COMUNIDADE DE DISCÍPULOS PARA O ANÚNCIO DO EVANGELHO

INTRODUÇÃO

 

No início do Ano da Fé, que coincidiu com o início do ano pastoral de 2012-2013, tive oportunidade de vos escrever a primeira Carta Pastoral, intitulada “A alegria de crer e o entusiasmo de comunicar a fé”, procurando assim ajudar a Igreja de Coimbra a sintonizar com a Igreja Universal, convocada pelo papa Bento XVI para nos ajudar a entrar em profundidade no mistério da fé que professamos, celebramos, rezamos e vivemos.

Podemos agora reconhecer que a celebração do Ano da Fé levou a Igreja a centrar-se na realidade fundamental que a define, que a anima e que origina a sua missão no mundo: a fé em Jesus Cristo como o único Salvador. A nós, Diocese de Coimbra, ajudou-nos a ler o momento histórico que estamos a viver, a identificar algumas das nossas potencialidades e debilidades, e a delinear os objetivos fundamentais que hão-de nortear a nossa ação pastoral nos próximos anos.

A evangelização, em ordem ao desabrochar da fé em Jesus Cristo como o único Salvador, à inserção na vida eclesial como lugar de vida e anúncio e à transformação do mundo por meio do testemunho dos critérios evangélicos, constituirá a grande linha de força do plano delineado pelo Secretariado de Coordenação Pastoral, discutido no Conselho Presbiteral e apresentado nas diferentes instâncias pastorais da Diocese.

Ao definirmos e formularmos a missão e a visão para a Diocese de Coimbra no tempo presente, procurámos captar os traços perenes da sua identidade segundo o desígnio amoroso de Deus, e tentámos conjugá-los com os desafios mais prementes da atualidade segundo as conclusões da reflexão, oração e discernimento largamente participados. Julgamos, deste modo, estar em forte sintonia com a renovação da Igreja desejada e proposta pelo grande acontecimento que foi o Concílio Vaticano II, de cujo início estamos a celebrar o cinquentenário, e com as perspetivas da Conferência Episcopal Portuguesa, apresentadas na sua Nota Pastoral de 11 de Abril de 2013, intitulada “Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal”.

Missão: Diocese de Coimbra, comunidade que vive a fé e anuncia o Evangelho como caminho de encontro pessoal com Cristo, Único salvador, e como a sua Igreja.

Visão: Alicerçados em Cristo, formamos uma comunidade de discípulos para o anúncio do Evangelho.

Ao elencarmos e selecionarmos os quatro objetivos para o triénio de 2013 a 2016, esperamos progredir na resposta a algumas das maiores necessidades da Igreja Diocesana.

Objetivos: 1º Proporcionar o encontro pessoal com Cristo através do primeiro anúncio; 2º Criar o dinamismo do discipulado missionário nos membros da comunidade cristã; 3º Criar nos cristãos o «sentido de pertença» eclesial; 4º Fomentar a corresponsabilidade pastoral nas unidades pastorais.

Que todos nós, porção do Povo de Deus que está em Coimbra, sacerdotes, diáconos, religiosos, consagrados e leigos, acolhamos de coração aberto os novos tempos e os novos desafios que o Espírito Santo nos propõe.

Que o Plano Pastoral seja acolhido como um dom do coração de Deus, o grande Pastor do rebanho que, sempre, com solicitude paterna, cuida das suas ovelhas, procura as que andam perdidas, reconduz as tresmalhadas, trata das que estão feridas e doentes e vigia sobre as que estão gordas e fortes (cf Ez 34, 11-16).

 

 

  1. PROCLAMAI O EVANGELHO A TODA A CRIATURA (Mc 16, 16)

 

  1. Jesus Cristo, Evangelho e Evangelizador

 

O Evangelho segundo S. Marcos inicia com uma declaração fundamental para a compreensão de tudo o que se refere à evangelização: “princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc, 1, 1).

Esta frase permite uma dupla interpretação, suportada pela leitura do conjunto das Escrituras. Segundo a primeira, Jesus Cristo é o próprio Evangelho: a sua pessoa humana e divina constitui a Boa Nova que Deus quis comunicar aos homens. De acordo com a segunda possibilidade de leitura, Jesus é o Evangelizador, pois veio como enviado do Pai para proclamar a Boa Nova do amor de Deus e da salvação que deseja para todos, por meio do seu anúncio em palavras e obras.

A evangelização nasce sempre do desejo de Deus, que pretende dar a conhecer o seu Filho como o Salvador do Mundo e que realiza essa mesma salvação. Por sua vez, ela nasce da pessoa de Jesus, que se apresenta diante dos homens como o Filho de Deus e o Salvador do Mundo. Ela nasce ainda do mandato do Senhor que, antes de subir ao Céu, envia os seus discípulos a proclamar o Evangelho a toda a criatura, para que todo o que acreditar e for batizado seja salvo (cf. Mc 16, 15-16).

Jesus realizou a sua missão evangelizadora, o anúncio da Boa Nova do Reino, na obediência à vontade do Pai, acolhida livre e alegremente, apesar de implicar a oferta de si mesmo em sacrifício a favor dos homens. Não se tratou de uma vida descomprometida ou de palavras que não implicassem o testemunho. No auge da sua entrega, quando se lhe apresenta o cálice de dor como selo de autenticidade do seu amor à vontade do Pai e à sua missão evangelizadora, quando chega o momento da decisão, não recua, como atesta o Evangelista João: “E que hei-de dizer? Pai, livra-me desta hora? Mas precisamente para esta hora é que Eu vim! Pai, manifesta tua glória!” (Jo 12, 27).

