EU VIM PARA QUE TENHAM VIDA

CENTENÁRIO DAS APARIÇÕES DE FÁTIMA - VI CICLO: 2015-2015
Santuário de Fátima


INTRODUÇÃO

O sexto ciclo preparatório da celebração do centenário das aparições de Fátima conduz-nos à descoberta do que podemos chamar a motivação e a intenção do Deus que nos quis oferecer este precioso auxílio para acolhermos o Evangelho e sermos salvos por Jesus Cristo.
Segundo a Epístola aos Hebreus, quando chegou a plenitude dos tempos, Deus, para realizar o seu plano salvador, falou-nos por meio de seu Filho: “Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho” (Hb 1, 1-2).
Encerrada a Revelação com a Palavra do Filho, Deus não cessou de vir ao nosso encontro com os mesmos intuitos amorosos de salvação. Ele vem ao nosso encontro e comunica connosco por meio da Igreja, pela Palavra da Escritura, na celebração dos sacramentos da fé, ajudando-nos a ler os sinais dos tempos, com o auxílio dos seus escolhidos e enviados para em cada tempo proclamarem a Boa Nova do Reino.
Num momento extremamente crítico da história, quando a humanidade precisava de um sinal bem visível para voltar a Cristo como único Salvador, Deus enviou a sua e nossa Mãe, como personagem de um acontecimento que haveria de chamar a atenção da humanidade, de uma forma absolutamente imprevisível. A totalidade do acontecimento, com destaque para o chamado “milagre do sol”, e a história posterior, que inclui o crescimento de um grande lugar de peregrinação e a divulgação do nome “Fátima” por todo o orbe, são alguns dos tópicos desse grande sinal.
Fátima foi uma mensagem profética no seu primeiro momento, quando se precisava de ler os sinais dos tempos que corriam e se previa um longo calvário para a humanidade, continuou a ser mensagem profética ao longo de todo o séc. XX, no qual se percebeu o que é o homem longe de Deus, e continua a ser mensagem profética para o futuro, que se abre a novos focos de tensão, medo, destruição e morte.
Como Deus nunca desiste da humanidade nem do Seu desejo salvífico, continuará a suscitar os meios adequados para conduzir os seus filhos à vida em plenitude, e Fátima estará entre eles.
Começarei por referir a intencionalidade salvífica da Revelação, para depois relacionar a salvação com a vida alcançada pela morte e ressurreição do Senhor e focar o acontecimento de Fátima como um serviço à salvação de Deus e à plenitude da vida.


1. INTENCIONALIDADE SALVÍFICA DA REVELAÇÃO E DAS REVELAÇÕES

Fátima e a Revelação

O acontecimento de Fátima e a sua mensagem inserem-se no dinamismo de uma história crente, que revisita constantemente o acontecimento central da História da Salvação e recentra sempre o seu olhar de fé em Jesus Cristo, o seu centro absoluto.
Enquanto revelação privada, Fátima aponta para a revelação pública de Deus realizada por meio de Jesus Cristo, repropondo-a à humanidade como o único caminho de salvação, pois fora d’Ele, não há outro Salvador. Como refere o Catecismo da Igreja Católica, no nº67, o objetivo das revelações privadas não consiste em “«completar» a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente numa determinada época da história”[1].
Por sua vez, a Revelação definitiva de Cristo não é um acontecimento nascido simplesmente do desejo que Deus tem de se dar a conhecer, mas tem uma finalidade bem precisa, que é a de despertar a fé, como caminho de salvação.
Apesar de afirmar que a Revelação de Jesus Cristo está encerrada e que exclusivamente nela podemos apoiar a nossa fé, a Igreja aceitou e afirmou também que ela pode ser explicitada a fim de se acolher gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos[2].
Como esclareceu o cardeal Ratzinger no  Comentário Teológico à Terceira Parte do Segredo de Fátima,“A revelação privada é um auxílio para esta fé, e manifesta-se credível precisamente porque faz apelo à única revelação pública”[3]. Não trazendo, por isso, nenhuma novidade quanto ao conteúdo, não sendo Palavra de Deus, traz, como se tem provado ao longo dos séculos, a indicação de meios e formas de vida aptos para que, em cada tempo, os cristãos percorram o caminho da sua vida de fé, com esperança e amor.
Estabelecendo uma relação inseparável entre as revelações privadas e a Revelação pública, o mesmo cardeal Ratzinger afirmou que o “critério para medir a verdade e o valor duma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo”[4]. Trata-se, por isso, de afirmar a absoluta centralidade de Cristo no projeto de revelação e salvação de Deus. Fátima é, sem dúvida uma das mensagens que mais direta e explicitamente se conforma, explica e atualiza a Boa Nova do Evangelho, e que mais claramente manifesta a sua orientação para Cristo, no seio da Santíssima Trindade e enquanto Cabeça da Igreja.


