pobreza o seduz, não por querer a pobreza para ninguém, mas por desejar estar sempre ao lado dos pobres, com o pão para a boca e a esperança para o coração. Na sua vida fazem-se eco claro as palavras da Epístola de S. João: “Se alguém possui bens deste mundo, e, ao ver o seu irmão passar necessidade, lhe fecha o coração, como pode estar nele o amor de Deus?” Sempre que lemos o texto do Evangelho segundo S. Mateus, que hoje foi proclamado, pensamos em muitas pessoas anónimas que se identificam com as palavras de Jesus: “Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes”. Conhecendo a biografia de Santa Isabel de Portugal, não podemos deixar de pensar nela como alguém que tomou como paixão da sua vida o cumprimento desse projeto: “tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber...” Também ela sentia o coração arder de amor a Deus, a ponto de deixar as seguranças da corte, do poder e da riqueza, para se dedicar a uma vida de oração e contemplação, à maneira do seu tempo. Não podia, no entanto, separar na sua vida o que não se pode separar no coração e na fé: os pobres, os doentes, os frágeis da sociedade, as pessoas, constituem igualmente a sua paixão, porque a fé leva às obras, Deus leva sempre a olhar para os homens e mulheres, próximos e semelhantes. Santa Isabel responde com a sua vida aos gritos interrogativos do profeta Isaías: “Não será este porventura o jejum que me agrada: repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?” Ela não foge do mundo para se dedicar a Deus, mas ao dedicar-se mais de Deus aproxima-se ainda mais do mundo, realizando assim admiravelmente a unidade de vida que é vocação de toda a pessoa e que o Evangelho preconiza. A nossa devoção a Santa Isabel constitui um forte auxílio para que a nossa vida se funde em Deus como a sua, para que acolhamos o Evangelho de Jesus como o nosso caminho e para que partilhemos com a humanidade o mesmo sonho de amar com a oferta da própria vida. Havemos de aprofundar constantemente as respostas às perguntas fundamentais que põe cada pessoa e não nos podemos contentar com as banalidades a que a nossa comodidade egoísta facilmente nos habitua. Que a nossa luz brilhe na escuridão unida à luz de Deus, como referia a leitura de Isaías. Que a santidade e a unidade de vida com todas as suas consequências pessoais e sociais seja a nossa marca distintiva como foi a de Santo António e de Santa Isabel, a iluminar as noites da nossa cidade. Coimbra, 04 de julho de 2020Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra
Recomeçar e reconstruir Reflexão da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a sociedade portuguesaa reconstruir depois da pandemia Covid-19 1. Estamos a viver uma experiência inédita para as nossas gerações, mas que marcou muitas outras gerações ao longo da história. Esta mostra-nos que calamidades naturais com a dimensão da que hoje experimentamos produziram profundas transformações culturais, sociais, políticas e económicas. O trabalho de reconstrução que se sucedeu a essas calamidades naturais, mas também a outras que foram fruto da ação humana, como guerras de grande dimensão, pode colher as lições que delas se podem extrair e ser uma ocasião para começar de novo e repensar os alicerces em que assentava a sociedade onde essas calamidades se geraram. Os desafios que se colocam depois da pandemia Covid-19 são semelhantes: os de colher as lições que dessa pandemia podem retirar-se e de repensar as bases em que assentam as nossas sociedades, não desperdiçando o que elas têm de positivo e corrigindo as suas disfunções e injustiças. É um pequeno contributo nesse sentido que queremos dar com esta reflexão. Num contexto excecional: não fazer da exceção regra 2. Importa salientar que essa tarefa de reconstruir as nossas sociedades em novos alicerces não poderá ser ditada por alguma forma de determinismo impulsionado pelas exigências colocadas pela necessidade de evitar novos surtos da pandemia. Há opções a tomar que devem ser orientadas por critérios éticos, para além dessas exigências. 