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XII DOMINGO DO TEMPO COMUM A MISSA DAS ORDENAÇÕES DE DIÁCONOS E PRESBÍTEROS   Caríssimos irmãos e irmãs! Há muito tempo que não vivíamos um dia tão grande e tão feliz como este. O dom de 18 diáconos e dois presbíteros para o serviço da Igreja faz-nos exultar no Senhor e refazer a fé e a confiança no seu amor. O Senhor visitou o Seu Povo, veio ao seu encontro e agraciou-nos com um gesto de carinho, que ultrapassa infinitamente as nossas capacidades humanas. Resta-nos agradecer na oração e na entrega generosa da nossa vida ao serviço do anúncio do Seu Evangelho e da edificação da Sua Igreja. O Povo de Deus clamou ao Senhor e Ele ouviu a sua voz. Percorrendo os mais variados recantos da Diocese, sou testemunha da dor das comunidades cristãs que sentem a falta de pastores para o anúncio do Evangelho, para a congregação dos fiéis e para a celebração dos sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Penitência. Tenho encontrado muitos fiéis de todas as condições e idades que têm a causa das vocações tão entranhada nos seus corações, que nunca deixam de rezar por elas, confiantes na resposta que o Senhor dará para a salvação do Seu Povo. Pois a resposta de Deus aí está. Os diáconos e presbíteros que hoje recebem o Sacramento da Ordem são a resposta de Deus a esta Igreja orante. No santuário mais íntimo de cada pessoa que reza, no santuário de cada família que vive a fé, no santuário de cada comunidade cristã que se une para louvar o Senhor e evangelizar e no santuário de oração pelas vocações, a Igreja de S. Tiago, na cidade de Coimbra, são muitos os irmãos e irmãs que elevam a Deus as suas preces, com as palavras, com o silêncio e com o coração. O Senhor ouviu a sua voz; ouviu a voz dos pobres que lhe confiaram a sua causa, segundo a expressão da Primeira Leitura, e quis dar-lhes um sinal inequívoco de que salva sempre a vida dos pobres. Louvado seja o Senhor!   O texto do Evangelho de S. Mateus que escutámos vem claramente ao encontro da Igreja do nosso tempo, frequentemente marcada por muitos medos, a começar pelo medo de ser ignorada, rejeitada ou perseguida. As mudanças na sociedade, na cultura, na adesão à fé e nas suas expressões, deixaram muitas pessoas e comunidades pouco confiantes e, por vezes, até mesmo sem ânimo. Quando ficamos débeis na fé e confiamos mais no poder da nossa organização humana do que no poder de Deus, facilmente desanimamos; quando deixamos em segundo plano a dimensão sobrenatural da comunidade cristã e sobrevalorizamos a realidade sociológica da Igreja, deparamo-nos com a debilidade dos projetos; quando nos centramos em nós, assumindo-nos como os protagonistas da edificação da comunidade, e não em Deus, o verdadeiro construtor, vemos se a obra ruir. “Não tenhais medo dos homens”, foi a palavra de Jesus, plenamente portadora de ânimo, fundado na fé e na confiança n’Aquele que sempre nos visita e acompanha os nossos passos de peregrinos. Não tenhais medo, porque Ele cuida de vós, cuida das comunidades, cuida do seu povo e não deixará de apresentar-vos a vós e às vossas necessidades diante do Pai que está nos Céus. “Não temais os que matam o corpo” foi outra palavra de Jesus, que nos ajuda a considerar se as nossas preocupações do tempo presente nascem de uma autêntica fé em Deus e na Igreja ou se, porventura, estão pervertidas por uma visão demasiado humana e terrena. A Igreja, em cada uma das suas comunidades, em cada um dos seus membros e em cada um dos seus projetos, tem um caminho a seguir, que passa pela confiança em Deus que, por meio do Seu Espírito, a conduzirá a cumprir a sua missão. Estamos numa fase da história que nos pede uma grande conversão a Deus, no sentido da profundidade da fé, mas também uma grande conversão do nosso modo de sermos Igreja, no sentido de nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo. Neste sentido, quando avaliamos a nossa vida e a vida das comunidades, chegamos, porventura, à conclusão de que somos uma Igreja que trabalha muito e reza pouco; de que nos incentivamos muito à ação e pouco à oração; de que investimos mais forças na dimensão estrutural do que na caminhada espiritual. Neste dia solene e festivo para a Diocese, peço-vos, caríssimos irmãos e irmãs, sacerdotes, consagrados e leigos, que nos centremos na construção de comunidades mais enraizadas em Cristo e mais alicerçadas no Espírito Santo, Aquele que, em verdade, santifica a Igreja. Que os nossos planos privilegiem a pastoral da espiritualidade cristã, as celebrações litúrgicas bem preparadas e bem vividas, os tempos de catequese e oração como caminhos de crescimento interior da fé das pessoas e das comunidades.   