MENSAGEM DE NATAL 2020 As luzes do Natal brilham este ano d...

A Comissão de Proteção de Menores e Adu...

NOTA PASTORALSOBRE REINÍCIO DO CULTO PÚBLICO ...

Oral

Genç

Milf

Masaj

Film

xhamster

Notícias em Destaque


CLAUSURA DO JUBILEU DOS MÁRTIRES DE MARROCOS E DE SANTO ANTÓNIOIGREJA DE SANTA CRUZ DE COIMBRA Caríssimos irmãos e irmãs! O Evangelho de hoje oferece-nos o paradigma do processo habitual de anúncio da fé em Cristo, de encontro com Ele e de saída para evangelizar. João Batista anuncia a passagem de Jesus aos dois discípulos que estão com ele: “Eis o Cordeiro de Deus”. Eram apenas dois discípulos e um só a anunciar. A palavra carregada de força interior e de convicção despertou nos dois discípulos um desejo de conhecer Jesus e de O ir ver. Foram ver e ficaram com Jesus nesse dia. Neste momento revela-se para nós a importância daquele que anuncia e da Igreja nas suas variadas comunidades, em cada um dos seus membros, de acordo com os dons que recebidos e com a sua vocação assumida. Pensamos nos sacerdotes, nos catequistas, nos pais, nos professores e outros educadores, em cada um dos que sentem o apelo a anunciar Jesus ao seu próximo, seja em ações de primeiro anúncio, seja em palavras ou no testemunho quotidiano de fé cristã. O impacto do anúncio de Jesus tem muito a ver com o impacto real de Jesus na vida daquele que O anuncia. João Batista, atraía pelo seu modo de vida e pela sua palavra de verdade, atraía porque manifestava de forma visível que o Messias era a razão de ser da sua vida e que a sua missão de pessoa e de profeta consistia em mostrá-lo presente no meio do povo. “Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia”. A curiosidade motivada pelo anúncio firme e sentido leva a querer conhecer Jesus, o Messias, que na sua condição de Deus e Homem mostra as outras faces da vida frequentemente ocultas nas situações diárias em que nos encontramos. Todos sentimos sede de mais verdade, desejo de infinito, ânsias de amor eterno, respostas para as perguntas que nos atormentam. Todos queremos ver Jesus, saber onde mora e permanecer na sua casa, mesmo que estes desejos calem simplesmente no silêncio interior e raramente sejam expressos por meio de palavras. Ninguém encontra em si, nos outros, no mundo, na humanidade, respostas completas e motivadoras para a alegria de viver ou para acolher com confiança as tribulações que ocorrem. Precisamos de respostas profundas, espirituais, que iluminem todos os recantos do nosso ser. Faz parte da longa e contínua experiência da fé que encontrar-se com Jesus e permanecer na sua companhia, partilhar a sua vida, escutar as suas palavras, entrar no coração de Deus por meio d’Ele, fortalece a esperança, potencia o amor, dá razões fortes à inteligência e ao coração. Com humildade, os discípulos deixaram-se tocar pelo anúncio, tiveram a grande curiosidade que os levou a ir ver onde Jesus morava, tiveram a coragem de acolher e exprimir as questões fundamentais que albergavam no seu interior. O encontro com Jesus mudou-os e nunca mais foram como eram, nunca mais enfrentaram tudo da mesma maneira, pois aquele encontro foi verdadeiramente transformador. “«Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ -; e levou-o a Jesus”. Estas são palavras centrais no Evangelho, que fundam a vocação evangelizadora da Igreja e de cada cristão. “Encontrámos o Messias” é uma afirmação em primeira pessoa, cheia de ardor, marcante para o coração, transformadora da vida. Tal como o Heli no Antigo Testamento é o intermediário humano para o encontro com Deus do jovem Samuel, André, no Novo Testamento, é o intermediário para o encontro de Pedro com Jesus Cristo. Abrem assim o caminho à vocação da Igreja e de cada cristão para ser sacramento do encontro da humanidade com o Senhor. A humanidade espera de nós a realização dessa missão por meio da evangelização, em gestos e palavras que calem fundo no coração de cada pessoa que deseja e espera esse momento, mesmo que ainda o não tenha assumido consciente e explicitamente. A situação de pandemia que nos assola encerra em si muitas facetas dramáticas, que causam sofrimento a todos e fazem abalar a muitos os alicerces da confiança, da esperança, das motivações para testemunhar a esperança e põem em risco a alegria que tem de fazer parte integrante de nós para sermos felizes sobre a terra que pisamos. Estão, de facto, em crise muitas das condições importantes de que precisamos para permanecermos na tranquilidade e na paz de espírito para que fomos criados. O trabalho, a economia, a proximidade, o convívio familiar, a doença e o contacto diário com tão elevado número de mortes entre os amigos e conhecidos tornaram-se uma carga difícil de suportar. A partir da fé enraizada em nós pela graça de Deus, temos diante dois caminhos convergentes a seguir. Em primeiro lugar, o acolhimento e o anúncio de Jesus Cristo como a nossa vida, a nossa companhia, a nossa alegria e a nossa esperança. Em segundo lugar a saída ao encontro de todos os que Jesus quer acolher na sua casa, ao encontro dos que Jesus convida a ir para conhecerem onde mora e como é de paz e de amor a sua morada. Conforta a todos a certeza de que Jesus tem nesta humanidade em estado de pandemia a sua própria casa, a fé na sua presença entre nós como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, a certeza de que o Messias veio para nos salvar das nossas angústias, da tristeza e da morte que nos envolvem. Todo aquele que dá um passo, por pequeno que seja, para anunciar Cristo Salvador aos outros, para os acompanhar na sua morada de dor, para partilhar com eles a sua esperança, está a dar um passo gigante e que faz a diferença, está a realizar a sua missão de pessoa e de cristão, está a ajudar os outros a encontrarem o caminho para a casa de Deus, que é a casa da humanidade. Hoje encerramos a porta do Jubileu dos Mártires de Marrocos e de Santo António, que foi ao longo deste ano o sinal visível entre nós da porta da casa de Deus, amigo da humanidade, que convida a todos a entrarem para saborearem a alegria de estar com Ele e com os irmãos. Movidos pelo testemunho fiel destes Mártires e Santos queremos ajudar a manter as portas da casa de Deus sempre abertas a todo aquele que desejar entrar por elas. Facilitaremos o caminho, falando ao coração, testemunhando com as obras, dando a vida, como fez Jesus, como fizeram os Mártires e como fez Santo António. Coimbra, 17 de janeiro de 2021Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra    
 Comunicado do Conselho Permanente da CEP sobre o novo confinamento 14 Janeiro 2021   1. Estamos conscientes da gravíssima situação de pandemia que vivemos neste momento, a exigir de todos nós acrescida responsabilidade e solidariedade no seu combate, contribuindo para superar a crise com todo o empenho. 2. Tendo em conta as orientações governamentais decretadas para o confinamento que se inicia a 15 de janeiro, continuaremos com as celebrações litúrgicas, nomeadamente a Eucaristia e as Exéquias, segundo as orientações da Conferência Episcopal Portuguesa de 8 de maio de 2020, emanadas em coordenação com a Direção Geral da Saúde. 3. Outras celebrações, como Batismos, Crismas e Matrimónios, devem ser suspensas ou adiadas para momento mais oportuno, quando a situação sanitária o permitir. A catequese continuará em regime presencial onde for possível observar as exigências sanitárias; de contrário, pode ser por via digital ou cancelada. Recomendamos ainda que outras atividades pastorais se realizem de modo digital ou sejam adiadas. 4. A nossa celebração da fé abre-nos ao Deus da misericórdia e exprime o compromisso solidário com os esforços de todos os que procuram minimizar os sofrimentos, gerando uma nova esperança que, para além das vacinas, dê sentido e cuide a vida em todas as suas dimensões. Lisboa, 14 de janeiro de 2021
