JORNADAS DE FORMAÇÃO PERMANENTE 15 a 17 de Ja...

A Conferência Episcopal Portuguesa, na Assembleia Plen...

Notícias em Destaque


SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIAMISSA NA CAPELA DE S. MIGUEL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA2018-12-08 Caríssimos irmãos e irmãs! A Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria leva-nos a considerar a grande aventura da nossa vida, dentro da imensa aventura da vida do universo, fruto do amor criador de Deus. Acreditamos que tudo nasce do seu amor eterno, que se comunica em gestos criadores, e que desperta em nós o desejo de O louvar, bendizer e glorificar, a partir da fé que recebemos. Além do louvor, a fé no Deus Criador convida-nos sempre a uma resposta que manifeste o acolhimento consciente, responsável e agradecido. A orientação que damos à nossa vida em todas as grandes ou pequenas decisões é a forma que temos de manifestar que reconhecemos o seu amor criador e o modo que temos de agradecer a partir da fé. A narrativa bíblica do livro do Génesis, numa linguagem poética e simbólica, sintetiza a possibilidade de diferentes atitudes e caminhos que, livremente, podemos percorrer em resposta ao mesmo gesto criador de Deus. A humanidade, em cada um dos seus membros ou na sua dimensão coletiva e comunitária, goza da grandeza de uma condição livre, o que constitui marca essencial da sua identidade; goza da capacidade de amar, o que a assemelha a Deus, que é amor; sente-se também chamada à responsabilidade por si e pelos outros, o que qualifica as sua decisões. A história da humanidade mostra à saciedade como são grandes os desafios e como são muitas e diferentes as respostas, a dizer claramente que estamos sempre em construção, pessoal e comunitariamente, pois cada um de nós como a sociedade que constituímos tem uma sublime vocação que está ainda longe de realizar. A este crescer em humanidade, de forma integral, que contemple a liberdade, a responsabilidade, um mais apurado sentido dos outros, de Deus e do cosmos em que habitamos, corresponderá sem dúvida aquilo a que chamamos progresso civilizacional. À parte os extremismos e fundamentalismos de vária ordem que povoam o nosso tempo e que se caraterizam por uma visão parcial, redutora e desencarnada da história, é possível chegar a consensos bastante alargados sobre o que entendemos por progresso civilizacional. Tem por centro a pessoa e a vida em todas as suas fases e circunstâncias, respeita a sua liberdade, responsabilidade e a verdade da sua identidade, está aberta à dimensão espiritual e sobrenatural, promove o equilíbrio ecológico do planeta em que habitamos e o universo que nos envolve. A tradição ocidental de matriz judeo-cristã que é a nossa casa comum deu e continuará a fornecer elementos essenciais quando se trata de progresso civilizacional e, quando perdemos essas nossas raízes perdemo-nos no meio de uma selva imensa de visões parciais acerca da humanidade, da vida, do mundo, ficamos sem referências éticas sólidas e à mercê das areias movediças de todos os relativismos ameaçadores da própria pessoa humana em sociedade. Falar de matriz judeo-cristã da nossa civilização significa dizer algo que vai muito para além da dimensão religiosa que inclui. Nesse sentido, não é simplesmente uma questão que tenha a ver com as igrejas, com os crentes ou com as instituições confessionais. Sendo uma realidade muito mais vasta e ultrapassando as fronteiras do religioso e confessional, é uma questão civilizacional que, enquanto pessoas e instituições sentiremos a necessidade de preservar como alicerce daquilo que somos hoje e das linhas programáticas do nosso futuro.   A Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria reveste-se de particular importância porque nos oferece a possibilidade de vermos a história da resposta humana à iniciativa divina numa perspetiva positiva e marcada pela esperança. Ao contrário do que frequentemente passou para a opinião comum e para a consciência geral, o cristianismo não é a religião do pecado, da condenação e da morte, mas a afirmação da possibilidade de uma resposta consciente, livre e responsável à proposta de vida. Como a teologia e a doutrina têm destacado e como nos ensinou de modo simples e eloquente o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, a fé cristã é o anúncio da possibilidade de viver a santidade a partir da resposta que damos auxiliados pela graça de Deus. Uma mulher, a mãe de todos os viventes, a nova Eva, Maria, pela sua resposta livre, responsável e marcada pela força do amor, responde a Deus e oferece a vida num louvor e gratidão que fazem dela modelo de humanidade e de fé para todos os crentes. A santidade de Maria, hoje proclamada pela Igreja, é a declaração de que é possível em todos os tempos e circunstâncias da história fazer caminho de santidade, entendida de forma muito simples como a concretização da nossa vocação humana de criaturas de Deus, renascidas pelo batismo, animadas pela graça e disponíveis para realizar da forma mais completa possível aquilo que somos. Portugal e especialmente Coimbra tiveram um relevante papel histórico no que se refere à difusão da devoção à Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Ao mesmo tempo tivemos um lugar importante no que respeita aos caminhos de civilização global ao longo dos tempos. Temos ainda, sem dúvida, no tempo presente, a possibilidade de continuar a viver essa nossa vocação, na fidelidade à nossa identidade, à história e à matriz fundamental que nos carateriza. Enquanto cristãos, não deixaremos de oferecer à comunidade o nosso contributo, que não é mais que o anúncio do Evangelho de Jesus como verdade que nos edifica, nos abre caminhos de vida e nos salva. A Virgem Santa Maria irá sempre connosco como estímulo e como modelo, que nos aponta para onde podemos chegar. Como escreveu o Papa Francisco, Ela “é a mais abençoada dos santos entre os santos, aquela que nos mostra o caminho da santidade e nos acompanha. E, quando caímos, não aceita deixar-nos por terra e, às vezes, leva-nos nos seus braços sem nos julgar. Conversar com ela consola-nos, liberta-nos, santifica-nos” (Gaudete et Exultate 176). Coimbra, 8 de dezembro de 2018Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra  
