CONFERÊNCIA QUARESMAL DE SOURE - NOVA EVANGELIZAÇÃO - ANÚNCIO E EXPERIÊNCIA

1. OBSTÁCULOS PARA A EVANGELIZAÇÃO

O maior obstáculo à evangelização é a falta de fé em Jesus Cristo, na Igreja e no mistério da salvação.

Em primeiro lugar, constatamos uma deficiente abordagem da figura de Jesus Cristo. Os cristãos deixaram-se imbuir da mentalidade comum segundo a qual Ele é uma figura histórica de cuja existência se não duvida, um homem excecional no modo de viver, falar e agir, alguém que levou o amor até às últimas consequências. Como tal é protagonista de uma sabedoria porventura impossível de ultrapassar, capaz de conduzir por estradas seguras a vida da humanidade, fonte de inspiração para todos os homens de boa-vontade. Fica frequentemente na sombra a sua condição divina.

Em segundo lugar, deu-se uma grave mudança no modo como os cristãos entendem a Igreja. A compreensão da Igreja é, em grande parte, de caráter sociológico: uma instituição humana, uma comunidade de pessoas, ao serviço da construção da sociedade humana na verdade, na justiça e no amor. Falta frequentemente a fé na dimensão sobrenatural, na sua realidade de Corpo de Cristo, Templo do Espírito Santo, Sacramento Universal de Salvação.

Em terceiro lugar, o conteúdo que se dá à palavra salvação ou redenção, passou a ser muito mais humano e terreno. Salvação significa para muitos cristãos ser feliz e realizar-se enquanto pessoa humana dentro dos horizontes espácio-temporais em que nos encontramos.

O empenho na missão evangelizadora da Igreja está acima de tudo dependente do modo como se encaram estas realidades fundamentais da fé cristã. Sentir que Jesus Cristo é Deus e Homem, que a Igreja é Corpo de Cristo e Sacramento Universal de Salvação e que a salvação do homem é questão de vida ou de morte dá origem a atitudes muito mais radicais.

Convém recordar a este propósito as palavras do Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, no nº 9, quando centra toda a evangelização no anúncio da Boa Nova da salvação:

“Como núcleo e centro da sua Boa Nova, Cristo anuncia a salvação, esse grande dom de Deus que é libertação de tudo aquilo que oprime o homem, e que é libertação sobretudo do pecado e do maligno, na alegria de conhecer a Deus e de ser por ele conhecido, de o ver e de se entregar a ele” (EN 9).

Recordamos também o envio dos setenta e dois discípulos na versão de S. Lucas, 10. Do anúncio feito pelos discípulos está dependente a salvação, é questão de vida ou de morte. O evangelista insiste que os discípulos não podem demorar-se pelo caminho, nem nas casas, é preciso ir depressa, pois todo o tempo perdido com coisas secundárias significa perda de oportunidades de anúncio da salvação, que vem pela fé e pelo conhecimento de Jesus Cristo, o único Salvador.

Quem está hoje convencido que Cristo é o único Salvador, que a Igreja é o Sacramento Universal da Salvação e que na questão da salvação se joga a vida ou a morte?

Não se pensará a evangelização como um anúncio que está simplesmente ao serviço da realização e da felicidade do ser humano?

Não será Jesus Cristo e o Evangelho um caminho de vida entre muitos outros?

 

2. ONDE ESTÁS? A RESPOSTA É O SILÊNCIO

No início da Bíblia, após a transgressão, em Gn 3, 9, Deus chama o homem dizendo: “onde estás?” É que o homem tinha-se subtraído ao olhar de Deus. A partir dali muitas outras vezes a Bíblia nos apresenta Deus a procurar o homem e a dirigir-se a ele, a chamá-lo, como acontece com Abraão, com Moisés, com os profetas. São imagens para falar dessa procura contínua que Deus faz do homem, com o intuito de se encontrar com ele e de criar uma relação de aliança e de amizade libertadora.

A Bíblia vai informando sempre que esse encontro se dá, há um chamamento ao qual se segue um anúncio, uma experiência de vida em comum e um envio. O texto da vocação de Moisés é bastante elucidativo a este propósito:

“Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés! Moisés!» Ele disse: «Eis-me aqui!»

6E continuou: «Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob.» Moisés escondeu o seu rosto, porque tinha medo de olhar para Deus.