Desafios pastorais da pandemia à Igreja em Portugal A reflexão “Desafios pastorais da pandemia à Igreja em Portugal”, aprovada a 13 de novembro de 2020 na Assembleia Plenária da CEP e divulgada a 1 de janeiro de 2021, vem no seguimento do documento “Recomeçar e Reconstruir – Reflexão da CEP sobre a sociedade portuguesa a reconstruir depois da pandemia Covid-19”, aprovado a 16 de junho na Assembleia Plenária da CEP. I – A IGREJA E A PANDEMIA 1. A Igreja em Portugal, através dos seus bispos, sente-se unida a quantos foram diretamente atingidos pela pandemia e sofrem nas suas casas e famílias, nos lares e nos hospitais, na Igreja e suas instituições, pedindo a bênção de Deus e a recuperação da saúde e da esperança para as suas vidas. Partilha, igualmente, a dor das famílias que perderam os seus entes queridos, confiando-os aos braços misericordiosos do Senhor, assim como a angústia dos que perderam ou viram substancialmente reduzidos os seus rendimentos necessários a uma vida condigna. 2. A Igreja quer manifestar reconhecimento e gratidão a todos os que mais de perto têm tido a missão de conduzir o país, mesmo com decisões difíceis, aos prestadores de serviços na saúde, nas escolas, nas instituições de solidariedade e a todos os voluntários que enfrentam mais de perto todo o tipo de riscos. A Igreja pensa em todas as pessoas de diversas profissões e atividades humanas que não pararam de trabalhar para que outros pudessem sobreviver encerrados em suas casas; pensa em todos os que fazem da vida um dom aos irmãos; pensa nos especialistas e investigadores; lembra os profissionais das casas de idosos e dos hospitais que conseguem acrescentar um “algo mais” e bem precioso às obrigações e horários, e que fazem da vida um talento e uma dádiva; lembra os autarcas nas diversas funções para que foram eleitos e as forças de segurança e de proteção civil; lembra as pessoas com deficiência, nas instituições e em casa de família; lembra e encoraja os párocos e outros agentes pastorais no enorme esforço de adaptação e presença no meio do seu povo. A todos garante a sua solidariedade e oração. 3. Com este documento, a Igreja procura discernir desafios pastorais e lançar alguma luz sobre o que vivemos. Mais que conclusões apressadas, que o Espírito nos conceda a Sabedoria. O primeiro desafio que se coloca à Igreja e ao mundo é saber “habitar este silêncio”. Só assim conseguirá ouvir Deus que nos deixou ficar “sem palavras”, bem como o grito da terra e o grito da Humanidade.   Uma Terra em agonia  4. Esta não é apenas uma pandemia, mas encruzilhada de tantas outras, a mais visível das quais é a crise ambiental. A Terra agradeceu a nossa travagem. Olhando a natureza doente, podemos mesmo perguntar: “onde foi parar o ser humano?”. Esgotamos os recursos ambientais e humanos para edificar uma sociedade que, na hora da verdade, se mostra frágil e voraz. A destruição acelerada de espécies animais e vegetais, a poluição e tantos outros pecados graves contra a natureza ameaçam a própria sobrevivência da Humanidade. 5. Falando do ser humano e da natureza, o Papa Francisco afirma: “tudo está conectado”. Constitui, porventura, a mensagem central da Encíclica “Laudato Si’”. O ser humano não está dissociado da Terra ou da natureza, eles são partes de um mesmo todo. Portanto, destruir a natureza equivale a destruir o Homem. E destruir o Homem, criado à imagem e semelhança de Deus, é atentar contra o próprio Deus Criador. Da mesma forma, não é possível falar em proteção ambiental sem que esta envolva também a proteção do ser humano, em especial os mais pobres, os vulneráveis e os refugiados do clima.   II – DESAFIOS PASTORAIS Embora a pandemia não tenha terminado, há inúmeros desafios “concentrados” no período de confinamento. 6. Defender a saúde dignifica a vida, mas o direito à vida não é só ter direito de viver. É exigível criar e manter as condições para uma vida digna, sem discriminações, minimizando o sofrimento decorrente de uma doença e tratando os doentes com todos os meios humanos, técnicos e científicos disponíveis para um cuidado com qualidade. Cuidar de um doente significa prestar assistência a uma pessoa fragilizada, abalada e insegura, em que a responsabilidade de quem cuida implica zelar, consolar e medicar de acordo com a individualidade de cada um. O cuidado para com a pessoa doente implica igualmente restaurar e curar a vida espiritual e suscitar esperança. Conscientes de que é na doença que se revelam as suas fraturas e deficiências, o acompanhamento visa recuperar e desenvolver a comunhão com Deus. Cuidar da vida desde a sua conceção até à morte natural é uma exigência da sociedade que decorre do bem comum. 7. Sabemos que não há recursos ilimitados, sobretudo devido às políticas económicas deficientes. Mas, se a vida não for prioridade inquestionável, o que o será? O conceito de lucro na saúde é problemático, quando se torna o critério decisivo, exclusivo ou principal. Quais as consequências para a qualidade do serviço de saúde público e privado? “Estamos todos no mesmo barco”, mas sabemos que a saúde não é igual para todos e que se vive e morre em “barcos muitos desiguais”. Se não formos capazes de alterar este binómio – vida e saúde –, onde se mede a igual dignidade de todos, não teremos uma sociedade justa e solidária. 8. As questões levantadas por esta pandemia não são apenas sanitárias, económicas ou sociais, mas devem ser ocasião para provocar uma mudança de mentalidade e uma reviravolta cultural concretizada em modos de ver, sentir, pensar e agir imbuídos de verdade, de justiça, de fraternidade e de paz, à medida de toda a família humana. Precisamos de homens sábios e santos dentro de todas as áreas do saber e do agir, criativos da palavra e do amor. 9. Um desafio pastoral urgente poderá ser o de reunir pessoas atingidas pela experiência do sofrimento, que caminhem lado a lado e rezem na companhia de quem sofre. Pessoas que não tenham medo de abordar com palavras e espiritualidade a vida até à morte, sem esquecer a Vida Eterna. Não se pode abandonar na solidão quem está nos momentos mais exigentes e decisivos da vida. Saberá ajudar a morrer quem souber viver a transcendência.   A solidão 10. A solidão mata, ouve-se dizer. Mas morrer na solidão deve ser tremendo. E quantos, nos hospitais, nos lares e nas famílias viviam e morriam já na solidão? A questão dos idosos e a ideia de que são descartáveis é um escândalo que se revelou em toda a sua brutalidade. Devemos isolar de nós o vírus e não o idoso, tornando-o desumanamente solitário. Sentir-se solitário é o equivalente social a sentir dor física. Lembra o Papa Francisco: «Isolar os idosos e abandoná-los à responsabilidade de outros, sem um acompanhamento familiar adequado e amoroso, mutila e empobrece a própria família. Além disso, acaba por privar os jovens daquele contacto que lhes é necessário com as suas raízes e com uma sabedoria que a juventude, sozinha, não pode alcançar» (FT 19). Mostrámos não ter capacidade de resposta para a solidão. Dói pensar nos idosos que não pudemos visitar, nos filhos que viram os seus pais e mães partirem na solidão, bem como a impossibilidade prática, tantas vezes presente, de lhes fazer chegar o conforto e a esperança espiritual. 11. O lugar ideal para vencer a solidão é a família. Neste campo, servem as palavras da Comissão Nacional Justiça e Paz de 13 de outubro último: “Ao Estado não compete tudo, mas é a ele que tem de se exigir a criação de uma política de apoio aos idosos onde estejam definidos objetivos e meios para aplicar com recurso a meios financeiros próprios e de terceiros. Quando esgotada essa possibilidade, o recurso aos lares deve ser encarado”. O modelo e o funcionamento dos lares devem ser profundamente repensados, tanto no que se refere ao equilíbrio do seu financiamento e gestão pelo Estado e por entidades da sociedade civil, como no respeitante à diferenciação dos serviços aí prestados e à articulação com as famílias. 12. As comunidades cristãs devem ser estimuladoras de uma cultura de proximidade, organizada e proativa, que anime os sós. A partilha dos bens, do saber, do tempo, da simpatia e da amabilidade deve ver-se na elaboração de projetos de serviço voluntário que envolvam crentes e não crentes, para que ninguém viva, sofra ou morra na solidão. Quanto as gerações mais novas beneficiariam! Quanto individualismo e egoísmo seriam queimados para sempre pelo fogo da caridade!   