Finalidade salvífica

O acontecimento de Fátima, enquanto acontecimento de fé, está ao serviço da salvação que Deus oferece ao homem. Não teria qualquer sentido nem seria necessário por mais nenhum motivo, senão este de proclamar, de novo, a grande novidade do Evangelho de Jesus Cristo, que revelar com palavras e gestos, com a totalidade da sua pessoa, que Deus ama e salva o homem.
O mesmo Deus que salva a humanidade, é Aquele que a criou, a mantém na existência e lhe oferece continuamente a vida, num percurso terreno aberto aos horizontes da eternidade. De acordo com o suposto percurso de fé realizado pelo Povo Bíblico, ele começou por acreditar no Deus libertador, salvador e redentor, e só depois caminhou na fé no Deus Criador.
A Sagrada Escritura, do Antigo ao Novo Testamento, está cheia de lugares em que se afirma a condição de Deus Salvador do género humano. No livro do Génesis apresenta-se a humanidade criada por Deus e colocada no jardim em que se torna refém do pecado por ceder à tentação que nasce do seu sonho de viver fora dos limites de Deus; o êxodo, com a libertação do Egito e a passagem do Mar Vermelho, constitui o momento central, a partir do qual se afirma a fé no Deus Salvador; no livro do Apocalipse encontramos a humanidade redimida por Jesus Cristo, vítima das perseguições exteriores que lhe tolhem as possibilidades da glória para a qual foi criada nos novos céus e na nova terra; ao longo da história sagrada são inúmeras as situações em que se apresenta a debilidade dos homens, tanto por ter sido criado com os limites próprios da sua condição como por escolher caminhos contrários aos que lhe são amorosamente propostos pelo Criador.
Deus reafirma sempre o seu desejo de salvar a humanidade, propondo novas possibilidades de recomeço por meio da renovação da aliança, até ao momento decisivo em que propõe a nova e eterna aliança em seu Filho Jesus Cristo. Ele incarna, anuncia, cura, perdoa, morre e ressuscita para realizar o eterno desígnio do Pai – que não se perca nenhum daqueles que criou (cf. Jo 6, 39).
O Novo Testamento afirma em muitas passagens centrais da sua mensagem a finalidade salvífica da incarnação, bem como do mistério pascal de Jesus Cristo. Ele morreu e ressuscitou, para que os seus seguidores encontrem n’Ele a salvação de Deus, “pois não há debaixo do Céu outro nome dado aos homens que nos possa salvar” (At 4, 12). O próprio nome do Filho de Deus, segundo os Evangelhos da Infância, será Jesus, isto é “Deus salva”: “dar-lhe-às o nome de Jesus porque ele salvará o povo dos seus pecados” (Mt 1, 21).
Há ainda outras expressões que se repetem frequentemente no Novo Testamento  para afirmar que Jesus incarnou, morreu e ressuscitou por nós (cf. Gl 2, 20), isto é, para nossa salvação (cf. Hb 5, 9). A própria linguagem do credoniceno-constantinopolitano, acolhendo a doutrina da Igreja, declara que Jesus “por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus; e incarnou pelo poder do Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem”.
O facto de os discípulos e as multidões se terem disposto a seguir Jesus, deve-se ao reconhecimento de que Ele é o Salvador e realizatotalmente o plano de Deus. “Vêm n’Ele um salvador quando lhes dá pão, saúde, consolação, acolhimento, reinserção na comunidade, libertação da culpa e do sofrimento, isto é, quando responde às suas necessidades básicas. E vêm n’Ele o salvador, o Messias, que havia de libertar o seu povo”[5].
De igual modo, quando as multidões ao longo da história continuam a segui-l’O é porque encontram n’Ele sentido e salvação, mesmo que estas realidades sejam entendidas de modos muito diversos, consoante os tempos, as culturas e os modos de assumir e exprimir a fé na pessoa de Jesus Cristo. De facto, ainda hoje, a figura de Jesus é controversa e as razões de admiração ou seguimento são diversificadas.