Os Apóstolos assumiram o mandato do Senhor e, mais do que uma obrigação, fizeram dele uma missão à qual não podiam renunciar e que acolheram na alegria. Anunciar Jesus Cristo, Filho de Deus, morto e ressuscitado, Salvador do Mundo, tornou-se um imperativo da sua fé, uma exigência da sua amizade e uma consequência do seu amor para com todos aqueles por quem Ele ofereceu a sua vida.

Paulo resume na sua célebre frase, “ai de mim, se eu não evangelizar” (1 Cor 9, 16), o que implica a sua condição de cristão e de Apóstolo: é um evangelizador, pois isso faz parte da sua identidade de cristão e Apóstolo. Renunciar ao cumprimento dessa missão, significaria admitir perder a sua condição de homem alcançado por Cristo Jesus (cf Fl 3, 12) e perder o maior tesouro que lhe foi dado por Aquele que o chamou. Por isso, abraça a sua vocação livremente e está disponível para anunciar gratuitamente, sem aspirar a qualquer recompensa, uma vez que se trata de um encargo que lhe foi confiado (cf 1 Cor 9, 17).

O Livro dos Atos dos Apóstolos narra, passo a passo, os acontecimentos de uma Igreja que acolhe o exemplo e o mandato de Jesus, de uma Igreja evangelizada, que vive impregnada do Evangelho, e de uma Igreja evangelizadora, que assume a missão de evangelizar que lhe foi imposta. Desse modo, acredita estar a percorrer o único caminho que a conduz à Vida e ser portadora da Vida que recebeu. Pedro e Paulo juntamente com os outros Apóstolos anunciam o Evangelho de forma destemida diante de judeus e pagãos, com sucessos e insucessos, acolhimento e perseguição; fundam novas Igrejas e vêm aumentar todos os dias o número dos que abraçam a fé e recebem o batismo (cf At 2, 40).

Cada um a seu modo e seguindo o seu percurso, realiza a missão de viver em Cristo e de levar Cristo, Filho de Deus e Salvador aos que ainda O não conheceram nem acolheram. Tal como Jesus, viram nesse mandato e no seu cumprimento a realização da vontade do Pai, que não quer que se perca nenhum daqueles que foram resgatados pelo sangue de seu Filho. O testemunho de fidelidade quotidiana e o martírio no momento definitivo selou indelevelmente a sua decisão de cumprir em tudo e sempre o mandato do Senhor.

 

 

2. “Quem acreditar e for batizado será salvo” (Mc 16, 16)

 

Na conclusão do Evangelho segundo S. Marcos, as derradeiras palavras que Jesus dirige aos seus Apóstolos incluem o mandato de proclamar o Evangelho a toda a criatura e uma declaração acerca das condições requeridas para ser salvo: acreditar e ser batizado. De forma bem vincada, o Evangelho afirma, portanto, que, entre os objetivos da evangelização, se encontra como meta e cume o desabrochar e crescer da fé, que leva ao batismo e é caminho de salvação.

Esta mesma convicção é formulada pelo Decreto Conciliar Ad Gentes, quando explicita a razão de ser da atividade missionária da Igreja, citando 1 Tm 2, 4-6: Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. Uma vez que “não há salvação em nenhum outro (cf At 4, 12), é “preciso que todos se convertam a Cristo conhecido pela pregação da Igreja e que sejam incorporados, pelo batismo, a Ele e à Igreja, seu corpo” (AG 7).

Na sua primeira Carta Encíclica, A Luz da Fé, o Papa Francisco reafirma a tradição perene da Igreja segundo a qual a salvação vem pela fé, que “consiste em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: «Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus»” (Ef 2, 8) (nº 19). Logo a seguir, explica: “A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a vida se abre radicalmente a um amor que nos precede e transforma a partir de dentro, que age em nós e connosco” (A Luz da Fé, 20).

Sendo muito mais do que “um modo para simbolizar a confissão de fé” ou “um ato pedagógico para quem precise de imagens e gestos” (A Luz da Fé, 41), o batismo, como “ação de Cristo toca-nos na nossa realidade pessoal, transformando-nos radicalmente, tornando-nos filhos adotivos de Deus, participantes da natureza divina; e assim modifica todas as nossas relações, a nossa situação concreta na Terra e no universo, abrindo-nos à própria vida de comunhão dele” (A Luz da Fé, 42).

Há, por isso, uma indelével ligação entre a fé, o batismo e a salvação, pois, como refere São Paulo, “pelo batismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova” (Rm 6, 4). Pelo batismo tornamo-nos novas criaturas, filhos adotivos de Deus Pai, e entramos na comunhão eclesial pela qual recebemos o dom da salvação de Deus.

A grande questão que hoje se põe aos cristãos e que frequentemente os tem desmobilizado face ao mandato de ir e proclamar o Evangelho a toda a criatura, tem precisamente a ver com as convicções acerca dos objetivos da evangelização e com o seu conteúdo central. A Igreja começou a perder o seu dinamismo evangelizador no momento em que deixou de ter bem presente a certeza doutrinal acerca da necessidade da fé e do batismo para a salvação e reduziu o conceito de salvação à sua dimensão temporal e terrena.

Para contrariar essa tendência e repor a doutrina perene, a Exortação Apostólica de Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, ao falar dos fins da evangelização, começa por referir-se ao testemunho do amor de Deus revelado por Jesus Cristo (cf EN 26) para depois reafirmar a salvação como objetivo último, dizendo: “A evangelização há de conter também sempre, ao mesmo tempo como base, centro e ápice do seu dinamismo, uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus (EN 27).

