Homilia da Celebração da Paixão - Sé Nova - 03-04-2015

Caríssimos irmãos e irmãs!
Estamos de novo diante do maior mistério, incompreensível aos olhos humanos e difícil de explicar aos olhos da fé, o mistério da paixão e morte de Jesus. É um mistério que inquieta e perturba crentes e não crentes, porque toca nos nossos anseios mais sagrados: em vez de paixão, sofrimento e dor, suspiramos por felicidade e paz; em vez de morte, que naturalmente repelimos, aspiramos pela vida. 
Quando se fala da morte de tudo o que é humano, aceita-se como realidade própria do que é finito, teve uma origem, nasceu e, portanto, tem um fim, morrerá. Quando se trata da morte de Jesus, o Filho de Deus, precedida de uma paixão dolorosa, ficam mais perguntas do que respostas, bem expressas na dramática interrogação do salmista: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. 
O sentido da paixão e morte de Jesus só se compreende à luz da fé, já professada na profecia de Isaías a propósito do Servo do Senhor, de quem se diz: “O justo, Meu servo, justificará a muitos e tomará sobre as suas iniquidades”. Aplicadas a Jesus pela leitura cristã, estas palavras confessam que a paixão e morte do Filho de Deus, têm uma finalidade redentora, isto é, são um meio e um caminho de salvação para a multidão. 
Como comenta a Epístola aos Hebreus, Jesus, por meio da sua “obediência no sofrimento”, “tornou-se, para todos os que lhe obedecem, causa de salvação eterna”. O sofrimento, a paixão e a morte de Jesus têm um sentido à luz da fé: alcançar para os homens uma salvação de que estavam privados. 
Quando o Livro de Isaías dizia “O justo, meu servo, justificará a muitos”, profetizava sobre Jesus, o homem justo, que dá a Deus tudo o que lhe pertence: a ação de graças, a obediência e a fidelidade; Ele é igualmente o homem justo, porque dá aos homens tudo o que lhes pertence: o serviço e o amor sem quaisquer limites. Num caso como noutro, trata-se de viver a justiça, não reivindicando nada para si, mas tudo oferecendo a Deus e aos outros. 
Pela sua obediência no sofrimento, Jesus manifestou-se o homem plenamente justo com Deus e plenamente justo com os irmãos. A sua oferta ao Pai em favor dos homens, que passa pela paixão e pela morte na cruz, são o sinal que deu e o preço que pagou; não foram em vão nem ficaram estéreis, mas produziram o seu fruto, a redenção de todos os que estavam mortos pelo pecado. 

Custa-nos compreender o mistério da paixão e morte de Jesus, porque nos custa aceitar a vocação a que somos chamados: ser justos com Deus e com os outros; ser servos de Deus e dos irmãos. 
À luz da fé, sentimo-nos chamados a louvar e adorar a Deus, porque somos criaturas e Ele é o Criador, porque somos humanos e Ele é Deus – trata-se do mais elementar ato de justiça do crente, que o leva a reconhecer quem Deus é e o que nós somos enquanto filhos, muito amados. 
Por sua vez, à luz da mesma fé, sentimo-nos chamados a ser servos de Deus e servos dos irmãos, com um amor puro e sem mancha, pois a justiça impõe-nos o amor que é devido a Deus e o amor que é devido aos homens.

A celebração da paixão do Senhor interpela e desinstala toda a humanidade, a começar por nós, os cristãos, que aqui estamos.
Em primeiro lugar, impele-nos a ser justos no sentido de darmos a Deus o louvor, a ação de graças, a resposta de fé e o amor que lhe devemos. No fundo, trata-se da dimensão religiosa da nossa vida, entendida como resposta simples, generosa e grata Àquele que nos criou, nos salvou e nos faz viver no seu amor.
Em segundo lugar, a celebração da paixão do Senhor leva-nos a viver a vida como paixão pelos outros, pelos homens e mulheres nossos irmãos. O verdadeiro distintivo da nossa condição humana e da nossa compreensão a partir da fé é a atitude de doação, sacrifício, paixão, sofrimento, amor. 

Colaborar com Cristo na redenção da humanidade leva-nos a tomar sobre nós mesmos as iniquidades dos outros; colaborar com Cristo na salvação dos irmãos, leva-nos a aprender com Ele a obediência no sofrimento. 
Salvar a pessoa humana leva-nos a estar disponíveis para, em tudo e com o sacrifício de nós mesmos, agirmos com misericórdia e compaixão, no desejo de acolhermos e compreendermos cada um como o Senhor o acolhe;
Salvar a família leva os esposos, os pais e os filhos, a disporem-se a dar a vida uns pelos outros, procurando fazer felizes os outros, sem nada exigir, mas apostados em dar mais do que em receber. 
Salvar a vida em todas as suas fases, pede renúncia ao egoísmo de procurar acima de tudo o bem estar pessoal, e pede coração grande e largo capaz de acolher os outros como o maior dom.
Salvar a economia e a justiça social exige o respeito pela igual dignidade da pessoa, aceitação do princípio do bem comum e sentido de partilha e solidariedade.
Salvar a cultura passa pela disponibilidade em aceitar o árduo percurso de procurar a verdade, com humildade.

Que a celebração desta tarde nos ensine a compreender a paixão humana a partir da paixão de Cristo. Ele amou-nos, entregou-se à morte por todos nós e tornou-se causa da nossa salvação eterna; amemo-nos uns aos outros, entreguemo-nos diariamente, nas variadas situações da vida, uns pelos outros, levemos a cruz uns dos outros e uns com os outros, ajudá-los-emos a vislumbrar a aurora da salvação que amorosamente nos foi dada pelo sacrifício de Cristo na Cruz.

 

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