Única salvação, vários significados

A única salvação de Deus, centro da revelação pública realizada por Jesus Cristo, encontra na revelação privada da mensagem de Fátima uma explicitação plenamente  conforme com o Evangelho. São, no entanto, variados os modos de entender o conteúdo de uma e de outra ao longo do tempo.
Já os que ouviram o anúncio de Jesus, viram as suas obras e contactaram com a sua pessoa lhe atribuíram significados diversos. Uns entenderam-no como um profeta que dá continuidade à tradição das figuras proféticas do Antigo Testamento e outros como alguém que provoca uma rotura religiosa e cultural; uns esperavam que fosse um messias político e temporal que libertaria o povo do jugo estrangeiro e outros esperavam um messias que fosse portador dos dons e da paz espiritual de Deus; alguns esperavam uma libertação imediata, enquanto outros aguardavam por uma salvação adiada para a escatologia; alguns ansiavam por uma cura física e outros pelo perdão dos pecados como cura espiritual.
Os primeiros séculos do cristianismo são testemunha da dificuldade de compreender o mistério da pessoa de Jesus. As inúmeras querelas cristológicas, as disputas, heresias e apologias são reflexo dessa pluralidade abordagens de uma pessoa e de um conjunto de acontecimentos que, podem ser lidos à luz da fé sobrenatural ou simplesmente como um fenómeno natural e humano.
Quando passamos do tempo de Jesus para o nosso tempo, quando comparamos a história da Igreja dos séculos passados com a história da Igreja contemporânea, encontramos as distâncias culturais e religiosas que nos separam, que tornam mais difícil ainda a abordagem desta questão. De algum modo, precisamos de aclarar bem o que significa esperar a salvação de Deus segundo a linguagem da Revelação, como o que é a salvação que esperam os que acolhem a mensagem de Fátima e fazem dela um elemento estruturante do seu modo de ser cristãos e viverem a fé. Apesar de usarmos a mesma linguagem, nem sempre falamos da mesma realidade e, por vezes, trata-se de aspetos essenciais à fé cristã.
Comecemos pela cultura moderna, muito marcada pela secularização e, frequentemente, pelo secularismo, para a qual a salvação saiu para fora do mundo religioso para entrar no mundo secular, deixou de ser uma categoria aberta ao transcendente para se tornar uma realidade deste mundo e deste tempo, ou seja, do âmbito das realidades imanentes. Grande parte das pessoas, mesmo cristãs, praticantes e com consciência de ser membros da Igreja, esperam uma salvação exclusivamente terrena, que se confunde com realização pessoal, sucesso económico, satisfação ao nível das relações afetivas, vida com qualidade no campo da saúde física e psíquica, justa medida de felicidade pessoal e familiar.
Neste sentido, é difícil falar de salvação com um sentido teológico, isto é, como uma realidade que vem de Deus como um dom. De acordo com esta mentalidade não tem sentido falar de Deus como Salvador, nem de Jesus Cristo como o Redentor. Entende-se mais a salvação como o resultado do trabalho humano, da arte de viver que se atinge pela experiência, auxiliada pelo conhecimento e pela sabedoria. Os caminhos de salvação passam pelo desenvolvimento científico e tecnológico, pela psicologia e pela medicina, recorre-se às técnicas de pacificação pessoal e espiritual. A categoria pecado conta pouco, passou a ser substituída por outros termos, não tem a ver com Deus, mas é uma questão exclusivamente de relação humana. Sente-se necessidade de desculpar e perdoar como caminho de restabelecimento de relações humanas, mas não se sente necessidade do perdão de Deus.
A pessoa de Jesus de Nazaré continua a atrair e a seduzir abundantemente, mas, para muitos, simplesmente por incarnar um grande ideal de humanidade e de vida; não tanto por ser Filho de Deus e salvador do mundo ou por ser cabeça da Igreja. Jesus é admirado e acolhido como uma pessoa humana singular, portadora de uma sabedoria de vida admirável e de caminhos novos e sedutores, mas difíceis de percorrer. As referências à sua morte e ressurreição são silenciadas, apesar de se apreciar o seu gesto de dar a vida, mesmo que não se perceba muito bem porquê e para quê.
Fica sempre por resolver o problema do sentido da vida com todas as questões misteriosas que comporta. Mas também esta procura equacionar-se fora do contexto religioso. Também o mundo da ética se emancipou e deixou de ter referências a Deus, tornando-se exclusivamente humana e fechada à transcendência. Num como noutro caso falar de salvação significa algo muito diverso daquilo que entendemos na Revelação bíblica ou no discurso teológico e doutrinal da Tradição da Igreja Católica[6].
No que se refere à revelação particular de Fátima torna-se pertinente perguntar: o que entendem as pessoas quando ela fala de salvação, ou quando utiliza expressões provenientes da tradição doutrinal da Igreja, como «ir para o céu» ou «ir para o inferno», «almas que se salvam» ou «almas que se condenam».