A inclusão e a solidariedade 13. Com a pandemia arriscamo-nos a deixar para trás faixas da população que já eram frágeis e que viram agravar a sua situação. Este tempo faz-nos olhar com preocupação para o fosso escandaloso entre os ricos e os pobres, entre os privilegiados e os não-privilegiados. Em muitos lugares, o doente, o mais velho e o deficiente sofreram de forma mais grave, muitas vezes com poucos ou quase nenhum cuidado de saúde. O preconceito racial continua a existir. Pessoas das periferias, sobretudo migrantes, refugiados e prisioneiros, têm sido os mais afetados por esta pandemia. Preocupam-nos os problemas nas famílias desestruturadas, monoparentais, com problemas ou conflitos relacionais, com habitação deficitária e as vítimas de violência doméstica que também aumentaram… Seria longa a lista! 14. A nossa sociedade precisa de uma Igreja que seja “hospital de campanha” pronta a socorrer, a cuidar, a abrigar, como já o foi em tantos momentos de crise. A Igreja quer ser mãe de todos e casa para quem a procura. Porém, também ela é carente de pessoas e meios. Não são risonhas as perspetivas futuras, mas é nestes momentos de grandes desafios que surgem jovens generosos que entregam a sua vida a Deus, no sacerdócio ou noutra forma de consagração religiosa ou laical. A generosidade e o altruísmo precisam de ser desenvolvidos como vocação a servir. Só uma sociedade com alma pode ser inclusiva, solidária e justa. Uma boa pergunta para um exame de consciência em Conselhos Pastorais Paroquiais e Diocesanos deveria ser: “Somos de facto um hospital de campanha”, pronto a estar entre os feridos desta e de outras guerras? Somos a “casa do Bom Samaritano”, com espaço para os abandonados nas estradas da vida”?   A Igreja doméstica 15. O fecho das igrejas às celebrações comunitárias nos inícios da pandemia deverá ter-nos aberto os olhos para descortinar um outro modo de ser Igreja, feito não só de liturgia e de oração, mas de vida quotidiana, até que toda a vida se torne oração e a oração vida. Se na paróquia é necessário haver um lugar de oração, é também importante valorizar formas concretas de exercer a diakonia ou o serviço da evangelização, uma dimensão constitutiva do ser Igreja e da sua missão, que acontecem onde existem necessidades sociais. 16. É bom haver catequese na paróquia, mas o seu fecho forçado disse-nos que talvez a primeira catequese seja a que é feita em casa, pelos pais, avós, tios, irmãos. Temos a oração da Eucaristia, mas há também a oração da manhã, da noite, antes das refeições e o terço, entre outras. É um desafio redescobrir a oração doméstica, promover uma autêntica espiritualidade familiar e levar a sério a liturgia da Palavra no lar. São João Crisóstomo, dirigindo-se aos pais de família, dizia: “Com a vossa mulher e os filhos repitam juntos a palavra escutada na igreja. Voltem a casa e preparem duas mesas, uma com os pratos para a comida, a outra com os pratos da Escritura (…), façam da vossa casa uma igreja”. 17. Para viver, a Igreja tem necessidade da Igreja doméstica, pois esta é a chave da transmissão da fé. O precioso trabalho dos catequistas, sempre necessário, não substitui o ministério da família. Seguindo o exemplo da “Igreja em saída”, a Igreja doméstica deve orientar-se para sair de casa; também ela deve ser colocada em posição de assumir as suas responsabilidades sociais e políticas. 18. A Igreja está consciente da diversidade de tipos de família. A comunidade paroquial tem capacidades únicas para se fazer próxima, como mãe que abraça a todos. Deve, porém, ter a criatividade suficiente para evangelizar “dentro da situação concreta” de cada uma. Precisamos de passar de uma pastoral familiar de eventos para uma pastoral de processos. Não se podem preparar atividades em gabinete esperando que as famílias adiram. Precisamos de uma pastoral “com” as famílias.   Sacerdotes, profetas e reis 19. Este é o momento oportuno para que os leigos tomem consciência do seu sacerdócio comum, nascido com o Batismo, bem como a sua função real e profética. O Concílio Vaticano II convidava os fiéis leigos a “oferecerem-se a si mesmos como vítima viva, santa, agradável a Deus” (LG 11). São inúmeras as circunstâncias da vida em que os leigos podem exercer o sacerdócio comum: dar testemunho de Cristo em toda a parte, através do anúncio e da escuta; exercitar o testemunho de uma vida santa, com abnegação e caridade, no hospital, nos trabalhos mais humildes que asseguram os serviços sociais essenciais, na atenção às pessoas mais necessitadas, no campo político, nas associações locais, no trabalho da escola; sentir e unir-se à dor da separação, da insegurança económica, da proximidade muito estreita e prolongada com pessoas doentes, idosas, com problemas físicos ou psíquicos. 20. É bom voltar à igreja e redescobrir a preciosidade da Eucaristia, da comunidade cristã, do serviço dos sacerdotes. Mas esperemos que se tenha descoberto a extraordinária vocação sacerdotal dos leigos, um sacerdócio real exercido com criatividade, capaz de abrir novas estradas à missão e ao nascimento de muitas Igrejas domésticas, de proximidade, de bairro.   As relações 21. As separações e desconfianças em relação ao outro, muitas vezes considerado como um possível portador de contágio da pandemia, exigem um renovado esforço para voltar a ter relações fraternas e generosas. É vocação dos leigos criar relações cada vez mais enformadas pela caridade, seja no interior das nossas comunidades, seja nos ambientes nos quais vivemos e trabalhamos. O amor vence a tentação do “confinamento em si mesmo”, pois tem o poder de ensinar como “se vive o outro”. O amor vence o medo que mata mais do que a pandemia, porque domina as pessoas, as faz adoecer, as bloqueia psicologicamente, as impede de viver e de dar o melhor de si. 22. A Igreja é chamada a viver em comunhão com todos. A experiência da fragilidade que a pandemia nos faz viver mostra quanto é absurda a tentação de autossuficiência ditada pela técnica e pela ciência, quanto é artificial o mundo do bem-estar que estamos a criar.   A vida comunitária 23. O alheamento mata a vida das comunidades e multiplica a indiferença, talvez mais do que a descrença. Num mundo onde o institucional é cada vez menos apreciado, também a Igreja se ressente nas suas comunidades e instituições. Muitos cristãos tendem a gerir a sua vida espiritual de forma cada vez mais privada, tal como certas ideologias pretendem. 24. Nunca é demais olhar para a comunidade primitiva, descrita nos Atos dos Apóstolos. A presença de Cristo Ressuscitado era mais forte do que todas as ameaças de morte ou exclusão. Dentro do poderoso e conquistador mundo romano, o Evangelho ia-se escrevendo com a própria vida dos discípulos de Jesus. Eles eram Evangelho, comunidade de testemunho e de missão. A comunhão fraterna “atraía a atenção” por simpatia e não pelo proselitismo. Uma comunidade minoritária, mas que não tinha medo de ser profecia no meio do seu velho mundo. Era um estilo de vida fascinante que deve ser sempre retomado! 25. É fundamental ter a coragem de avaliar a vida das comunidades e os seus dinamismos de integração, criatividade e generatividade. É preciso identificar as “salas de catequese modernas”, os espaços novos para uma evangelização missionária. O campo da missão alargou-se, requer pessoas com paixão comunitária e estilo missionário, comunidades vivas e unidas, capazes de acolher, integrar e voltar a convencer da riqueza da vida em comum: todos juntos.   