3. Há que distinguir entre exigências de curto prazo e excecionais e o que são opções de mais vasto alcance. Assim, por exemplo, algumas privações da liberdade individual e da privacidade, ou o fecho de fronteiras, poderão ser admissíveis num contexto excecional, mas não deverão tornar-se regra ou passar a ser encaradas com mais fácil tolerância. Certas práticas aconselháveis num contexto de risco de novos surtos da pandemia, como o menor uso de transportes públicos e a redução de contacto presenciais ou de contactos sociais em geral, por exemplo, também não devem estender-se para além desse contexto excecional. A solução de recurso do ensino à distância veio acentuar desigualdades, pois nem todas as famílias dispõem dos necessários meios informáticos, nem da capacidade de suprir funções que são próprias dos professores. É bom que estejamos atentos a estas questões, para que não caiamos no erro de construir uma nova sociedade que destrói algo do que a anterior tinha de bom. 4. Mas também há aspetos a reter numa perspetiva de futuro, como verdadeira lição, da experiência excecional que temos vivido. Assim, por exemplo, o recurso mais frequente ao teletrabalho pode permitir uma mais fácil conciliação do trabalho com a vida familiar ou evitar deslocações com o inerente custo ecológico e económico. Esse custo ecológico e económico, incluindo o de viagens aéreas, também pode ser evitado com as mais frequentes comunicações e reuniões por via telemática. Até certo ponto e sem que os contactos presenciais deixem de ser, em várias situações, imprescindíveis, estes contactos têm-se revelado eficazes e a comunicação até se tem intensificado. O valor inestimável de cada vida humana 5. Uma lição prioritária que da tragédia desta pandemia podemos colher é a do que ela representa como redescoberta do valor inestimável de cada vida humana. A opção com que todos os governos foram confrontados foi precisamente esta: que valor tem a vida humana e que sacrifícios estão as nossas sociedades dispostas a assumir para salvaguardar vidas humanas. E, sem que tal não tenha deixado de ser objeto de controvérsia, mais ou menos explícita, até em âmbitos políticos e académicos, a resposta foi a de que esse propósito de salvaguardar vidas humanas prevalecia sobre os maiores sacrifícios não só nos planos da liberdade e do bem-estar pessoal, mas, sobretudo, nos planos económico e social. O confinamento, com todas as limitações que acarretou, salvou, de facto, muitas vidas humanas no nosso país. 6. Entre nós, a primazia desse objetivo de salvar vidas humanas foi consensualmente aceite por pessoas de várias orientações e esse é um facto a registar positivamente. É natural, porém, que à medida que se forem sentindo com mais intensidade os efeitos da crise social e económica, surjam vozes a questionar a opção que foi tomada, talvez não tanto pela primazia que foi dada ao objetivo de salvaguardar vidas humanas, mas porque se questiona se não haveria alternativas menos gravosas. Importa nunca esquecer, mesmo quando a crise se intensificar, ou mesmo que se questione se não haveria alternativas menos gravosas, que a salvaguarda de vidas humanas permanece um objetivo prioritário que dá sentido aos sacrifícios por que estamos a passar; podemos mesmo dizer que só esse objetivo poderá dar sentido a esses sacrifícios. 7. Importa ainda sublinhar que a crise pode, em larga medida, ser enfrentada, no que de mais dramático encerra, com um esforço acrescido de solidariedade, também ele sem precedentes. A morte não teria remédio, a crise poderá tê-lo nos seus aspetos mais dramáticos com esse esforço acrescido e inédito de solidariedade. Sem a solidariedade efetiva nunca conseguiríamos vencer esta crise. A riqueza da vida dos idosos 8. Importa também sublinhar que as vidas que foram preservadas, e que importa ainda preservar, são de pessoas de todas as idades, mas, sobretudo, vidas de pessoas idosas ou com outras doenças que não as impediam de viver mais tempo. Nem por isso essas vidas são merecedoras de menor proteção. Também sobre este aspeto se encontrou um consenso generalizado na sociedade portuguesa e esse é um facto a registar positivamente. Toda a vida humana tem um valor inestimável, a