Maria, a pobre dos pobres

A propósito dos contínuos e trágicos acontecimentos do Mediterrâneo, há dias, um deputado europeu português dizia que a solução não é de natureza política. Fico espantado, pois não o imagino a defender uma medida biológica de extermínio das populações dos países donde esses emigrantes provêm e, conhecendo as suas convicções antiassistencialistas, também não o vejo a advogar que seja a Igreja a estender-lhes as mãos caridosas e a ocupar-se deles. Pois eu penso radicalmente o contrário: a solução é política e só política. Evidentemente, não com as coordenadas que o nosso mundo ocidental está a traçar: isto não vai lá com uma réplica da muralha da China, transposta para as praias da Itália ou da Espanha. Passa antes por uma nova visão da realidade global, algo a que os olhos de muitos se fecham. Os povos oriundos “das sombrias regiões da morte” intentam chegar cá para apanharem, ao menos, as migalhas que caem da nossa mesa abastada. Essas migalhas podem não consistir, exclusivamente, no alimento. Mas são também – e, porventura, fundamentalmente – a conservação da vida, a segurança, a liberdade, a paz e a identidade religiosa. Se duvidarem, perguntem-no aos refugiados da Síria e das áreas controladas pelo ISIS, aos que fogem do Boko Haran ou a um qualquer outro fundamentalismo e tribalismo. E não será isto um problema político?
É, sim. Um problema criado por esta política imunda que leva, por exemplo, os Estados Unidos,  a Inglaterra e a França a fornecerem as mais modernas armas com as quais muitos são dizimados e os que escapam, tomados de pavor, não veem outra solução senão fugir. Armas tão sofisticadas que, na maior parte das vezes, nem sequer os exércitos nacionais, legalmente constituídos, as possuem. E é claro que não foram os terroristas a fazer essas armas: elas partem daqui, do Ocidente.
E que tem isto a ver com Nossa Senhora, a Senhora de Maio? Tem tudo. Ela canta: “O Senhor derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias”. Canta, portanto, uma nova ordem mundial. Não discutida nas frequentemente inúteis assembleias internacionais dos bem pensantes. Mas um fermento de novidade que há de conduzir a um outro estado de coisas, a uma outra civilização. Não obstante esta política...
Mas quem são estes “ricos despedidos de mãos vazias”? Temo bem que seja este nosso mundo ocidental que, por dinheiro, vende a alma ao diabo e retira a cruz do emblema do Real Madrid, já que um qualquer sultão do petróleo das arábias a isso obrigou e, na França, desloca a estátua de S. João Paulo II, só porque segura na mão o báculo pastoral com a cruz...
Afinal, que podemos esperar desta mentalidade sociopolítica?

D. Manuel Linda
Bispo das Forças Armadas e de Segurança