E, logo a seguir, esclarece-nos acerca da realidade que está em causa quando se fala da salvação realizada por Jesus Cristo e que é objeto da proclamação evangélica, dizendo: “E não já uma salvação imanente ao mundo, limitada às necessidades materiais ou mesmo espirituais, e que se exaurisse no âmbito da existência temporal e se identificasse, em última análise, com as aspirações, com as esperanças, com as diligências e com os combates temporais; mas sim uma salvação que ultrapassa todos estes limites, para vir a ter a sua plena realização numa comunhão com o único Absoluto, que é o de Deus: salvação transcendente e escatológica, que já tem certamente o seu começo nesta vida, mas que terá realização completa na eternidade” (EN 27).

 

 

II. O CAMPO É O MUNDO (Mt 13, 38)

 

  1. A messe é grande (Mt 9, 37)

 

Por meio da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual, Gaudium et Spes, o Concílio Vaticano II alertou a Igreja para as mudanças que já nessa altura se tinham operado e que continuaram a operar-se posteriormente a um ritmo surpreendente. Falou da necessidade que a Igreja tem de “investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração às eternas perguntas dos homens” (GS 4). Embora seja Palavra Eterna de Deus, o Evangelho tem de ser apresentado em cada tempo de forma perceptível para que possa ser resposta desejada e convincente.

Facto é que “a humanidade vive hoje uma fase nova da sua história” (GS 4) e estas “novas circunstâncias afetam a própria vida religiosa” (GS 7). Se “muitos chegam a um mais vivo sentido de Deus”, e à “adesão a uma fé pessoal e operante”, “grandes massas afastam-se praticamente da religião” (GS 7).

A análise feita pelo Concílio há cerca de cinquenta anos é válida ainda hoje nos seus elementos fundamentais, embora os contornos específicos da evolução da sociedade tenham adquirido uma especificidade própria e uma escala completamente inesperada. Se nessa altura se podia “já falar duma transformação social e cultural”, com repercussões muito relevantes no que respeita à atitude face à fé, a Deus e à Igreja, hoje vemos que a velocidade das mudanças e a sua escala ultrapassaram tudo o que podia prever-se.

Entre nós operou-se uma mudança epocal no que respeita à adesão à fé e ao Evangelho, à pertença à Igreja, aos valores que conduzem a vida privada e familiar ou a vida social e cultural. O nosso tempo já conheceu as primeiras gerações pós-fé e pós-cristãs, isto é, alheias às referências culturais e religiosas que marcaram o Ocidente até um passado recente.

A Diocese de Coimbra é terra de missão, é terreno a evangelizar, pois partilha de todos os fenómenos referidos e comuns ao mundo em que vivemos. Sob pena de infidelidade ao Senhor Jesus Cristo e ao seu Evangelho que nos manda ir pelo mundo inteiro e anunciar a Boa Nova a todos os povos, não podemos considerar a fé como um pressuposto da nossa sociedade, nem sequer de todos os que frequentam as nossas igrejas, pois a evidência dos factos mostra-nos o contrário.

Em décadas sucessivas, a Igreja viu perder-se uma cultura marcadamente cristã na sua matriz, que foi caminhando inicialmente no sentido da secularização, para depois passar à laicidade e acabar num laicismo teórico mas, acima de tudo, prático.

A diminuição acelerada da prática religiosa, a escassa presença e participação dos jovens na vida da comunidade cristã, o distanciamento da cultura em relação à fé e o ordenamento da vida social e moral fora dos parâmetros dos valores cristãos, são alguns dos sintomas mais evidentes de que somos um vasto mundo a evangelizar.

O chamado regime de cristandade que, de uma forma ou de outra, dominou o Ocidente depois do séc. IV e chegou aos nossos dias, acabou ou está prestes a acabar. Voltámos a um tempo em que o cristianismo é aceite nalguns casos, tolerado noutros e, não raro, rejeitado ou mesmo perseguido, inclusivamente nos lugares de afirmação da democracia, da tolerância e da liberdade religiosa.

O outro dado importante a ter em conta diz respeito ao interior da Igreja, ou seja, ao grande número de batizados, oficialmente cristãos, que ainda se revêm na instituição Igreja Católica, sobretudo em algumas das suas perspetivas de caráter social, mas que se distanciam claramente dela em muitas das questões de caráter ético e moral, frequentemente ditas fraturantes. Nas maior parte dos casos, a compreensão da Igreja fica-se pela sua dimensão sociológica, cultural ou religiosa num sentido muito lato do significado do termo. A dimensão teológica, sobrenatural, mística, fica frequentemente na sombra e facilmente deixa de ser objeto de fé.

Muitos são entre nós os que mantêm algumas tradições religiosas, tão enraizadas na cultura popular, mas que, das referências à fé cristã não oferecem mais do que alguns aspetos da linguagem, dos rituais e da simbologia. Uma grande admiração por Jesus Cristo enquanto homem persiste na maioria da população, o que não significa que haja com Ele uma relação pessoal, íntima e comprometedora, própria da fé viva dos que o reconhecem como Filho de Deus e Salvador do Mundo.

Com razão, o Papa Bento XVI, na Carta A Porta da Fé, nos falou dessa mudança, que também entre nós se operou: “Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas” (PF 2).

 

 

  1. “Os trabalhadores são poucos” (Mt 9, 37)

 

A Igreja está bem consciente da desproporção existente entre a vastidão do mundo a evangelizar e a escassez dos meios humanos disponíveis para concretizar eficazmente essa missão, que faz parte da sua essencial identidade.