SCUTAR O CLAMOR DOS POBRES [1]             Quero, antes de mais, agradecer o convite para vos falar, saudar o Sr. Bispo e a todos, e exprimir a minha alegria por estar hoje aqui convosco.             Serve-nos de inspiração para a celebração deste Dia Mundial dos Pobres a mensagem do Santo Padre que alude no seu título à escuta e resposta ao clamor dos pobres (Sl 34,7). Diz o Papa nessa mensagem (n. 2), referindo-se ao clamor, ou brado, dos pobres: «como é possível que este brado, que sobe à presença de Deus, não consiga chegar aos nossos ouvidos e nos deixe indiferentes e impassíveis? Num Dia como este, somos chamados a fazer um sério exame de consciência para compreender se somos verdadeiramente capazes de escutar os pobres.» Por muito meritória que seja uma qualquer ação social, há que ver se ela nasce dessa escuta do clamor dos pobres, das suas angústias e sofrimentos, tal como Deus escuta esse clamor, essas angústias e sofrimentos.             Gostaria de começar por evocar um evento em que participei há pouco tempo, por ocasião do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, uma efemérida do âmbito civil. Essa efeméride serviu de ocasião para uma iniciativa ecuménica que reuniu cristãos de várias denominações em torno da temática da Mensagem bíblica como «fundamento e contributo para a erradicação da pobreza» (assim se designava a iniciativa) .             A este respeito, do contributo que pode dar a inspiração bíblica no combate à pobreza no mundo, recordei um livro de um rabino britânico muito conhecido (recebeu o prémio Templeton, uma espécie de prémio Nobel para a religião), Jonathan Sachs. O livro tem por título Not in my name (Não em meu nome) e pretende demonstrar como a mensagem bíblica bem interpretada e não instrumentalizada é o melhor antídoto contra a utilização da religião para tentar justificar a violência (a violência em nome de Deus). E começa por salientar um aspeto do que representa a novidade dessa mensagem no contexto da história da humanidade e da história das religiões: um Deus que se coloca do lado dos pobres (que houve o seu clamor), dos vulneráveis e que não têm poder. As religiões politeístas, pelo contrário, serviam de justificação do poder hierárquico político e social; nelas, o faraó, o imperador ou o rei eram, de vários modos, equiparados a Deus; nelas, o divino estava do lado do poder humano e era instrumento de fortalecimento desse poder. A novidade da Bíblia hebraica (o Antigo Testamento, para os cristãos) está na valorização de qualquer pessoa como «imagem e semelhança de Deus», de um Deus que intervém na história para libertar os que não têm poder, em defesa dos mais pobres, fracos e vulneráveis. Os profetas bíblicos criticam e enfrentam o poder e promovem uma ordem social de justiça, amor e paz. E a propósito da violência, salienta Jonathan Sachs que o caminho da violência em nome da religião é o da vontade do poder, o de Caim, não o do Deus revelado na Bíblia, que a essa violência de Caim responde: «A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim» (Gn 4, 10).             Com o Novo Testamento – podemos nós acrescentar à tese de Jonathan Sachs – um outro passo é dado no sentido da identificação do Deus omnipotente com os mais pobres e impotentes. Jesus, o Homem-Deus, considera feito a Si o que fazemos ao mais pequeno e mais fraco dos nossos irmãos (Mt, 25, 31-46). Foi o que procurei salientar nessa iniciativa realizada por ocasião do Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, que tinha por temática a Bíblia «como fundamento e contributo para a erradicação da pobreza»: não encontro motivação e convicção interior mais fortes do que esta para combater a pobreza como violação da dignidade humana – Deus que considera feito a Si o que fazemos aos mais pobres. Aqui reside o maior «fundamento e contributo» (como sugeria o título desse evento) da Bíblia para a erradicação da pobreza.             Considerar a esta luz o combate pela erradicação da pobreza não pode deixar de ter consequências. Se Deus considera feito a Si o que fazemos aos mais pobres, impõe-se que, na nossa relação com os pobres afastemos qualquer sobranceria paternalista que os menoriza e fere na sua dignidade, tal como a indiferença e frieza burocráticas que os trata como números de estatística.             Quando nesse Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza fui interpelado na rua por um ou dois pedintes (como certamente vos sucede com alguma frequência), associei esses dois factos: aquele pobre e a efeméride desse dia, relativa à erradicação da pobreza; um sinal claro da pobreza a eliminar que me interpelava. É claro que me veio à mente a ideia de que não era certamente a minha esmola que iria erradicar a pobreza, nem sequer aquela de que notoriamente padecia aquele pedinte. Mas também me ocorreu a advertência do Evangelho: naquela pessoa vejo a imagem de Jesus, Deus feito Homem. E isso não pode deixar de ter consequências na minha atitude para com ele, para além da esmola.             