MINISTROS EXTRAORDINÁRIOS DA COMUNHÃO E ANIMADORES DE CELEBRAÇÕES DOMINICAIS NA AUSÊNCIA DE PRESBÍTERO DOS ARCIPRESTADOS DE POMBAL E SOURE - COMUNIDADE EUCARÍSTICA DE SERVIÇO

1. A EUCARISTIA, MISTÉRIO DA FÉ

A eucaristia esteve sempre no centro da vida da Igreja. De acordo com os tempos e as tradições acentuaram-se diferentes aspectos, estando sempre presentes outras tantas formas de viver o único mistério da fé em Jesus Cristo. Nos últimos tempos acentuou-se sobretudo o seu aspecto eclesial e social, falando-se muito da eucaristia como construtora da comunhão e da comunidade eclesial, segundo a frase célebre "a Igreja faz a eucaristia e a eucaristia faz a Igreja" (H. de Lubac).

O Evangelho de S. João, no capítulo 6, explica mais claramente do que os Evangelhos sinópticos o que a Eucaristia significa para a comunidade cristã, ao situá-la no âmbito da fé e afirmar: “A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida” (Jo 6, 55).

É pela fé que o crente participa em toda a obra de Deus e é pela participação na Eucaristia que ele encontra a vida eterna que lhe chega como dom de Deus: “Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é como aquele ue os antepassados comeram, pois eles morreram; quem come deste pão viverá eternamente” (Jo 6, 56-58).

Para participar frutuosamente na Eucaristia é necessária a fé em Deus, nas suas palavras e nas suas obras, pois somente por elas o seu Corpo e o seu Sangue se tornam alimento e bebida espiritual.

O pão e o vinho da Eucaristia são o alimento espiritual para todo o caminho cristão. Eles substituem o antigo maná do êxodo pelo deserto e o alimento material da multiplicação dos pães. Agora é Cristo que se dá para a vida do mundo. Agora é Cristo, a vida eterna, que se reparte já como dom no banquete que anuncia o banquete eterno, que será completo na vida que virá: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). Pela Eucaristia, o novo povo de Deus participa no acontecimento salvífico, que ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço, pois é de todos os tempos e de todos os lugares.

O cristão torna-se um com Jesus e Jesus torna-se um com o crente na Eucaristia, pois ela produz uma intimidade nova, uma relação nova, uma aliança nova: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e Eu nele” (Jo 6, 56).

Ela garante a presença de Jesus na comunidade e a união da comunidade com Jesus, pois todos os que partilham o mesmo pão formam um só corpo (1 Cor 10, 17).

Na última ceia Jesus levanta os olhos numa atitude de louvor e acção de graças ao Pai, glorifica o Pai, porque tudo recebeu dele, inclusivamente o dom de se entregar nas suas mãos por toda a humanidade. Jesus dá graças por continuar presente na comunidade e por poder unir a todos no seu amor; Jesus dá graças por dar a vida eterna a todos os que resgatou; Jesus dá graças por sentir a alegria de repartir a sua palavra e a sua vida com os outros; Jesus dá graças pelo amor do Pai que pôde comunicar aos homens.

Na Eucaristia, os cristãos dão graças a Deus por Jesus Cristo, pela salvação, pela alegria e pela vida eterna que d’Ele receberam. A partir da celebração da Eucaristia vivemos a nossa própria oferta a Deus, que se manifesta na aceitação da sua vontade, na oração e nas obras. Nela participamos no mistério do amor de Deus e dela partimos para a vivência do mesmo amor.

 

2. EUCARISTIA, MISTÉRIO DO AMOR

O lava-pés, de que fala o Evangelho de S. João (13, 4-20) no contexto da última ceia, oferece-nos a melhor imagem da atitude de Jesus na vida e na morte e da atitude que o cristão que participa na Eucaristia e vive dela é chamado a ter. O lava-pés é imagem da morte salvífica de Jesus e da sua oferta total ao Pai pelos homens: ele esvaziou-se, assumiu a condição de escravo, fez-se semelhante aos homens, humilhou-se até à morte e morte de cruz (Fl 2, 7ss).

A partir daquele momento, o cristão que vive da Eucaristia participa igualmente do seu serviço aos outros, que tem de tornar-se efectivo na sua vida; como o de Jesus, esse tem de ser um serviço de amor. Ele amou até ao extremo (Jo 13, 1) e convida a comunidade a partilhar o mesmo amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13, 34).

Não há Eucaristia que não nasça do amor total de Jesus Cristo por toda a humanidade pecadora, como não pode hoje haver Eucaristia onde não há amor. Por outro lado, temos de dizer que a Eucaristia é o alimento que activa e aumenta o amor e que ela dá ao crente a capacidade de amar com um amor semelhante ao amor de Cristo, que se entregou e se deu sem reservas por todos, realizando a sua própria afirmação: “Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).

