DIÁLOGOS DE COIMBRA – NA (BIBLIOTECA) JOANINA RAÍZES DA EUROPA: ATENAS. JERUSALÉM. ROMA NATUREZA.HISTÓRIA.IDENTIDADES

  1. HISTÓRIA BÍBLICA, GÉRMEN DA NOSSA IDENTIDADE

A Bíblia valoriza a história de duas maneiras: ela é lugar de revelação e lugar de salvação. Valoriza igualmente a memória do passado como forma de reconhecer a obra de Deus em ordem à gratidão que lhe é devida.

Na perspectiva do Antigo Testamento, Deus revela-se por meio da palavra e da ação ou dos acontecimentos, uma e outra expressa pelo termo hebraico dabar, uma e outra a ocorrer na história do Povo de Deus, a história de um povo crente, aberto ao conhecimento de Deus e capaz de ler na sua vida os seus sinais. Deus revela-se também na natureza, que, sendo obra Sua, é sinal da sua capacidade criadora.

Israel encontrou Deus na história e a própria criação é entendida como um evento histórico, o primeiro gesto da história da salvação. Deste modo se entende por que razão a Bíblia dá tão grande lugar à narração dos acontecimentos da vida de um povo, que se assume como povo da revelação e primeiro arauto da salvação.

Neste sentido, os mais antigos credos de fé do Antigo Testamento não são constituídos por um elenco de ideias abstractas ou por um conjunto de conceitos, mas por uma narração de acontecimentos “históricos”, que definem o agir de Deus e o modo como foi percebido pelo homem. Exemplo são os chamados “pequenos credos históricos” que encontramos no livro do Deuteronómio, 26, 5-9:

“Meu pai era um arameu errante: desceu ao Egipto com um pequeno número e ali viveu como estrangeiro, mas depois tornou-se um povo forte e numeroso. 6Então os egípcios maltrataram-nos, oprimindo-nos e impondo-nos dura escravidão. 7Clamámos ao SENHOR, Deus de nossos pais, e o SENHOR ouviu o nosso clamor, viu a nossa humilhação, os nossos trabalhos e a nossa angústia, 8e fez-nos sair do Egito, com sua mão forte e seu braço estendido, com grandes milagres, sinais e prodígios. 9Introduziu-nos nesta região e deu-nos esta terra, terra onde corre leite e mel”.

A partir de um conjunto de acontecimentos iniciais, fundantes da fé de um povo e de uma nova maneira de se situar diante da realidade e da vida, vão interpretar-se todos os sucessivos momentos históricos, sem que se perca o fio condutor, que é garante dos elementos fundamentais de uma identidade.

A memória das palavras e do agir de Deus (zakar), guardada pelo seu Povo, é condição de fidelidade. Frequentes vezes se ouve no Antigo Testamento a voz de Deus, que diz: recordarás, farás memória, não esquecerás... Esquecer as obras de Deus seria a ruína de Israel, uma vez que a sua identidade de Povo de Deus está dependente da relação de fidelidade que nasce de um encontro para sempre na memória.

Na perspectiva bíblica a Pessoa de Jesus Cristo constitui o centro do tempo e da história, pois nele se revela plenamente Deus e se realiza a salvação da humanidade. A história torna-se história de salvação; nela, por meio de Cristo, se revela a verdade de Deus, a verdade do homem e o sentido da história.

O Novo Testamento assume a tradição judaica e, numa perspectiva de continuidade, sintetiza as linhas globais da civilização de que somos herdeiros. A reflexão filosófico-teológica que se segue, ancorada na herança greco-romana, cristianizada, faz um longo percurso, aqui e ali questionado ou posto em causa, mas suficientemente seguro para constituir o cerne consistente da civilização ocidental, de matriz judeo-cristã.

 

2. A HERANÇA JUDEO-CRISTÃ DA EUROPA

A questão das raízes judeo-cristãs da Europa voltou a pôr-se aquando da discussão da Constituição Europeia, assinada em 2004, que, no Artigo I-2º, omite estas referências ao estabelecer os Valores da União: “A União funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de Direito e do respeito dos direitos, incluindo dos direitos das pessoas pertencentes a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-Membros, numa sociedade caracterizada pelo pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre mulheres e homens.”

A mesma questão já havia sido posta outras vezes, num clima de ruptura com o passado, das quais a revolução francesa é um dos melhores exemplos. O lema “liberdade, igualdade, fraternidade”, apesar de conter termos da tradição judeo-cristã, surge com o caráter da novidade de uma revolução que quer cortar com o passado e instaurar uma nova realidade a vários níveis.