III – UM NOVO ANÚNCIO DO EVANGELHO  26. São João Paulo II introduziu o conceito de “nova evangelização” para indicar o esforço de renovação que a Igreja é chamada a fazer para estar à altura dos desafios que o contexto social e cultural de hoje coloca à fé cristã, ao seu anúncio e testemunho, como consequência das profundas mudanças em curso. O Papa Francisco, no seu primeiro documento “A Alegria do Evangelho”, recorda-nos que a evangelização é dever da Igreja, entendida esta como o anúncio de Cristo morto e ressuscitado e que revela e comunica a misericórdia infinita do Pai (cf. EG 164). O anúncio do Evangelho pede aos cristãos a coragem de habitar “novos areópagos”, encontrando os instrumentos e os percursos para tornar audível, também nesses lugares, o património educativo e de sabedoria preservado pela tradição cristã. 27. O primeiro anúncio, primeiro porque o mais importante, precisa de uma linguagem simples, compreensível e direta que conte como Deus é Amor e ama cada um, porque deu a vida por nós em Jesus Cristo e está sempre pronto a acreditar e caminhar connosco. 28. Evangelizar significa falar de uma novidade que não diz respeito só ao método, mas ao próprio Evangelho. O problema mais sério não é como anunciar o Evangelho numa cultura diversa, mas como retomar o Evangelho dentro dessa mesma cultura. Um novo ardor no anúncio do Evangelho mostrará como este pode responder aos problemas da pós-modernidade. O Papa Francisco tem-se revelado um especialista nesta arte de pensar o Evangelho dentro da cultura e das grandes questões da humanidade: a crise ecológica e climática, o problema dos refugiados e da pobreza, a educação, a economia.   Construir a fraternidade universal 29. “Todos irmãos” é o título da nova e desafiadora Carta Encíclica do Papa Francisco sobre a fraternidade e a amizade social. Haverá melhor modo de apontar o futuro, em tempos de crise planetária? 30. A palavra “todos” começou a usar-se mais no nosso léxico, como sinónimo de humanidade inteira, sonho de percursos comuns, de esforços, consensos e soluções globais. Preocupam-nos, porém, os dramas que encobrem este desígnio universal: a fome que duplicou no mundo desde o início da pandemia, o gritante abismo entre os multimilionários cada vez mais ricos e a grande franja da humanidade cada vez mais pobre, a xenofobia, o racismo, as guerras fratricidas, a ameaça da crise climática. “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (FT 8).   Comunicar nos ambientes digitais 31. Os meios digitais podem tornar o virtual “quase real” e servir para aproximar, partilhar, construir laços e até “tocar” o coração do irmão. Muitos profissionais de assistência ou saúde “ligaram” famílias aos seus doentes em hospitais, em lares ou até em casa. Igreja e Instituições estão a servir-se dos meios telemáticos para a oração, as catequeses alternativas ou complementares, a formação, a educação, a comunicação e o teletrabalho. Estes meios permitem multiplicar os destinatários e diversificar os formadores. Há três desafios importantes e urgentes em relação ao uso destes meios: o da sistematização e disponibilização de materiais bem preparados e adequados, a formação dos utilizadores e a importância de não deixar perder a relação pessoal que, mesmo com a ajuda do digital, é possível e prioritária. Nada substitui a presença real, a conversa pessoal, a voz, a palavra que mexe com os sentidos. 32. Os meios digitais são um contributo pastoral subsidiário. Pensamos na preparação das famílias para os sacramentos do matrimónio e do batismo, dois momentos fundamentais para lançar bases ou consolidar a Igreja doméstica do próprio lar. Na dificuldade de várias reuniões presenciais, algumas – talvez a maior parte – poderiam ser por meios telemáticos.   O primado da Palavra 33. A obra decisiva deste novo ardor missionário consiste em voltar a colocar o Evangelho no centro. Os primeiros cristãos conheciam a sua novidade e a força de convencimento que tinha. Nenhuma outra emergência os tirava deste centro. Hoje, muitos cristãos ainda são “analfabetos do Evangelho”. Explicar o Evangelho é falar de Cristo como contínua surpresa que convém suscitar. Jesus realiza as expectativas e, ao mesmo tempo, supera-as. Há na sua pregação um “algo mais”, que abre à pessoa horizontes inesperados e que, quando conhecidos, faz empalidecer as expectativas iniciais. A Palavra do Evangelho não é um conjunto de histórias do passado, é um anúncio feito hoje e que deve surpreender, indo muito além de todas as expectativas. 34. No primado da Palavra, é relevante a formação, a comunicação, a linguagem. Grande parte dos cristãos não está a par da “gramática” utilizada na Igreja, e muitas vezes não conhecem os documentos da Igreja, porque não houve o devido estudo, nem estão por dentro do que realmente se celebra na liturgia. O cuidado na formação “ao longo do caminho” e de acordo com os serviços a desempenhar nunca está acabado, precisa de ser contínuo.   Celebrar é evangelizar 35. A liturgia pode e deve ser evangelizadora, desempenhando um papel de iniciação para muitos que, sem formação, participam nas celebrações em momentos especiais da existência humana. Pensemos em quantos, por simpatia, se aproximam de cristãos no batismo, nas exéquias, nos matrimónios e noutros eventos celebrativos. São mulheres e homens para quem a única ocasião de encontro com o cristianismo é exatamente a liturgia na qual participam. Para muitos “cristãos praticantes”, a única fonte de evangelização e formação permanente está exatamente na missa dominical. 36. A celebração da liturgia comunitária é uma experiência única numa sociedade onde prevalece o egoísmo e o individualismo. De modo particular, a celebração da Eucaristia é já a Assembleia de irmãos reunidos e unidos, um pedaço de humanidade fraterna, renovada pela Boa Notícia (Evangelho) que é Cristo ali, no povo reunido. Ao sair da porta da igreja que se abre para a rua, o cristão sabe quanto caminho tem a fazer para realizar o que rezou lá dentro: “assim na terra como nos céus”! Mas sai com a certeza que lhe vem da esperança: o Senhor irá com ele construir o Reino.   Novos desafios de serviço e missão 37. Todos os serviços e ministérios na Igreja, tanto os existentes como os que possam ser criados, devem estar impregnados por um profundo dinamismo missionário, um renovado anúncio do Evangelho nas comunidades cristãs, nas famílias e na sociedade. Como exemplo, os catequistas exercem um papel fundamental de anúncio do Evangelho. A publicação recente do Diretório para a Catequese tem de nos levar a pensar outras formas de educar na fé onde a família, enquanto Igreja doméstica, seja o centro na transmissão do Evangelho aos mais novos. 38. Saber acolher é uma arte que evangeliza. A pandemia mostrou a importância dos grupos de acolhimento na Eucaristia e a necessidade de recuperar o tradicional serviço dos “ostiários”, acolhendo e saudando as pessoas em nome da comunidade, dando indicações e encaminhando-as para o respetivo lugar nos espaços celebrativos. Um serviço de acolhimento e integração na comunidade que deve ser retomado e alargado a outros momentos, para além da Eucaristia. 39. No âmbito do novo anúncio do Evangelho, adquire especial destaque pastoral o serviço da comunicação, quer pela presença nas redes sociais e no uso dos meios digitais, contribuindo para a unidade da comunidade cristã e para a abertura missionária, quer pelo diálogo com a sociedade civil e instituições diversas. Durante a pandemia percebemos a relevância do clima de abertura e diálogo das comunidades cristãs e seus responsáveis com as autarquias, as forças de segurança e as autoridades de saúde e da proteção civil. Seria uma falha grave desperdiçar esta experiência. 40. Os Consagrados encontraram, também eles, na situação de pandemia novos contextos para encarnar os próprios carismas, através do serviço aos outros, sobretudo aos mais pobres e fragilizados, indo ao seu encontro, acolhendo-os, sustentando-os e acompanhando-os.   Partir das periferias 41. Se se trata de recomeçar, que seja sempre, como no Evangelho, a partir dos últimos. “Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade” (FT 235). 