Caríssimos candidatos ao diaconado e ao presbiterado! Deus chamou-vos à fé, chamou-vos a fazer parte do Seu Povo e, agora, chama-vos ao ministério ordenado. Sois vasos de barro, mas por livre escolha e eleição do Deus amor, sois portadores do único e verdadeiro tesouro. Procurai sempre ser fiéis ao dom que recebeis, com humildade, pois ele vem de Deus e não de vós. Agradecei ao Senhor todos os dias a vossa vocação e manifestai-lhe na oração e na ação a vossa disponibilidade para O servir na pessoa dos vossos irmãos. Recordai-vos que sois seus servos e que não vos pregais a vós mesmos, mas a Cristo Jesus, o vosso Senhor, o Senhor de todos e o Senhor de tudo. Que na vossa pessoa e na vossa ação brilhe o esplendor da glória de Deus, que se reflete no rosto de Cristo. Tomai como lema da vossa vida o desejo de em tudo mostrar aos homens o rosto de Cristo, que os ama e os quer salvar. Não sois ordenados para mais nada, senão para ajudar a humanidade a encontrar-se pessoal e eclesialmente com Cristo. Esta é a vossa vocação e esta há de ser a motivação fundamental do exercício do ministério que vos é confiado. Aquele que vos chamou velará por vós e o Coração Imaculado de Maria, sua e nossa Mãe será sempre o vosso refúgio no meio das adversidades. Ámen.   Coimbra, 25 de junho de 2017 Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra
Palavras de otimismo realista na Festa de Encerramento da Visita Pastoral D. Virgílio confessou-se otimista, sem deixar de ser realista, em relação ao futuro da Igreja no Arciprestado do Nordeste, na Festa de Encerramento da sua Visita Pastoral a este arciprestado. A Festa decorreu no Santuário de Nossa Senhora das Preces, no dia 18 de junho, juntando cerca de mil pessoas oriundas das cinco unidades pastorais que compõem o Nordeste: Oliveira do Hospital, Tábua, Arganil, Góis e Pampilhosa da Serra. Apesar da alegria de estarem reunidos em Igreja com o seu bispo, ninguém ficou indiferente aos trágicos acontecimentos de Pedrógão, e D. Virgílio propôs que se fizesse uma oração especial por quem estava a sofrer e por aqueles que tinham falecido no incêndio. A partir das 10 horas foram chegando os participantes que foram acolhidos diante da Igreja do Santuário, onde alguns membros da Irmandade de Nossa Senhora das Preces ofereciam desdobráveis com a apresentação do mesmo. No palco principal fez-se uma pequena oração da manhã e deu-se início às diversas atividades: na Igreja iniciou-se uma Oração de Adoração ao Santíssimo dirigida por dois Diáconos Permanentes, alguns dirigentes escuteiros dinamizaram algumas brincadeiras com as crianças, três jovens animadores desenvolveram algumas dinâmicas com o pequeno grupo de jovens que se juntou. No palco, dois jovens apresentaram os diversos intervenientes, começando pelo Pe. Borges, que fez uma resenha histórica das origens do arciprestado. Deram o seu testemunho dois animadores da Catequese de Adultos de Oliveira do Hospital, o casal que dinamiza a Pastoral Familiar no arciprestado e dois jovens sobre o Curso Alpha Jovem. Finalmente, o Pe. Paulo Filipe entrevistou o Sr. Bispo sobre as suas impressões no que diz respeito a esta visita pastoral e as suas perspetivas para o futuro. Terminadas estas atividades, todos procuraram uma sombra para partilhar os farnéis. Às 15 horas teve início a atuação do Grupo de Concertinas “Os Oliveirenses”, a que se seguiu a atuação do Grupo AMA (Associação de Melhoramentos Aldeiense) com os seus cantares tradicionais. O