PALAVRA CRIADORA E CRIATIVA: O CONTEXTO DA DEI VERBUM

CONFERÊNCIAS QUARESMAIS DO ARCIPRESTADIO DE CANTANHEDE E MIRA

Concílio Vaticano II

Fundamentos, perspetivas e criatividades ... nos 50 anos da sua convocação

 

INTRODUÇÃO

 

Hoje temos dificuldade de perceber como seria a Igreja sem a Palavra de Deus, sem a Bíblia, que está constantemente nas nossas mãos, adquiriu um lugar tão significativo na liturgia, está no centro da ação catequética, fornece os elementos fundamentais para a oração e as bases da identidade cristã.

Bem ou mal interpretada e compreendida, está no centro de muitas polémicas entre as diferentes tradições cristãs, há quem pense que se opõe às ciências e à razão, discute-se se os acontecimentos narrados são históricos ou são fruto da imaginação, se as personagens existiram ou não, se contém mistérios e profecias ainda por acontecer ou se já está totalmente cumprida.

A literatura e o cinema voltam frequentemente à Bíblia como ponto de partida. Pegam-na quase sempre de forma crítica e destinada a urdir polémicas e teias misteriosas. Centram-se na história da transmissão do texto bíblico, conjecturam anomalias e fraudes, fruto de uma Igreja supostamente interessada em esconder o conteúdo original desse texto, que se teria afastado da sua pureza original.

Podemos distinguir genericamente dois modos de abordar a Escritura: um crente, marcado pela fé, que vê nela a Palavra de Deus, um texto inspirado pelo Espírito Santo, portador da revelação à humanidade e que contém tudo o que o homem precisa de conhecer e viver em ordem à salvação; um outro descrente, que vê na Bíblia simplesmente um texto antigo, de carácter religioso e que contém um conjunto de ensinamentos, fruto da experiência religiosa de um povo.

 

2. A INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA NA IGREJA – PERSPECTIVA HISTÓRICA

 

Em qualquer dos casos, trata-se sempre de um texto difícil de interpretar, por ser um livro antigo, escrito em línguas antigas, num meio cultural que não é o nosso. É ainda difícil de interpretar na perspectiva crente por ser um livro que contém a Palavra de Deus, o que exige do leitor um conjunto de atitudes e condições muito próprias, que incluem a capacidade de abertura a Deus e de escuta da sua voz. É também um livro nascido numa comunidade, o antigo povo de Deus, Israel, e o novo Povo de Deus, a Igreja, que o leram e transmitiram de formas diversas ao longo da sua história, de acordo com as situações que viviam. O desejo de encontrar nela resposta para as questões que em cada tempo se viviam deu origem a diferentes formas de leitura.

A grande questão a pôr é, ainda hoje, a de saber como ler e interpretar adequadamente a Palavra de Deus. Desde as origens até aos nossos dias passou-se por muitas e diferentes fases. Nós, na Igreja de hoje, procuramos ler e interpretar a Bíblia, à luz dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, concretamente da Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação, Dei Verbum (Palavra de Deus).

Dentro da tradição judaica, já os rabinos se dividiram em escolas de interpretação da Bíblia Hebraica.

Nos primeiros séculos do cristianismo, os padres apostólicos envolveram-se em polémicas sobretudo em relação à ligação existente entre o Antigo e o Novo Testamento e ao lugar de Cristo neste contexto. Gnósticos e apologetas, defensores da interpretação literal, tipológica ou alegórica, partidários da escola de Alexandria, de Antioquia ou ocidental, foram fazendo caminho de leitura e conhecimento da Escritura.

Durante a Idade Média seguiram-se genericamente as linhas interpretativas da patrística. Marcou muito a chamada lectio divina, enquanto forma de ler a Escritura, que parte do sentido literal e histórico do texto sagrado, para construir depois o chamado sentido típico e moral, e para descobrir nela um novo modo de vida. Marcou ainda na Idade Média a leitura escolástica, que se apoiou na Bíblia para demonstrar e fundamentar a veracidade das construções teológicas.

A grande mudança operou-se no período do Renascimento, em que se acentuou a preferência pelo sentido literal da Escritura e pela perspectiva crítica; começou o grande interesse pelas línguas bíblicas e pela história.

A Reforma Protestante nasceu em polémica contra a autoridade do Papa e dos Bispos. Lutero defendeu como única autoridade na Igreja a da Sagrada Escritura, interpretada literalmente e seguindo a autoridade do Espírito frente à dos homens, ou seja, frente ao Magistério da Igreja. Segundo Ele o sentido literal das Escrituras revela a intenção do Espírito Santo e só pode encontrar-se se vamos guiados pela fé e apoiados pelo mesmo Espírito Santo. O Concílio de Trento reage e a Escritura tem um lugar secundário entre os católicos.

