DOMINGO DE PÁSCOA - SÉ NOVA DE COIMBRA, 2013

“Viu e acreditou”, são as palavras que dizem o percurso de fé dos dois discípulos que foram ao sepulcro na manhã do primeiro dia da semana. Viram o sudário do Senhor no chão, mas a Ele não o viram e acreditaram nas Escrituras segundo as quais Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Neste Ano da Fé, que estamos a celebrar, como em cada Páscoa e no nosso quotidiano percurso cristão, procuramos continuamente ver melhor os sinais de Deus para melhor acreditar n’Ele, para ter uma fé mais profunda e mais comprometida.

Se, por um lado, acreditamos em Jesus Ressuscitado com base no testemunho ininterrupto dos Apóstolos, precisamos de ler os sinais de Deus, presentes em nós e no mundo para crer n’Ele. Tanto no coração e na interioridade da consciência, como nas realidades palpáveis e visíveis da vida quotidiana, há marcas do Espírito de Deus, que nos revela o Cristo de Deus. Buscá-las incessantemente, por vezes em noites bastante escuras, é uma tarefa que não podemos adiar; buscá-las na Palavra das Escrituras, na oração cristã, na vida e ação da comunidade cristã, a testemunha da fé, é atitude clarividente de quem procura o Senhor; buscar a fé na abertura da alma ao Espírito Santo, e pedir-lhe insistentemente que nos ilumine para entender as Escrituras e ver as realidades invisíveis, é o caminho mais seguro.

Acima de tudo, procurar ver o Senhor pela via da experiência do encontro com Ele, nas alegrias e tribulações da vida, procurando dar-lhe graças por tudo e suplicar-lhe forças para acolher a cruz de todos os dias com uma esperança renovada.

Finalmente, dispor-se a encontrar o Senhor nos homens e mulheres a quem se ama de verdade, ou seja, pela via da caridade fraterna enquanto dominante dos nossos objectivos e valores. Quem se dispõe a amar os irmãos com palavras e com obras, só pode ver a Deus, porque Deus é amor; acabará por compreender as Escrituras e por acreditar no Senhor Jesus Cristo, que deu a vida por amor e agora está na glória junto do Pai, de onde continuamente nos interpela e nos chama a viver no mesmo amor.

Nesta Páscoa, em Ano da Fé, relancemo-nos nesta aventura de ver e acreditar no Senhor, na certeza de que este é o melhor investimento de toda uma vida que se não satisfaz com as coisas terrenas e perecíveis, mas busca as coisas do alto, que são eternas.

 

“Nós somos testemunhas de tudo”, dizia Pedro no discurso do livro dos Atos dos Apóstolos, referindo-se ao grande acontecimento pascal, à morte e à ressurreição do Senhor.

A fé dos Apóstolos tornou-se evangelizadora, pois, como dizia o texto, Deus os mandou “pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído juiz dos vivos e dos mortos”, e a nossa fé torna-nos evangelizadores. Alguns por meio da palavra inspirada, outros por meio do ensino, mas todos por meio de uma vida íntegra, séria, justa e digna do Senhor que se deu por nós.

A transmissão da fé tem como finalidade primeira levar ao conhecimento de Jesus Cristo, como centro da história, o Salvador do mundo, em quem podemos encontrar a redenção que não temos nas nossas mãos, mas somente alcançamos pelo dom de Deus.

Em segundo lugar, o ato de evangelizar conduz-nos a alimentar continuamente a esperança da renovação pessoal e de todas as realidades decadentes da humanidade, a construir uma sociedade alicerçada no bem e na verdade, cuja origem é o próprio Deus.

A comunicação da fé em Jesus Cristo está ao serviço da salvação sobrenatural, como realidade última que desejamos, e está ao serviço da transformação das realidades que vivemos sobre a terra. Ver a Deus e acreditar em Deus é o testemunho dos Apóstolos e Santos, é a tarefa da Igreja, enquanto comunidade alicerçada na fé, e é, apesar da nossa pobreza, o testemunho de cada um de nós, que se sente a fazer este caminho.

Nesta Páscoa, em Ano da Fé, não nos resignemos diante da perda do poder do Evangelho na nossa família e na sociedade. No respeito pela liberdade de cada um, tenhamos a ousadia de propor com convicção e amor Aquele que nos faz felizes e dá sentido a todas as nossas aspirações, anseios e projetos.

Crer no Senhor Ressuscitado com a mente e com o coração, e testemunhá-l’O com palavras e obras, são os dois polos da fé cristã. Peçamos-lhe que ajude a nossa pouca fé, que a torne capaz de alimentar a nossa esperança, na cruz ou na glória. Peçamos-lhe que nos fortaleça para o testemunho da fé, em ordem à evangelização do mundo, à construção da justiça e da paz e à salvação que nos alcançou pela sua morte e ressurreição, que hoje celebramos.

 

Coimbra, 31 de março de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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