vida de um idoso ou de um doente, mesmo que com menor expetativa de anos pela frente, tem um valor igualmente inestimável. Além do mais, porque, como sublinhou várias vezes o Papa Francisco, os idosos são depositários da riqueza que representa a memória de um povo. 9. A este respeito, é de sublinhar o esforço desenvolvido pelas Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) – direções e funcionários/as com a colaboração das autarquias e proteção civil – que permitiu o controlo de situações que poderiam tornar-se dramáticas. Todavia, não pode deixar de lamentar-se que muitas das mortes provocadas por esta pandemia tenham ocorrido em lares de idosos, mortes que, porventura, poderiam ter sido evitadas se esses lares tivessem beneficiado de outros apoios. Esta tragédia deveria despertar nas autoridades e em todos nós outra atenção para com as dificuldades por que passam os idosos, em especial e além do mais, a solidão e o abandono a que muitas vezes são votados. E também para as necessidades das instituições de solidariedade social que deles cuidam. A linha da frente ao serviço da vida 10. Associada à redescoberta do valor inestimável de cada vida humana, está a redescoberta, a que também vimos assistindo, da importância e nobreza da missão dos profissionais de saúde ao serviço dessa vida. Nunca será demasiada a gratidão da sociedade portuguesa, como a de outros países, à tarefa abnegada e incansável desses profissionais de saúde, capazes de arriscar a sua própria vida e de sacrificar o convívio com os seus familiares para ser fiéis à sua missão. Um testemunho de amor ao próximo que edifica a todos, como exemplo a seguir também nos mais variados âmbitos profissionais e sociais. Essa redescoberta deveria ser uma ocasião para um mais justo reconhecimento, em vários planos, dessas profissões. 11. Tornou-se também mais evidente a missão e importância dos serviços de saúde. Tornou-se mais evidente que as despesas com esses serviços não são supérfluas ou facilmente dispensáveis. Pode continuar a debater-se, como até aqui, a parcela que nesses serviços caberá ao setor público, ao setor social e ao setor privado, mas é agora mais evidente que ao Estado cabe uma responsabilidade indeclinável de garantir que o acesso à saúde a ninguém é negado, nem pela falta de recursos económicos, nem pela maior ou menor gravidade da doença. 12. Não podemos deixar de anotar como a legalização da eutanásia e a mensagem cultural que essa legalização acarreta contraria notoriamente estas lições e redescobertas, relativas ao valor inestimável de cada vida humana e à nobreza da missão dos profissionais de saúde: precisamente porque vem admitir que algumas vidas humanas, marcadas pela doença e pelo sofrimento, tenham perdido valor e deixem de ser merecedoras de proteção, e porque vem desvirtuar a missão dos profissionais de saúde, a quem passa a ser pedido que deixem de proteger a vida em quaisquer circunstâncias. A vida em plenitude 13. Se é verdade que esta pandemia nos tem feito redescobrir o valor inestimável da vida humana terrena, ela também nos tem feito redescobrir a precariedade dessa vida, precariedade que nem a ciência mais avançada, nem as riquezas materiais conseguem anular. Bastou um vírus minúsculo e invisível para nos relembrar isso. Por isso, esta deve ser também uma ocasião para redescobrir Deus, a quem devemos essa vida e que nos chama a partilhar com Ele uma outra Vida, de plenitude e eternidade. Esta deveria ser, acima de tudo, uma ocasião para nos preparamos para essa Vida. A redescoberta do papel da família 14. Serviço essencial acima de todos revelou-se, mais uma vez o da família, primeiro e último reduto de apoio nas situações mais difíceis. Não podemos esquecer, porém, as dificuldades que recaíram sobre muitas das famílias, em especial as mais jovens, confrontadas com a necessidade de conciliar exigências do trabalho a partir de casa com o cuidado e a educação das crianças. Outras redescobertas 15. Esta pandemia também nos tem feito redescobrir a importância social de muitos outros serviços, desde logo os que nunca deixaram de ser prestados mesmo em “estado de