ponto alto da Festa foi a celebração da Missa que decorreu ao ar livre, com o colorido das Irmandades, com a música litúrgica de um coro de Arganil a que se juntaram elementos de outros coros, com a nomeação dos membros do novo Conselho Pastoral do Arciprestado. D. Virgílio deixou a todos uma mensagem de esperança, com um otimismo cristão cheio de realismo, sem esconder as dificuldades que a Igreja, neste arciprestado, precisa de enfrentar, apontando para os desafios que é preciso agarrar – nomeadamente a continuação do esforço de primeira evangelização aos que estão mais afastados –, indicando o papel decisivo que os leigos têm na missão da Igreja.    Link para Album Fotográfico do Pe João Fernando Dias  
INCÊNDIOS NA DIOCESE DE COIMBRA NOTA AO POVO DE DEUS    Estamos todos profundamente chocados com o drama que se abateu sobre algumas das nossas comunidades em virtude dos incêndios que deflagraram nos últimos dias e deixaram inúmeras pessoas a sofrer com a perda dos seus bens e muito mais com a perda dos seus familiares. A Diocese de Coimbra, as suas paróquias, os seus pastores e o povo de Deus em geral sentem profundamente a dor de todos os seus membros e querem estar próximos, de acordo com as suas possibilidades e dentro das modalidades que se considerem mais adequadas. São irmãos em humanidade e irmãos na fé, que precisam de consolação e comunhão da parte de todos nós e queremos estar presentes. Já tive oportunidade de estar localmente presente e de deixar um pequeno sinal da comunhão da Igreja Diocesana e pude sentir como isso é importante para que as pessoas renovem a confiança e a esperança no Deus misericordioso, que não esquece nenhum dos seus filhos, particularmente os que se encontram em tribulação. Peço-lhe que continue a ajudar as comunidades cristãs a sentirem como suas as dores destes seus irmãos e que intensifiquem a oração em favor do fortalecimento da esperança dos atribulados e pelo eterno descanso dos defuntos. Informo que o ofertório das celebrações dominicais de 2 de julho reverterá a favor das necessidades das pessoas e famílias vítimas dos incêndios ocorridos na área da nossa Diocese. A Caritas de Coimbra está encarregada de gerir um fundo de auxílio em nome da Diocese de Coimbra e em articulação com as paróquias atingidas pelo flagelo dos incêndios. Os donativos deverão ser encaminhados para a conta aberta para esse efeito, com os seguintes dados:   IBAN: PT50 0018 000344379659020 66 BIC/SWIFT: TOTAPTPL com a seguinte designação: CARITAS de COIMBRA - Incêndios 2017.   Grato pela comunhão e pela disponibilidade para levar por diante esta obra de caridade prestando auxílio aos que sofrem e rezando pelos defuntos, peço ao Senhor que abençoe pastores e fiéis.   Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra
MISSA DA BÊNÇÃO DOS CAPACETES DAS ASSOCIAÇÕES HUMANITÁRIASDOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DO DISTRITO DE COIMBRA IGREJA DE TÁBUA - 2017-06-17   Caríssimos irmãos e irmãs! Voltamos a reunir-nos para agradecer a Deus a Sua proteção ao longo de um ano de trabalho, de generosidade e de apoio ao próximo, nas diversas associações humanitárias de bombeiros voluntários do distrito de Coimbra. Estamos em comunhão solidária com todos os outros que, espalhados por um país inteiro e pelo mundo, têm no coração a mesma atitude de gratidão a Deus, movidos pela fé de que Ele é o Senhor da vida e de que acima de tudo quer que tenhamos a vida e a vida em abundância. Este momento celebrativo leva-nos a reconhecer a responsabilidade que temos, pelo fato de homens e mulheres, crianças e idosos, porem em nós uma imensa confiança, sobretudo nos momentos de aflição e de sofrimento. Mesmo que, por vezes, se espere dos bombeiros mais do que aquilo que eles podem fazer no que diz respeito à salvaguarda da vida e dos bens, está sempre ao seu alcance o autêntico milagre de acolher cada pessoa com um coração grande, que a pacifique e lhe dê a esperança de que precisa nos momentos difíceis. Este momento celebrativo leva-nos também a reconhecer a grandeza da missão que nos foi