2. EU VIM PARA QUE TENHAM VIDA (JO 10, 10)

O tema da vida faz parte integrante da pregação de Jesus, tanto nos Evangelhos Sinópticos como no Evangelho de S. João, e da doutrina expressa nas cartas de São Paulo. Faz parte igualmente da nossa linguagem e das nossas preocupações quotidianas, pois o grande sonho da humanidade consiste em viver muito, viver intensamente e viver feliz.
No Evangelho de S. João, no qual nos detemos brevemente, a ideia de vida está estreitamente relacionada com a teologia e a pregação da salvação.
Enquanto nos Sinópticos se usa o conceito de «vida eterna» num sentido escatológico, em João o conceito de «vida» é trazido para a realidade do presente, podendo mesmo falar-se do “caráter presente da vida eterna”[7].
A vida que o crente recebe em Jesus no tempo presente, tem um futuro aberto, é vida em abundância (cf. Jo 10, 10), é para a vida eterna (cf. Jo 6, 47. 51. 58). Mesmo quando João diz: “quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna” (Jo 12, 25), não pretende falar de uma sucessão temporal, de um presente e de um futuro, mas da vida verdadeira, que perdura num sentido radical e qualitativo[8].
João chega às afirmações explícitas de Jesus, incarnado sobre esta terra, que se apresenta, dizendo: “Eu sou a ressurreição e a vida” (11, 25); “Eu sou o caminho, a verdade e vida” (14, 6). No fundo é a afirmação de que Cristo é a vida para homens, uma vida que não virá somente no futuro, mas que já está presente no meio dos homens: “de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamos-vos a Vida eterna que estava junto do pai e que se manifestou a nós” (1 Jo 1, 2).
Em Paulo acentua-se também a realidade já presente da vida de Cristo em nós, uma vez que pela sua ressurreição essa vida opera já nos crentes. A vida eterna já chegou, pois já recebemos o Espírito que a torna presente em nós, mas terá a sua consumação escatológica, tal como diz, Deus “retribuirá a cada um segundo as suas obras: para aqueles que, ao perseverarem na prática do bem, procuram a glória, a honra e a incorruptibilidade, será a vida eterna” (Rm 2, 7). A vida eterna é, no entanto, o objetivo de toda a vida cristã, que já agora vivemos, mas que terá a sua consumação: “Mas agora, que estais libertos do pecado e vos tornastes servos de Deus, produzis frutos que levam à santificação, e o resultado é a vida eterna” (Rm 6, 22).