Nesse dia, foi também interpelado por jornalistas enquanto presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz. E recordei, a propósito, uma resolução da Assembleia da República de há vários anos que partiu da iniciativa dessa Comissão quando era presidida por Alfredo Bruto da Costa (de saudosa memória, que dedicou toda a sua vida a esta causa, como poucos em Portugal), resolução aprovada por unanimidade, que define a pobreza como violação dos direitos humanos, ou seja, como afronta à dignidade da pessoa humana. Não sou, como era Alfredo Bruto da Costa, especialista nesta área e, por isso, não soube responder à pergunta concreta sobre que medidas devem ser tomadas para erradicar a pobreza em Portugal. Mas quis salientar que considerar a pobreza como violação dos direitos humanos dá uma prioridade ao objetivo da sua erradicação que não pode ser esquecida, mas que tem sido esquecida com frequência. É, antes de mais, uma prioridade, que deve sobrepor-se a outros objetivos de política económica e social, como várias vezes salientou Alfredo Bruto da Costa.             Recordo que, segundo dados do Eurostat (organismo de estatística da União Europeia) revelados também nesse Dia Mundial da Erradicação da Pobreza, 23, 3% da população portuguesa corre risco de pobreza ou exclusão social.             Convém salientar o seguinte, para não alimentar equívocos. Quando falamos da pobreza como violação dos direitos humanos a erradicar, falamos da carência de bens necessários a uma vida conforme à dignidade humana num determinado contexto social, falamos de miséria. Outra é a noção que também surge no Evangelho da pobreza como bem-aventurança ou como virtude, que implica a renúncia voluntária ao supérfluo, mas não a privação do que é necessário a uma vida digna. É neste outro sentido que Santa Teresa de Ávila, citada na mensagem do Papa para este dia (n. 9), fala da pobreza como «um bem que encerra em si todos os bens do mundo; assegura-nos um grande domínio; quero dizer que nos torna senhores de todos os bens terrenos, uma vez que nos leva a desprezá-los».              Ver Jesus no pobre tem consequências nas ações de proximidade (o amor ao próximo no sentido da pessoa concreta que está fisicamente próxima de nós), mas também em ação de âmbito estrutural (também todos os pobres que desconheço, todos eles vítimas das estruturas que geram a pobreza, são, um “próximo” para amar, também eles são imagem de Jesus).             Justifica-se que me detenha nestes dois aspectos, que por vezes se contrapõem, mas que não devem ser contrapostos.             Há que combater as causas estruturais da pobreza. O Papa Francisco vem salientando este aspeto, a partir da exortação apostólica Evangelii Gaudium. A ação da Comissão Nacional Justiça e Paz incide sobretudo neste plano e numa perspetiva de formação da opinião, da mentalidade, no âmbito da Igreja e no âmbito da sociedade: criar e favorecer uma opinião e uma mentalidade que atenda às causas estruturais da pobreza, mais do que situações específicas de pobreza que nos sejam próximas. A propósito da importância do combate às causas estruturais da pobreza, Alfredo Bruto da Costa usava esta imagem: se não combatemos as causas da pobreza, também no plano político, podemos estar a enxugar o chão de uma casa inundada sem fechar a torneira que está na origem dessa inundação.             Mas isso não dispensa ações imediatas de proximidade que podem sempre atenuar o fenómeno (dar de comer a quem tem fome) até que sejam alteradas essas causas estruturais, alteração que, de resto, poderá demorar mais tempo do que o tempo de vida que resta a muitos pobres. Muitos de vós certamente combatem a pobreza deste modo e através destas ações de proximidade. É errado esquecer a importância de combater as causas estruturais da pobreza. Mas também é errada e contra o Evangelho uma outra atitude corrente, que desvaloriza estas ações imediatas de proximidade e que, sob o pretexto da necessidade de combater as causas estruturais da pobreza, pensa em delegar na política e no Estado o combate à pobreza, como se cada um de nós individualmente se pudesse eximir a essa responsabilidade, esquecendo a imagem de Jesus naquele pobre que passa ao meu lado e que não pode esperar que se eliminem tais causas estruturais. Esta questão, destas duas dimensões necessárias do combate à pobreza, também se liga à da relação entre a justiça e a caridade, um ponto fulcral da doutrina social da Igreja.             A palavra “caridade” tem muitas vezes um sentido pejorativo, como simples assistencialismo. Não é esse o seu verdadeiro sentido. Afirma o Papa emérito Bento XVI, na encíclica Caritas in veritate (n.1): «A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor — “caritas” — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta.»             Mas importa salientar o que são deveres de justiça, que são um pressuposto da caridade. Quando falamos em erradicação da pobreza como violação dos direitos humanos, falamos de um dever de justiça, que pode ser exigido como tal, e não pode depender da simples boa vontade de uma ou mais pessoas. Também nesta perspetiva, de pouco valerá uma oferta a obras sociais da Igreja (que poderia ser movida pela caridade) quando não se paga um salário justo ou não se pagam os impostos legalmente devidos (que são deveres de justiça). Afirma a este respeito o Papa emérito  Bento XVI, também na encíclica Caritas in veritate (n.6): «Em primeiro lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius: cada sociedade elabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é “meu”; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é “dele”, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso “dar” ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é “inseparável da caridade”, é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, “a medida mínima” dela, parte integrante daquele amor “por ações e em verdade” (1 Jo 3, 18) a que nos exorta o apóstolo João. Por um lado, a caridade exige a justiça: o reconhecimento e o respeito dos legítimos direitos dos indivíduos e dos povos. Aquela empenha-se na construção da “cidade do homem” segundo o direito e a justiça. Por outro, a caridade supera a justiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão. A “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo.» Ou seja, a caridade pressupõe a justiça, mas vai para além dela, porque só a caridade (corretamente entendida, como plena doação de si mesmo) permite alcançar a autêntica e completa harmonia social. Erradicar a pobreza enquanto carência de bens materiais básicos é uma exigência da justiça, mas há dimensões da pobreza e do sofrimento humano que só a caridade, mais do que qualquer medida política, permite enfrentar. Diz, a este respeito, o Papa emérito Bento XVI na encíclica Deus caritas est (n. 28): «O amor — caritas — será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto ao próximo.  Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor — todo o homem — tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal. Não precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconheça e apoie, segundo o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda». Recordo a propósito a ação de Santa Teresa de Calcutá, que ia muito para além da distribuição de alimentos. E vem também a propósito evocar as notícias que têm sido divulgadas sobre o plano do governo britânico para enfrentar a solidão como problema de saúde pública… Este é um aspeto que torna oportuna a concretização do princípio da subsidiariedade, um princípio básico da doutrina social da Igreja, no âmbito da política social. O Catecismo da Igreja Católica refere- se a esse princípio nestes termos (n. 186):             «Com base neste princípio, todas as sociedades de ordem superior devem pôr-se em atitude de ajuda (“subsidium”) — e portanto de apoio, promoção e incremento — em relação às menores. Desse modo os corpos sociais intermédios podem cumprir adequadamente as funções que lhes competem, sem ter que cedê-las injustamente a outros entes sociais de nível superior, pelas quais acabariam por ser absorvidos e substituídos, e por ver-se negar, ao fim e ao cabo, dignidade própria e espaço vital.»             O princípio da subsidiariedade contraria uma conceção de Estado omnipresente, monopolista e centralizador, que suprime a liberdade, mas também a responsabilidade, das pessoas e dos grupos sociais menores. Mas também não se confunde com a conceção liberal do Estado mínimo. Estado supletivo, ou subsidiário, não é o Estado omisso ou indiferente, é o Estado que regula as iniciativas da sociedade civil em função do bem comum, as apoia quando o bem comum o exige e supre as suas insuficiências também quando o bem comum o exige. Em suma, não deve dizer-se: “quanto mais Estado, melhor”; mas também não deve dizer-se: “quanto menos Estado, melhor”.             Será particularmente oportuno ter presente esse princípio quando se discutem questões relativas à reforma do Estado Social. Podemos dizer que na raiz do Estado Social está o princípio da solidariedade. O desafio da reforma do Estado Social deve passar não pela desvalorização do princípio da solidariedade que está na sua base, mas pela articulação desse princípio com o da subsidiariedade.             As iniciativas da sociedade (entre elas as da Igreja) no âmbito da solidariedade social são marcadas pela proximidade das situações concretas, pela espontaneidade de quem é movido por ideais (é este o seu “dever ser”), pela caridade corretamente entendida, ou seja, pela doação plena de si mesmo. Toda a comunidade ganha com isso, com a genuinidade de uma motivação que não se impõe ou decreta. Não se trata, pois, apenas de poupar despesas ao Estado, mas de dar aquilo que o Estado, enquanto tal, não pode dar.             A propósito das dimensões da pobreza que só a caridade como doação plena de si mesmo permite enfrentar, gostaria de partilhar convosco a impressão marcante que em mim deixou uma iniciativa que conheci por ocasião do último encontro das comissões justiça e paz europeias que decorreu em Barcelona.             A igreja de Sant´Ana, monumento de estilo gótico, situa-se em pleno centro de Barcelona, numa zona hoje quase desprovida de residentes, repleta de lojas e hotéis. Os paroquianos residentes escasseiam e o destino de algumas igrejas em zonas como esta de outros países europeus tem sido a venda para outros fins que não o culto, por vezes até o de restaurantes ou bares. Neste contexto, a opção dos responsáveis da paróquia foi a de acolher durante doze horas por dia alguns dos poucos habitantes permanentes que permanecem nestas zonas, isto é, os “sem-abrigo”. Durante esse período, a igreja está aberta para os acolher, para lhes oferecer algum alimento, mas sobretudo para os escutar («escutar o clamor dos pobres», como diz o Papa Francisco na sua mensagem para este dia), para comungar das suas angústias e anseios. Mais do que algum apoio social que outras instituições prestam, e para as quais serão encaminhados se for necessário, é à escuta desses “sem-abrigo” que se dedicam os voluntários (com algum apoio profissional) que aí passam essas horas. “Hospital de campanha” - foi a designação escolhida para a iniciativa, como eco da conhecida imagem que o Papa Francisco tem usado para caracterizar a missão da Igreja hoje. O acolhimento decorre na própria igreja, não nalgum seu anexo, numa zona separada da do sacrário, mas não muito longe dele.             