42. Pensar a pastoral a partir dos últimos pode também significar preparar os planos pastorais a partir das periferias. Há muitos pobres? Vamos partir deles e com eles! A comunidade vai ficar mais rica, pois “é necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas e a colocá-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles” (EG 198). Há muitos “sem abrigo”, com fome e sem casa? Como envolver todos os serviços paroquiais num plano integrador, mais que assistencial? Poderão ter que alargar horizontes, envolver outras paróquias, comunidades religiosas, movimentos, associações de fiéis públicas e privadas, criando redes entre elas. Não significa que os projetos tenham a marca paroquial. Importa é que as pessoas sejam o centro e o amor o betume que une a missão comum. Há muitos idosos e doentes? Sem parar os serviços paroquiais habituais, como colocá-los no centro, envolvendo-os no amor da comunidade? Há muita solidão? Como vamos criar uma cultura de proximidade e de novas vizinhanças? 43. Oxalá por todo o lado – das dioceses às paróquias, dos movimentos aos consagrados, do simples fiel aos professores, teólogos, eclesiólogos ou pastoralistas – se iniciem percursos sinodais de escuta prolongada, autênticos laboratórios de reflexão em ordem a uma “nova etapa da evangelização”. Oxalá o Espírito inspire percursos novos que, feitos com todo o povo de Deus, consigam envolver mulheres e homens de boa vontade e lançar, em conjunto, itinerários imbuídos de amor solidário para não abandonar ninguém pelo caminho.   IV – A PARÓQUIA, COMUNIDADE SINODAL  44. Para a evangelização é decisivo que na comunidade tudo seja comum, que aquilo que um faz seja de todos e diga respeito a todos. Na comunidade, deve acolher-se os projetos dos outros como se fossem seus, cada um deve pensar no bem do outro, ajudá-lo a crescer, interessar-se pelo seu sucesso, sacrificar-se e dar a vida pelos fins comuns. Numa paróquia que seja verdadeira comunidade, não deve entrar a disputa, a discórdia, os interesses pessoais, os desejos de afirmação ou poder; não deve haver autoritarismos, críticas, invejas, ciúmes; o que se faz deve ser direcionado a todos, deve haver comunhão na diversidade. A sinodalidade é a síntese entre o caminhar juntos da Igreja e o seu olhar para o Limiar Eterno.   Dois ou mais! 45. Para a conversão pastoral das comunidades paroquiais em chave missionária, o Papa Francisco rebatiza a paróquia com nomes novos: “comunidade sinodal”, célula da “Igreja em saída” e “casa do povo de Deus”. A sinodalidade, inspirada no “ícone de Emaús”, não é um novo método pastoral, mas uma maneira de ser, um estilo que nos anima e nos faz caminhar como irmãos de estrada, chegando a todos. A sinodalidade exige a humildade de “ir lado a lado”, com o Mestre em companhia. Evangelizar numa paróquia sinodal passa por “ir dois a dois”! 46. “Sinodalidade é o que Deus espera da Igreja neste terceiro milénio” (Papa Francisco). É o modo de ser Igreja! Este é um estilo de que o mundo muito pode beneficiar, porque é escola de vida, de exercício da corresponsabilidade e colaboração ativa, onde se pode aprender o serviço, a escuta recíproca e o diálogo respeitador. Até a própria democracia, a política, a gestão, a administração e o serviço de cidadania teriam muito a aprender. Na sinodalidade, vale mais o menos perfeito em unidade que o mais perfeito em desunião. De igual modo, vale mais o menos perfeito em grupos alargados que o mais perfeito feito por um só ou poucos.   Paróquia, célula da “Igreja em saída” 47. Em tempo de pandemia percebe-se ser real o apelo a passar de uma atitude de “espera” à atitude de “saída”. Não basta a atitude cómoda de ficar à espera que as pessoas venham até nós. A paróquia é “extroversa” por natureza, ou seja, está atenta e “em saída”, vai onde se sente necessária. Passar de uma pastoral de manutenção a uma pastoral missionária é uma conversão que vai durar o seu tempo. Não pode haver pressa, mas é necessário planear, definir objetivos e percursos para lá chegar.   Paróquia, “Casa do Povo de Deus” 48. Na abertura do Congresso Pastoral da Diocese de Roma, em junho de 2014, que teve como lema “Um povo que gera os seus filhos: comunidade e família”, o Papa Francisco desenhou um perfil de Igreja no contexto da Igreja local e da paróquia, descrevendo a comunidade como Igreja “que saiba acolher com sentimentos maternos, mostre ternura com todos, saiba olhar para o futuro com esperança, cultive a memória de povo de Deus, queira tratar os homens com aquela paciência que possibilita suportarem-se uns aos outros, possua a doçura do olhar de Jesus, tenha maternalmente a porta sempre aberta a todos, seja capaz de falar a linguagem dos jovens, seja audaz a explorar novas vias, novas linguagens, novas atitudes para dilatar o anúncio da salvação, tenha sentido de gratuidade”.   V – OLHAR O FUTURO 49. A mudança está sempre no ADN do jovem. Ele sabe que ela faz parte da sua vida de todos os dias. Quando se fala de grandes mudanças na história dos homens, os jovens estiveram lá: sonharam-nas, defenderam-nas e deram a vida pelas causas. A pandemia fez com que os mais velhos ficassem em casa. Para vários serviços e onde lhes deram oportunidade, os jovens foram fundamentais e adaptaram-se de imediato: no acolhimento e higiene, nos lares de idosos, na comunicação, no uso das novas tecnologias, na proteção da natureza, etc. Muitos se ofereceram para ajudar na catequese, “porque tinham jeito para as tecnologias”, diziam os mais velhos. 50. Sem a escuta atenta dos jovens, sem a sua visão da Igreja e do mundo, não haverá adequada renovação e conversão pastoral. O domínio do digital dá-lhes uma forma nova de ver a realidade. Além disso, são peritos na abertura à novidade, ao diferente, às pessoas e aos povos. Com eles a fraternidade é mais possível. Nasceram já numa cultura de grandes preocupações ambientais e defesa da natureza. 51. Caríssimos jovens, a Igreja entre nós, mais ainda pela preparação da Jornada Mundial da Juventude em Portugal em 2023, está ciente de quanto podeis ser agentes da evangelização, trazendo o vosso modo de ser, agir, pensar, servir e amar. Vinde inteiramente, vinde dizer que Cristo continua jovem e vive no meio de vós com a força do seu Evangelho, com a arma potente do seu e do vosso amor. 52. Conscientes de que o testemunho de unidade é decisivo na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, pedimos juntos a luz de Cristo Ressuscitado para todos os homens e mulheres do nosso país, para que nos conceda a coragem de olhar para além das chagas abertas por esta pandemia e descortinar uma aurora de esperança capaz de nos lançar decididamente numa “nova etapa da evangelização” (EG 287). 53. Que Maria, a Mãe do Evangelho, acompanhe todos os seus filhos, os assista nos perigos desta pandemia e lhes dê a saúde esperada, juntamente com a paz, a solidariedade e o conforto do amor recíproco. Todos irmãos e irmãos de todos.   Fátima, 13 de novembro de 2020
SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS – 2021SÉ NOVA DE COIMBRA Caríssimos irmãos e irmãs! A Igreja convida-nos a iniciarmos o novo ano com a celebração da solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Pretende deste modo levar-nos a acolher e confessar a maternidade divina da Virgem Maria, com os olhos postos no presépio e, por isso, na pessoa de Jesus, o Filho de Deus, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, como referia a Epístola aos Gálatas. Pretende ainda a Igreja com esta celebração que acolhamos a maternidade universal da Virgem Maria, isto é, que a aceitemos como mãe deste povo de irmãos e irmãs que sentem diariamente a sua companhia, intercessão e cuidado espiritual no meio das alegrias e dores da vida. A Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, dá, assim, o tom a todo o ano que inicia e leva-nos a ordenar retamente a nossa fé e a nossa vida. Partimos da certeza de que, como Maria, somos criaturas humanas e de que toda a graça e toda a bênção nos vêm de Deus, que nos dá o Espírito Santo e nos torna filhos, como ouvíamos. Mas, vivemos igualmente na certeza de que, como criaturas amadas por Deus, recebemos uma nobre missão sobre a terra em que vivemos e em comunhão com toda a comunidade humana. Começamos o novo ano procurando situar-nos, como cristãos, no plano