O capítulo 13 de João expõe por meio desse gesto simbólico de Jesus todo o significado da sua vida e da sua morte. O Senhor aceita ser escravo do Pai e escravo dos homens, no acto de lavar os seus pés sujos. Para nos tornar amigos de Deus, nos aproximar de Deus e nos poder sentar à sua mesa, Ele aceita executar os trabalhos mais baixos do mundo.

O lava-pés é para João uma representação de toda a vida de Jesus. Através da sucessiva apresentação dos diferentes passos do gesto, dá-nos conta da sua decisão, contínua e progressiva de dar a vida por aqueles que ama: levanta-se da mesa, depõe as suas vestes, põe uma toalha à cintura, inclina-se para cada um dos seus discípulos, num serviço à vida de cada um deles, para que não morram, mas tenham a vida em abundância. É um processo composto por gestos sucessivos dos quais o objecto é cada um de nós.

Na sua vida e na sua morte, há uma limpidez e transparência total: ambas revelam um único acto de amor, o acto de amor até ao fim, um acto de amor que é um lava-pés, único acto capaz de limpar, purificar e libertar o homem para a comunhão, para o encontro com Deus.

Face a esta realidade do amor de Deus tornado possível em Jesus, impõe-se um “sim” do homem como condição de salvação. O homem pode, no entanto, rejeitar este amor libertador e salvador de Deus, por meio do seu “não”.

A Escritura apresenta-nos dois exemplos dessa possibilidade. Em primeiro lugar, Judas, o mais desgraçado dos homens, o que não quer ser amado, obcecado pelo poder e pelas realidades materiais. É um daqueles que para servirem o dinheiro não querem servir a Deus e por causa da sua avareza e idolatria, não querem servir os homens.

Em segundo lugar, a Escritura apresenta o caso dos homens religiosos e devotos, que não querem aceitar a realidade de si mesmos: não aceitam que os seus pés estejam sujos, nem que tenham necessidade de perdão. Pedro personifica esse tipo de pessoas devotas, que pensam não precisar da bondade de Deus e não pretendem aceitar a sua graça. É também o caso do filho mais velho da Parábola do Filho Pródigo e dos operários da primeira hora da Parábola dos Trabalhadores da Vinha, aqueles que murmuram e são invejosos porque Deus é bom.

 

3. EUCARISTIA NA VIDA DO CRISTÃO E DA IGREJA

Ser cristão significa sempre aceitar o amor de Deus em Jesus Cristo, a sua entrega e o seu serviço, por nós; aceitar humildemente que nos lavem os pés, por reconhecermos que precisam de ser lavados.

Ser cristão significa estar num contínuo “sim” ao amor de Deus, que se aproxima com a toalha à cintura e se curva diante de nós com a água purificadora do baptismo, ou com a imposição da mão para o perdão.

Ser cristão significa renovarmos continuamente este acto de fé que nos leva a acreditar n’Aquele que se dá na totalidade de Si mesmo.

Aceitar o lava pés de Jesus significa aceitarmos entrar na mesma acção, participarmos nela, identificarmo-nos com ela, lavarmos juntamente com Cristo os pés sujos dos homens: “Se Eu, que sou Senhor e Mestre vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros” (Jo 13, 14).

S. João deixa bem claro que somente amando se recebe o amor e que o amor se realiza sempre de forma muito concreta na comunidade em que as pessoas estão inseridas. É em primeiro lugar na comunidade cristã, que vive nos laços de amor do Deus Trindade, que esse amor se realiza, mas é depois também numa relação voltada para fora, que se alarga a todos os homens.

A Igreja, no seguimento das perspectivas e intuições deixadas pelo seu Mestre, implica sempre uma dimensão sacramental, marcada pelos sacramentos do Baptismo e da Penitência, enquanto sacramentos da purificação. Por sua vez, implica também sempre a dimensão comunitária da vida, segundo a qual os cristãos lavam os pés uns aos outros, para se tornarem aptos a lavar os pés de toda a humanidade.

A Igreja tem de encontrar o seu modo de vida precisamente no modo de vida de Jesus Cristo e Ele deu-se todo e para todos em múltiplos gestos de oferta e de serviço, dos quais o lava-pés é símbolo emblemático.

A Igreja, podemos dizer, enquanto comunidade formada por indivíduos, não tem outro sentido nem outra razão de ser senão viver e testemunhar o amor do Pai que quer fazer da humanidade uma única família, no Seu Filho.

Toda a actividade da Igreja é manifestação dum amor que procura o bem integral do ser humano: procura a sua evangelização por meio da palavra e dos sacramentos, e procura a sua promoção nos vários sectores da vida e da actividade humana. É de amor o serviço que a Igreja exerce para acorrer aos sofrimentos e às necessidades, mesmo materiais, dos seres humanos (Deus é amor, 19).

A Igreja só tem sentido como serva da humanidade. Não existe por si mesma, nem existe para si mesma. Precisa de se deixar lavar e purificar por Cristo e precisa, ela mesma, de lavar os pés à humanidade.

No momento de definirmos o modo de ser da Igreja, temos de afirmar que ela é eucarística, no sentido de serva de Deus e serva dos homens.

Plano Pastoral


Bispo Diocesano


Vaticano