Entre os séculos XVII e XIX caminha-se no sentido de procurar o sentido literal originário do texto bíblico, com o recurso a todos os meios fornecidos pela razão, dando por vezes menos importância ou mesmo esquecendo a sua natureza inspirada. Lança-se mão da comparação com outras literaturas orientais, dos métodos históricos nascentes e dos resultados da arqueologia. Ao valorizar-se o pensamento e a razão humana desvaloriza-se a dimensão sagrada do texto e o lugar da Igreja na hora de o interpretar. Chega-se ao tempo em que parece impossível conjugar a crítica racional com a fé cristã e o estudo ou leitura da Bíblia.

O séc. XIX é o século da afirmação de uma razão sem limites, que se vai manter até à primeira guerra mundial, no séc. XX, que chega ao limite de rejeitar qualquer explicação de carácter sobrenatural nos escritos bíblicos.

O séc. XX vê nascer um movimento de renovação bíblica muito importante que vai fazer caminho até à Dei Verbum. Um grande marco é a encíclica do Papa Pio XII, de 1943, Divino afflante Spiritu, que abre caminho à investigação bíblica e à exegese com a abertura aos géneros literários. Todo o séc. XX está marcado pelo recurso às possibilidades das ciências humanas, que trazem uma grande ajuda no momento de ler e interpretar, distinguindo os dados históricos da subjetividade do autor.

 

3. O CONCÍLIO VATICANO II E O LUGAR DA BÍBLIA NA IGREJA

 

O Concílio Vaticano II constituiu o eclodir de uma nova primavera na vida da Igreja em muitos aspectos. A interpretação da Palavra de Deus e o lugar que ocupa na vida dos fiéis estão entre as dimensões fundamentais dessa renovação tão esperada.

Promulgada a 18 de Novembro de 1965, a Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação, Dei Verbum, constitui um marco na história da interpretação da Sagrada Escritura. Ela é o culminar de um longo processo, que passou por muitas fases e teve os seus mais rápidos desenvolvimentos a partir dos finais do séc. XIX.

O século XX é testemunha de um renovado interesse dos católicos pela Sagrada Escritura. Particularmente depois do Concílio Vaticano II, tanto os pastores da Igreja como os fiéis, religiosos e leigos, intensificaram um processo de aproximação e descoberta de um texto que quase desconheciam e raramente liam. Tinha-se chegado ao exagero de olhar com suspeita para todo aquele que possuía e lia a Bíblia, por ela se ter tornado um dos pontos de divergência entre católicos e reformados. De facto, uma das acusações que os protestantes dirigiam aos católicos ia no sentido de afirmarem que tínham posto de lado a Sagrada Escritura para, em vez dela, darem lugar ao Magistério Eclesiástico.

A partir do momento em que a Igreja revalorizou efetivamente a Sagrada Escritura, pondo-a ao alcance dos fiéis na liturgia, na catequese, na leitura pública ou privada, ela voltou a ser uma fonte inesgotável de crescimento espiritual e de encontro com Deus.

Importância fundamental em todo este processo, que está ainda muito longe de atingir o plano desejável, teve a divulgação da Bíblia na maior parte das línguas modernas. As línguas originais, o hebraico e o grego, tal como o latim da liturgia, somente eram acessíveis a pequeníssimas minorias, deixando a esmagadora maioria dos crentes na impossibilidade de ler, meditar e rezar a Bíblia. Podiam lê-la os clérigos e alguns religiosos, que tinham também o privilégio de a comentar e interpretar para a assembleia dos fiéis, reunidos para a celebração da Eucaristia.

Ultrapassadas muitas barreiras criadas ao longo dos séculos passados, fruto das vicissitudes históricas, voltámos, hoje, a um encontro com a Palavra de Deus sem restrições. A tradição cristã continua a ajudar-nos a fazer da Bíblia o nosso alimento espiritual ou o alimento do nosso coração.

Toda a leitura da Sagrada Escritura tem como objectivo levar-nos a fazer dela fonte de vida, tal como o foi para muitas gerações passadas, particularmente para o povo da revelação e para as primeiras comunidades cristãs. Para isso temos de fazer dela uma leitura orante, verdadeiramente espiritual, de fé, ancorados na convicção de termos entre as mãos a verdadeira Palavra de Deus dirigida aos homens.

