Abertura do Santuário da Reconciliação - Homilia

ANO SANTO DA MISERICÓRDIA
ABERTURA DO SANTUÁRIO DA RECONCILIAÇÃO
IGREJA DE SANTA CRUZ


Caríssimos irmãos e irmãs!

Ao longo deste Ano Jubilar esta Igreja de Santa Cruz de Coimbra será o Santuário Diocesano da Reconciliação. Desejamos, por isso, que seja um símbolo do perdão de Deus, acessível a todos os homens que, conhecendo a força da Sua misericórdia, se disponham a acolhê-la. Esta Igreja será lugar privilegiado da oração a pedir o dom do encontro com o rosto misericordioso de Deus, o reconhecimento dos próprios pecados e a conversão ao amor de Deus e dos irmãos; será também o lugar da celebração do Sacramento da Penitência, pelo qual nos abeiramos de Cristo, pedimos perdão pelos nossos pecados e recebemos a absolvição pelo poder deixado à Igreja na pessoa dos sacerdotes.
As três parábolas da misericórdia no evangelho de S. Lucas oferecem-nos uma síntese de tudo o que a Escritura nos revela sobre a misericórdia e o perdão de Deus. Acreditamos num Deus que se comove, que se entristece e sofre ao ver os seus filhos perdidos nos caminhos da destruição de si mesmos e dos outros, ao ver os seus filhos sofrer as consequências dos seus pecados. Saliento três momentos centrais deste processo de reconciliação presente no Evangelho de Lucas.

Em primeiro lugar está sempre a iniciativa de Deus, que se revela aos seus filhos como misericordioso. Sem excluir as situações tranquilas e ditas normais da vida, mas particularmente nos momentos de amargura, de sofrimento interior, de forte sentimento de culpa, quando falham as forças, o Deus sempre próximo parece que se aproxima ainda mais, toca no coração, faz-se sentir presente, dá a mão, oferece amor divino. Deus não espera que o pecador o procure, mas toma a iniciativa de ir à sua procura, porque o seu coração e as suas entranhas dão voltas dentro de si, incapaz de repousar sem encontrar o seu filho perdido, sem o abraçar e manifestar todo o amor que lhe tem. Ninguém pode encontrar-se com este Pai misericordioso sem sentir o apelo interior para se pôr a caminho. O seu abraço seduz e vence, transforma e converte, pois é impossível estar no seu fogo sem se queimar, conhecer a sua santidade sem reconhecer o próprio pecado, sentir-se tão longe sem ter o desejo de se pôr a caminho. É o encontro com o Pai, por meio de Jesus Cristo, que leva a reconhecer o pecado, que faz alguém pôr-se a caminho, que conduz à confissão humilde, que converte e faz mudar de vida. A alegria constitui o sinal do gozo de Deus, que vê o homem voltar ao caminho, o filho regressar à casa do pai, os distantes e separados reencontrarem-se, alguém recuperar o sentido das esperança e as motivações para a vida.

As três parábolas repetem à maneira de um refrão a alegria de Deus diante da conversão dos homens: “Haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende...”; “haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa”; “tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado”.

O Ano Santo da Misericórdia surge da inspiração do papa Francisco como um acontecimento da graça de Deus, que nos chama ao conhecimento das sua misericórdia, ao reconhecimento dos nossos pecados, à confissão humilde das nossas culpas, à conversão ao amor. Para que o Jubileu tenha ecos concretos em nós e na Igreja, havemos de passar do enunciado de uma doutrina a uma atitude transformadora da vida. Nesse sentido, faz-nos bem pensar que, aquele que anda perdido e longe de Deus e dos irmãos, o pecador, o abatido pelo peso da vida, sou eu: sou eu, bispo; eu padre; eu consagrado; eu leigo, homem ou mulher; eu jovem, adulto ou idoso... com muita ou pouca fé, muito ativo na Igreja ou ocasionalmente participante... muito fervoroso na oração e na celebração dos sacramentos ou, porventura, bastante frio e racional. Ninguém está fora do número daqueles a quem o Senhor se quer revelar como rosto da misericórdia do Pai, nenhum de nós passou a barreira da verdadeira reconciliação com Deus e com os irmãos, nenhum de nós vive na comunhão plena com o Senhor e com a Igreja. 
O convite à penitência, à reconciliação, à confissão dos pecados, à conversão, proclamado pelo Jubileu, dirige-se a cada um de nós. O Ano Santo existe, em primeiro lugar, por causa de mim e de ti, para que a graça do amor de Deus entre em mim e me transforme, faça de mim um filho amado, que reconhece o amor do Pai e deseja permanecer nele. Se temos a graça de permitir que este amor entre em nós e de conhecer a misericórdia do Pai, tornamo-nos missionários credíveis da misericórdia, porque o Senhor quer chegar a todos e, acima de tudo aos que estão mais longe, aos improváveis, aos que nem ousam pensar que possam ser dignos do perdão e da misericórdia.

Todos os cristãos são chamados a ser missionários da misericórdia, uma vez que a todos é dada a missão de proclamar bem alto a notícia do que o Senhor fez nas suas vidas, a alegria de terem sido perdoados, a felicidade de terem sido procurados e acolhidos, o entusiasmo que nasceu do encontro reconciliador, a esperança vislumbrada quando se lhes abriram as portas da Vida. Todos os cristãos são missionários da misericórdia por meio do testemunho de uma fé viva, comprometida na comunidade eclesial e operante no mundo por meio da prática das obras de misericórdia. 
Num sentido mais específico, nós, os sacerdotes somos os primeiros missionários da misericórdia. Havemos de ir à frente quando se trata de acolher o amor de Deus, de acolher o perdão dos nossos pecados, de empreender o caminho da conversão, de anunciar por meio da pregação as maravilhas que o Senhor fez, de tornar visível a força da misericórdia de Deus por meio de uma vida dedicada aos outros.
Os leigos serão missionários da misericórdia no desenrolar das atividades seculares e familiares em que se passa a sua vida; os consagrados são missionários da misericórdia nas suas comunidades e nas relações que vivem com aqueles a quem servem; os sacerdotes serão missionários da misericórdia no exercício da caridade pastoral, não reservando nada para si, mas pondo em primeiro lugar aqueles a quem são enviados e que anseiam por sinais do Deus que consola, perdoa e ama.

Enquanto declaro esta Igreja de Santa Cruz o Santuário Jubilar da Reconciliação, peço ao Senhor crucificado que revele a misericórdia do Pai a todos os que por aqui passarem e que muitos possam aqui acolher a graça do reencontro com Deus por meio do sacramento do seu perdão.

Coimbra, Igreja de Santa Cruz, 12 de dezembro de 2015


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