O facto de o acolhimento ocorrer na própria igreja, e não noutro espaço que a paróquia também poderia ter disponível, é propositado e teologicamente fundamentado, de acordo com os responsáveis da iniciativa. Outros poderão não compreender esta escolha e ficar até escandalizados com a utilização do espaço da igreja para este fim, que, além do mais, exige acrescidos esforços dos serviços de limpeza. Ou pensar que a igreja se torna, assim, mais próxima de uma simples instituição de apoio social (uma simples ONG). A fundamentação teológica dessa opção de acolher os “sem-abrigo” na própria igreja foi-nos explicada deste modo: a porta da igreja deve ser uma só, a mesma porta serve para a liturgia e para a ação de amor aos pobres. Jesus está presente no sacrário e também está presente nos pobres; a eucaristia é o corpo de Jesus, como os pobres são a carne de Jesus.             E também não é por acaso que esta ação de acolhimento e escuta decorre entre as imagens sacras que desde há séculos embelezam aquela igreja. A imagem da Pietá aí presente leva muitos daqueles pobres a identificar-se com Jesus morto acolhido pela sua mãe. Ou a pensar que um dia poderão estar no lugar de Maria como uma mãe que acolhe um filho sofredor. A ação deste “hospital de campanha” tem levado alguns dos feridos que nele são acolhidos (daqueles “sem-abrigo”) a aproximarem-se de Deus e dos sacramentos, ou das suas famílias de que há muito tempo estavam afastados; não todos certamente, porque o fenómeno dos “sem-abrigo” é, como é sabido, muito complexo e de difícil acompanhamento. O que nos disseram foi que estes, como os pobres que tocam o abismo do desespero, com frequência se tornam profundamente revoltados ou, então, profundamente religiosos. Pensando nestes frutos de conversão a Deus, é claro que esta ação se distingue bem da de uma simples ONG.             Não digo que esta iniciativa seja um modelo a reproduzir em qualquer contexto, mas parece-me significativa e merecedora de reflexão neste Dia Mundial dos Pobres, em que somos convidados a escutar o seu clamor.             Gostaria agora de sublinhar alguns aspetos da mensagem do Papa para este Dia.             Nela se aborda a questão da colaboração com outras instituições, públicas ou privadas, unidas num mesmo propósito de solidariedade para com os pobres. Essa colaboração é enaltecida sem que com ela se deva perder o que é próprio da ação da Igreja. Afirma o Papa (n. 7): «Somos movidos pela fé e pelo imperativo da caridade, mas sabemos reconhecer outras formas de ajuda e solidariedade que se propõem, em parte, os mesmos objetivos; desde que não transcuremos aquilo que nos é próprio, ou seja, conduzir todos a Deus e à santidade».             Sublinha-se a importância de nos colocarmos numa atitude de verdadeiro serviço, que dá ao pobre a primazia, e de evitar a tentação do protagonismo. Diz o Papa (n. 2) referindo-se aos pobres: «Necessitamos da escuta silenciosa para reconhecer a sua voz. Se nós falarmos demasiado, não conseguiremos escutá-los a eles. Muitas vezes, temo que tantas iniciativas, apesar de meritórias e necessárias, visem mais comprazer-nos a nós mesmos do que acolher verdadeiramente o clamor do pobre.» E diz também o Papa (n. 7): «Quando encontramos o modo para nos aproximar dos pobres, saibamos que a primazia compete a Ele (a Deus) que abriu os nossos olhos e o nosso coração à conversão. Não é de protagonismo que os pobres têm necessidade, mas de amor que sabe esconder-se e esquecer o bem realizado».             O Papa quer que a celebração deste dia seja marcada pela alegria. Afirma (n. 6): «Muitos encontraram o calor duma casa, a alegria duma refeição festiva e a solidariedade de quantos quiseram compartilhar a mesa de forma simples e fraterna. Gostaria que, também neste ano e para o futuro, este Dia fosse celebrado sob o signo da alegria pela reencontrada capacidade de estar juntos. Rezar juntos em comunidade e compartilhar a refeição no dia de domingo é uma experiência que nos leva de volta à primitiva comunidade cristã, que o evangelista Lucas descreve em toda a sua originalidade e simplicidade: “Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações. (…) Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um” (At 2, 42.44-45)». E a mensagem conclui com um apelo à evangelização: que este dia seja ocasião de uma nova evangelização. Mas não no sentido em que nos caiba a nós evangelizar os pobres; eles também nos evangelizam a nós. Afirma o Papa (n. 10): «Os pobres evangelizam-nos, ajudando-nos a descobrir cada dia a beleza do Evangelho. Não deixemos cair em saco roto esta oportunidade de graça. Neste dia, sintamo-nos todos devedores para com eles, a fim de que, estendendo reciprocamente as mãos uns para os outros, se realize o encontro salvífico que sustenta a fé, torna concreta a caridade e habilita a esperança a prosseguir segura no caminho rumo ao Senhor que vem.» Coimbra, 18 de novembro de 2018Pedro Maria Godinho Vaz Patto    Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz [1] Comunicação apresentada na celebração do Dia Mundial dos Pobres que decorreu na diocese de Coimbra  
CELEBRAÇÃO DIOCESANA DO II DIA MUNDIAL DOS POBRESCONVENTO DE SANTA CLARA A NOVA – 2018.11.18MISSA DO XXXIII DOMINGO COMUM B   Caríssimos irmãos e irmãs! O Dia Mundial dos Pobres proposto pelo Papa Francisco surge como uma novidade na vida da Igreja e das suas comunidades, pois ultrapassa a prática corrente de nos centrarmos nas causas para fazer delas uma bandeira e leva-nos a pôr no centro, a pessoa, a pessoa do pobre. A Sagrada Escritura, já no Antigo Testamento fala mais dos pobres do que na pobreza; não há a pretensão de elaborar uma teoria sobre a pobreza, mas a de socorrer o pobre e cuidar dele. No Novo Testamento, quando Jesus proclama as bem-aventuranças faz o mesmo: bem aventurados os pobres... e quando quer ilustrar com a linguagem viva e clara o que é usar de misericórdia com os pobres, usa a parábola do bom samaritano que fala de pessoas e da sua atitude na relação com outras pessoas, o próximo na relação de caridade com o seu próximo. A Sagrada Escritura, em geral, e Jesus, em particular, a par do discurso sobre os pobres