Este objectivo principal não dispensa, antes exige o estudo e o conhecimento bíblico nas mais diferentes vertentes. As dimensões histórica, literária, geográfica e teológica são imprescindíveis para que se possa captar o sentido espiritual que a Palavra de Deus, escrita num espaço e num tempo concretos, nos quer transmitir. É, por isso, necessário o conhecimento, que permitirá a leitura adequada, a meditação, a oração, a interpretação, que criam as condições para que se passe à vida. Podíamos dizer que é necessário um conhecimento material que possibilite um conhecimento espiritual, que será para o crente fonte de vida.

 

4. O CONTRIBUTO DA DEI VERBUM

 

A Dei Verbum foi um dos documentos do Concílio Vaticano II mais discutidos por abordar uma temática difícil e objecto de acirradas polémicas e diferendos ao longo de toda a história da exegese, mas sobretudo no período da Reforma, do racionalismo e do modernismo. A Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação, Dei Verbum é o resultado de um processo de redação que sofreu cinco revisões entre 1962 e 1965, mas é sobretudo o resultado de muitos séculos de uma relação, algumas vezes mais próxima e a maior parte das vezes muito distante, com a Sagrada Escritura. Foi precisa uma maturação lenta para que se pudesse chegar a um consenso alargado na Igreja, pois, dos 2.350 padres conciliares presentes na aula conciliar, 2.344 votaram placet e apenas 6 votaram non placet.

As novas perspectivas de abordagem do texto bíblico puseram-no em condições de ser acolhido de forma diferente pelos leitores cristãos. A célebre frase do nº 13 resume bem a nova forma de tratar o texto que, por ter uma dimensão humana, permite a utilização de todos os instrumentos da crítica em ordem à sua compreensão: “As palavras de Deus com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana”.

Custa-nos hoje compreender como foi possível durante longos séculos relegar a Palavra de Deus para um lugar secundário tanto na sagrada liturgia como na catequese e na vida do Povo de Deus.

A grande revolução trazida pela Dei Verbum consistiu em devolver a Palavra de Deus aos cristãos, sem quaisquer reservas, tanto na leitura litúrgica como na leitura espiritual: “o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos, a que aprendam «a sublime ciência de Jesus Cristo» (Fil. 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque «a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo»” (DV25).

A Dei Verbum trouxe um contributo definitivo para a compreensão do lugar da Escritura na Igreja, quando estabeleceu uma relação dinâmica entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia, no nº 21: “A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo”.

Algumas vezes aplicou-se bem a acusação de que os católicos puseram de lado a Sagrada Escritura para darem lugar ao Magistério Eclesiástico. De extrema importância foi, por isso, a clarificação no que diz respeito à relação entre Escritura e Tradição, ao dizer: “(a Igreja) sempre as considerou (as Sagradas Escrituras), e continua a considerar, juntamente com a sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé” (DV 21).

A ligação íntima entre a leitura do texto sagrado e a oração cristã continua a ser uma das maiores novidades do documento conciliar, pois, apesar de fazer eco das mais antigas tradições da espiritualidade cristã, apela a algo que estava muito esquecido. A referência à leitura espiritual e a “outros meios que vão espalhando tão louvavelmente por toda a parte com a provação dos pastores da Igreja” (DV 25) dá origem ao grande movimento que faz renascer a lectio divina, que tanto tem contribuído para a renovação espiritual da Igreja. Por sua vez, torna-se claro que o modelo da oração cristã é a oração bíblica, como se depreende das palavras do nº 25: “a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque «a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos»”.

 

5. CONCLUSÃO

 

Depois que descobrimos a riqueza que é a Sagrada Escritura na vida da Igreja e na nossa vida pessoal, não poderíamos continuar a alimentar a nossa fé sem esse contacto assíduo e íntimo com Deus, que vem ao nosso encontro com palavras que entendemos e nos confortam.

João Paulo II sintetiza a importância das Escrituras para os cristãos: “Dando a Bíblia aos homens e mulheres, vós dais o próprio Cristo, que enche os que têm fome e sede da Palavra de Deus, que sacia os que têm fome e sede de liberdade e de justiça”.

Apesar de a Sagrada Escritura estar teoricamente ao alcance de todos os cristãos, há ainda um longo caminho a percorrer para que essa possibilidade seja efetiva. De facto, não basta que existam boas traduções ou novas perspectivas de abordagem; falta ainda, em grande parte, fornecer ao Povo de Deus os instrumentos imprescindíveis para a compreensão do texto sagrado, para que faça dele alimento quotidiano da sua vida espiritual e eixo central do seu diálogo orante com Deus. Nesse sentido, falta cumprir grande parte da doutrina do Concílio Vaticano II, e, concretamente, da Dei Verbum.

 

Cantanhede, 02 de Março de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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