Com a Igreja Diocesana

Equaciono a Igreja como uma realidade temporal habitada misteriosa e operativamente pelo Espírito de Deus. Eu sei que é uma visão muito parcelar, talvez errónea (desde logo não contempla o céu; e não explicita a Trindade!). Mas como a Igreja é uma realidade tão abrangente que, à hora de falar de si, ela própria se vê obrigada a socorrer-se de um significativo leque de imagens que, sendo verdadeiras, não deixam de ser parcelares, assumo o risco. Esta ação do Espírito conduziu a Igreja ao longo da História a uma dupla manifestação igualmente verdadeira: universal, assente no sucessor de Pedro e incluindo-o, e local, assente nos outros bispos, sucessores dos apóstolos, em comunhão com o sucessor de Pedro, e incluindo-os. Sublinho estas noções de “assente” (e não “sob”) e de inclusão na própria “comunidade” daqueles sobre os quais a comunidade assenta.
Há uns anos, o Dr. Georgino Rocha chamava a atenção para um potencial efeito perverso que a facilidade de acesso, através da internet, à informação produzida junto do Papa pode ter neste modo bifocal de ser e estar em Igreja: a facilidade informática de “copy and past” (substituindo a velha e grande tesoura que ainda temos no Correio!) faz crescer exponencialmente a difusão dos documentos (ou partes deles) do Vaticano, remetendo para o reino da inexistência real (embora existindo formalmente) os documentos produzidos pelas Igrejas particulares e pelas conferências episcopais. Este efeito multiplica-se depois nas redes sociais, e por aí fora, aliás usado não raro sem o mínimo decoro! Esta tendência dá-se, diria, em continuidade com um certo centralismo papista de há alguns anos atrás, mas em contracorrente com o espírito conciliar. Estarei errado?!
Por isso dou todo o relevo à celebração da Igreja Diocesana, a este reforçar da consciência de uma Igreja local assente num Bispo. Somos – leigos, diáconos, padres e Bispo – uma realidade temporal habitada pelo Espírito de Deus. E se essa dimensão temporal nos marca, a todos, com o pecado, nem por isso deixamos de ser, pela ação do Espírito Santo, a plena Igreja de Deus e, como tal, os melhores instrumentos possíveis para a construção do Reino de Deus nesta área geográfica. Claro que a construção do Reino não é uma ação exclusivamente nossa, nem Deus está amarrado às nossas limitações pessoais e institucionais. Há Reino para além de nós! Mas se o Espírito ama a sua Igreja e faz dela o sinal desse Reino, então há de dar-lhe em cada tempo os melhores meios e pessoas possíveis para isso. E hoje, na área da diocese de Coimbra, essas pessoas somos nós.

Carlos Neves