DOMINGO DE RAMOS - SÉ NOVA DE COIMBRA, 2013

A história de Jesus funde-se em grande parte com a história dos homens, pois Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio, assumiu a condição de servo, tornou-se semelhante aos homens e obedeceu até à morte de cruz (cf. Fl 2, 6-7).

O grito de Jesus no alto da cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”, pronunciado após um cortejo de louvor e aclamação ao Rei dos Reis e Senhor dos Senhores, mostra com toda a sua força a verdade da sua humanidade e a autenticidade da sua obediência ao Pai. Se na aclamação da multidão vemos o reconhecimento da divindade de Jesus, no seu grito de abandono, conhecemos a verdade da sua humanidade. De facto, é o mesmo Jesus, Deus e homem, cuja única glória está na cruz e na morte, em sinal de amor por todos os que o Pai lhe deu para salvar.

Ao ouvir o grito de Jesus, pensamos, em primeiro lugar, no mistério de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que, sendo inocente, sofre pelos outros e com os outros. Nada do que acontece aos seus irmãos mais pequeninos lhe é indiferente, nada do que os alegra deixa de o alegrar e nada do que os entristece deixa de o entristecer: é isso que significa padecer – sofrer com o outro, ser solidário com ele em tudo, assumir mesmo as suas dores e pecados.

Em segundo lugar, pensamos no grito dos homens, quando chegam ao desespero de se sentirem abandonados pelos outros e tomados pelos angústia da solidão que rouba a vida a tantas pessoas. Pensamos ainda no maior de todos os desesperos, que é o desespero de Deus, do último reduto de amor para as consciências. O grito de Jesus exprime tudo isso: desde o abandono dos outros ao abandono de Deus.

Duas foram as motivações que levaram Jesus a superar aquela hora: a confiança no Pai e a liberdade com que a assumiu em favor dos homens; no fundo, trata-se de duas expressões do amor que O domina: amor ao Pai e amor aos irmãos.

O Evangelho está cheio de sinais dessa confiança inabalável de Jesus no Pai, que nasce da profundidade de uma relação, a ponto de permanecerem um no outro e, juntamente com o Espírito de união, serem um só Deus. Esta confiança a toda a prova parece ter momentos críticos, de interrogação e busca de melhor compreensão, mas nunca se rompe, pois é um elo inquebrável.

O sofrimento de Jesus tem um sentido, não é um sofrimento vão, é meio para um bem maior. O mal e o pecado humanos somente pelo amor se podem vencer, e o Pai está disponível para os vencer, como o Filho está disposto a sofrer e morrer para os aniquilar. Nesta conjugação da vontade do Pai com a obediência do Filho se realiza a salvação da humanidade perdida, pois o amor vence o pecado e a morte.

 

A nossa condição de discípulos de Jesus convida-nos a assumir as suas atitudes, a viver o seu amor e a testemunhar a alegria de sermos salvos pela sua paixão e morte na cruz.

A nossa solidariedade humana há-de levar-nos a sentir como nossos os problemas e as dores dos irmãos, tanto na sua dimensão material como espiritual. Nada do que se passa com os outros nos pode ser indiferente, não podemos fugir a nada do que preocupa, perturba e deixa as pessoas abatidas, como nos recordava o texto de Isaías referindo-se ao Servo de Deus: “o Senhor deu-me a graça de... dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos... e eu não resisti nem recuei um passo... e eu não resisti nem recuei um passo...”

No entanto, a solidariedade deve ir mais longe e transformar-se a caridade cristã, que nos impõe assumir livremente a condição de servos, disponíveis para obedecer até à morte e morte de cruz, como ouvimos na segunda Leitura. O amor vai mais longe do que a solidariedade e do que a justiça, obrigações de toda a sociedade civil e obrigações primeiras do Estado e da ação política.

Como nos ensinou Bento XVI na Carta Encíclica “Deus caritas est” (nº 29), “Quem prescinde do amor, prepara-se para se desfazer do ser humano enquanto ser humano. Sempre haverá sofrimento a precisar de consolação e ajuda. Sempre haverá solidão.”

A caridade move os cristãos a cuidar dos seus irmãos com o coração, impelidos pelo amor de Cristo, que se entregou por nós até à morte, e leva-os a viver não mais para si mesmos, mas para Ele, e com Ele, para os outros (cf. Deus caritas est, 33).

A caridade dos cristãos manifesta a sua comunhão com Cristo, que assume a totalidade das nossas debilidades, tanto de ordem material como espiritual, pois quer o bem do homem todo, corpo e espírito e a sua salvação integral.

Os Apóstolos do Senhor, seguindo o Mestre, testemunharam com a oferta da sua vida o que significa a solidariedade humana e o amor cristão. A Igreja, de que são os fundamentos unidos a Cristo, pedra angular, recebeu a mesma missão: testemunhar em cada momento da história uma nova maneira de viver, enraizada em Cristo. Enquanto instituição com uma orgânica própria, tem a obrigação de estar atenta para que nada em si se afaste do caminho traçado por Jesus, que “não se valeu da sua igualdade com Deus, mas se aniquilou a si próprio”. Pessoalmente, cada um de nós, seus membros, tem a mesma obrigação de trabalhar para encher de amor o seu coração do amor de Deus, de modo que transborde para os outros, os anime, os console e, unido ao amor de Cristo, os salve.

Neste Domingo de Ramos, tomemos consciência de que a nossa aclamação a Jesus, num ambiente orante e festivo, convive sempre com a aceitação da sua cruz, num ambiente de sacrifício e entrega pelos irmãos. Do mesmo modo, a liturgia e a oração cristãs, ações de louvor e adoração, nunca são um lugar de fuga do mundo ou porto de refúgio dos cristãos, mas rampa que nos lança ao encontro da cruz pessoal e dos outros, que livremente assumimos transportar, como meio de salvação.

Que o Senhor nos conceda a graça de uma semana verdadeiramente santa, unidos à sua paixão e à paixão dos irmãos, caminho de ressurreição.

 

Coimbra, 24 de março de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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