CELEBRAÇÃO DOS 150 ANOS DO SEMINÁRIO EPISCOPAL DE ANGRA - MISSA NA CATEDRAL

Caríssimos irmãos!

A celebração dos 150 anos do Seminário Episcopal de Angra constitui raro motivo para o nosso hino de louvor a Deus nesta celebração. Agradecemos a Jesus Cristo, o Bom Pastor da Sua Igreja, porque nos oferece na pessoa dos sacerdotes os escolhidos para continuar a realizar o anúncio da Boa Nova da Salvação, para partir o Pão da Vida e congregar os fiéis na assembleia. Fortalecemos a fé na presença do Espírito Santo na condução da Igreja, pois, em cada tempo da história, Ele suscita os meios mais convenientes para a realização da sua única missão, enquanto Sacramento Universal da Salvação.

Os Seminários, nascidos do dinamismo inspirado da Igreja, têm-se revelado autênticos instrumentos de Deus para a renovação da Comunidade Cristã, para o aprofundamento da fé dos candidatos ao sacerdócio, para a sua formação humana, teológica, espiritual e pastoral, suportes essencial para a realização da sua vocação e missão.

Nestes cento e cinquenta anos, o Seminário Episcopal de Angra constituiu o polo mais significativo de irradiação da fé cristã para estas ilhas dos Açores e deu um notório contributo à vida da Igreja Universal por meio do testemunho dos sacerdotes nele formados e por meio do povo cristão a quem ajudaram a alimentar a fé.

Não é alheio ao Seminário e à sua história o facto de esta Diocese continuar a ser uma terra de fé e de o povo açoriano continuar, mesmo em condições adversas, a manter viva a chama do amor a Deus, qual realidade inscrita na sua matriz mais original. No meio de povos tão diversos culturalmente e tão díspares do ponto de vista religioso, as comunidades migrantes dispersas pelos quatro cantos do mundo constituem uma presença avançada da Igreja e um fermento de fé e de cultura cristã de grande significado dentro do mundo católico.

Cumpre-me, por isso, na condição de Presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, agradecer convosco ao Senhor a obra grandiosa que vos chamou a realizar em favor da Sua Igreja, felicitar-vos, em nome das outras Igrejas Diocesanas do nosso país, pelo vosso contributo em favor da nossa maior glória – a fé cristã -, e ainda deixar-vos uma palavra de incentivo para que, no meio das adversidades presentes, continueis a trabalhar pela edificação do Reino de Deus nestas ilhas abençoadas.

 

A Festa da Basílica de Latrão, que hoje celebramos, oferece-nos a possibilidade de refletir sobre a centralidade do mistério de Jesus Cristo, o Bom Pastor, na vida da Igreja, e sobre o ministério sacerdotal, em íntima relação Ele.

O belo texto da Profecia de Ezequiel introduzia-nos no tema da água, elemento absolutamente imprescindível à vida natural e tomada como símbolo dos dons de Deus, dos quais o maior é a comunhão com Ele, e o definitivo é a vida eterna.

Segundo o texto do Antigo Testamento, essa água vivificante saía dos lados do templo, morada do Nome do Deus Altíssimo, o lugar onde se encontrava o altar dos sacrifícios de louvor e ação de graças; segundo o Novo Testamento, a água saiu do lado aberto de Cristo, que se imolou sobre o verdadeiro altar, o da cruz. Por meio da Igreja e dos seus ministros, os sacerdotes que, configurados com Cristo, agem na Sua própria Pessoa, brotam rios de água viva, que matam toda a sede da humanidade – “quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna” (Jo 4, 17).

Por meio desta linguagem, a Escritura leva-nos a compreender o mistério de todo o cristão, purificado pelo batismo na morte e ressurreição do Senhor, e o mistério do padre, cristão com todos os outros cristãos, mas consagrado de um modo especial pela imposição das mãos e pela unção do Espírito Santo, em ordem ao exercício do ministério da salvação. Tomado por Cristo na totalidade do seu ser, envolvido pelo mistério de Cristo morto e ressuscitado com o qual se configura em virtude da sua eleição, ele tem por vocação e missão aproximar a Igreja da única fonte de água viva, que é Cristo.