proclamam sempre, e com palavras fortes, a importância e o lugar da justiça na distribuição dos bens materiais e espirituais em que todos têm direitos e deveres. São também muitos os lugares bíblicos em que os profetas clamam com veemência em favor do tratamento justo dos pobres; a parábola de Jesus sobre o pobre Lázaro e o rico avarento elucida-nos bem acerca das relações justas entre as pessoas. Por fim, o Evangelho de S. Mateus, no capítulo 25, remata ao identificar o pobre com a carne do próprio Cristo: o que fizestes a um destes pequeninos, a Mim o fizestes (cf. 25, 40). “Este pobre clama, o Senhor o escuta” é palavra do Salmo 34, 7, escolhida como lema deste dia. Se, por um lado, enuncia a certeza de fé no Senhor que escuta a voz dos pobres, por outro, torna-se um imperativo para cada um de nós enquanto cristão, um imperativo para a Igreja em todas as suas comunidades e instituições. A liturgia deste domingo, por meio da sua linguagem figurada de tom apocalíptico, convida-nos a estar vigilantes quando vier o Filho do Homem para reunir os seus eleitos de todos os lugares. Ao mesmo tempo que pretende incutir a esperança da salvação por meio de Jesus, o Filho de Deus, pretende também acentuar a nossa responsabilidade pessoal e comunitária, pois a fé sem a caridade está completamente morta. A Igreja sente, hoje, de um modo renovado que a sua missão consiste em anunciar a fé em Jesus Cristo e em proclamar a grandeza da caridade nas relações entre nós. A mesma Igreja sente ainda que a via mais abrangente e mais eficaz de anunciar ao Evangelho consiste em viver com humildade e verdade o amor aos pobres, estando disponível para renunciar a tudo por causa deles. A imagem de Jesus que acolhe a paixão e a morte nunca pode sair dos nossos olhos, pois, ali, Ele mostrou-nos o que significa a opção pelos pobres pregada pelos homens bíblicos. A Igreja é herdeira deste testemunho de Jesus e, da mesma forma, tem como ideal de vida entregar-se em favor de todos os que são necessitados material ou espiritualmente. As comunidades cristãs, nunca podem sentir-se tranquilas na vivência da sua fé ou na ação catequética, litúrgica e pastoral, se não incluem a ação social e caritativa nos seus projetos e realizações. A vigilância de que nos fala a liturgia de hoje, vive-se, sem dúvida, na oração, na intimidade com o Senhor, mas inclui seguramente a atenção a tudo o que se passa com as pessoas que estão ao nosso lado. A atitude de vigilância chama-nos a ver o que os outros sofrem e a escutar o grito dos pobres e aflitos, com um coração de carne, que tenha a força de amor necessário para ultrapassar as burocracias institucionais necessárias, mas frequentemente descentradas da pessoa do pobre. A vigilância tem de conduzir um ação adequada de promoção da dignidade de toda a pessoa, que envolva pessoas e meios, instituições públicas e privadas num conjugar de esforços que manifeste a nossa identidade humana, cultural e civilizacional. De facto, uma sociedade que não cuida dos seus pobres e não promove a paz e a justiça para todos, sofre gravemente de falta de humanidade e mostra que está débil de espírito cristão. Este celebração do II Dia Mundial dos Pobres constitui para a nossa Diocese de Coimbra uma oportunidade para reunirmos pessoas e instituições que têm como vocação preservar o cuidado pelos pobres como opção central do Evangelho. Quisemos convocar as Irmandades das Santas Casas da Misericórdia, os Centros Sociais Paroquiais e outras fundações canónicas de cariz social, os grupos Caritas e Vicentinos... porque são o rosto visível da cultura cristã transformada em ação social e caritativa. Este dia dá-nos ainda a oportunidade de agradecer em nome da Igreja Diocesana a todas as pessoas que nestas instituições oferecem a sua vida, o seu tempo e os seus bens no serviço aos mais pobres. Este agradecimento é simplesmente um sinal de que os pobres reconhecem a mão misericordiosa de Deus nas vossas instituições e no trabalho das vossas próprias mãos. Gostaria ainda que este agradecimento fosse um incentivo para continuardes a fazer mais e melhor, apesar das circunstâncias difíceis em que o fazeis e dada a enorme escassez de meios de que dispondes. Uma vez que o trabalho das instituições não esgota o âmbito da ação junto dos pobres, deixo às paróquias e unidades pastorais o desafio de melhorarem o serviço de acolhimento aos pobres já existente. Se porventura ainda não existe de forma organizada, é chegado o momento de reunir pessoas de coração grande para começar, pois uma paróquia que não cuida dos seus pobres e não os acolhe com amor não dá sinais de uma fé viva e a caminha a passos largos para a morte espiritual. Convido-vos a ter sempre presente diante dos olhos o rosto dos pobres e o rosto de Jesus; convido-vos ainda a escutar sempre no silêncio o clamor dos aflitos; convido-vos ainda a repetir muitas vezes com o coração: o que fizestes ao mais pequenino, a Mim o fizestes! A cidade e a Diocese de Coimbra têm o dever histórico de recordar e atualizar sempre o testemunho de vida da Rainha Santa Isabel, a mulher da caridade, da justiça e da paz, a rainha dos pobres. Confiamos, hoje, à sua intercessão o trabalho das nossas instituições sócio-caritativas e de todas as pessoas que generosamente as servem, para que, na nossa terra o clamor dos pobres seja ouvido e tenha a sua resposta, os que têm fome e sede de justiça sejam saciados e, todos aguardemos vigilantes a vinda do Senhor. Coimbra, 18 de novembro de 2018Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra  
