Catequese de Natal de Dom Virgílio Antunes

 

 

Caríssimos irmãos e irmãs,
Estamos a aproximar-nos do tempo santo de Natal, e este lugar em que nos encontramos, a igreja de São Tiago, aqui na baixa de Coimbra, é um sinal de que Jesus, o Filho de Deus, veio ao nosso encontro, permanece no meio de nós como o Emanuel e virá sempre ao encontro da humanidade. Esta igreja, este templo, como qualquer outro em qualquer parte do mundo, é sempre um sinal deste Povo que nós constituímos a partir do batismo, quando recebemos o dom do Espírito Santo e fomos convidados a viver como seu Templo, de tal maneira que da igreja - templo/lugar/construção, passamos sempre à Igreja Povo de Deus habitado pelo Espírito Santo, que tem essa grande vocação de caminhar no Espírito para ser santa.
Este lugar, por desejo de todos nós, tornou-se, na nossa diocese, um Santuário: o santuário da adoração, o santuário da contemplação do caminho de vida segundo o Espírito. De facto, nesse caminho, nós precisamos de permanecer longamente neste ou noutros oásis de silêncio, de interioridade, de contemplação, para relermos a totalidade da nossa vida – com as suas luzes e sombras – conduzida pelo Espírito Santo de Deus.

 

A Igreja de Coimbra quer viver no Espírito

Queremos também que a nossa diocese de Coimbra, não só neste próximo triénio, mas sempre, faça um profundo e sério caminho à luz do Espírito Santo de Deus. De tal maneira que definimos como um dos objetivos do nosso Plano Pastoral a espiritualidade: caminharmos segundo o Espírito. Porque sem espiritualidade, sem a presença viva e atuante do Espírito Santo de Deus no coração de cada fiel, de cada comunidade e da própria Igreja, tornamo-nos apenas uma organização humana semelhante a muitas outras; e a Igreja, enquanto Povo santo de Deus, tem esta identidade radical de ser comunidade que vive e caminha no Espírito, que segue Jesus Cristo salvador à luz do Espírito. De outra forma, poderíamos constituirmo-nos numa religião, um grupo de pessoas que pratica determinados ritos prescritos pelos escritos antigos, mas sem a alma interior que a anima, sem o Consolador que nos leva a caminhar na Santidade. Esta é a nossa vocação: caminhar no Espírito.

 

Jesus de Nazaré e o Espírito

Quando olhamos para Jesus, nós encontramo-lo, do primeiro ao último momento da sua peregrinação terrena, a deixar-se conduzir pelo Espírito para viver na totalidade o amor à humanidade e a fidelidade à vontade do Pai. Encarnou no seio da Virgem Maria pela força do Espírito Santo: “o Espírito Santo virá sobre ti”; depois, “conduzido pelo Espírito”, foi ao deserto. Entrou nesse período de tempo denso, profundo, que o fez confrontar-se não somente com a realidade da debilidade humana, mas também com o ideal maior da vontade de Deus. Passou alguns anos no contato com as populações, na sua terra, na Galileia, em Cafarnaum, a caminho de Jerusalém, em Jericó e, sempre “movido pelo Espírito”, anunciou a Boa Nova do Reino, essa palavra especial de Esperança vinda da parte de Deus. Usou as suas mãos para manifestar a todos, no gesto do perdão, a grandeza do amor e da misericórdia de Deus. Usou as suas mãos para curar e salvar os que estavam doentes e perdidos. A todos deu o grande abraço do amor de Deus que lhes fez sentir com toda a clareza que Deus nunca abandona nenhum dos seus filhos. Chegado ao último momento, tendo visto crescer, dia após dia, uma atitude negativa, de perseguição e até de ódio contra si, acolheu tudo com a mesma força do Espírito Santo a quem se entregou, de tal maneira que no Getsémani, nos momentos derradeiros, quando pediu ao Pai que se fosse possível afastasse dele aquele cálice de dor, se disponibilizou totalmente para o beber e acolher a santa vontade do Pai, não pela força humana, mas pela força do Espírito Santo de Deus, a quem se entregou e que nunca o abandonou.
E no momento definitivo da sua passagem do meio de nós para o Pai, do seu lado aberto no alto da cruz, diz a Escritura, saiu sangue e água, para constituir esta Igreja, este Povo santo que nós somos, ainda hoje, e que há de viver, então, a partir da água do batismo, e do sangue, ou seja, no Espírito.

 

Espírito e oração

É uma altíssima vocação, caríssimos amigos, que nos foi dada por graça. E nós, felizmente, dia após dia, vamos encontrando na Igreja algumas formas e meios de manifestarmos a Deus a nossa gratidão pelo dom do Espírito, que nos acompanha, nos guia, nos ajuda a fazer o discernimento nas mais variadas situações da vida, alegres, dramáticas, de sofrimento, até de pecado e morte. E acreditamos que é quando nos deixamos guiar pela Palavra habitada pelo Espírito Santo de Deus que encontramos os caminhos adequados para prosseguir na vida, que encontramos a esperança e a confiança no meio das nossas muitas faltas de esperança e desalentos.
Este lugar em que nos encontramos é, efetivamente, um oásis: o oásis da adoração de Jesus na Eucaristia, que é o centro absoluto da nossa fé de cristãos; o oásis da contemplação, enquanto lugar do silêncio interior e exterior, que nos retira por alguns momentos do bulício dos afazeres, para nos encontrarmos face a face com o Deus da vida; o oásis da paz, onde os nossos corações, muitas vezes alvoraçados com as realidades próprias ou alheias, encontram aquela tranquilidade que não é simples construção humana, mas que – acreditamos – é um dom do Senhor nosso Deus, por meio do Seu Espírito.
Há quem diga que ninguém consegue ser um cristão segundo o Espírito se não tiver todos os dias, em cada dia da sua vida, um tempo de silêncio, de contemplação, de interiorização, não simplesmente de introspeção humana, mas de diálogo, abertura e contacto com Deus por meio do seu Espírito. Os grandes homens e mulheres da História da Igreja, os grandes santos, foram sempre homens e mulheres da contemplação, da adoração, da interiorização, da leitura meditada da Palavra de Deus, do encontro com o Senhor na Eucaristia celebrada, rezada, adorada e vivida.

 

Dificuldades do tempo presente

Nós estamos a viver num tempo muito marcado pelo materialismo; mesmo dentro da própria Igreja e na vida dos cristãos. Basta olharmos para os comportamentos generalizados durante esta quadra natalícia. Aquele Natal da fé, do encontro com Deus, da oração familiar, das relações fraternas conduzidas pelo Espírito de Deus, aquele Natal do amor que vem do Alto, aquele Natal verdadeiramente espiritual, deu lugar ao natal do materialismo, mesmo na nossa própria vida. De tal maneira que deixámos, em grande parte, de valorizar aquilo que de mais sério existe na nossa identidade de cristãos a partir do batismo, enquanto membros da Igreja santa, que tem por vocação viver na santidade. E se não nos deixamos – nesta quadra, como em todas as outras e na totalidade da nossa vida – conduzir pelo Espírito Santo de Deus, tornamo-nos, porventura, pessoas religiosas, mas não cristãs, no sentido mais sério e profundo desta palavra; tornamo-nos, porventura, pessoas crentes em algo, mas não crentes no Deus Santíssima Trindade que se nos deu a conhecer por meio de Jesus Cristo. E se, nas nossas relações e atividades eclesiais e pastorais não nos centramos na força do Espírito Santo de Deus, podemos tornar-nos ativistas, mas sem a verdadeira alma que enche a totalidade do nosso sermos cristãos e sermos comunidades cristãs.

 

Imitação de Jesus

Jesus, filho de Deus, deixou-se conduzir pelo Espírito do primeiro ao último dia da sua vida terrena; um cristão, se quer caminhar como seu discípulo, tem de deixar-se conduzir pelo Espírito; e uma comunidade cristã se o quer ser verdadeiramente, tem de deixar-se conduzir pelo Espírito Santo de Deus.
É tudo isso que é a nossa vida pessoal e comunitária, tudo isso que é a nossa oração, a nossa ação pastoral, o nosso trabalho nos movimentos e serviços, a nossa liturgia, é tudo isso que tem de ganhar uma dimensão espiritual mais profunda. O lugar que o Espírito Santo de Deus teve na vida de Jesus terá que ser o lugar que há de ter nas nossas vidas e na vida das nossas comunidades.
Gostaria, por isso, de vos desejar que este Natal seja efetivamente Santo, uma vez que esta palavra remete sempre para essa dimensão transcendente e espiritual: para a ação do Espírito de Deus em nós, que nos leva a adorar Jesus e que nos leva a abrir os braços, o coração e a vida aos outros, aos homens e mulheres nossos irmãos.

 

Catequese oral de D. Virgílio Antunes na Igreja de São Tiago, gravada pela Centro TV e transcrita pelo Correio de Coimbra. Subtítulos da responsabilidade do Correio de Coimbra. Publicado na edição n. 4673 de 21 de Dezembro de 2018