Que propostas concretas e credíveis para Portugal?

Aproximam-se as eleições legislativas para a Assembleia da República que irão ter lugar no próximo outono. Este facto, de elevada importância para o nosso futuro colectivo, começa a condicionar de forma muito significativa a acção governativa e a das oposições.
A grande discrepância entre o que é defendido pelos partidos até às eleições e o que é realmente executado quando acedem ao poder, sendo o actual governo mais um exemplo, tem vindo a tornar a sociedade portuguesa bastante atenta e exigente em relação às propostas de cada partido para resolver os principais problemas com que se debate a sociedade portuguesa.
De facto, o aumento do desemprego que se faz sentir há já dois trimestres e que supera os 13,7%, o aumento da dívida pública e da dívida externa de Portugal, - o volume da dívida externa acaba de superar os 406,6 mil milhões de euros -, o crónico défice das contas públicas, a elevada carga fiscal, o acréscimo das desigualdades, os pesados sacrifícios impostos e os riscos de pobreza de um elevado número de portugueses, são alguns dos temas a que os portugueses vêm dando muita atenção.
Do lado do Governo e dos partidos que o sustentam, defende-se que o caminho seguido é o único possível face ao contexto em que o país tem vivido após recurso ao apoio da troika. Apesar dos progressos inegáveis obtidos pelo governo, nomeadamente no que respeita ao acesso ao financiamento junto dos mercados financeiros, é inegável que uma parte da sociedade portuguesa está confrontada com um elevado número de problemas que urge resolver.
Até recentemente, por muito que se discutissem as reais dificuldades com que se debatem os portugueses, no momento de saber que soluções tinham para as resolver, era gritante a ausência de propostas credíveis, tendo em consideração os compromissos assumidos no que respeita ao défice do Estado e à dívida pública.
Com a publicação de um relatório respeitante a um estudo encomendado pelo Partido Socialista a doze economistas, sob o título “Uma década para Portugal”, o nível e a qualidade do debate mudou de forma substancial pois, pela primeira vez nos últimos anos, foi publicado um documento onde se afirma, de forma categórica, que é possível respeitar os compromissos internacionais e implementar uma outra política diferente da seguida pelo governo.
Nesse documento de noventa e cinco páginas é identificado um vasto leque de medidas que, a serem implementadas, irão contribuir para o crescimento mais robusto da economia portuguesa, diminuir o desemprego, melhorar as condições de vida e do trabalho dos portugueses e tornar o Estado mais amigo dos cidadãos.
As reacções ao documento foram, como seria de esperar, as mais díspares. No entanto, uma parte relevante dos actores políticos e sociais, alguns dos quais da área do Governo, e apesar de manifestarem reservas em relação a algumas das sugestões apresentadas, reconheceram que se trata de um contributo relevante e sobre o qual importa meditar.
Como resultado da publicação do referido documento, começa a não ser bem aceite que se debata sobre os problemas e os desafios com que se defronta o nosso país sem que, ao mesmo tempo, se apresentem soluções concretas que podem e devem ser implementadas para os resolver.
Se tal exigência se mantiver, como esperamos, não vai ser possível chegarmos às próximas eleições com os partidos a prometerem este mundo e o outro, sem que as propostas sejam devidamente escrutinadas sobre a sua real exequibilidade.
Em relação às medidas contidas no referido relatório, voltaremos a elas e a outras que eventualmente venham a ser apresentadas por outros actores políticos na próxima publicação.