7O SENHOR disse: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. 8Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel (...) 9E agora, eis que o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e vi também a tirania que os egípcios exercem sobre eles. 10E agora, vai; Eu te envio ao faraó, e faz sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel» (Ex 3, 4-9).

Segundo o modelo bíblico, quando Deus chama, ouve uma resposta, encontra um interlocutor, pois supõe-se um povo que está na escravidão do Egito e que reconhece a sua situação de escravidão. Há um desejo de libertação e há uma abertura a uma salvação que vem de fora do homem.

Do mesmo modo, no Novo Testamento encontramos muitos textos que nos mostram uma grande apetência das pessoas para a procura de Deus e para o encontro com Ele. Os Evangelhos falam das multidões que procuram Jesus, que se aproximam d’Ele a ponto de quase o sufocarem e não lhe deixarem um momento livre na jornada. É o caso da narração de Mc 3, 7-10: 7Jesus retirou-se para o mar com os discípulos. Seguiu-o uma imensa multidão vinda da Galileia. E da Judeia, 8de Jerusalém, da Idumeia, de além-Jordão e das cercanias de Tiro e de Sídon, uma grande multidão veio ter com Ele, ao ouvir dizer o que Ele fazia. 9E disse aos discípulos que lhe aprontassem um barco, a fim de não ser molestado pela multidão, 10 pois tinha curado muita gente e, por isso, os que sofriam de enfermidades caíam sobre Ele para lhe tocarem”.

De uma forma ou de outra, mesmo com exceções, esta foi a marca da sociedade ocidental e cristã até ao séc. XX. Uma enorme apetência para Deus, uma atitude de procura, um sentimento de necessidade d’Ele. Uma das grandes marcas do mundo atual consiste precisamente em ter perdido o sentido da necessidade de Deus. Vive-se como se Ele não existisse e não se sente a Sua falta.

Teoricamente todo o homem sente uma nostalgia de Deus, do infinito, do paraíso perdido, mas, na prática, no mundo contemporâneo isso não se faz notar.

Parece um dado da experiência que, o ser humano quando perde o sentido do transcendente e do sobrenatural, se fecha nos seus horizontes terrenos, se preocupa com as questões imediatas, procura resolver os seus problemas com os seus próprios meios humanos que considera ilimitados, pensa a salvação em termos materiais, não encontra lugar para Deus nem para a salvação que venha de fora.

Estamos num mundo cheio de problemas de toda a ordem, de desordens familiares e sociais; sentimos a crise de valores; reconhecemos que o homem caminha para a cultura da morte e cava abismos para si mesmo, mas desligamos tudo isto do sentido de Deus, não estabelecemos a relação entre a situação presente a fuga de Deus.

Grandes pensadores da atualidade começaram, no entanto, a reconhecer que a falta da dimensão religiosa da vida e, concretamente, um certo declínio da cultura cristã ou da influência da fé na vida das pessoas é fator de instabilidade e de desestruturação das famílias e da sociedade.

O modelo bíblico do homem que procura a Deus e que se apoia na fé como resposta de vida, parece estar em crise. A grande dificuldade que a Igreja hoje enfrenta no momento de fazer o anúncio da fé, consiste em não encontrar terreno receptivo. Não se trata de um simples não querer aderir ao anúncio, trata-se de não sentir necessidade dele, de não perceber para que serve, o que resolve, que interesse tem.

Quando a salvação é algo que depende do homem, tem a ver exclusivamente com as condições de vida, saúde, alimentação, habitação, relações humanas... não se vê o interesse de introduzir um elemento externo que aponte noutro sentido, para horizontes sobrenaturais ou de eternidade. O factor Deus parece desnecessário.

É em grande parte por este motivo que a Igreja, os agentes pastorais, os evangelizadores, os catequistas, têm tanta dificuldade de encontrar interlocutores, quando pretendem transmitir a fé de um modo mais profundo e comprometedor.

Frequentemente pensamos e dizemos que a questão se situa ao nível do fraco testemunho dos cristãos. Também tem importância, mas não é somente esse o fator preponderante. Mesmo entre comunidades de testemunho muito vivo e verdadeiro, há dificuldade de encontrar interlocutores.

Voltando à questão inicial do livro do Génesis, podemos dizer que, à pergunta que Deus dirige ao homem, “onde estás?”, se responde hoje simplesmente com o silêncio de quem não está interessado em dar qualquer resposta, pois não sente que abrir-se a essa realidade tenha qualquer interesse para solucionar seja o que for na sua vida.

As multidões já não andam atrás de Jesus, mas inclusivamente fazem o caminho inverso - tentam evitá-l’O - e vão por outro caminho, porque Ele oferece algo de que, pensam, não precisar: procuram a felicidade terrena e Ele oferece a vida eterna, procuram a solução dos problemas imediatos e Ele oferece a esperança no futuro, procuram uma vida mais fácil e Ele oferece um caminho de oferta e sacrifício de si mesmo como preço do amor. Não coincide a oferta com a procura.

Alguns grupos dentro do cristianismo e mesmo dentro da Igreja Católica, tentaram ir ao encontro das expectativas das pessoas e começaram a oferecer-lhes respostas imediatas para os seus problemas: milagres, curas, perspectivas de sucesso na família, no trabalho, nos negócios, e um sem número de soluções rápidas. Porventura de boa fé, caíram no logro de entrar na lógica do mundo atual e transformaram Deus na solução para tudo, no milagreiro ou no mágico. Não parece ser esse o Deus, Santíssima Trindade, revelado por Jesus Cristo, que ofereceu ao Pai a Sua vida até à morte e morte de cruz para salvar todo o homem. Podemos estar diante da negação do valor redentor da cruz de Cristo, dentro da própria Igreja.

A grande questão da evangelização nos dias de hoje começa por ajudar as pessoas a reconhecer que estão em situação de exílio, que não têm nas suas mãos a força da sua libertação, que a salvação ultrapassa os confins do espaço em que habitamos e do tempo em que vivemos.

 

3. PARA QUEM IREMOS NÓS, SENHOR?

A questão que havemos de pôr é a seguinte: Que sentido tem, afinal, dar o passo no sentido da fé cristã, do acolhimento de Deus e da vida à luz da mensagem do Evangelho? Noutras palavras, para que serve Deus na nossa vida?

Ao pôr esta questão, vem à mente, em primeiro lugar a célebre frase de Pascal, que se interroga sobre a existência de Deus. Conclui com a célebre resposta da aposta acerca do que ganhamos ou perdemos por acreditar n’Ele e por vivermos nessa perspetiva, caso Ele exista: se Deus existe, ganhamos tudo; se não existe, não perdemos nada.

É evidente que o Evangelho põe a questão doutra forma, não se preocupando com o ganhar ou perder a vida em termos materiais ou inclusivamente interesseiros, muito menos em tom de troca comercial: dou para receber; aposto para ganhar; entrego-me desde que lucre com isso.

A figura do Antigo Testamento que melhor nos ajuda a compreender que a fé em Deus é gratuita, no sentido de não ser um meio para alcançar seja o que for, é Job. Num mundo religioso em que se esperava do crente a bênção de Deus, manifestada em sucesso e bens de toda a ordem, há um homem que é religioso sem esperar nada em troca. Supera todas as provas: perde os bens e continua religioso; perde a casa e os filhos e continua religioso; perde a saúde e está às portas da morte, e continua religioso. Em tudo isso, nunca amaldiçoou a Deus, mas continuou sempre a louvar o seu nome santo, dizendo: “O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor!” (Jb 1, 21).

No Novo Testamento, Jo 6 oferece-nos a melhor síntese a propósito da única razão de ser da fé. Após o discurso do Pão da Vida, em que Jesus anuncia que a Sua carne é verdadeira comida e o Seu sangue é verdadeira bebida, as multidões começam a afastar-se e os discípulos começam a duvidar se, depois de ouvirem tão duras palavras, hão-se continuar a segui-l’O. Diz o texto: 60Depois de o ouvirem, muitos dos seus discípulos disseram: «Que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto?» 61Mas Jesus, sabendo no seu íntimo que os seus discípulos murmuravam a respeito disto, disse-lhes: «Isto escandaliza-vos? (...) 66A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. 67Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» 68Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! 69Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.»”

Trata-se de uma resposta que diz bem que a razão de ser do seguimento de Jesus ou do acolhimento do anúncio de Deus na vida é uma questão de liberdade, de amor, de fé gratuita, que não espera nada em troca; é uma questão de relação entre pessoas que se encontram, experimentam o que é o amor e a entrega livre e gratuita sem esperar nada em troca.

Toda a experiência do Povo de Deus do Antigo Testamento está repleta desta motivação forte: Deus amou-nos, Deus tirou-nos da escravidão do Egito, Deus deu-nos esta terra em que nos encontramos e onde podemos ser felizes, Deus encontrou-nos perdidos no deserto e cuidou de nós como a mãe cuida do seu bebé. Este é o nosso Deus de quem não queremos separar-nos, a quem damos graças e a quem respondemos com amor.

Não se trata de saber o que podemos lucrar com isso ou o que nos promete, mas de reconhecer o amor que nos tem e que lhe queremos ter. Esta era a religião sem mancha, verdadeira e pura.

No caso de Jesus, a relação marcante com as multidões, deixa-as seduzidas. As jornadas com os discípulos, deixa-os encantados. A Samaritana, após uma relação de proximidade, acolhimento e verdadeiro encontro, muda de vida e sente-se presa a um Deus que comove. Zaqueu, face ao olhar de Jesus, deixa-se contagiar e não se sente o mesmo. Os Apóstolos, após a experiência da companhia do Mestre e o ardor da sua presença, não perguntam o que podem lucrar - antes pelo contrário, partem eles mesmos, dispostos a dar tudo no anúncio e no testemunho.

A grande questão está, portanto, em proporcionar um anúncio que seja experiência de encontro com o amor de Deus, por meio de Jesus Cristo.

 

4. SENHOR, QUE QUEREIS QUE EU FAÇA?

A única razão que tem força para levar alguém a acolher o anúncio da fé, nos dias de hoje, é a do amor. O tempo da cristandade, iniciado quando Constantino declara o cristianismo como religião oficial do Império Romano, já chegou ao seu termo. O tempo do cristianismo cultural e da tradição transmitida de pais para filhos, está a diluir-se mesmo entre nós. Estamos no tempo do cristianismo fruto de uma decisão pessoal, fruto do amor que Deus põe no coração das pessoas, é acolhido e torna as pessoas muito felizes, apesar de ser uma caminho de cruz.

Nessa altura, a questão que se põe não é a de saber o que se ganha, mas que caminhos de vida propõe. Todo o chamamento que Jesus faz a alguém para O seguir, todo o chamamento a ser discípulo é extremamente exigente e pede sempre a máxima decisão.

Grande exemplo disso é o episódio do chamamento de um homem que pretende primeiro ir sepultar o seu pai (Lc 9, 57-62): "Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai". A resposta de Jesus é seca e inesperada: "Segue-me e deixa os mortos sepultarem os seus mortos" (Mt 8, 22). Segundo Lc 9, 60 Jesus exorta ainda com uma força maior: "Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus." É clara a insistência na única coisa que parece importante para aquele que segue Jesus: ir e anunciar o Reino de Deus.

Na vocação do jovem rico também é impressionante a exigência da máxima decisão: "Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me" (Mc 10, 21).

Igualmente peremptória, no momento de anúncio e chamamento, é a referência ao seguimento até à cruz: "O que não toma a sua cruz para me seguir não pode ser meu discípulo" (Mt 10, 38). É um apelo a começar um caminho de seguimento e a levá-lo até ao fim sem pensar no que se ganha. Pode incluir a aceitação das hostilidades e dos sofrimentos ou do martírio a que estão sujeitos todos os discípulos que aceitem seguir Jesus. Naquele tempo como em todos os tempos, seguir Jesus nunca é sinónimo de entrar num caminho de triunfo, mas sempre num caminho de serviço.

Na linguagem do Evangelho a meta suprema do seguimento, da entrega decidida, da renúncia e do martírio, consiste em ganhar a vida: 24Pois, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la” Lc 9, 24).

Estamos diante da questão da orientação e do sentido que se dá à vida, que se não encontra em seguranças transitórias, como são a família ou os bens. É no seguimento de Jesus em quem se acredita, que inaugura o Reino de Deus presente no mundo; é orientando-a segundo a Sua palavra que se lhe dará pleno sentido, mesmo que isso inclua passar pelas dificuldades ou sofrimentos que parecem fazê-la perder.

Estão em jogo dois diferentes conceitos de vida: aquela que tem os seus confins dentro do âmbito do efémero e terreno e aquela que aponta para a plenitude da existência humana e que ultrapassa os confins da própria morte.

Afinal a questão do discipulado de Cristo torna-se sempre a questão do sentido da vida. Se pela fé em Jesus Cristo os horizontes se nos abrem para mais, para uma realização plena, o seguimento aparece-nos como a nossa única via; a resposta ao chamamento "vem e segue-me" surge como o princípio da relação amiga e próxima a manter pela vida fora; o envio em missão efetiva a transmissão da mesma oferta de salvação que a nós já faz felizes.

O martírio foi o sinal inequívoco da profundidade da sua relação e da aceitação do Reino de Deus como promessa e oferta de salvação. Seguir Jesus na entrega da própria vida, numa relação de amor e dispondo-se a levar a cruz, é bem diferente de perguntar o que se ganha com a fé, em ser crente ou acreditar em Deus.

 

5. VINDE E VEREIS

Que método de anúncio pode a Igreja utilizar para fazer chegar a sua mensagem aos homens de hoje? Qualquer forma de anúncio passa inevitavelmente pela experiência vivida e transmitida.

O Papa Bento XVI sintetiza esta ideia, dizendo, na Porta fidei: “Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria (nº 7). E, logo a seguir, afirma, citando Santo Agostinho no De utilitate credendi (1 e 2): “Os crentes fortificam-se acreditando (...). Por conseguinte, só acreditando é que fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior, porque tem a sua origem em Deus” (Porta fidei, 7).

A mesma experiência que fizeram os discípulos que seguiram Jesus, foram ver onde morava e ficaram com Ele, como lemos em Jo 1, 37-39: 37Ouvindo-o falar desta maneira, os dois discípulos seguiram Jesus. 38Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: «Que pretendeis?» Eles disseram-lhe: «Rabi - que quer dizer Mestre - onde moras?» 39Ele respondeu-lhes: «Vinde e vereis.» Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Eram as quatro da tarde.”

Ir para sua casa significa partilhar da sua vida, aprender com Ele, conhecê-lo em profundidade, identificar-se com Ele.

Esta experiência de relação e encontro pode realizar-se de muitos e diferentes modos. A ação da Igreja consiste prioritariamente em criar as condições para a realização dessa experiência de encontro.

O cristianismo vivido no contexto tradicional da cristandade já não tem capacidade para provocar esta experiência de encontro essencial. As igrejas todos os dias estão mais vazias, quando nos ficamos pela religiosidade tradicionalista, cultural, sem profundidade, sem convicções, sem relação e sem descoberta consciente da fé.

Uma diocese portuguesa publicou recentemente dados relativos ao recenseamento da prática dominical. Trata-se de uma diocese do interior, tradicionalmente cristã, onde não seria de supor mudanças tão rápidas num tão curto espaço de tempo. A notícia diz que a prática da missa dominical caiu cerca de 40% nos últimos 20 anos. Seria interessante cruzar este dado com alguns outros relativos às mudanças culturais, aos valores defendidos, ao nível de realização das pessoas ou até ao modo como se sentem mais felizes ou menos felizes.

A fé hoje tem de ser assumida ou não se aguenta. Isso exige que as pessoas aceitem questionar os seus fundamentos, refletir sobre as suas seguranças, aprofundar as razões de ser dos seus medos e das suas alegrias. Aliás a experiência não se reduz à mera vivencia de acontecimentos ou situações, mas é sempre o resultado da vida refletida, interiorizada, da qual se tiram conclusões. Não basta viver no sentido de existir; é necessário definir o rumo da própria vida de forma consciente, livre, responsável e refletido. Este é o caminho para a abertura a Deus e à fé como resposta e sentido.

Nada disto se faz sem permanecer longo tempo no contacto com a fé, com Deus por meio de Jesus Cristo, em Igreja. Daqui a importância prática da comunidade cristã, enquanto lugar de encontro, de interiorização e reflexão, enquanto lugar de comunhão com Deus. Uma vez criada a empatia profunda, que passa à amizade e ao amor cada vez mais profundo, nada nos pode separar d’Ele.

Quando a relação chega às profundezas da alma, fica como uma marca inesquecível. Neste sentido podemos ler o texto da Epístola aos Romanos (8, 35-239): 35Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? (…) 38Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, 39nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso”.

Toda a ação da Igreja, enquanto ação evangelizadora, precisa de proporcionar esta experiência: a liturgia que se celebra, tanto a missa como os outros sacramentos; a pregação da Palavra de Deus; a catequese; os grupos de jovens; os movimentos de espiritualidade; o estudo dos conteúdos da fé e da doutrina; a leitura da Sagrada Escritura, os momentos de oração.

Coimbra, 23 de Março de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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