À luz dos critérios da tradição cristã que chegou aos nossos dias, o trabalho evangelizador era prerrogativa do clero, dos religiosos e dos consagrados, considerados os trabalhadores do Reino. Nesse sentido, vive-se entre nós uma séria crise de vocações ao sacerdócio, à vida religiosa e consagrada, que tem graves consequências no que se refere ao anúncio do Evangelho. Faltam trabalhadores para a Messe do Senhor.

Concretamente, o número de sacerdotes caiu drasticamente nas últimas décadas e atingiu uma média etária sem precedentes, que ronda, entre nós, os sessenta e sete anos. Ao contrário do que normalmente seria expectável, quanto mais avançados na idade, maior é a área de intervenção à qual são chamados a dar resposta.

Ao mesmo tempo, sabe-se que as comunidades cristãs, muito apegadas às tradições locais de cariz religioso-cultural, são geralmente muito exigentes na preservação dos seus costumes, mesmo que estes tenham em grande parte perdido o seu significado da ordem da fé. Os sacerdotes vêm-se, por isso, assoberbados com um campo de ação muito alargado e a ter de enfrentar diariamente vastíssimas solicitações a que dificilmente podem dar resposta, por serem pastores de grande número de comunidades.

Se, por um lado, sentimos uma enorme necessidade de vocações sacerdotais, sentimos, por outro, a urgência de romper com o círculo vicioso da chamada pastoral da manutenção que, afinal, se revela inadequada para a manutenção do anterior estilo de vida paroquial e, mais ainda, para o crescimento da fé das comunidades cristãs.

Inversamente proporcional à diminuição do número de sacerdotes tem sido o crescimento do número de leigos comprometidos na vida da Igreja e a assumir tarefas de evangelização e catequese, entre outras de caráter administrativo e sócio-caritativo. Se, por um lado, damos graças a Deus por isso, pois significa que os leigos sentem a urgência de assumir o seu lugar na Igreja, sabemos, por outro, que isso não basta, pois o ministério ordenado é essencial à vida da mesma Igreja: são necessários sacerdotes e leigos, uns e outros a assumir a sua vocação e missão.

Entre as principais lacunas a dificultar a ação dos leigos, notamos a insuficiente formação espiritual, bíblica, teológica e doutrinal, a dificuldade de incarnar a fé na vida familiar, profissional, cultural e social, a pouca autonomia no assumir da corresponsabilidade eclesial, e, frequentemente, o débil sentido da comunhão eclesial.

Criaremos na Diocese os meios adequados para que os leigos, sobretudo os que exercem funções de serviço dentro das comunidades cristãs, tenham acesso à indispensável formação que os habilitará a desenvolver mais eficazmente a sua missão.

Neste sentido, a Conferência Episcopal Portuguesa faz-nos um forte apelo: “Cuida também da formação dos fiéis leigos, com especial atenção aos mais comprometidos na vida da Igreja e da sociedade, e estimula-os a serem verdadeiros discípulos de Jesus e seus missionários apaixonados e felizes no coração do mundo” (Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal, 6G).

Face à vastidão do campo e às suas condições adversas, reconhecemos humildemente a nossa pobreza. Acresce a pequenez da nossa fé e a falta de ardor e de entusiasmo na evangelização. Facilmente esmorecemos na esperança e agimos prescindindo da força do Espírito Santo, o único que renova todas as coisas.

 

 

  1. “Este é o tempo favorável (kairós)” (2 Cor 6, 2)

 

As comunidades cristãs estão a atravessar um tempo de provação, que podemos equiparar ao tempo do deserto do Povo de Deus ou à preparação espiritual realizada por Jesus antes de dar início ao seu ministério público. Para o Povo de Deus, o deserto foi um tempo de prova e fortalecimento da sua confiança no Deus Libertador; para Jesus foi tempo de encontro com o Pai, de comunhão com o Seu plano e a Sua vontade. Para a Igreja, este tempo de deserto só pode contribuir para reforçar a confiança no seu Senhor, para aprofundar e purificar a sua fé, para abrir novos horizontes de ação alicerçados no Espírito.

Para Deus todo o tempo é tempo favorável de graça e todas as situações são uma oportunidade para o anúncio e o crescimento do Reino de Deus. Se, iluminados pelo Espírito Santo, soubermos ler os sinais dos tempos, identificar as nossas debilidades e potencialidades, podemos fazer deste nosso tempo uma fonte de bênçãos para os homens e mulheres nossos irmãos, mesmo que estejam desinteressados de Deus, longe da Igreja e impossibilitados de sentir necessidade da salvação de Jesus Cristo.

Muito daquilo que identificamos como debilidades da humanidade pode constituir ao mesmo tempo uma fonte de possibilidades que a Igreja na realização da sua missão evangelizadora tem de potenciar.

A saturação do materialismo dominante, que, afinal, não foi capaz de satisfazer os mais profundos anseios humanos, dá origem a uma grande sede de Deus, de infinito, de espiritualidade, que precisa de uma resposta adequada da parte da Igreja, portadora da verdadeira Palavra de Vida Eterna.

O endeusamento da razão, que pensou poder encontrar um sentido para tudo o que são as maiores questões humanas, deixou atrás de si um rasto de insatisfação, que precisa de ser preenchido pelo conhecimento da razoabilidade da fé.

Toda a espécie de humanismos fechados ao transcendente e, por isso, limitados na oferta de uma salvação terrena, anseiam por horizontes mais vastos que permitam ao homem ultrapassar-se a si mesmo e abrem as portas à novidade de Deus já apontada pela bênção que se segue ao ato criador de Deus, quando disse: “crescei e multiplicai-vos; enchei e dominai a terra e submetei-a” (Gn 1, 28).