Deus, fonte da vida

Segundo a revelação bíblica, Deus é verdadeiramente a fonte da vida, porque é o Criador e está na sua origem, mas é, ao mesmo tempo, quem a guarda, defende e mantém.
Todo o Antigo Testamento é a narração do modo como o Deus Criador mantém na existência o seu povo e cada um dos seus membros. A experiência do êxodo mostra ao limite como um povo perdido é salvo da morte graças a uma intervenção de Deus; a história dos patriarcas revela, de Abraão a José, como a vida ameaçada em circunstâncias concretas, só subsiste porque o Senhor está com eles; durante a monarquia, os reis e o povo ousaram pensar que tinham a vida nas suas mãos e que esta perdurava graças à força militar ou à estratégia na realização das alianças com os outros povos, mas compreenderam que não podiam salvar-se se não caminhavam com o Senhor que os criou e os tirou do Egito; a queda de Jerusalém às mãos dos Romanos confirma que, sem Deus, o povo está entregue às forças inimigas, que ameaçam, escravizam, destroem e matam.
Em todos os casos, a bênção do Senhor, juntamente com o cumprimento das suas leis e preceitos, são o princípio da vida e a condição da subsistência tanto do povo de Deus como da nação que Ele escolheu. A Abraão promete abençoá-lo bem como à sua família e, por meio dela, abençoar a todos os povos da terra (cf. Gn 12, 2-3). A todo o povo convida a cumprir a sua Lei (torah) para viver, pois esquecê-la e não a pôr é prática é caminho de morte (cf. Ex 5, 33).
Segundo o Novo Testamento, Jesus veio como Aquele que, em nome de Deus, cura e fortalece a vida humana ameaçada pelo pecado e pelo demónio. Os evangelhos estão cheios de narrações de momentos em que Jesus enfrenta a debilidade da vida, marcada por toda a espécie de ameaças do corpo ou do espírito.
Ele veio para salvar a vida e não se recusa a ir contra a mentalidade comum para cumprir o seu objetivo: enfrenta os fariseus para acolher os pecadores, faz curas ao sábado, protege toda a vida ameaçada e confia essa missão aos seus discípulos quando os envia: “Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios” (Mt 10, 8). Jesus vem para que todos tenham a vida e a tenham em abundância (cf. JO 10, 10), segundo uma compreensão unitária do homem, corpo e espírito, de tal modo que os seus sinais miraculosos estão sempre ao serviço do crescimento da fé e as curas físicas apontam para a cura espiritual.
Há uma conexão muito estreita entre o Reino de Deus e a vida, de tal modo que, por causa do Reino e para estar em comunhão com Deus é necessário inclusivamente estar disposto a perder a vida, com todas as suas seguranças humanas, a fim de se ficar totalmente confiante na força protetora de Deus.
Para acolher o Reino, ou seja, a vida, é necessário rejeitar todos os outros pontos de apoio: “Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há de salvá-la” (Mc 8, 35). O discípulo realiza este objetivo por meio de um caminho de conversão e seguimento de Cristo, como o tesouro da própria vida.
Deus revela-se definitivamente como fonte da vida por meio de Jesus Cristo, o Filho que morre e ressuscita, perdendo tudo, para que todos tenham a vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10, 10). Particularmente em São João, Cristo é a única fonte da vida, porque vem do Pai e permanece unido a Ele. Por meio do sacrifício da cruz, livremente aceite, a vida divina vence a situação de morte da humanidade causada pelo pecado.
Em união a Cristo, pela força da água e do Espírito, os cristãos estão em comunhão com a vida, com Deus, de tal modo que, para um cristão, a vida “é o serviço consciente e constante ao Senhor Jesus que nos salvou da morte e é o único sentido e valor da existência”[9]. Por meio do amor a Deus e ao próximo nas circunstâncias comuns, os cristãos manifestam acolher esse dom total de Deus, e “incarnam na sua existência a eternidade transcendente do amor de Deus”[10].
A abertura à eternidade está sempre subjacente à compreensão cristã da vida. Uma das melhores formas de definir essa fé encontra-se na expressão de 1Ts 4, 17: “estar com o Senhor”. A vida terrena do cristão, como a sua vida depois da morte consiste em estar com o Senhor, ou seja, em comunhão com Deus e com os irmãos. A plenitude da vida ou a vida em abundância prometida por Jesusé um mistério de comunhão com Deus, fonte da vida.


3. O ACONTECIMENTO DE FÁTIMA AO SERVIÇO DA SALVAÇÃO E DA VIDA

Em sintonia com o Evangelho, Fátima é uma resposta de fé aos anseios de salvação e de vida inscritos no coração humano. Tratando-se de uma revelação privada, situada num lugar e num tempo concretos e em circunstâncias particulares, essa resposta tem em conta os caminhos pelos quais enveredou a cultura contemporânea no que se refere ao conteúdo da salvação e ao sentido da vida. Mais ainda, é uma resposta exigida pela cultura atual e que vem diretamente ao encontro das necessidades prementes do nosso tempo.