confiada, a de cooperar com Deus e com os homens na preservação e salvação da vida dos outros. Não há nada maior, nem mais belo, nem mais humano do que pôr-se inteiramente ao serviço da vida e vós estais entre aqueles que o fazem dia após dia, mesmo que, algumas vezes, carregados com o peso das próprias dificuldades, problemas e sofrimentos, que não podem fazer abrandar o fogo interior que vos leva a olhar para os outros como irmãos e a cuidar deles como filhos. São Paulo, na Primeira Leitura, oferecia-nos duas grandes certezas de fé, que são, ao mesmo tempo, dois grandes projetos. Em primeiro lugar dizia: “o amor de Cristo nos impele”; o afirmar que “o amor de Cristo nos impele”, o apóstolo está a dizer-nos que a nossa capacidade de amar nasce de Deus, daquele que nos criou e pôs em nós as sementes do amor como centro, fundamento, centro e projeto de vida. Está também a dizer que, cada pessoa, sente dentro de si um chamamento, uma vocação para amar, para se aproximar, para sair de si e das suas comodidades, para ir ao encontro dos outros. Trata-se do fundamental projeto de vida: sou para os outros e quero pôr a minha vida, o que sou ao serviço dos outros. Em segundo lugar, São Paulo, dizia-nos: “Cristo morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si mesmos”. A partir da fé temos sempre diante de nós duas realidades: uma é o testemunho de Cristo, que morreu por nós, no gesto mais significativo que conhecemos – dar a vida ou morrer por alguém; a segunda realidade que conhecemos bem é da nossa fragilidade e da pobreza do nosso testemunho, pois quando damos por nós vemos o egoísmo que nos assalta e a dificuldade de abrir o coração e a alma aos outros. Caríssimos irmãos e irmãs, convido-vos a não deixar passar nenhum dia sem procurarmos tomar consciência daquilo que somos e da vocação a que somos chamados. Quem não é crente, nem cristão, procure encontrar na sua condição de pessoa o fundamento humano e natural para orientar a sua vida, segundo consciência, na retidão e na justiça, e na certeza de que existe para se construir como pessoa feliz e ajudar os outros a viverem e a serem felizes. O impulso para a bondade, a generosidade e o amor está inscrito na matriz mais secreta de cada pessoa, faz parte da sua identidade mais profunda. Trata-se de procurar dar-lhe lugar efetivo na vida. Quem é crente em Deus e, concretamente, cristão, como é o nosso caso, encontra na sua fé um dinamismo sobrenatural que o leva a olhar para Jesus Cristo e a ver n’Ele o modelo mais perfeito de pessoa que vive, promove a vida e olha para os outros como pessoas pelas quais está disponível para dar a sua vida. O exemplo de Jesus é, de fato, universal, não pode ser superado, inquieta qualquer pessoa, não nos permite passar ao lado de ninguém, o seu amor impele-nos de forma irresistível a amar. O Evangelho que escutámos deixava-nos um forte apelo àquilo a que podemos chamar a autenticidade de vida, por meio da expressão proverbial: “a vossa linguagem deve ser «sim, sim; não, não»”. Sentimos que esta palavra tem uma grande atualidade, uma vez que é igualmente grande a tentação de, em vez de servir, ser servido; em vez de se procurar o bem comum, se procurar o bem pessoal; em vez da luta pela verdade e pela transparência, se jogar na falsidade e na ocultação; em vez da justiça e da legalidade, se cair na injustiça e corrupção. “A vossa linguagem deve ser «sim, sim; não, não»”. Significa também que a autenticidade das pessoas ou das instituições está mais nas suas ações do que nas suas palavras ou discursos. Quando as palavras contrariam as ações ou vice versa, perde-se a credibilidade e põe-se em causa o trabalho de todos, pois mina-se a condição fundamental para a bom êxito, mina-se a confiança nas pessoas e nas instituições. Dizer “sim, sim; não, não” significa promover uma cultura da justiça contra qualquer forma de corrupção. Segundo o Papa Francisco, sempre atento à sociedade e ao mundo, “A corrupção, na sua raiz etimológica, define uma dilaceração, uma ruptura, decomposição e desintegração. A corrupção revela uma conduta