Por vontade do Seu fundador, a Igreja precisa do ministério sacerdotal como dom e mistério através do qual chega aos fiéis a Boa Nova e a Eucaristia. O mesmo é dizer, por meio do ministério do padre o Povo de Deus tem acesso a Cristo, Palavra e Pão. Pela totalidade da sua vida e pela força dos sacramentos, o padre abre caminho à torrente impetuosa de graça que vivifica a Igreja na pessoa de cada um dos seus fiéis. Nesta realidade, fruto da graça da eleição, e não em qualquer razão humana, reside o único motivo de glória. O sacerdote não o é por si – é-o por chamamento de Deus, nem o é para si – é-o para a Igreja; alegra-se e agradece por ser chamado e enviado, por nascer de Outro e estar ao serviço dos outros.

 

“Devora-me o zelo pela tua casa”, recordaram os discípulos que estava escrito, ao verem Jesus a expulsar os vendilhões do templo. Esta mesma frase, aliada à atitude de Jesus, dá-nos o sentido da relação do padre com a Igreja: relação de dedicação, serviço e amor, como se de uma relação esponsal se tratasse. Este serviço-amor, enquanto atitude fundamental do padre, está bem expresso naquilo que os documentos da Igreja têm denominado por caridade pastoral.

O amor pela Igreja e por cada um dos seus membros é o amor por Cristo, numa unidade indissociável, que ocupa toda a vida e ação dos seus ministros. Face a esse amor, único valor, tudo o mais que se pudesse ser ou fazer soaria a mercadoria, que é preciso expulsar do limiar do templo, num movimento de profunda purificação das concretas realizações do padre na Igreja de hoje.

A Igreja sofre hoje, como aliás sempre sofreu, quando os seus pastores se descentram de Cristo e do serviço à sua Igreja para se alicerçarem em si mesmos ou noutras realidades, que os desviam da sua única vocação.

Com razão a Primeira Epístola do Apóstolo São Paulo aos Coríntios nos recordava que o único alicerce é Cristo e que nós somos templo de Deus. Esta é uma verdade de fé para todos os cristãos, mas torna-se mais premente para o sacerdote, escolhido dentre os homens para colaborar com Cristo na edificação do Seu Corpo, o verdadeiro templo de Deus.

O Seminário, caríssimos irmãos, há-de criar as condições necessárias para que aqueles que são escolhidos para o ministério sacerdotal se encontrem com Cristo, numa relação pessoal que os leve a relativizar tudo, ou, segundo a linguagem do Evangelho, a expulsar tudo o que é profanação do templo de Deus, a renunciar a tudo o que não serve à causa do Reino.

 

Neste Ano da Fé, há pouco iniciado, o Papa Bento XVI incentiva-nos a entrar pela porta da fé e a fazer dela uma caminhada contínua que transforme a nossa vida e a Igreja. Este é o objetivo da nossa vida e é a razão de ser do ministério sacerdotal, enquanto serviço à fé dos irmãos.

Na questão da fé reside também a questão das vocações. De facto, com a perda do sentido da fé, perde-se também o sentido da salvação; nessa altura perde-se o sentido do mistério e do ministério do padre, totalmente dedicado a Deus e à salvação dos irmãos.

Trabalhar pelas vocações sacerdotais não pode ser, por isso, um ato isolado na ação da Igreja. Elas só podem ser o fruto de uma pastoral da fé muito séria e profunda, que leve ao encontro pessoal com Cristo, como também nos recorda o Papa na Carta A Porta da Fé.

Nesta celebração do aniversário do Seminário Episcopal de Angra, convido-vos, caríssimos irmãos, a investir com confiança numa pastoral que leve os jovens à alegria de crer e ao entusiasmo de testemunhar a fé.

Imploro para todos vós, para a vossa Diocese e para o vosso Seminário a proteção de Nossa Senhora, Mãe dos sacerdotes, Mãe dos seminaristas e Mãe da Igreja.

 

Angra do Heroísmo, 9 de novembro de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

Presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios e Bispo de Coimbra

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