SOLENIDADE DA DEDICAÇÃO DA CATEDRAL DE COIMBRA SÉ VELHA – 2018.11.16   Caríssimos irmãos e irmãs! A Solenidade da Dedicação da Catedral convida-nos a repor o olhar de fé em Jesus Cristo, a pedra angular, o Messias e Filho de Deus, que torna feliz Simão Pedro, os Apóstolos e os discípulos de todos os tempos. As pedras vivas que nós somos pelo batismo encontram o seu lugar harmonioso na construção quando estão em comunhão com Pedro e participam da vida inesgotável do Senhor Jesus Cristo. “Feliz de ti, Simão, porque não foram a carne nem o sangue que to revelaram, mas sim Meu Pai que está nos Céus”. Em primeiro lugar, estamos diante da certeza de que quem conhece Jesus é uma pessoa feliz, pois tem acesso ao conhecimento do maior mistério, inacessível ao esforço humano, mas revelado pelo Pai. Em segundo lugar, convida-nos a compreender que conhecer Jesus Cristo não significa somente ser sabedor da sua identidade, mas inclui sempre viver em intimidade com Ele, pois a sua verdadeira identidade encontra-se na relação pessoal, que leva a entregar-lhe a própria vida, com base na confiança. A ação pastoral da Igreja precisa de retirar constantemente daqui algumas ilações: ela tem como finalidade dar a conhecer Jesus Cristo como o Messias e Filho de Deus; a sua metodologia tem de incluir sempre o dinamismo do seguimento na condição de discípulos, que aceitam viver numa relação de confiança com Ele, o meio indispensável para a revelação da Sua verdadeira identidade; a comunidade cristã ou Igreja é o lugar onde esta relação se dá, o contexto em que se vive a confiança n’Ele e a escola em que Ele se conhece plenamente. A nossa Igreja Diocesana quer aprofundar cada vez mais a sua disponibilidade para acolher e propor uma renovada ação pastoral. Para além da celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos, a catequese de estilo catecumenal dirigida a todas as faixas etárias - adultos, jovens e crianças –, precisamos de lançar mãos dos métodos e meios cheios de criatividade e novidade que o Espírito Santo continua a oferecer-nos e que se manifestam adequados para o nosso tempo. Na reflexão que fazemos nos órgãos de participação e comunhão a nível diocesano, nos arciprestados, nas unidades pastorais ou nas paróquias, havemos de ter sempre uma pergunta central: está a nossa ação pastoral orientada para o conhecimento de Jesus Cristo, que se alcança pela relação íntima e pessoal com Ele, no contexto da Igreja, Seu Corpo e Seu Povo Santo? Não haverá ainda costumes e tradições pagãs no seio das comunidades cristãs que, em vez de aproximar de Cristo e da Igreja, criam obstáculos à fé e à vida no Espírito? “Aproximai-vos do Senhor” era a palavra forte da Segunda Leitura e é palavra de ordem do nosso Plano Pastoral Diocesano. De facto, aproxima-se quem já foi iniciado no conhecimento do Senhor ao entrar pela porta da fé, quem já confia n’Ele como o Senhor da Sua vida. Quanto mais O conhece na intimidade pessoal e na comunhão eclesial mais se aproxima e, por sua vez, quanto mais se aproxima mais O conhece e mais se deixa envolver na missão de O dar a conhecer aos outros. Outro grande desafio desta Solenidade da Dedicação da Catedral é a renovação da vida da Igreja Diocesana. A Primeira Leitura usava a linguagem profética das águas que saem debaixo do limiar da portas do templo e tornam vivo, fresco e verdejante todo o lugar por onde passam. Assim é a força da graça que vem de Deus e chega a nós por meio da sua Igreja, o Templo Vivo e Santo, que se deixa renovar e é força de renovação dos fiéis e de toda a humanidade. A Igreja sofre frequentemente com muitos sintomas de velhice e de morte, que podem ter muitos nomes: infidelidade ao Evangelho, desânimo diante das dificuldades, espírito mundano nas suas opções, confiança desmedida na sua humanidade, falta de acolhimento da graça do Espírito Santo, muita ação e pouca oração, muitas palavras humanas e pouca Palavra de Deus. A renovação que nos é proposta é a que vem de Deus, fonte da Vida, que nos transforma pessoalmente e fortalece as comunidades cristãs por meio do Evangelho. O caminho é o da conversão pessoal a Cristo, que se conhece e se ama, o da conversão à Igreja, que se edifica com muita disponibilidade e dedicação. No fundo, a renovação que se espera é a que nasce da santidade pessoal e comunitária, na certeza de que é o Espírito Santo quem nos santifica, faz Deus entrar em nós e nos permite entrar no coração e na vida de Deus. Se queremos realizar a missão de evangelizar, havemos de deixar entrar em nós o Deus da vida para levar ao mundo os sinais da vida de Deus. Não o podemos fazer sem a alegria de viver n’Ele, sem nos deixarmos transformar por Ele, sem aceitarmos todas as consequências desta graça que foi derramada nos nossos corações. Hoje, mais do que noutras épocas da história, voltamos à situação de viver a alegria da fé no meio de muitas contrariedades, que nos fazem sentir de forma mais clara o que significa a afirmação do Apóstolo, pois, com Cristo, temos por vocação ser pedras vivas rejeitadas pelos homens, mas escolhidas e preciosas aos olhos de Deus. Temos ainda hoje a oportunidade de agradecer a Deus o dom das vocações sacerdotais e, concretamente, a alegria de instituir no ministério dos leitores um dos nossos candidatos ao sacerdócio ministerial. A vocação sacerdotal é um dos maiores sinais da graça de Deus concedida à sua Igreja, para que, por meio do anúncio da Palavra e da celebração da Eucaristia, se renove na santidade e seja no meio do mundo sacramento da salvação. Continuaremos a rezar pela santificação da nossa Diocese e a conduzir a sua ação pastoral no sentido de proporcionar a muitos a possibilidade de se encontrarem com Cristo, de O conhecerem na intimidade, de confiarem n’Ele e de se tornarem pedras vivas desta construção, que é a Sua Igreja. Confiamos a Nossa Senhora, Santa Maria de Coimbra, esta nossa Igreja Diocesana e pedimos que nos acompanhe nos caminhos da santificação pessoal e comunitária, que nos farão experimentar a novidade de Jesus Cristo, a fonte da água viva. Coimbra, 16 de novembro de 2018Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra  