Irrupção de um fenómeno sobrenatural

O início do séc. XX é fruto de um longo percurso de mudanças culturais caraterizadas pela afirmação do humano em detrimento do divino, pela negação da dimensão sobrenatural da realidade, do mundo e da vida para afirmar a dimensão natural, pela idolatria das ciências naturais e das ciências humanas como lugar de conhecimento e explicação do que até ali aparecia como misterioso no sentido de inexplicável.
O desenrolar do mesmo século trouxe outras acentuações e sobretudo caminhou no sentido de prescindir de Deus como fator a ter em conta na hora de encontrar um sentido para a vida, uma salvação para a humanidade, uma explicação para a existência. A referida laicização e laicismo afastaram a religião e a fé da vida da sociedade, classificando-as como elementosopcionais, do foro pessoal e íntimo, relegando-as para o âmbito do privado.
O irromper do fenómeno sobrenatural de Fátima a desafiar um mundo que caminha num sentido oposto, é visto como uma provocação à cultura do tempo, que tem nas figuras relevantes do conhecimento filosófico e científico, da política, da sociedade e da comunicação alguns dos seus maiores expoentes. Fátima surge visivelmente em contracorrente, de forma inesperada e com um conteúdo que oficialmente estaria ultrapassado.
Se para o pequeno mundo dos familiares dos Pastorinhos não era pensável um acontecimento daquela ordem ter lugar nas suas vidas, para os jornalistas, os políticos e os representantes da vaga cultural oficialmente dominante, o desafio era ainda maior, uma vez que passara o tempo em que facilmente se acreditava em milagres e tudo parecia caminhar noutro sentido.
Embora as notícias circulassem lentamente, o acontecimento de Fátima acabou por transvasar para fora das fronteiras regionais e nacionais. Ele situava-se num espaço muito concreto e pequeno, como era Aljustrel e mesmo Portugal, mas fazia alusões a realidades de âmbito muito mais vasto, como era a Igreja Universal e o Mundo, por meio das referências ao Santo Padre e à Rússia, respetivamente.
Podemos pensar que um dos objetivos da iniciativa de Deus tenha exatamente a ver com a necessidade histórica de afirmar o lugar da fé e da religião, ou seja, o lugar da dimensão sobrenatural na vida da humanidade, claramente posta em causa à escala universal e inclusivamente no contexto português.
Ao repropor de forma tão forte, atrativa e desafiadora uma linguagem, uma mensagem e uma mundividência cristãs inesperadas, Fátima torna-se o contraponto da tendência que está a progredir de forma tão acelerada.
Neste sentido, podemos dizer que Fátima surge, e mantém-se, como um acontecimento e uma mensagem «fraturante», pois vai contracorrente e, mesmo sendo uma revelação particular, quase exige uma definição, uma atitude de adesão ou rejeição por parte de todos os que chegam ao conhecimento do fenómeno. Em causa não está somente a aceitação ou não da sobrenaturalidade daquele fenómeno histórico concreto, mas está também a questão da aceitação ou não da sobrenaturalidade em si mesma.


Afirmação da salvação de Deus

O acontecimento de Fátima surge no contexto de uma cultura que nega a salvação de Deus para afirmar uma salvação fundada no homem, como é próprio do humanismo ateu e do materialismo teórico e prático elevado à condição de quase religião baseada nas potencialidades da humanidade e da matéria.
A mensagem de Fátima vai numa linha oposta. Socorrendo-se dos conceitos da doutrina cristã, expressos na linguagem da tradição e da religiosidade popular, afirma a outra dimensão, quando fala do Céu, do Inferno, da salvação das almas, do pecado que está na origem da condenação eterna, da conversão dos pecadores como caminho para a glória do Céu, da oração e da penitência como caminhos de conversão em ordem à salvação eterna.
É uma eloquente declaração de fé segundo a qual a salvação é dom de Deus, sendo a ação humana, iluminada e conduzida pelo Espírito Santo, um sinal de cooperação e aceitação desse dom total. É igualmente a declaração de que o homem longe de Deus cai no abismo, no desespero e na ruina, constrói todos os males que sobrevêm ao mundo, como o demonstra à saciedade a história recente.
A situação de luta aberta contra a fé cristã e contra a Igreja, vivida em Portugal, juntamente com o desencadear dos chamados «erros da Rússia», exigem uma resposta, que surge bem clara em Fátima: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja... Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé”[11]. A resposta não se situa no âmbito das forças humanas, mas assenta na confiança em Deus Salvador, sublinhada por Nossa Senhora e expressa nas duas atitudes pedidas: a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados.