antissocial tão forte que dissolve as relações e os pilares sobre os quais se fundam uma sociedade: a coexistência entre as pessoas e a vocação a desenvolvê-la”. E continua: “a corrupção quebra tudo isso, substituindo o bem comum pelo interesse pessoal que contamina toda perspectiva geral. Nasce de um coração corrupto. É a pior praga social, pois cria problemas graves e crimes que envolvem todas as pessoas” (Papa Francisco, Prefácio ao livro do Cardeal P. Turkson, Corrupção). Caríssimos irmãos e irmãs! Temos diante de nós uma vocação humana e cristã, que nos impele à caridade, a olhar para os outros como nosso próximo e a considerarmos sempre a nossa vida vale mais pelas obras de justiça e de verdade do que por todas as palavras que possamos pronunciar. A vossa vida é, acima de tudo, a daqueles que apostam nas obras em favor do próximo. Que nunca vos falte a coragem interior, pois a força de Deus e a sua bênção estarão sempre convosco. A vossa ação, o vosso serviço, o vosso testemunho e a vossa caridade são muito importantes para transformação da cultura do egoísmo em cultura do amor. Que a Virgem Maria, Senhora dos Aflitos vos acompanhe sempre a vós e àqueles a quem socorreis, que ela seja o socorro de todos, que ela vos proteja e vos guarde. Ámen.   Coimbra, 17 de junho de 2017 Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra
MISSA NOS OITO SÉCULOS DA PRESENÇA FRANCISCANA EM PORTUGAL IGREJA DE SANTO ANTÓNIO DOS OLIVAIS - COIMBRA Leituras da sexta-feira da X Semana do Tempo Comum, anos ímpares     Caríssimos irmãos e irmãs! A celebração dos oito séculos da presença franciscana em Portugal é um acontecimento memorável. Portugal não seria o mesmo sem este testemunho evangélico incarnado na vida de tantas pessoas e ao longo de tanto tempo. Em primeiro lugar, a fé em Jesus Cristo e a vivência eclesial, mas depois, também, a inegável dimensão cultural e civilizacional, que caldeou e transformou o povo que nós somos. Pode hoje dizer-se que o país que nós somos tem uma matriz cristã, em grande parte modelada pelo dinamismo franciscano. A própria vocação universalista e cosmopolita de Portugal e dos portugueses bebeu à saciedade de Francisco de Assis e dos seus mais fiéis seguidores. Nesta Missa de ação de graças, o nosso louvor vai para o Deus inspirador de todos os carismas por meio do seu Espírito Santo. Agradecemos a Deus, particularmente pela pessoa e pelo testemunho de São Francisco de Assis, o homem e o cristão que irrompe na história da Europa como verdadeira novidade a desafiar o mundo adormecido à sombra de uma fé e de uma Igreja instaladas e sem capacidade de renovação. A figura de Francisco de Assis foi sempre provocadora. De tal modo se configura com a Pessoa de Jesus e incarna o Seu Evangelho que, não deixa ninguém indiferente. Seduz pela profundidade da fé e pela entrega total, desinstala sempre os que se refugiam numa fé espiritualista, não permite concessões fáceis àqueles que querem ser fiéis ao mandamento do amor a Deus e ao próximo. Ele incarna o que há de mais original na fé cristã, a confiança inabalável em Jesus Cristo, e o que há de mais caraterístico na condição humana, o ser para os outros em doação e entrega, ou seja, no amor. O despojamento de Francisco de Assis, que está disponível para livremente renunciar a tudo por amor do Reino dos Céus e por amor à humanidade, é, em primeiro lugar, cumprimento das palavras de Jesus que pede aos seus discípulos que renunciem a tudo por sua causa; é, em segundo lugar, uma imagem bem expressiva da atitude do próprio Jesus que, sendo Deus, se fez homem, sendo rico se fez pobre e sendo senhor se fez o servo de todos.   