emergência”, com o que tal representou de dedicação e assunção de riscos por parte de quem os presta. Podemos destacar, entre outros, os serviços ligados à proteção civil, à segurança pública, ao abastecimento de bens alimentares e à comunicação social. Mas mesmo aqueles serviços cuja prestação foi interrompida se revelaram, afinal, também eles indispensáveis, porque cada um é, a seu modo, importante para a harmonia da vida social. Todos no mesmo barco 16. «Estamos todos no mesmo barco e ninguém se salva sozinho» – estas frases do Papa Francisco, a propósito da pandemia Covid-19, têm ecoado nos ambientes mais diversificados e em vários cantos do mundo. Esta pandemia tem reforçado em muitos a consciência do Bem Comum como o bem «de todos e de cada um», que todos fazemos parte de uma só família humana e habitamos uma casa comum. Na verdade, a pandemia atinge, ou pode atingir a todos, ricos e pobres e de todos os países. E só poderemos dizer que dela nos libertamos quando todos, ricos e pobres e de todos os países, dela se libertarem. Enquanto assim não for, haverá sempre o risco de se reacender. 17. É claro que esta consciência de uma fraternidade universal e de um bem comum universal não é nova, mas esta pandemia faz com que a sintamos de um modo mais evidente. Isso não pode deixar de ter consequências, no plano cultural, político, social e económico. A unidade e coesão que, em vários planos, experimentamos na luta contra esta pandemia devem permanecer e aplicar-se também a outros âmbitos.   18. Desde logo, no que diz respeito à grave crise social e económica que surge como consequência indireta da pandemia. Também em relação a essa crise, deveremos dizer que «estamos todos no mesmo barco e ninguém se salva sozinho». Neste campo, a pandemia pôs a descoberto o perigo de manter pessoas em situação de miséria, como os sem-abrigo, os imigrantes recentes e requerentes de asilo, bem como os habitantes de bairros de lata ainda infelizmente presentes no nosso país. Uma sociedade que se quer saudável, justa e democrática, não se pode “dar ao luxo” de ter no seu seio estas bolsas de miséria. Dentro de cada país, e no nosso, para fazer face ao drama do desemprego, são necessários esforços conjuntos de empresários e trabalhadores. Não se conseguirá, obviamente, vencer tal flagelo sem o contributo de uns e outros. Mas tal não poderá significar uma maior transigência no que à justiça das relações de trabalho diz respeito. 19. Também temos assistido em Portugal, a propósito desta pandemia, a uma inusitada convergência não só entre as várias autoridades políticas, mas também entre vários partidos, os que apoiam o governo e os da oposição. Esta convergência entre governo e oposição foi até enaltecida por observadores estrangeiros. Não se trata de prescindir da crítica salutar própria da oposição num sistema democrático, mas de saber reconhecer o que a todos une, mais do que o que nos separa, os objetivos comuns, mais do que as divergências quanto aos meios de atingir tais objetivos. O Estado e a sociedade civil 20. Como consequência indireta da pandemia Covid-19, espera-nos uma crise económica e social de uma dimensão que não tem paralelo na história mais recente. É de prever que o desemprego e o agravamento da pobreza atinjam níveis muito elevados. Sinal bem evidente da dimensão dessa crise são já os pedidos de ajuda para satisfação das mais básicas necessidades alimentares, que se têm multiplicado como nunca se viu no passado recente. Alguns desses pedidos vêm de pessoas que nunca esperariam vir a encontrar-se um dia numa situação destas. 21. A amplitude da crise tem feito redescobrir a importância do papel do Estado, não só no que diz respeito aos necessários apoios sociais, mas também no que diz respeito ao relançamento da economia. Um papel que vinha sendo descurado nas últimas décadas. Verifica-se agora que o mercado ou uma economia movida pelo interesse individual não conseguem, por si só, fazer face a tão exigente tarefa. A situação faz recordar o papel que assumiu o Estado, no plano das políticas social e económica, na sequência da igualmente grave crise da Grande Depressão que atingiu o mundo na primeira metade no século passado. Esse papel do Estado é reconhecido pela doutrina social da Igreja, salvaguardado que seja o princípio da subsidiariedade, isto é, desde que ele não se torne omnipresente anulando as iniciativas da sociedade civil. 22. A este respeito, convirá não cair na ilusão de que do Estado se pode esperar a superação da crise sem o contributo da iniciativa e criatividade da sociedade civil, quer no plano dos apoios sociais, quer do relançamento da economia. Seria uma forma de desresponsabilização da sociedade civil esperar passivamente pela intervenção do Estado em todos os domínios. Será bom lembrar que, já antes da pandemia, o Estado nem sempre tem atualizado as comparticipações devidas às instituições de solidariedade social, que correm o risco de não poderem responder à missão a que foram chamadas. Convirá não esquecer, por outro lado, as limitações financeiras do Estado, o muito elevado nível da dívida pública portuguesa e que o agravamento desse nível se refletirá na taxa dos juros dessa dívida. 23. Enfrentar a crise social e económica que é consequência indireta da pandemia exige um esforço acrescido de solidariedade que deve partir também da sociedade civil. Um esforço que também não tem paralelo na nossa história recente. Não bastam ajudas esporádicas e ocasionais, movidas por emoções momentâneas. São necessárias ajudas, em dinheiro, bens ou trabalho voluntário, que sejam contínuas, consistentes e impliquem até renúncias significativas. Há que ter presente que a crise não atinge todos por igual. As desigualdades que persistem na sociedade portuguesa vêm do período anterior à crise, mas esta, como já o revelaram alguns estudos, atinge mais gravemente as pessoas de menores rendimentos. E entre os portugueses, há quem tenha perdido quaisquer rendimentos de um dia para o outro e há quem mantenha os rendimentos que já tinha anteriormente. A estes últimos é pedido esse esforço suplementar de solidariedade. 24. Assistimos nestes tempos, com agrado, a muitas manifestações espontâneas dessa solidariedade que agora é exigida, nas comunidades cristãs, em associações das mais diversas, em grupos de colegas de trabalho, entre vizinhos. Importa manter e multiplicar este tipo de iniciativas. Aos cristãos cabe uma responsabilidade particular: deverão ter por modelo o das primeiras comunidades cristãs, nas quais, pela comunhão de bens, não havia indigentes (At 4, 34-35). Manifestamos o nosso apoio às iniciativas das Cáritas (Paroquial, Diocesana e Portuguesa), das Conferências Vicentinas e de tantos outros movimentos e associações, bem como à disponibilidade para implementar e ampliar a partilha de bens. Repensar o sistema económico e social 25. A necessária reconstrução de um sistema económico, a que vamos assistir no futuro próximo, deverá ser uma ocasião para o repensar, para preservar o que ele tem de bom e para corrigir o que ela tem de negativo e injusto. Esta pode ser uma ocasião para construir um sistema que coloque a pessoa humana no seu centro e não seja gerador das desigualdades que o sistema que nos rege tem gerado. 26. Para tal, esta pode ser uma ocasião de construir um sistema em que os valores da solidariedade não movam apenas as ações de apoio social, mas penetrem também na economia e no mercado. Essa é uma exigência que se sente hoje com particular acuidade. Escutamos apelos à responsabilidade social de bancos e grandes empresas, o que revela como uma economia movida pelo objetivo de maximização do lucro não responde às exigências da crise que atravessamos. Não pode, porém, esperar-se dessas empresas que atuem como instituições de solidariedade social. 