A consciência dos limites constitui a nossa grande oportunidade para reconhecermos que temos diante uma obra que não nos pertence, mas é Deus; para acreditarmos que a Evangelização é trabalho do Espírito Santo que nos foi dado, para sentirmos que somos simplesmente servos, porventura servos inúteis, mas escolhidos e enviados para levar em vasos de barro um imenso tesouro.

Ao enviar os seus discípulos em missão, o Senhor garantiu-lhes o dom do Espírito Santo (cf Lc 24, 49), que os capacitou para o testemunho até aos confins da terra e prometeu estar com eles todos os dias até ao fim dos tempos (cf Mt 28, 20). Depois, enviou efetivamente o Espírito Santo sobre eles e começaram a anunciar por toda a parte a novidade da ressurreição do Senhor (cf. At 2, 24). Estas são também as nossas únicas certezas e seguranças.

Finalmente, o tempo que vivemos leva-nos a agir baseados na única realidade que sustenta todo o dinamismo evangelizador da Igreja, a fé “diante da promessa de Deus” (Rm 4, 20) e a “esperança para além do que se podia esperar” (Rm 4, 18).

 

 

  1. DESIGNOU SETENTA E DOIS DISCÍPULOS E ENVIOU-OS (Lc 10, 1)

 

1. Vocação e missão

 

O chamamento e o envio dos discípulos são duas vertentes da mesma vocação cristã, dois movimentos que se implicam mutuamente. Os Evangelhos, depois de apresentarem Jesus a chamar os seus Apóstolos e Discípulos para andarem com Ele e aprenderem d’Ele, apresentam-n’O sempre a enviá-los com a missão de proclamar o Reino de Deus.

A vocação dos discípulos já leva implícita a missão que hão-de cumprir em favor daqueles a quem se dirigem. Qualquer chamamento de Deus é em primeiro lugar um sinal do seu amor para com aquele que é chamado, uma fonte de bênção e de graça pessoal, fruto de uma eleição e de uma escolha somente compreensível na fé. No entanto, qualquer vocação ou chamamento de Deus tem sempre em vista o bem da comunidade, da Igreja e da humanidade.

Recordamos a figura de Abraão, cujo chamamento se tornou uma fonte de bênção para si mesmo, em primeiro lugar, mas depois também para a sua família e, de algum modo, para todas as famílias da terra (cf Gn 12, 2-3).

Do mesmo modo os Apóstolos de Jesus, chamados e escolhidos, comungaram das fontes da salvação e viram na fé a glória que Deus preparou para os seus filhos; tornaram-se eles mesmos mensageiros e testemunhas destemidas de Cristo morto e ressuscitado. Receberam para dar, e assim fizeram.

Dentro desta tradição apostólica, a Igreja, chamada à comunhão com Cristo enquanto seu corpo, é também enviada a proclamar as riquezas da salvação de que ela mesma é sacramento universal.

Cada pessoa que recebe o anúncio, se converte ao Senhor Jesus Cristo e entra na Igreja, assume o encargo da missão, torna-se um apóstolo da Boa Nova, que recebeu.

Qualquer vocação, como qualquer dom ou carisma suscitado pelo Espírito Santo na Igreja, destina-se sempre ao bem comum, não serve para ser guardado como coisa própria. Esta realidade faz do cristão o homem para os outros, o mediador dos dons de Deus, que recebe e que dá, a começar pelo dom da fé, do conhecimento do amor de Deus, do Evangelho da salvação.

Esperamos que esta consciência cada vez mais viva e assumida no diálogo íntimo com Deus e no serviço à comunidade cristã, seja geradora das vocações sacerdotais, religiosas, consagradas, missionárias e laicais, em ordem à edificação da Igreja.

Nesse sentido, faremos um grande esforço para desenvolver a pastoral da oração, a fim de proporcionar aos jovens, na pastoral juvenil, na pastoral universitária, nas paróquias e nos arciprestados, nos movimentos de espiritualidade, os meios adequados para estarem com o Senhor e permanecerem na sua intimidade, sobretudo por meio da experiência forte de oração pessoal e em grupo.

Nesse contacto coração a coração, no silêncio orante, nos momentos fortes e marcantes junto do Senhor, não poderão ficar indiferentes ao seu amor, que os elege, os escolhe e os chama. Haverão de progredir na via do seguimento de Jesus, a condição para qualquer resposta à vocação e missão.

 

 

  1. “Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias” (Lc 10, 4)

 

As condições requeridas para seguir Jesus são igualmente requeridas para partir pelo mundo a anunciar a Boa Nova do Reino: o conhecimento do amor de Deus, o acolhimento da palavra de Jesus, o desprendimento e o serviço.

Ao referirem o chamamento feito por Jesus aos seus apóstolos, os evangelistas usam imperativos fortes, que não deixam margem a qualquer dúvida: “Segue-me” (Lc 5, 27); “vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4, 19); “de futuro serás pescador de homens” (Lc 5, 10). As exigências de disponibilidade e de serviço são mais fortes do que qualquer tentação de comodismo, pois está em causa o anúncio do Reino.

Quando se trata do chamamento dos discípulos surgem algumas objeções, rapidamente ultrapassadas: “Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai” (Lc 9, 59); “Eu vou seguir-Te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família” (Lc 9, 61). Também neste caso a confiança n’Aquele que chama e a força do chamamento dissipam todas as dúvidas e hesitações.

Noutros lugares, os Evangelhos apresentam Jesus a instruir os seus discípulos sobre as condições para O seguir: ”Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a sia mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois, quem quiser salvar a vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de salvá-la” (Lc 9, 23-24).

Por meio das referências a levar a cruz Jesus fala do seu caminho e daqueles que O aceitam; ao falar de perder a vida leva os discípulos a distinguir a linguagem do mundo da linguagem daquele que os chama. Num e noutro caso, trata-se de propor uma autêntica revolução no que respeita às motivações e valores condutores das opções de vida dos chamados.

Aceitar ser enviado em missão pelo Senhor, exige radicalidade, desprendimento, espírito de serviço, disponibilidade para levar a cruz e dar a vida, como se depreende das repetidas instruções dadas por ocasião da partida dos discípulos: “Nada leveis para o caminho, nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro” (Lc 9, 3). A única segurança tanto do que é chamado como do que é enviado é a confiança na palavra fiel d’Aquele que chama e envia. E a Sua palavra é fiel, pois foi selada com o seu próprio sangue derramado e com o seu corpo entregue à morte.

Em nenhum tempo da história se pode falar da missão da Igreja enviada a evangelizar o mundo sem se voltar à fonte donde ela nasce e às condições que lhe são impostas. É Cristo quem a envia e é Sua a mensagem. A missão não se cumpre e a Boa Nova não chega aos confins da Terra se a Igreja não acolhe, na radicalidade, no desprendimento e no serviço humilde e desinteressado, o convite que lhe é feito.

Assumir levar a cruz e dar a vida na evangelização do mundo significa para a Igreja centrar-se mais na mensagem do que em si mesma, amar mais os destinatários do que preservar as suas prerrogativas, estar mais disponível para servir do que para ser servida; significa ser pobre e despojada, estar atenta a todos os homens, considerando a sua igual dignidade; significa ainda desinstalar-se das suas tranquilidades para ir à procura da ovelha perdida, nas periferias geográficas e humanas onde ela se encontra, segundo a expressão repetidamente usada pelo Papa Francisco.

Outro tanto se pode dizer de todos os filhos da Igreja, chamados a seguir Cristo e a partir com o seu nome nos lábios e o seu amor no coração. Não podemos exigir da Igreja, Povo de Deus, nas suas instituições e estruturas, aquilo que não estamos disponíveis para assumir nós próprios, chamados e enviados. Esta é para cada um de nós a hora de levar a cruz e dar a vida no trabalho generoso e fiel da evangelização; é a hora do nosso compromisso pessoal e comunitário.

Sempre nos foi apontado este caminho, mas o nosso tempo tem diante de si um grande ícone dessa radicalidade evangélica na pessoa do Papa Francisco, cuja palavra e testemunho não nos podem deixar indiferentes.

É chegada a hora de nos lançarmos na aventura da nova evangelização com novo ardor, novos métodos e novas experiências, radicadas no Evangelho, como nos pediu repetidamente o Papa João Paulo II: “Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-Lo para si; tem de O anunciar. É preciso um novo ímpeto apostólico, vivido como compromisso diário das comunidades e grupos cristãos”(Novo millenio ineunte, 40).

 

 

  1. QUATRO GRANDES OBJETIVOS DO PLANO PASTORAL

 

  1. Proporcionar o encontro pessoal com Cristo através do primeiro anúncio.

 

Toda a comunidade cristã que não gera novos filhos de Deus por meio da fé caminha para a morte. Daí que o empenho no primeiro anúncio seja um sinal da sua vitalidade e a condição do seu futuro.

“É notório que, no mundo em que nos é dado viver, os indicadores que sinalizam os caminhos para a fé se encontram cada vez mais rarefeitos, sendo maiores as dificuldades sentidas no seio da família e das organizações eclesiais para a transmissão da fé às novas gerações” (Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal, 6E).

O facto de as igrejas serem ainda frequentadas por um razoável número de pessoas, muito assíduas nalguns casos, pouco assíduas noutros ou, porventura, praticantes somente por altura das ocasiões festivas, pode criar em nós uma certa ilusão. Se muitos ainda estão presentes na missa dominical e noutros momentos da vida da comunidade cristã, há uma imensa maioria que já não celebra a liturgia porque adormeceu na sua fé; e há sobretudo uma grande massa de cristãos que vive à margem da fé e não está minimamente preocupada com a incarnação dos critérios evangélicos na sua vida quotidiana.

As comunidades estão envelhecidas e a viver, em parte, de um dinamismo que vem do passado, mas está cada vez mais débil. As crianças e os jovens estão ausentes da vida da comunidade cristã e a catequese não tem sido capaz de lhes proporcionar uma fé pessoal e comprometida. Grande parte da população ativa sente-se alheia à Igreja e a fé ficou como um resíduo silenciado.

Muitos dos que fizeram a catequese de infância não deram o passo no sentido da fé assumida, comprometida, capaz de ser sal e luz para as suas vidas. Podem conhecer a doutrina cristã e saber o que é a Igreja, mas precisam de fazer um caminho pessoal de crescimento e amadurecimento que os conduza ao encontro vital com Jesus Cristo e com a sua Igreja.

Urge, por isso, uma primeira evangelização de muitos daqueles que, apesar de se dizerem cristãos, não se deixaram impregnar pelo Evangelho nem aderiram a Jesus Cristo de forma pessoal e vital. “Impõe-se, portanto, uma aposta mais intensa e dinâmica na iniciação cristã das crianças e jovens, bem como no catecumenato de adultos” (Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal, 6E).

Apesar de ser ainda esmagadora a percentagem dos que são batizados na primeira infância, são já muitos os pais que optam por deixar o pedido do batismo à consciência adulta dos seus filhos. A proposta da fé tem de chegar a todos eles e a Boa Nova do Evangelho tem de ser-lhes anunciada.

Nesse sentido, a comunidade cristã, paróquia, unidade pastoral, arciprestado e diocese, desenvolverão formas de primeiro anúncio, dirigido prioritariamente aos que estão fora da Igreja e, em segundo lugar, aos que nunca fizeram o encontro pessoal com Cristo nem com a sua Igreja e, agora, se encontram nas periferias da fé.

 

 

  1. Criar o dinamismo do discipulado missionário nos membros da comunidade cristã.

 

O cristão é por definição discípulo de Cristo. Sente-se chamado ao seu seguimento, a andar com Ele, a partilhar a sua intimidade, a entrar na comunhão de amor com a Santíssima Trindade e com o Povo Santo de Deus.

“Vinde comigo” (Mt 1, 17), “segue-Me” (Mt 2, 14), disse Jesus aos que chamou junto ao Lago da Galileia ou na banca dos impostos, e repete-o a cada pessoa que tem a graça de ser alcançada por Ele em qualquer contexto da sua existência ou nas normais condições de ocupação humana.

Todos os que partilharam o seu amor e se sentiram curados, perdoados e salvos por Ele, tornaram-se membros do seu grupo, passaram a andar com Ele e fizeram-se apóstolos de Cristo junto dos outros, porque esse encontro salvífico provoca sempre uma adesão irrecusável. Por sua vez, o conhecimento de Cristo e o caminho de seguimento provocam sempre o desejo irrenunciável de O dar a conhecer e de O propor energicamente como Mestre e Senhor.

As comunidades cristãs têm de desenvolver em todos os seus membros este dinamismo do seguimento de Cristo ou do discipulado como condição para que se tornem missionários. Os meios fundamentais são a vida sacramental, particularmente a Eucaristia e a oração cristã, a leitura orante da Bíblia e a catequese.

Quando uma comunidade cristã se sente a fazer caminho de seguimento, tem sempre capacidade para gerar homens e mulheres que se disponibilizam e se preparam adequadamente para ajudar outros a iniciar o caminho do discipulado. Juntamente com os que já se dedicam generosa e fielmente à catequese da infância e adolescência, trabalharemos para que surjam bons catequistas dos jovens e dos adultos, capazes de envolver outros numa experiência de fé viva e testemunhada. Esperamos que não lhes falte a preparação espiritual e doutrinal, juntamente com a alegria e o entusiasmo de levar Cristo aos irmãos.

Procuraremos implementar particularmente a constituição de grupos de estudo e leitura orante da Bíblia, que levem ao contato com o tesouro da Palavra de Deus como chave de leitura das realidades humanas que precisam de ser iluminadas do alto.

A catequese de adultos a que tantos documentos da Igreja aludem e que tão pouco se divulgou entre nós, será um meio privilegiado para ajudar a crescer aqueles que procuram as razões para a fé e para a esperança.

 

 

  1. Criar nos cristãos o “sentido de pertença” eclesial.

 

Segundo o Papa Francisco, “a vida do fiel torna-se existência eclesial”, ou seja “a fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do Corpo de Cristo como comunhão concreta dos crentes” (A Luz da Fé, 22).

Devido ao fenómeno da mobilidade humana, ao individualismo crescente, à privatização do ato de crer e da religião, bem como à massificação da sociedade e das relações, os cristãos têm vindo a perder gradualmente o sentido de pertença eclesial.

Muitos são, hoje, os que se dizem cristãos e crentes, mas se ficam por uma relação com Deus que não inclui a relação com os outros ou com a comunidade cristã. Tornou-se comum o fenómeno dos cristãos não praticantes ou dos que, sendo esporádica ou regularmente praticantes, não assumem quaisquer laços de compromisso ou corresponsabilidade com a comunidade. A saltar de um lugar para o outro, de uma igreja para outra, procuram um anonimato não comprometedor e uma religião à medida das próprias expectativas e interesses.

A fé passou em grande parte a ser considerada como uma opção pessoal, do âmbito estritamente privado, que não interfere na vida social nem tem de entrar na definição da identidade conhecida da pessoa.

O sentido de pertença ao Povo de Deus, à Igreja Local, à paróquia ou a outras estruturas eclesiais está em crise, apesar de constituir a única forma objetiva que o cristão tem de viver a dimensão eclesiológica e apostólica da sua fé.É urgente, por isso, “formar comunidades que sejam autênticas escolas de vivência da fé e da comunhão, gerando entre todos os seus membros laços de fidelidade, de proximidade e de confiança, que se traduzam no serviço humilde da caridade fraterna. É este o caminho para avivar o sentido de pertença à comunidade” (Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal, 6B)

Estamos numa fase de ajustamento das estruturas comunitárias da Diocese à realidade humana, social e eclesial do presente. À estrutura paroquial tradicional sucedem, em muitos casos, outros modelos de comunidade cristã mais alargada, a que chamamos unidade pastoral, onde a figura do padre como pastor adquire necessariamente um lugar diferente e onde é necessário organizar as formas e meios de acompanhamento, participação, administração, evangelização, catequese, liturgia, ação social, ou outras de relevo.

Por motivos de ordem eclesiológica, mas também de ordem prática, tendo em conta a escassez de clero, a diminuição da população em algumas regiões geográficas, a redução dos meios humanos e materiais disponíveis e a nova configuração da comunidade cristã, desenvolveremos um conjunto de ações destinadas a dar aos cristãos esse sentido da pertença eclesial circunstanciada, localizada e comprometida.

Sendo a fé, por definição, eclesial e tendo a realidade presente levado a novas formas de organização das comunidades, torna-se necessário ajudar os cristãos a desenvolver o sentido de pertença eclesial dentro das novas circunstâncias. Continuaremos, por isso, o trabalho de implementação dos diversos âmbitos de realização da Igreja enquanto comunidade, para que em cada um deles se realize a parte da missão que lhes foi confiada. Diocese, arciprestados, unidades pastorais e paróquias promoverão ações que levem o Povo de Deus a sentir-se integrado e corresponsável.

 

 

  1. Fomentar a corresponsabilidade pastoral nas Unidades Pastorais

 

Um dos mais notáveis ensinamentos do Concílio Vaticano II consistiu em propor e desenvolver a teologia relativa à Igreja, Povo de Deus, constituído por muitos membros, a viver a fé em comunhão com Cristo e uns com os outros, exercendo de forma corresponsável e própria a participação no múnus profético, sacerdotal e real.

A Lumen Gentium proclama, assim a “igualdade entre todos (os membros do Povo de Deus) quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo” (LG 32). Tanto os pastores como “os leigos, sejam quais forem, todos são chamados a concorrer como membros vivos, com todas as forças que receberam da bondade do Criador e por graça do Redentor, para o crescimento da Igreja e sua contínua santificação” (LG 33).

De entre as diversas formas de exercício desta corresponsabilidade radicada no batismo e na pertença ao Povo de Deus, destacam-se os órgãos de participação eclesial, como são os conselhos pastorais e outros órgãos de governo da comunidade cristã, bem como o assumir de serviços na área da liturgia, da evangelização e catequese ou da ação social e caritativa.

Nas presentes circunstâncias da vida da Diocese, algumas unidades pastorais estão já em funcionamento e as outras estão em fase de constituição. Trata-se de circunscrições geográficas e humanas marcadas por fortes afinidades territoriais, culturais, sociais e religiosas, cuja escala permitirá maiores e melhores recursos em ordem à realização da missão da Igreja. Terão como pastores um ou mais presbíteros aos quais se associam porventura alguns diáconos permanentes, religiosos, consagrados e leigos, que constituirão uma verdadeira Equipa de Animação Pastoral.

Espera-se que esta Equipa, respeitando a especificidade do sacerdócio comum dos fiéis e do sacerdócio ministerial ou hierárquico, que se diferenciam “essencialmente e não apenas em grau” (LG 10), contribua para uma maior unidade de todo o Povo de Deus, promova a comunhão de todos os membros de Cristo e ajude a assumir de forma corresponsável tudo o que diz respeito ao crescimento e santificação da comunidade cristã.

Congregada pelo sacerdote que, em nome do bispo, preside à comunidade cristã, a Equipa de Animação Pastoral será um precioso contributo para que a Igreja realize, nas presentes circunstâncias, a sua missão de sempre.

Exorto, por isso, os sacerdotes à necessária conversão pastoral que torne possível a todo o Povo de Deus exercer a corresponsabilidade e a progredir na comunhão a que a Igreja insistentemente e de forma nova o desafiou pela voz do Concílio Vaticano II, recentemente recordada pelos bispos portugueses: “uma Igreja que busque sempre o empenho e a participação de todos, sacerdotes, diáconos, consagrados e leigos, para juntos auscultarmos e seguirmos os rumos que Deus nos quiser indicar” (Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal 2f).

 

 

CONCLUSÃO

 

Juntamente com todos vós, amados irmãos e irmãs, dou graças a Deus por pertencer a esta Igreja Diocesana de Coimbra, que Ele tanto ama e da qual tanto espera.

Temos consciência dos grandes desafios do momento presente e agradecemos ao Senhor por querer contar connosco. Pedimos-lhe que nos dê a fé, a esperança e o amor necessários para os enfrentar.

Estamos num tempo crucial da vida da Igreja em que é possível revigorar a alegria de crer e o entusiasmo e comunicar o Evangelho. Que todos nós, tocados pelo amor de Deus Pai, animados pela entrega de Jesus Cristo na cruz e fortalecidos pelo poder do Espírito Santo, aceitemos ser protagonistas da nova primavera da Igreja.

Estaremos atentos às palavras, aos gestos e à vida do Papa Francisco, nosso querido Papa e profeta escolhido por Deus para conduzir a sua Igreja pelos caminhos da renovação espiritual e da radicalidade evangélica.

Entrego a Nossa Senhora este Plano Pastoral para que seja ela a interceder continuamente pela Igreja de Coimbra e por todos nós que conta entre os seus filhos. Entrego-o igualmente à vossa solicitude e oração.

 

Mãe da Igreja e nossa Mãe,

Por ti veio ao mundo a esperança do Povo de Deus,

Jesus Cristo, o Verbo Incarnado.

Em ti o Salvador se uniu à nossa humanidade

Para nos abrir as portas da salvação.

Por meio de ti o Evangelho entrou na história,

E contigo, figura da Igreja, continua a ser anunciado.

No presente da nossa história,

Comprometemo-nos a ser portadores da esperança,

Testemunhas de adesão pessoal a Jesus Cristo, pela fé,

Servos do anúncio do Evangelho da salvação.

Confiados na tua poderosa proteção,

suplicamos que intercedas junto de Deus,

Para que a nossa Diocese de Coimbra seja:

Comunidade que vive a fé

E anuncia o Evangelho

Como caminho do encontro pessoal com Cristo, único Salvador,

E com a sua Igreja.

Ámen.

 

Coimbra, 1 de Setembro de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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