de Deus, na nossa identidade e na missão que nos é confiada. Como pessoas humanas com as suas marcas de grandeza e debilidade, revigoramos a confiança e esperança por meio da companhia e intercessão da Virgem Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe da Humanidade. O Evangelho escutado oferecia-nos a síntese admirável da atitude de Maria, ao dizer: “Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração”. Maria olhava para os sinais reveladores existentes na vida do seu povo, considerava os últimos acontecimentos em que se vira envolvida, a anunciação, o nascimento do Menino, a adoração, e fortalecia a sua fé em Deus, que a escolhera para trazer ao mundo o Salvador. Por outro lado, Maria olhava para os pastores e para todos os que se aproximavam de Belém e via neles a humanidade de filhos e filhas para os quais nascera Aquele a quem foi dado o nome de Jesus, isto é, aqueles a quem veio salvar. No primeiro dia do novo ano a Virgem Maria, como modelo e imagem da Igreja, indica-nos dois traços essenciais da nossa vida: a partir do coração em que conservamos os acontecimentos reveladores somos chamados a cuidar da fé pessoal e dos irmãos; e a partir do mesmo coração em que meditamos silenciosamente sobre o que se passa à nossa volta, sentimos o apelo a amar a humanidade e a cuidar dela enquanto cooperadores de Jesus na sua obra salvadora. Os sinais para a fé são muitos e falam de forma eloquente, mesmo nos nossos dias. A situação de extrema debilidade em que a humanidade se encontra, depois de um tempo de grande confiança em si mesma e nas suas possibilidades ilimitadas, aponta para além de nós, para Quem está antes de nós e está também depois de nós – “o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último” (Ap 22, 13). A carência de esperança e de amor, marcas características desta situação de crise de saúde, de solidariedade e de possibilidade de uma vida mais normal, faz-nos reviver a expectativa do Antigo Povo de Deus, referida pela voz dos Profetas, e a fazer crescer o desejo do encontro com o Messias. Os resultados alcançados pelo engenho científico, que desejamos sejam portadores de novas esperanças de vitória sobre a doença e todos os seus males, levantam-se como um sinal da bênção de Deus, que continua a acompanhar com amor de Pai a criação boa e bela que saiu do seu poder criador. A solidariedade e a caridade expressas de tantas formas e com tanta criatividade por pessoas e instituições, com o objetivo de minorar o sofrimento de muitos, fala-nos de Deus e das sementes de bondade aninhadas no mais íntimo de todas as pessoas, abre-nos à fé. A Virgem Maria, convida-nos neste início de ano a guardarmos todos os acontecimentos felizes ou dolorosos no coração como sinais de Deus; convida-nos a meditar silenciosamente sobre tudo o que se passa connosco e à nossa volta, para tirarmos as lições adequadas e crescermos em fé e humanidade mesmo na situação de crise em que nos encontramos; convida-nos ainda a uma atitude orante, elevando até Deus as súplicas e a gratidão da humanidade, levando até aos homens o auxílio para percorrerem os caminhos da fé. O coração da Virgem Maria volta-se sempre com um amor de Mãe para Jesus, o Filho, e para todos os homens e mulheres, seus filhos espirituais. Dentro desse coração nasce o natural apelo para cuidar de todos e em todas as situações. Qual reflexo do coração de Deus e receptáculo da grandeza da sua misericórdia, Maria cuida de nós, ensina a Igreja a cuidar dos seus filhos e impele cada pessoa a cuidar do seu semelhante. Nisso Ela vive e ensina a viver a mensagem e o testemunho mais profundo e caraterístico de Jesus, Aquele que veio ao mundo para cuidar de todos e salvar o que estava perdido. Estamos diante da missão concreta da Igreja, que não pode ficar por palavras, mas tem de estar junto de toda a pessoa e em todas as situações da sua vida. Nos últimos tempos, tem-se vindo a salientar muito esta dimensão do cuidado da Igreja por todos. É chegado o momento de cada comunidade cristã, passar aos atos, ou seja, de clarificar no seu programa pastoral, de forma explícita e num lugar de relevo, de que modo e com que meios se propõe cuidar de cada pessoa mais débil no seu seio. Com Maria por imagem e modelo, a Igreja que nós somos com Cristo, revela a sua identidade quando cuida das pessoas, das que estão dentro e das que estão fora, como filhos amados de Deus; cada um de nós realiza a sua missão e a sua verdadeira identidade cristã quando, a partir do coração, vive da fé no Deus que o ama e cuida do próximo que o mesmo Deus ama. O novo ano, que iniciamos, seja portador de renovados caminhos de fé e cheio de consoladores sinais de que estamos disponíveis para cuidar uns dos outros com mais amor. Será um ano marcado pela Esperança de que foi portadora Santa Maria, a Mãe de Deus. Coimbra, 01 de janeiro de 2021Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra
MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A CELEBRAÇÃO DO 54º DIA MUNDIAL DA PAZ 1º DE JANEIRO DE 2021   A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ   1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas saudações aos Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade. Para todos formulo os melhores votos, esperando que o ano de 2021 faça a humanidade progredir no caminho da fraternidade, da justiça e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados. O ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanitária da Covid-19, que se transformou num fenómeno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos. Penso, em primeiro lugar, naqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também em quem ficou sem trabalho. Lembro de modo especial os médicos, enfermeiras e enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, voluntários, capelães e funcionários dos hospitais e centros de saúde, que se prodigalizaram – e continuam a fazê-lo – com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida. Ao mesmo tempo que presto homenagem a estas pessoas, renovo o apelo aos responsáveis políticos e ao sector privado para que tomem as medidas adequadas a garantir o acesso às vacinas contra a Covid-19 e às tecnologias essenciais necessárias para dar assistência aos doentes e a todos aqueles que são mais pobres e mais frágeis.[1] É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição. Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem «a cultura do cuidado como percurso de paz»; a cultura do cuidado* para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer. 2. Deus Criador, origem da vocação humana ao cuidado Em muitas tradições religiosas, existem narrativas que se referem à origem do homem, à sua relação com o Criador, com a natureza e com os seus semelhantes. Na Bíblia, o livro do Génesis revela, desde o início, a importância do cuidado ou da custódia no projeto de Deus para a humanidade, destacando a relação entre o homem (’adam) e a terra (’adamah) e entre os irmãos. Na narração bíblica da criação, Deus confia o jardim «plantado no Éden» (cf. Gn 2, 8) às mãos de Adão com o encargo de «o cultivar e guardar» (Gn 2, 15). Isto significa, por um lado, tornar a terra produtiva e, por outro, protegê-la e fazê-la manter a sua capacidade de sustentar a vida.[2] Os verbos «cultivar» e «guardar» descrevem a relação de Adão com a sua casa-jardim e indicam também a confiança que Deus deposita nele fazendo-o senhor e guardião de toda a criação. O nascimento de Caim e Abel gera uma história de irmãos, cuja relação em termos de tutela ou custódia será vivida negativamente por Caim. Depois de ter assassinado o seu irmão Abel, a Deus que lhe pergunta por ele, Caim responde: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9).[3] Com certeza! Caim é o «guarda» de seu irmão. «Nestas narrações tão antigas, ricas de profundo simbolismo, já estava contida a convicção atual de que tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros».[4] 3. Deus Criador, modelo do cuidado A Sagrada Escritura apresenta Deus, além de Criador, como Aquele que cuida das suas criaturas, em particular de Adão, Eva e seus filhos. O próprio Caim, embora caia sobre ele a maldição por causa do crime que cometera, recebe como dom do Criador um sinal de proteção, para que a sua vida seja salvaguardada (cf. Gn 4, 15). Este facto, ao mesmo tempo que confirma a dignidade inviolável da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, manifesta também o plano divino para preservar a harmonia da criação, porque «a paz e a violência não podem habitar na mesma morada».[5] É precisamente o cuidado da criação que está na base da instituição do Shabbat que, além de regular o culto divino, visava restabelecer a ordem social e a solicitude pelos pobres (Gn 2, 1-3; Lv 25, 4). A celebração do Jubileu, quando se completava o sétimo ano sabático, consentia uma trégua à terra, aos escravos e aos endividados. Neste ano de graça, cuidava-se dos mais vulneráveis, oferecendo-lhes uma nova perspetiva de vida, para que não houvesse qualquer necessitado entre o povo (cf. Dt 15, 4). Digna de nota é também a tradição profética, onde o auge da compreensão bíblica da justiça se manifesta na forma como uma comunidade trata os mais frágeis no seu seio. É por isso que particularmente Amós (2, 6-8; 8) e Isaías (58) erguem continuamente a voz em prol de justiça para os pobres, que, pela sua vulnerabilidade e falta de poder, são ouvidos só por Deus, que cuida deles (cf. Sal 34, 7; 113, 7-8). 4. O cuidado no ministério de Jesus A vida e o ministério de Jesus encarnam o ápice da revelação do amor do Pai pela humanidade (Jo 3,16). Na sinagoga de Nazaré, Jesus manifestou-Se como Aquele que o Senhor consagrou e enviou a «anunciar a Boa-Nova aos pobres», «a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos» (Lc 4, 18). Estas ações messiânicas, típicas dos jubileus, constituem o testemunho mais eloquente da missão que o Pai Lhe confiou. Na sua compaixão, Cristo aproxima-Se dos doentes no corpo e no espírito e cura-os; perdoa os pecadores e dá-lhes uma nova vida. Jesus é o Bom Pastor que cuida das ovelhas (cf. Jo 10, 11-18; Ez 34, 1-31); é o Bom Samaritano que Se inclina sobre o ferido, trata das suas feridas e cuida dele (cf. Lc 10, 30-37). No ponto culminante da sua missão, Jesus sela o seu cuidado por nós, oferecendo-Se na cruz e libertando-nos assim da escravidão do pecado e da morte. Deste modo, com o dom da sua vida e o seu sacrifício, abriu-nos o caminho do amor e disse a cada um: «Segue-Me! Faz tu também o mesmo» (cf. Lc 10, 37). 5. A cultura do cuidado, na vida dos seguidores de Jesus As obras de misericórdia espiritual e corporal constituem o núcleo do serviço de caridade da Igreja primitiva. Os cristãos da primeira geração praticavam a partilha para não haver entre eles alguém necessitado (cf. At 4, 34-35) e esforçavam-se por tornar a comunidade uma casa acolhedora, aberta a todas as situações humanas, disposta a ocupar-se dos mais frágeis. Assim, tornou-se habitual fazer ofertas voluntárias para alimentar os pobres, enterrar os mortos e nutrir os órfãos, os idosos e as vítimas de desastres, como os náufragos. E em períodos sucessivos, quando a generosidade dos cristãos perdeu um pouco do seu ímpeto, alguns Padres da Igreja insistiram que a propriedade é pensada por Deus para o bem comum. Santo Ambrósio afirmava que «a natureza concedeu todas as coisas aos homens para uso comum. (…) Portanto, a natureza produziu um direito comum para todos, mas a ganância tornou-o um direito de poucos».[6] Superadas as perseguições dos primeiros séculos, a Igreja aproveitou a liberdade para inspirar a sociedade e a sua cultura. «As necessidades da época exigiam novas energias ao serviço da caridade cristã. As crónicas históricas relatam inúmeros exemplos de obras de misericórdia. De tais esforços conjuntos, resultaram numerosas instituições para alívio das várias necessidades humanas: hospitais, albergues para os pobres, orfanatos, lares para crianças, abrigos para forasteiros, e assim por diante».[7] 6. Os princípios da doutrina social da Igreja como base da cultura do cuidado A diakonia das origens, enriquecida pela reflexão dos Padres e animada, ao longo dos séculos, pela caridade operosa de tantas luminosas testemunhas da fé, tornou-se o coração pulsante da doutrina social da Igreja, proporcionando a todas as pessoas de boa vontade um precioso património de princípios, critérios e indicações, donde se pode haurir a «gramática» do cuidado: a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação. * O cuidado como promoção da dignidade e dos direitos da pessoa «O conceito de pessoa, que surgiu e amadureceu no cristianismo, ajuda a promover um desenvolvimento plenamente humano. Porque a pessoa exige sempre a relação e não o individualismo, afirma a inclusão e não a exclusão, a dignidade singular, inviolável e não a exploração».[8] Toda a pessoa humana é fim em si mesma, e nunca um mero instrumento a ser avaliado apenas pela sua utilidade: foi criada para viver em conjunto na família, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros são iguais em dignidade. E desta dignidade derivam os direitos humanos, bem como os deveres, que recordam, por exemplo, a responsabilidade de acolher e socorrer os pobres, os doentes, os marginalizados, o nosso «próximo, vizinho ou distante no espaço e no tempo».[9] * O cuidado do bem comum Cada aspeto da vida social, política e económica encontra a sua realização, quando se coloca ao serviço do bem comum, isto é do «conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição».[10] Por conseguinte os nossos projetos e esforços devem ter sempre em conta os efeitos sobre a família humana inteira, ponderando as suas consequências para o momento presente e para as gerações futuras. Quão verdadeiro e atual seja tudo isto, no-lo mostra a pandemia Covid-19, perante a qual «nos demos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários, todos chamados a remar juntos»,[11] porque «ninguém se salva sozinho»[12] e nenhum Estado nacional isolado pode assegurar o bem comum da própria população.[13] * O cuidado através da solidariedade A solidariedade exprime o amor pelo outro de maneira concreta, não como um sentimento vago, mas como «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos».[14] A solidariedade ajuda-nos a ver o outro – quer como pessoa quer, em sentido lato, como povo ou nação – não como um dado estatístico, nem como meio a usar e depois descartar quando já não for útil, mas como nosso próximo, companheiro de viagem, chamado a participar, como nós, no banquete da vida, para o qual todos somos igualmente convidados por Deus. * O cuidado e a salvaguarda da criação A encíclica Laudato si’ reconhece plenamente a interconexão de toda a realidade criada, destacando a exigência de ouvir ao mesmo tempo o grito dos necessitados e o da criação. Desta escuta atenta e constante pode nascer um cuidado eficaz da terra, nossa casa comum, e dos pobres. A propósito, desejo reiterar que «não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos».[15] Na verdade «paz, justiça e salvaguarda da criação são três questões completamente ligadas, que não se poderão separar para ser tratadas individualmente, sob pena de cair novamente no reducionismo».[16] 7. A bússola para um rumo comum Assim, num tempo dominado pela cultura do descarte e perante o agravamento das desigualdades dentro das nações e entre elas,[17] gostaria de convidar os responsáveis das Organizações internacionais e dos Governos, dos mundos económico e científico, da comunicação social e das instituições educativas a pegarem nesta «bússola» dos princípios acima lembrados para dar um rumo comum ao processo de globalização, «um rumo verdadeiramente humano».[18] Na verdade, este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doença, da escravidão, da discriminação e dos conflitos. Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais. A bússola dos princípios sociais, necessária para promover a cultura do cuidado, vale também para as relações entre as nações, que deveriam ser inspiradas pela fraternidade, o respeito mútuo, a solidariedade e a observância do direito internacional. A este respeito, hão de ser reafirmadas a proteção e a promoção dos direitos humanos fundamentais, que são inalienáveis, universais e indivisíveis.[19] Deve ser recordado também o respeito pelo direito humanitário, sobretudo nesta fase em que se sucedem, sem interrupção, conflitos e guerras. Infelizmente, muitas regiões e comunidades já não se recordam dos tempos em que viviam em paz e segurança. Numerosas cidades tornaram-se um epicentro da insegurança: os seus habitantes fatigam a manter os seus ritmos normais, porque são atacados e bombardeados indiscriminadamente por explosivos, artilharia e armas ligeiras. As crianças não podem estudar. Homens e mulheres não podem trabalhar para sustentar as famílias. A carestia lança raízes em lugares onde antes era desconhecida. As pessoas são obrigadas a fugir, deixando para trás não só as suas casas, mas também a sua história familiar e as raízes culturais. As causas de conflitos são muitas, mas o resultado é sempre o mesmo: destruição e crise humanitária. Temos de parar e interrogar-nos: O que foi que levou a sentir o conflito como algo normal no mundo? E, sobretudo, como converter o nosso coração e mudar a nossa mentalidade para procurar verdadeiramente a paz na solidariedade e na fraternidade? Quanta dispersão de recursos para armas, em particular para as armas nucleares,[20] recursos que poderiam ser utilizados para prioridades mais significativas a fim de garantir a segurança das pessoas, como a promoção da paz e do desenvolvimento humano integral, o combate à pobreza, o remédio das carências sanitárias! Aliás, também isto é evidenciado por problemas globais, como a atual pandemia Covid-19 e as mudanças climáticas. Como seria corajosa a decisão de criar «um “Fundo mundial” com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares, para poder eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres»![21] 8. Para educar em ordem à cultura do cuidado A promoção da cultura do cuidado requer um processo educativo, e a bússola dos princípios sociais constitui, para o efeito, um instrumento fiável para vários contextos relacionados entre si. A propósito, gostaria de fornecer alguns exemplos: A educação para o cuidado nasce na família, núcleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em relação e no respeito mútuo. Mas a família precisa de ser colocada em condições de poder cumprir esta tarefa vital e indispensável. Sempre em colaboração com a família, temos outros sujeitos encarregados da educação como a escola e a universidade e analogamente, em certos aspetos, os sujeitos da comunicação social.[22] São chamados a transmitir um sistema de valores fundado no reconhecimento da dignidade de cada pessoa, de cada comunidade linguística, étnica e religiosa, de cada povo e dos direitos fundamentais que dela derivam. A educação constitui um dos pilares de sociedades mais justas e solidárias. As religiões em geral, e os líderes religiosos em particular, podem desempenhar um papel insubstituível na transmissão aos fiéis e à sociedade dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferenças, do acolhimento e do cuidado dos irmãos mais frágeis. Recordo, a propósito, as palavras que o Papa Paulo VI proferiu no Parlamento do Uganda em 1969: «Não temais a Igreja; esta honra-vos, educa-vos cidadãos honestos e leais, não fomenta rivalidades nem divisões, procura promover a liberdade sadia, a justiça social, a paz; se tem alguma preferência é pelos pobres, a educação dos pequeninos e do povo, o cuidado dos atribulados e desvalidos».[23] A todas as pessoas empenhadas no serviço das populações, nas organizações internacionais, governamentais e não governamentais, com uma missão educativa, e a quantos trabalham, pelos mais variados títulos, no campo da educação e da pesquisa, renovo o meu encorajamento para que se possa chegar à meta duma educação «mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão».[24] Espero que este convite, dirigido no contexto do Pacto Educativo Global, encontre ampla e variegada adesão. 9. Não há paz sem a cultura do cuidado A cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz. «Em muitas partes do mundo, fazem falta percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas, há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro».[25] Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno, o leme da dignidade da pessoa humana e a «bússola» dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum. Como cristãos, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança. Colaboremos, todos juntos, a fim de avançar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco. Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar,[26] mas empenhemo-nos cada dia concretamente por «formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros».[27] Vaticano, 8 de dezembro de 2020.   Franciscus   [1] Cf. Francisco, Vídeo-mensagem por ocasião da LXXV Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (25 de setembro de 2020). * A expressão «cultura do cuidado» aparece na encíclica Laudato si’: «o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade» (n. 231). Veja-se também o número 229. [2] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 67 [3] Cf. Francisco,«Fraternidade, fundamento e caminho para a paz», Mensagem para a celebração do XLVII Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2014), 2. [4] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 70. [5] Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 488. [6] De officiis, 1, 28, 132: PL 16, 67. [7] K. Bihlmeyer – H. Tüchle, Church History, vol.1 (Westminster, The Newman Press, 1958), 373-374. [8] Francisco, Discurso aos participantes no Congresso promovido pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, no cinquentenário da «Populorum progressio» (4 de abril de 2017). [9] Francisco, Mensagem à XXII Sessão da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP22) (10 de novembro de 2016. Cf. Mesa Interdicasterial da Santa Sé sobre a ecologia integral, Em marcha pelo cuidado da casa comum; no V aniversário da «Laudato si’» (LEV, 31 de maio de 2020). [10] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 26. [11] Francisco, Momento Extraordinário de Oração em Tempo de Epidemia (27 de março de 2020). [12] Ibidem. [13] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti(3 de outubro de 2020), 8; 153. [14] São João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 38. [15] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 91. [16] Conferência do Episcopado Dominicano, Carta past. Sobre la relación del hombre con la naturaleza (21 de janeiro de 1987); cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 92. [17] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 125. [18] Ibid., 29. [19] Cf. Francisco, Mensagem aos participantes na Conferência Internacional «Os direitos humanos no mundo contemporâneo: conquistas, omissões, negações» (Roma, 10 de dezembro de 2018). [20] Cf. Francisco, Mensagem à Conferência da ONU finalizada a negociar um instrumento juridicamente vinculante sobre a proibição das armas nucleares, que leve à sua total eliminação (23 de março de 2017). [21] Francisco, Vídeo-mensagem por ocasião do Dia Mundial da Alimentação de 2020 (16 de outubro de 2020). [22] Cf. Bento XVI, «Educar os jovens para a justiça e a paz», Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2012), 2; Francisco, «Vence a indiferença e conquista a paz», Mensagem para o XLIX Dia Mundial da Paz(1 de janeiro de 2016), 6. [23] Discurso aos Deputados e Senadores do Uganda (Kampala 1 de agosto de 1969). [24] Francisco, Mensagem para o lançamento do Pacto Educativo (12 de setembro de 2019). [25] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 225. [26] Cf. ibid., 64. [27] Ibid., 96; cf. Francisco,«Fraternidade, fundamento e caminho para a paz», Mensagem para a celebração do XLVII Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2014), 1.     © Copyright - Libreria Editrice Vaticana