27. Mais longe vai a proposta da encíclica Caritas in Veritate (n. 39), que é a de fazer penetrar a lógica do dom e da solidariedade na economia, nas empresas e no mercado, sem delegar essa lógica apenas na ação do Estado: «O binómio exclusivo mercado-Estado corrói a sociabilidade, enquanto as formas económicas solidárias, que encontram o seu melhor terreno na sociedade civil sem contudo se reduzir a ela, criam sociabilidade. O mercado da gratuidade não existe, tal como não se podem estabelecer por lei comportamentos gratuitos, e todavia tanto o mercado como a política precisam de pessoas abertas ao dom recíproco.» Uma economia mais amiga do ambiente 28. Uma ocasião para repensar o sistema económico deverá servir também para o conjugar com as exigências da salvaguarda do ambiente, com particular atenção à transição energética imposta pelo combate às alterações climáticas. Este é um domínio em que podem conflituar exigências mais imediatas e de curto prazo, de relançamento da economia e de criação de empregos pelos métodos mais rápidos e económicos, com exigências estruturais de mais longo prazo, que reclamam investimentos mais conformes a objetivos de desenvolvimento sustentável. Há que resistir à tentação de olhar para o curto prazo esquecendo perigos bem mais graves que se poderão verificar num futuro talvez não tão longínquo. 29. Não é, obviamente, descabido associar a salvaguarda do ambiente à proteção da saúde pública e à prevenção de epidemias ou outras calamidades. É verdade que as epidemias acompanham a história da humanidade desde tempos imemoriais e não são um exclusivo da era industrial; noutras épocas, sem os recursos sanitários de que hoje beneficiamos, foram bem mais mortíferas do que o são atualmente. Mas também já se demonstrou que a poluição atmosférica foi um dos fatores que facilitou a tão rápida difusão do novo coronavírus. Globalização da solidariedade 30. Há quem, perante a pandemia Covid-19, afirme que esta coloca em causa o fenómeno da globalização (o comércio internacional, o turismo, as migrações), que deveria ser, a partir de agora, travado. As necessidades de contenção da difusão do vírus vieram demonstrar a pertinência do fecho de fronteiras que vinham sendo cada vez mais abertas. Este raciocínio poderá favorecer o reforço do chamado “nacionalismo de exclusão”, com o protecionismo económico e a hostilidade para com os migrantes. Sempre houve, porém, antes desta era da globalização, pandemias que se estenderam por muitos países, não com a rapidez desta, certamente, muitas bem mais mortíferas do que esta. A reconstrução económica e social que se seguirá a esta pandemia e à crise que dela é consequência direta deve evitar destruir o que a globalização tem de positivo e, ao mesmo tempo, corrigir o que ela tem tido de negativo. 31. A globalização tem permitido a redução da pobreza absoluta, embora também tenha acentuado as desigualdades, pelo que os seus benefícios não têm chegado a todos por igual. As migrações, quando convenientemente reguladas, favorecem o desenvolvimento, quer dos países de origem dos migrantes, como se verificou em Portugal durante muitos anos, quer dos países de acolhimento, como se verifica também em Portugal atualmente. A globalização tem contribuído para a aproximação dos povos e culturas, o que é de favorecer, sem que tal deva, porém, conduzir a alguma forma de uniformização cultural ou de domínio de umas culturas sobre outras. 32. As regras de confinamento demonstraram como poderão ser limitadas as viagens aéreas, com as vantagens ecológicas daí decorrentes, muitas das quais, com o recurso a reuniões por videoconferência, se revelam agora dispensáveis. A redução dessas viagens não se traduz, neste aspeto, em menor comunicação, mais isolamento ou menos intercâmbios internacionais. Essa comunicação até pode ser mais intensa, porque mais facilitada. 33. Esta pode ser uma ocasião para, corrigindo os malefícios da globalização, como de há muito se diz sem que tal se tenha concretizado, implementar a globalização da solidariedade, para além da globalização económica. Mais do que reerguer muros, há que reforçar a conjugação de esforços entre vários países para responder aos desafios que são agora colocados. Um aspeto em que é importante agir, desde já, de acordo com um princípio de globalização da solidariedade é o da crise económica, social e cultural que surge na sequência da pandemia Covid-19. Essa crise atingirá de forma ainda mais gravosa os países mais pobres e a esse facto não podem ser alheios os países mais ricos. A saúde pública, um bem comum universal 34. Outro desses desafios é, desde logo, o próprio combate à pandemia, que supõe a conjugação de esforços de todos os países, pois nenhum deles «se salva sozinho». Importa ter presentes as especiais carências e limitação dos países mais pobres, que também enfrentam, para além desta, epidemias e outras doenças mortíferas de que pouco se fala. Este combate também deve reforçar em todos a consciência de que a saúde pública não pode deixar de ter, hoje mais do que nunca, uma dimensão universal, que se estende para além desta pandemia. 