A salvação e a vida

Os conceitos de salvação e de vida em plenitude não se entendem em Fátima senão indissociáveis de Deus, Santíssima Trindade, e da cruz de Jesus Cristo, o Senhor da morte e da vida, o salvador de que a Igreja é o sinal para o mundo.
O Francisco e a Jacinta não receiam os sacrifícios, as dores, a doença ou a morte porque, estando em Deus, acreditam que a salvação vem de Deus e a vida não é outra coisa que estar em Deus, agora e na eternidade.
A salvação vem de Deus porque só Ele pode perdoar os pecados e livrar do fogo do Inferno para onde vai “quem faz pecados e não se confessa”[12]. “Quem pode perdoar os pecados senão Deus somente?” (Mc 2, 8) é a versão bíblica na qual se fundamentam os Pastorinhos e que contraria a mentalidade comum que começa por eliminar a noção de pecado como infração a Deus e aos irmãos que compromete de morte o caminho da vida, para depois eliminar a própria noção de perdão divino.
Persuadidos da certeza de que a vida terrena é já participação da vida de Deus, em quem acreditam, que amam, adoram, e em quem esperam, eles sabem que não é ainda a plenitude da vida, pois essa virá depois, é o Céu, onde a Jacinta sabe que irá “amar muito a Jesus”[13]. Como os apóstolos no monte Tabor, também a Jacinta experimenta antecipadamente a vida gozosa do Céu, quando, depois de comungar exclamava: “Não sei como é! Sinto a Nosso Senhor dentro de mim. Compreendo o que me diz e não o vejo nem oiço; mas é tão bom estar com Ele!”[14].


Penitência e oração em ordem à conversão dos pecadores

Os grandes apelos à penitência e à oração estão continuamente presentes na mensagem de Fátima, tanto nas palavras de Nossa Senhora como na mente e na atitude dos três Pastorinhos, que não se furtam a rezar e sacrificar-se pela causa maior, que é a conversão dos pecadores.
Procurando resumir o chamado Segredo de Fátima, o cardeal Ratzinger afirma: “Do mesmo modo que tínhamos identificado, como palavra-chave da primeira e segunda parte do « segredo », a frase « salvar as almas », assim agora a palavra-chave desta parte do « segredo » é o tríplice grito: « Penitência, Penitência, Penitência! » Volta-nos ao pensamento o início do Evangelho: « Pænitemini et credite evangelio » (Mc 1, 15). Perceber os sinais do tempo significa compreender a urgência da penitência, da conversão, da fé. Tal é a resposta justa a uma época histórica caracterizada por grandes perigos”[15].
Há vários aspetos relevantes nesta mensagem e nesta atitude, que importa sublinhar.
Em primeiro lugar, constitui a direta e explícita referência ao Evangelho, à pregação de João Batista e ao início do anúncio de Jesus, centrado no convite ao arrependimento e à conversão e a acreditar no Evangelho (cf. Mc 1, 15). A conversão tornou-se o elemento central da mensagem de Fátima e um dos mais claros sinais da sua sobrenaturalidade e da sua autenticidade.
Em segundo lugar, trata-se de uma concretização do mandamento novo do amor. Os Pastorinhos não podem viver tranquilos sabendo que muitas pessoas se condenam, por não ter quem reze e se sacrifique por elas. Sentem que esse é o primeiro dever da solidariedade e da comunhão entre os membros do Corpo de Cristo, é a primeira forma de viver o amor ao próximo, indo ao encontro do fundamental. Não esquecem as outras dimensões, sobretudo o amor como caridade cristã, que os leva a socorrer os pobres e a partilhar com eles a sua própria pobreza.
Em terceiro lugar, há uma percepção de que toda a salvação é dom de Deus, que precisa de ser acolhida pelo homem e com o auxílio e a cooperação dos outros homens. A conversão, o voltar-se para Deus de todo o coração constitui a resposta afirmativa à proposta de vida que a todos oferece. Por sua vez, para que alguém se disponibilize a rezar e sacrificar-se pelos outros, conhecidos ou desconhecidos, é necessário que esteja em causa algo de essencial. Para ir ao limite a que chegaram os Pastorinhos é necessário estar persuadido da convicção de que a conversão do pecado é decisiva, de que ali se joga a vida ou a morte.


A fé como caminho

A finalidade do acontecimento de Fátima é o crescimento da fé. O cardeal Ratzinger confirma-o ao referir um encontro que teve com a Irmã Lúcia em que ela lhe garantiu que “que lhe parecia cada vez mais claramente que o objectivo de todas as aparições era fazer crescer sempre mais na fé, na esperança e na caridade; tudo o mais pretendia apenas levar a isso”[16].         
O próprio Senhor, ao enviar os Apóstolos em missão lhes confiou esse encargo de trabalhar para o crescimento da fé, dizendo: “Quem acreditar e for batizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado” (Mc 16, 16).
O centenário vivido após as aparições tem demonstrado o papel de Fátima neste caminho da missão universal, pois muitos chegaram à fé cristã por meio da devoção mariana alimentada pela mensagem, pela peregrinação, pela contemplação da imagem de Nossa Senhora, pela leitura dos acontecimentos alegres ou trágicos da vida à luz deste mistério.
Muitos outros fizeram caminho em Igreja alimentados pela esperança de perdão, de mudança de vida, de restabelecimento dos laços familiares ou da saúde, a partir de Fátima.
Embora não se conheça o mistério secreto de muitos corações, há sinais que indicam que muitos têm a chegado a Jesus por meio de Maria e graças ao contacto, experimentado e vivido de muitos modos, com Fátima.

 

CONCLUSÃO

Da aparição de setembro foi retirada a frase chave para este VI ano de preparação do centenário das aparições: “Deus está contente com os vossos sacrifícios”[17].
Significa, em primeiro lugar que os Pastorinhos não eram simplesmente videntes, mas que foram cristãos que se deixaram tomar pela mensagem recebida e na qual reconheciam a força do Evangelho de Deus. Como todo o profeta bíblico e como toda a testemunha (mártir) cristão, estão dispostos a dar a vida pelo que anunciam.
Em segundo lugar, esta frase diz-nos que Deus leva a sério a atitude humana de fé, de amor e de fidelidade. Ele aceita os seus filhos e o caminho que fazem com sinceridade, mesmo que com muitas fraquezas e pecados. O amor, porventura expresso nos sacrifícios feitos em favor dos outros, o amor como dádiva, oferta, sacrifício de si mesmo é sempre caminho de redenção e é sempre gerador de vida em plenitude, pelo poder de Deus, que aceitou o sacrifício de Seu Filho, mas O ressuscitou dos mortos, abrindo-nos o caminho da eternidade.
Com as suas orações e sacrifícios, que agradam ao Senhor, os Pastorinhos falam-nos dessa vida plena à qual todos nós aspiramos e na qual eles se já se encontram, pois Nossa Senhora que prometeu levá-los para o Céu, é fiel às suas promessas.

Coimbra, 15 de agosto de 2015

 

 

[1]Catecismo da Igreja Católica, Gráfica de Coimbra, Coimbra 1993, 63.

[2] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 66.

[3]CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima, o Segredo, Paulinas, 2ª edição, Lisboa 2000, 42-43.

[4]CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima, o Segredo, 43.

[5] FELICÍSIMO MARTINEZ DIEZ, Crer em Jesus Cristo, viver como cristão, Gráfica de Coimbra 2, 379.

[6] FELICÍSIMO MARTINEZ DIEZ, Crer em Jesus Cristo, viver como cristão, 383-387.

[7] SCHNACKENBURG, R., El evangelio según San Juan, II, Herder, Barcelona, 1980, 429.

[8] Cf. SCHNACKENBURG, R., El evangelio según San Juan, II, 429.

[9] CAVEDO, R. “Vita”, ROSSANO, P., RAVASI, P., GIRLANDA, A., Nuovo Dizionario di Teologia Biblica, ed. Paoline, Milano, 1988, 1671.

[10] CAVEDO, R. “Vita”, 1673.

[11]Memórias da Irmã Lúcia, Secretariado dos Pastorinhos, Fátima, 10ª edição, 2005, 177.

[12]Memórias da Irmã Lúcia, 46.

[13]Memórias da Irmã Lúcia, 62.

[14]Memórias da Irmã Lúcia, 131.

[15]CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima, o Segredo, 50.

[16]CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima, o Segredo, 50.

[17]Memórias da Irmã Lúcia, 94.

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