Do mesmo modo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada pela ONU em 1948, é portadora de um ideário claramente de matriz judeo-cristã, embora qualquer referência explícita seja igualmente omissa.

Trago estes três exemplos como ponto de partida para uma breve reflexão acerca da dificuldade que existe hoje, na Europa em particular e no Ocidente em geral, de se assumir a herança judeo-cristã, como se um conjunto de valores surgissem do nada ou encontrassem os seus alicerces em qualquer contexto desconhecido, isto é, como se não tivessem uma história bem definida e delimitada nos seus contornos.

Um dos graves problemas que enfrenta a Europa atual é precisamente esta incapacidade de assumir a sua história, com tudo o que ela tem de melhor e de pior e como lugar de construção do que agora somos. Há no ar um preconceito, que impede a sociedade de pronunciar algumas palavras e de ler a história com objectividade. Este é o primeiro sintoma da perda de uma identidade europeia.

 

O segundo sintoma da perda da mesma identidade reside na rejeição dos valores provenientes da confluência multimilenar das culturas simbolizadas pelas cidades da Grécia, Jerusalém e Roma, caldeadas pela mundividência cristã. Em seu lugar impõem-se dogmas culturais que são o resultado dos consensos das maiorias, e, muitas vezes, o resultado da força prepotente dos lóbis ou das minorias.

Estamos a viver uma ruptura deliberada com o passado que nos deixa numa profunda crise de identidade, sem nada de objectivo a que nos possamos agarrar, num subjetivismo que nos deixa perdidos e sem referências, como órfãos que não conhecem os seus pais; por um lado não sabem de onde vêm e, por outro, não têm mais segurança que a das suas convicções individuais.

Duas faces de uma mesma realidade a atrofiar aquilo que somos: a quase impossibilidade deliberada de reconhecermos as nossas raízes e a mudança acelerada das bases constitutivas da nossa identidade histórica.

 

  1. ALGUNS PONTOS FULCRAIS DA PERDA DA MEMÓRIA HISTÓRICA

Os fundamentos éticos

A perda dos fundamentos éticos conta-se entre as mais decisivas mudanças operadas no nosso mundo e, ao mesmo tempo, aquela que maiores consequências traz para a vida presente. Ao ficarmos com uma moral fundamentada na razão, no estado, no consenso da maioria ou na consciência individual, caímos num relativismo que prescinde da busca da verdade e se torna um autêntico subjetivismo.

Ao prescindir-se da referência à história e, concretamente no caso da Europa, à fundamental referência histórica que inclui a tradição religiosa cristã, ficamos sem critério de conhecimento de verdade e de bem que não seja a nossa própria razão, pretensamente independente.

É um dado adquirido que as mais variadas tradições religiosas, apesar de muito diferentes, são portadoras de grandes tradições morais sobre as quais assentavam as sociedades do passado, e produziram fundamentais consensos sobre o que é o bem comum do ser humano. A rejeição da dimensão religiosa da vida nas suas diversas realizações e manifestações constitui o truncar de um contributo essencial para a construção de uma ética universal.

A nossa mundividência moral nasceu e amadureceu num fundo histórico de fé cristã, sem o qual não pode explicar-se a sua tão notória razoabilidade. Esta deve-se ao facto de o cristianismo se revelar cada vez mais “como sendo a cultura mais universal e mais racional, que ainda hoje oferece à razão aquele substrato fundamental de conhecimento moral, que conduz a uma certa evidência, ou pelo menos fundamenta uma fé moral razoável, sem a qual nenhuma sociedade pode subsistir” (Cardeal Ratzinger, Verdade, valores, poder, Ed. Franciscana, Braga, 2006, p. 75).

Concretizando, é inegável que a nossa tradição moral foi herdada da tradição bíblica judaico-cristã. Os Dez Mandamentos, como formulação de Israel acolhidos pelo cristianismo, fazem parte de um património comum às tradições mais antigas e mais puras do género humano. Neles reside o núcleo essencial daquilo que a Idade Moderna concebeu com a noção de direitos do homem (Cf. Cardeal Ratzinger, A Igreja e a nova Europa, Ed. Verbo, Lisboa, 1994, p. 96).

 

A abertura a Deus

Somos herdeiros de uma cultura caracterizada pela abertura a Deus, agora posta em causa e claramente negada, truncando assim uma parte essencial da nossa identidade.

A luta entre a fé e a incredulidade é o tema supremo da história, afirmou Goethe. Trata-se de uma tensão constante, que perpassa toda a história, que tem fases diversas, mas que encontra uma novidade na modernidade: o fechar-se da humanidade a Deus e à fé, para se centrar exclusivamente no Homem.

Santo Agostinho concebera a história humana como o defrontarem-se de duas espécies de amor: o amor de si mesmo até ao desprezo de Deus, e o amor de Deus até ao desprezo de si mesmo.

Ao pôr-se de parte a questão de Deus, por diferentes vias, entramos num novo período da história, sem precedentes. A um antes durante o qual se jogava a questão da fé ou da incredulidade, sucede um depois, no qual Deus é irradiado e deixa de ser considerado como dado a ter em conta.

Já a experiência do homem bíblico narrada dos primeiros capítulos do Génesis, mostrara que a história humana está inevitavelmente marcada por esta tensão entre a abertura a Deus e o fechar-se do Homem sobre si mesmo; a abertura ao Outro e ao amor como um sair para fora de si, ou o fechar-se ao Outro e ao amor, truncando a sua condição de criado à imagem e semelhança de Deus.

Hoje, tende-se a prescindir de Deus, a excluí-lo, para afirmar o Homem ou, pior ainda, para reconhecer como realidade efetiva apenas os valores materiais.

O drama é que “Sem Deus, o ser humano não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja... o ser humano não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo” (Cf. Cardeal Ratzinger, A Igreja e a nova Europa, Ed. Verbo, Lisboa, 1994, p. 121).

Ao perder a noção do humanismo cristão, a modernidade perde o sentido da caridade e da verdade como dons de Deus e corre o risco de perder os valores humanos, como parece estar a acontecer entre nós, num mundo que rejeita a abertura a Deus. Segundo Bento XVI (Carta Encíclica Caritas in Veritate, 78), “o humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano. Só um humanismo aberto ao Absoluto pode guiar-nos na promoção e realização de formas de vida social e civil – no âmbito das estruturas, das instituições, da cultura, do ethos – preservando-nos do risco de cairmos prisioneiros das modas do momento”.

 

O sentido da vida

Uma terceira área em que houve um corte com a história e se compromete a nossa identidade tem a ver com o sentido da vida. Ao fechar-se à fé na vida eterna, à ideia da imortalidade da alma, à vida para além da morte, perde-se o sentido da esperança para além deste tempo e deste espaço e fica-se numa esperança terrena que facilmente conduz ao vazio.

Há uma radical diferença entre uma vida aberta à esperança na vida eterna e uma vida fechada aos horizontes limitados da matéria.

A fé no progresso da ciência deu lugar à fé nas possibilidades da atividade política, passando pela fé noutras realidades como possibilidade de redenção do homem; a esperança no reino de Deus como realidade já presente, mas ainda não completamente realizado, deu lugar ao reino do ser humano, limitado e finito.

De esperança em esperança, o ser humano caminha sempre ávido de uma plenitude que nunca pode encontrar em si mesmo nem no seu mundo; vive portanto de ilusão atrás de ilusão, segundo a expressão de Qohélet. Este é o drama da humanidade que criou esta ruptura com as suas raízes: deixou de acreditar numa esperança que se projeta para fora de si; deixou de acreditar num amor incondicionado, que nem a morte pode destruir, para acreditar num amor a prazo, que agora nasce e logo morre; confiou nas suas capacidades para transformar a totalidade da realidade, para se redimir, e saiu frustrado.

 

CONCLUSÃO

O pior mal de que estamos a sofrer é a profunda crise de identidade em que nos encontramos, consequência da perda da memória histórica e da infidelidade a um percurso que podíamos fazer sem rupturas catastróficas.

Enquanto Europa ficámos em crise, porque os valores que supostamente nos unem são vagos, superficiais, apostam nos mínimos para a convivência humana, não vão à profundidade daquilo que somos.

Enquanto nação falta-nos igualmente algo que crie comunhão profunda, somos vítimas do vazio que se apoderou de nós, vivemos como se não tivéssemos história nem identidade. Como não queremos ir mais fundo, ocupamo-nos com os problemas económico-financeiros, que são apenas um pequeno sinal do grande iceberg que avança contra nós.

 

Coimbra, 31 de Maio de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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