DIOCESE DE COIMBRA ESTATUTOS DO CONSELHO PASTORAL DA UNIDADE PASTORAL   CAPÍTULO I Natureza e fins Artigo 1º O Conselho Pastoral da Unidade Pastoral (CPUP) é um órgão representativo e consultivo, no qual os fiéis prestam ajuda ao pároco ou párocos na promoção da ação pastoral informando e animando a vida pastoral do conjunto das paróquias da unidade. Artigo 2º Pela sua constituição e por uma ação organizada e permanente, o CPUP, sob a presidência do pároco — ou do moderador da equipa de párocos, quando for o caso — promove o exercício da corresponsabilidade eclesial em ordem à construção de uma verdadeira comunidade de discípulos missionários. CAPÍTULO II Competências Artigo 3º Ao CPUP, estando atento às aspirações, necessidades e características sócio-pastorais da Unidade Pastoral (UP) e refletindo sobre elas a partir do Plano Diocesano de Pastoral, compete: Incentivar e promover a definição de prioridades pastorais e de um plano de ação nas suas diversas áreas, de forma integrada entre as paróquias da UP; Rever e avaliar periodicamente a execução do plano pastoral; Pronunciar-se sobre a constituição da Equipa de Animação Pastoral; Eleger a Comissão Permanente. CAPÍTULO III Constituição Artigo 4º O CPUP deve ser formado por: fiéis concretamente empenhados na ação evangelizadora e pastoral da Igreja como seus agentes; cristãos reconhecidamente competentes e de boa reputação social nas suas áreas sócio profissionais, fiéis à Igreja e aos seus deveres; fiéis que representem os vários sectores sociais e áreas geográficas da UP. Artigo 5º §1. Os membros do CPUP podem ser: natos, eleitos e nomeados. Os eleitos e nomeados terão o mandato de três anos, que pode ser renovado não mais do que duas vezes seguidas. §2. São membros natos: o pároco ou a equipa sacerdotal e os diáconos; os membros da Equipa de Animação Pastoral;  §3. São membros eleitos: O representante dos religiosos que residam na UP; Os representantes dos Conselhos para os Assuntos Económicos das paróquias integradas na UP; Os representantes dos organismos e serviços pastorais: evangelização e catequese, liturgia e serviço da caridade; Os representantes das confrarias e irmandades; Os representantes dos sectores sociais e áreas geográficas relevantes.  §4. São membros nomeados: os que, segundo o Artigo 4º, o pároco entender idóneos, não podendo, no entanto, exceder em número o correspondente a um quarto da totalidade do Conselho. §5. Em caso de necessidade de substituição de qualquer elemento, esta será feita pela entidade ou serviço pastoral que o nomeou ou elegeu. Artigo 6º §1. Os membros referidos no Artigo 5º, nº3, a), b), c) e d), são eleitos segundo as normas comuns do Direito Canónico (cân. 119). Compete ao pároco convocar, com o mínimo de quinze dias de antecedência, a assembleia eleitoral de cada grupo. Exige-se a maioria absoluta dos votantes. §2. Os representantes dos sectores sociais e áreas geográficas podem ser designados mediante consulta à comunidade alargada. CAPÍTULO IV Órgãos e funcionamento Artigo 7º O CPUP é constituído pelos seguintes órgãos: o Plenário a Comissão Permanente. Artigo 8º O Plenário do CPUP é constituído pelos membros natos, eleitos e nomeados, conforme o Artigo 5º e é presidido pelo pároco ou o moderador dos párocos. Artigo 9º O Plenário, convocado pelo presidente, reunirá ordinariamente três vezes por ano e, extraordinariamente, sempre que o presidente o deseje ou um terço dos seus membros o solicite. Artigo 10º O CPUP elegerá, na primeira reunião do Plenário, nos mesmos termos do Artigo 6º §1, em eleições separadas, um secretário e dois vogais que, com o presidente, constituirão a Comissão Permanente do CPUP.  Artigo 11º §1. A Comissão Permanente terá as seguintes funções: Substituir o Plenário em casos urgentes, quando não for possível reuni-lo; Elaborar a agenda de trabalho do Plenário; Acompanhar a execução dos planos e atividades; §2. São funções do Secretário: Enviar as convocatórias; Coordenar os trabalhos das reuniões; Redigir as atas. §3. Os vogais auxiliam o Secretário e substituem-no nos seus impedimentos. Artigo 12º A Comissão Permanente reunir-se-á ordinariamente 3 vezes por ano e extraordinariamente sempre que o Presidente o solicite.  Artigo 13º Os estatutos do CPUP devem ser submetidos à aprovação do bispo diocesano e também os seus membros homologados pelo mesmo. CAPÍTULO V Disposições finais Artigo 14º Sendo substituído o pároco das paróquias da UP de um só pároco, ou sendo substituídos simultaneamente todos os párocos da UP, o CPUP mantem-se, a não ser que o novo pároco determine o contrário. Artigo 15º Nos casos omissos aplicar-se-ão as normas comuns do Direito Canónico.  ... NOTAS: Estes Estatutos do Conselho Pastoral da Unidade Pastoral foram discutidos nas reuniões de arciprestes e aprovados na reunião de 2018.10.16. Servirão como modelo para a elaboração dos estatutos do Conselho Pastoral de cada uma das Unidades Pastorais da Diocese de Coimbra. Apresento-os, agora, à Diocese, como contributo para a concretização do terceiro objetivo do Plano Pastoral Diocesano 2017-2020, que diz: “Orientar a organização e as estruturas pastorais para a missão da Igreja”. Entre as estratégias apontadas refere-se a “Definição da Unidade Pastoral como base da organização pastoral”, e “a criação do Conselho Pastoral”, como instrumento de especial importância. Exorto as Unidades Pastorais a criarem ou darem adequada continuidade ao Conselho Pastoral, um órgão de participação e corresponsabilidade que muito ajudará as comunidades a discernirem, à luz do Espírito Santo, os caminhos a percorrer pela Igreja. Coimbra, 25 de outubro de 2018 Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra