ASSEMBLEIA DO CLERO DA DIOCESE DE COIMBRA - REDINHA, 14 DE JUNHO DE 2012

  1. CENTRALIDADE DA FÉ EM JESUS CRISTO

O Papa Bento XVI proclamou um Ano da Fé baseado no pressuposto de que é necessário “redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” (PF 2).

Recordo-vos que este foi igualmente o pressuposto que tive em conta quando vos falei pela primeira vez nas Jornadas de Pastoral, em Setembro de 2011. Partindo da afirmação de Jo 6, 29, “A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou”, disse-vos que “a ação da Igreja há-de consistir prioritariamente em proporcionar os meios necessários para um caminho pessoal de conhecimento de Jesus Cristo, de encontro com Ele e de aprofundamento dos laços de comunhão com Ele”.

Nesta linha tem ido a reflexão feita pelo Secretariado Diocesano de Pastoral e a programação que está a ser feita em ordem à vivência do próximo ano pastoral, o Ano da Fé. Nesta linha deverão ir todas as ações a desenvolver na Igreja Diocesana nos próximos anos. Trata-se, por isso, de evangelizar no sentido total e pleno da palavra.

Se este perspetiva é válida em todos os períodos da história, pois esta é a missão da Igreja, ela torna-se mais urgente nos tempos em que vivemos, por estarmos numa sociedade em que a fé já não é um pressuposto cultural. Hoje, os conteúdos da fé e os valores por ela inspirados são frequentemente ignorados, quando não negados e combatidos.

Numa fase de transição entre a cristandade e a laicidade em que ainda nos encontramos, o fenómeno mais comum consiste em a Igreja contar entre muitos dos seus membros com homens e mulheres sem fé, com uma fé não esclarecida nem assumida ou com uma fé residual. A adesão a Cristo de forma consciente, livre, responsável, enquanto central no ato de fé, constitui o objetivo fundamental e o elemento polarizador de toda a ação pastoral da Igreja. A obra de Deus e a obra da Igreja há-de levar a “crer naquele que Ele enviou”.

No contexto em que vivemos, marcado pelo utilitarismo, pelo desejo de alcançar resultados, pela ânsia de mudar a sociedade e os seus valores dominantes, perdemos o encanto da fé, a beleza de crer simplesmente por crer. Dentro e fora da Igreja domina a pergunta: para quê a fé cristã? O que me traz de novo para a vida? Que problemas me resolve? Em que é que me ajuda?

Como a samaritana à beira do poço, que se deixa fascinar por Aquele que lhe pede de beber e sente o coração cheio da água viva, ou como os discípulos que dizem “Que bom é estarmos aqui!”, somos chamados a descobrir a beleza de acreditar em Jesus Cristo, ser admitidos ao Seu convívio, fazer parte da sua família, sentir n’Ele a plenitude da comunhão do amor da Santíssima Trindade.

A fé, adesão pessoal, não responde ao “para quê?”, mas faz-nos reconhecer os “quês”: que Deus nos ama, nos chama, estabelece em nós a sua morada, nos convida a participar no Seu banquete, nos assume na sua comunhão íntima como amigos.

 

2. O MISTÉRIO DA IGREJA, POVO DE DEUS, E A SALVAÇÃO

Depois de proclamar de forma lapidar que “a luz dos povos é Cristo” (LG 1), a Lumen Gentium volta-se para a Igreja na qual resplandece a luz de Cristo, para afirmar que ela é “o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (LG 1), à qual são chamados os que crêem em Cristo (LG 2).

Depois de salientar a centralidade de Cristo neste mistério que é a Igreja, a mesma Lumen Gentium define-a como Povo de Deus: “aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente” (LG 9).

Logo a seguir, no nº 13, a LG afirma que todos os homens são chamados ao novo Povo de Deus, que “deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos para se cumprir o desígnio da vontade de Deus”. No nº 14 centra-se na Igreja enquanto sacramento da salvação universal e afirma: “só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja”.

Torna-se assim claro que a adesão a Jesus Cristo pela fé, tem um contexto e um lugar: a comunidade cristã, enquanto porção do Povo de Deus, da Igreja, sacramento da salvação. É dessa comunidade cristã que nos ocupamos todos os dias, é ela que é o objeto dos nossos planos e programas, é nela que nos reunimos e é ela que reconhecemos estar bastante enfraquecida na sua vitalidade.

Convém, no entanto, que não nos fixemos na comunidade cristã numa perspectiva fechada, como uma comunidade humana, mas que sempre a compreendamos neste contexto da Igreja mistério, corpo de Cristo, Povo de Deus, sacramento da Salvação.

Crer em Jesus Cristo implica, por isso, fazer parte do Seu Corpo, entrar no dinamismo do Povo de Deus, acolher na Igreja e pela Igreja as graças que conduzem à salvação.

 

  1. IGREJA MINISTERIAL

O capítulo III da Lumen Gentium trata da Constituição Hierárquica da Igreja e em especial do Episcopado. Precisamos de voltar frequentemente a estes textos para compreender que a nossa condição e a nossa vocação encontram o seu sentido dentro do contexto da Igreja Povo de Deus ao serviço da qual nos situamos.

Quando fala dos ministérios, o Concílio insiste na dimensão do serviço para que não nos centremos em nós, mas nos outros: “Cristo Nosso Senhor... instituiu na Igreja diversos ministérios, para bem de todo o corpo... os ministros que têm o poder sagrado servem os seus irmãos para que todos os que pertencem ao Povo de Deus... alcancem a salvação” (LG 18).

A Igreja sempre tem salientado, baseada na Escritura, que fomos chamados e enviados por Cristo, ungidos pelo Espírito Santo, para sermos suas testemunhas até aos confins da terra. A origem do nosso ministério está, por isso, em Cristo, com quem, por graça, nos configuramos de um modo particular, a ponto de, por nós “estar presente no meio dos fiéis o Senhor Jesus Cristo” (LG 21).

Juntamente com a dimensão do serviço, a Igreja, salienta a da unidade de todo o Corpo, que há-de ser fruto do Espírito de unidade vivido por todos nós, os membros da Igreja e, em primeiro lugar, por nós, os que recebemos o dom do ministério ordenado. A unidade dentro da Igreja Universal, dentro das Igrejas Locais e dentro dos presbitérios é condição de credibilidade da fé que professamos e de sucesso no anúncio da Boa-Nova.

Caros presbíteros e diáconos, cultivar o espírito de serviço à comunidade cristã e o espírito de unidade entre nós, constitui condição essencial para que realizemos a missão que Jesus Cristo nos confiou dentro da sua Igreja.

 

 

 

 

  1. O LUGAR DOS LEIGOS

Devemos ao Concílio Vaticano II essa grande novidade, que foi o reconhecer a todos os membros do Povo de Deus uma igual dignidade, na diversidade de carismas e ministérios.

“Por leigos entendem-se... os fiéis que, incorporados em Cristo pelo baptismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo” (LG 31).

Os leigos, tal como os religiosos, têm, hoje, na Igreja, um lugar que lhes é próprio e que temos de continuar a valorizar plenamente. Para além disso, reconhecemos que são hoje o grande suporte das comunidades cristãs, pois sem o seu serviço e empenho em muitas áreas, não seria possível que se mantivessem vivas e que tivessem acesso aos grandes dons da Palavra e da comunhão eucarística, constitutivos indispensáveis da Igreja.

Ainda estamos longe de cumprir a exortação que nos fez o Concílio, quando disse: “os sagrados pastores devem reconhecer e fomentar a dignidade e responsabilidade dos leigos na Igreja; recorram espontaneamente ao seu conselho prudente, entreguem-lhes confiadamente cargos em serviço da Igreja e dêem-lhes margem de liberdade de ação, animando-os até a tomarem a iniciativa de empreendimentos. Considerem atentamente e com amor paterno, em Cristo, as iniciativas, pedidos e desejos propostos por leigos. E reconheçam a justa liberdade que a todos compete na cidade terrestre” (LG 37).

Precisamos de continuar este trabalho de descobrir o verdadeiro rosto da Igreja, enquanto Povo de Deus na diversidade dos carismas e ministérios, ao serviço da salvação trazida por Jesus Cristo.

 

  1. O MINISTÉRIO DOS PRESBÍTEROS

O decreto do Concílio sobre a Vida e o Ministério dos Sacerdotes, Presbyterorum Ordinis, situa os presbíteros dentro da missão da Igreja, “para se consagrarem totalmente à obra para que Deus os chama” (PO 3). Não existem por si mesmos, mas por chamamento divino, nem para si mesmos, mas para o Povo de Deus, de quem se tornam servidores.

A sua missão está acima de tudo ao serviço do anúncio da Palavra de Deus, enquanto caminho para a fé e, portanto um serviço à fé, para que todos por ela sejam salvos. “Os presbíteros como cooperadores dos bispos, têm, como primeiro dever, anunciar a todos os Evangelho de Deus, para que, realizando o mandato do Senhor: «Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a todas as criaturas» (Mc 16, 15), constituam e aumentem o Povo de Deus. Com efeito, é pela palavra da salvação que a fé é suscitada no coração dos infiéis e alimentada no coração dos fiéis; e é mercê da fé que tem início e se desenvolve a assembleia dos crentes”(PO 4).

Depois de insistir na função dos presbíteros enquanto educadores da fé do Povo de Deus, o Concílio chama a atenção para a missão santificadora que devem exercem, enquanto colaboradores de Deus, único santo e santificador, por meio da celebração dos sacramentos. Dentre eles, a Eucaristia aparece como fonte e coroa de toda evangelização e centro da assembleia dos fiéis a que o presbítero preside.

 

Quis ainda o Concílio recordar alguns aspectos relativos ao modo de vida dos presbíteros, salientando três importantes áreas:

A relação dos presbíteros com o bispo. Sendo participantes do mesmo e único sacerdócio e do mesmo ministério de Cristo, são chamados uns e outros a uma profunda e efetiva comunhão a todos os níveis.

A relação entre os presbíteros. Há uma fraternidade sacramental a unir os presbíteros entre si, de modo que formam um presbitério unido e coeso entre si. Hão-de ser visíveis os laços que os unem, particularmente na caridade pastoral, no exercício partilhado do ministério, nas relações de fraternidade e na cooperação na ação.

A relação dos presbíteros com o Povo de Deus e particularmente com os leigos. Uma vez que o sacerdócio que recebemos não é um bem para proveito próprio, deve ser posto ao serviço do Povo de Deus, numa relação de muita proximidade com os leigos: “os presbíteros reconheçam e promovam sinceramente a dignidade e participação própria dos leigos na missão da Igreja” (PO 9).

 

No capítulo III, o Decreto Prebyterorum Ordinis trata do chamamento dos presbíteros à perfeição. Já pelo sacramento do Batismo receberam a vocação a ser perfeitos como é perfeito o Pai celeste; com mais razão agora, consagrados a Deus pelo sacramento da Ordem e configurados com Cristo.

O testemunho da Igreja será tanto mais credível quanto mais santa ela for na pessoa de todos os seus membros. O Concílio reconhece que: “para atingir os seus fins pastorais de renovação interna da Igreja, difusão do Evangelho em todo o mundo e diálogo com os homens do nosso tempo”, os sacerdote precisam de esforçar-se “por atingir cada vez maior santidade pela qual se tornem instrumentos mais aptos para o serviço de todo o Povo de Deus” (PO 12).

Reconhecemos que a Igreja precisa de sacerdotes, mas que precisa sobretudo de homens disponíveis a percorrer os caminhos da santidade no amor a Cristo e no exercício do seu ministério por amor à Sua Igreja.

 

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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