35. A este respeito, importa salientar a necessidade de tornar universal o acesso à futura vacina contra o Covid-19, o que supõe que se supere uma «utilização demasiado rígida dos direitos de propriedade intelectual no campo sanitário», que já a encíclica Caritas in Veritate (n. 22) tinha criticado. Sobre esta questão pronunciou-se o Papa Francisco na sua alocução do Regina Coeli do passado dia 3 de maio: «Gostaria de apoiar e encorajar a colaboração internacional que está a ter lugar com várias iniciativas, a fim de responder de forma adequada e eficaz à grave crise que estamos a atravessar. Com efeito, é importante unir as capacidades científicas, de forma transparente e desinteressada, para encontrar vacinas e tratamentos e garantir o acesso universal a tecnologias essenciais que permitam que as pessoas contagiadas, em todas as partes do mundo, recebam os cuidados de saúde necessários». O maior desafio da história da União Europeia 36. Na origem da União Europeia está a lição de outra calamidade de dimensão mundial, a II Guerra Mundial, calamidade que revelou até que ponto extremo podem chegar os egoísmos nacionais. A União Europeia propõe-se, desde a sua origem, superar esses egoísmos através da construção de uma verdadeira comunidade. Numa verdadeira comunidade, como numa família, cada membro sente como seus os dramas dos outros. 37. Em nenhum outro momento da história da União Europeia, e já antes desta pandemia, se verificou uma tão grande crise de confiança dos cidadãos europeus nas instituições dessa União. O sentimento de pertença que pode dar coesão a essa comunidade poderá diminuir, ou até desaparecer, quando os cidadãos europeus deixarem de sentir que a União Europeia é alheia aos dramas que os atingem. Por isso, a União Europeia confronta-se hoje com aquele que é talvez o maior desafio da sua história: no combate à pandemia e à crise económica e social, deve agir como verdadeira comunidade, e não como simples conglomerado de interesses contrapostos em busca de compromissos. 38. Não vale agora considerar que as dificuldades por que passam os países mais atingidos pela crise são consequência de erros passados dos seus, o que poderia ser válido nos casos de indisciplina financeira, mas que, mesmo assim, não justificaria o facto de serem os povos, mais do que os governos, a sofrer com isso. 39. O Papa Francisco fez-se eco destas exigências, que por muitos são partilhadas, na sua mensagem Urbi et Orbi do último Domingo de Páscoa: «Hoje, à sua frente, a União Europeia tem um desafio epocal, de que dependerá não apenas o futuro dela, mas também o do mundo inteiro. Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar a dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações.» Uma reflexão a continuar 40. Como no mundo inteiro e em todos os setores da sociedade, também entre nós a Igreja foi provada pela pandemia e obrigada a adaptar-se e a inovar no campo das celebrações, da catequese, dos laços comunitários, da sua presença e ação na sociedade. Nestas vertentes houve muitos sinais de criatividade pastoral que não se devem perder, mas antes valorizar no futuro, como manifestação de nova vida e de nova esperança. Esta reflexão quer ser apenas um contributo construtivo e cordial sem pretensão de oferecer soluções técnicas e imediatas para os problemas enfrentados. Dado o evoluir da pandemia e a exiguidade de tempo desta Assembleia, está a ser preparada para a próxima Assembleia Plenária uma reflexão mais alargada e profunda sobre os desafios e consequências pastorais da pandemia na vida da Igreja.   Fátima, 16 de junho de 2020