A Liturgia da Palavra conduziu-nos hoje à compreensão do mistério central da fé cristã, que somos chamados a viver e que foi de forma exemplar incarnada por Francisco de Assis. Em primeiro lugar, a certeza de que o que somos e fazemos enquanto cristãos se deve ao dom de Deus que recebemos. O tesouro que transportamos nas nossas frágeis mãos vem de Deus e não de nós. Trata-se do primado absoluto da graça, trata-se da obra de Deus, por um lado, e da vocação a que somos chamados, por outro. Somos terreno que o Senhor criou e cultiva, somos barro e pó da terra, mas cheios dos dons d’Aquele que renova todas as coisas. Francisco de Assis assumiu-se como servo, apesar da sua ascendência de senhor, frágil apesar da nobreza e da fortaleza mundana dos seus atributos. Em segundo lugar, levamos no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que também no nosso corpo, se manifeste a vida de Jesus. Ele é a vida que no batismo recebemos, Ele é a eternidade que já entrou em nós e que se consumará na feliz ressurreição. A nossa esperança tem um nome, o nome de Jesus morto e ressuscitado; nenhum outro nome nos salva e em nenhum outro encontramos a plenitude da vida. Francisco de Assis não se iludiu com o tempo e aspirou à eternidade, compreendeu que a vida é passagem e que as glórias do mundo são vãs. Em terceiro lugar, acolhemos a missão, expressa nas palavras do Apóstolo: “acreditei; por isso falei”. O tesouro do Evangelho da esperança e da vida que na fé, recebemos, deve ser partilhado, em gestos e palavras de evangelização. Quando nos deixamos enraizar em Cristo, formamos sempre comunidades de discípulos para o anúncio do Evangelho. Francisco de Assis deixou-se encontrar e seduzir por Cristo, conheceu-O e nunca mais pôde deixar de anunciar. Em quarto lugar, percebemos que, sempre que estamos em Cristo, sempre que O conhecemos e amamos, fazemos caminho de conversão de toda a nossa pessoa, de tudo o que somos e de tudo o que temos. Nessa altura, tudo é relativo e secundário, diante da grandeza do Senhor que habita em nós. Francisco de Assis esqueceu-se de si, pôs de parte os seus bens, ofereceu o seu corpo em sinal de despojamento das suas riquezas diante da pobreza livre do seu Senhor. Durante dois mil anos de cristianismo, a Igreja passou por muitas vicissitudes. Viveu tempos e momentos de fidelidade ao Evangelho e outros de negações e pecados. Estamos num tempo cheio de contradições e marcado por grandezas e misérias, mas temos a graça de ver com mais clareza a frescura inesgotável do Evangelho, como tesouro, como caminho e como luz. O Espírito Santo pôs no nosso caminho de fé e como sinal visível da caridade e da comunhão da Igreja o papa Francisco. Acreditamos que é um sinal providencial do Altíssimo que sempre assiste o seu Povo, para que volte à radicalidade do Evangelho. Quando tantos homens e mulheres, de dentro e de fora, têm dificuldade de contemplar na Igreja o rosto de Jesus e do Evangelho, o Espírito suscita um profeta, alguém que vê na figura de Francisco de Assis um servo do mais genuíno modelo da mesma Igreja. O Evangelho é sempre o mesmo, Jesus Cristo é de ontem, de hoje e de sempre, mas ninguém mais o vê exatamente da mesma maneira depois da revolução humilde e silenciosa de Francisco de Assis, como nenhum de nós o lê da mesma maneira diante da revolução despojada do papa Francisco. O Evangelho que proclama bem aventurados os pobres em espírito, o Evangelho do acolhimento e da misericórdia, o Evangelho do perdão e da inclusão de todos, o Evangelho da ecologia integral, o Evangelho do serviço e do amor... é o verdadeiro Evangelho de Jesus e só esse pode dar um rosto santo à sua Igreja. Temos pela frente um enorme desafio, o de regressar ao Evangelho de Jesus com coração e espírito abertos. Temos, porventura, de sacudir muito do pó que a história colou aos nossos corações e às nossas instituições. Temos, com certeza, de erradicar muito espírito farisaico mascarado de religiosidade e espiritualidade. Temos um duro caminho de conversão pela frente, mas o Espírito nos há de guiar. Ajudar-nos-á o carisma sempre atual de Francisco de Assis e continuará a provocar-nos a palavra e o testemunho profético do Papa Francisco. Que a Virgem Maria, a primeira a acolher na radicalidade da sua fé e da sua entrega a Boa Nova de Deus, nos conduza a ver o verdadeiro rosto de Jesus e a acolher, como Francisco de Assis, o convite: Vai, reconstrói a minha Igreja. Ámen.   Coimbra, 2017.06.16 Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra