Homilia da Missa Crismal

A Missa do Crisma em que todos os ministros ordenados celebram juntos os mistérios da fé constitui um verdadeiro sacramento da nossa comunhão com Deus e com a Igreja, na sua expressão local ou diocesana. Sentimos, por isso, a imensa alegria de nos encontrarmos, na certeza de que o Senhor está no meio de nós como esteve no Cenáculo de Jerusalém quando os apóstolos se reuniram com Maria e foram fortalecidos pelo dom do Espírito Santo. Sentimos que o peso da nossa humanidade se torna mais leve diante da grandeza do Senhor que nos convoca e nos anima com o dom da sua graça, que supera todas as nossas resistências e todo o pecado.

Sentimo-nos felizes e agradecidos porque hoje se cumpre de novo a passagem da Escritura, que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres”. De facto, o Espírito do Senhor repousa também sobre nós e permanece em nós como no dia do batismo ou da ordenação sacerdotal, quando fomos chamados pelo nome; a unção com o óleo da alegria continua com a mesma eficácia do primeiro momento sacramental, quando recebemos a marca indelével do amor de Deus; continuamos a ser enviados a anunciar a boa nova aos pobres, como no primeiro chamamento, que tanto fervor e entusiasmo trouxe aos nossos corações de filhos e de discípulos, quando acolhemos a missão e demos os primeiros passos ao serviço do Reino.

Cantamos eternamente a bondade do Senhor porque na nossa pouca fé, na debilidade da nossa esperança, na pobreza do nosso amor e no meio do nosso pecado nunca nos faltou a graça do Senhor, que nos fortaleceu para acreditar, nos ensinou a esperar e nos levantou para que voltássemos a percorrer o caminho do encontro com o Pai, rico de misericórdia.
Esta é a celebração da gratidão de todo o povo sacerdotal que canta as misericórdias do Senhor, de um modo muito especial pelos ministros ordenados, diáconos, presbíteros e bispos, que servem esta porção do Povo de Deus, que é a Igreja Diocesana de Coimbra. O louvor que aqui elevamos a Deus reúne todo o louvor que brota dos lábios e do coração de tantos fiéis que se sentem agradecidos e felizes quando falam da generosidade, da fidelidade, do espírito de serviço e de missão ou do amor do sacerdote que serve a sua comunidade.

O texto do Evangelho de São Lucas, que cita e assume a profecia de Isaías, apresenta-nos Jesus como o Messias de Deus sobre o qual repousa o Seu Espírito e que foi enviado ao mundo para nos revelar definitivamente o rosto de Deus. Enquanto Filho, cheio do Espírito do Senhor e enquanto ungido, Ele anuncia a boa nova aos pobres, proclama a redenção aos cativos e a vista aos cegos, restitui a liberdade aos oprimidos e proclama o ano da graça do Senhor. A Sua pessoa e a Sua ação constituem a linguagem que diz e que mostra o verdadeiro Deus na sua relação com os seus filhos, como o Deus da bondade e da misericórdia.
Na introdução da Bula que proclama o Ano Santo que estamos a viver, o Papa Francisco retoma este tema para afirmar: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré”. 
De facto, Jesus revela o rosto misericordioso do Pai e realiza o seu desígnio de misericórdia, que consiste na obra de salvação daqueles que criou. Deste modo, Jesus realiza a totalidade da sua missão, quando revela o Pai e salva a humanidade com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa. No fundo, incarnar, revelar, exprimir e realizar a misericórdia do Pai é a via seguida por Jesus, essa é a sua missão entre nós e no meio do mundo ao qual desceu quando assumiu a nossa condição humana.

A Igreja, Corpo de Cristo, em estreita comunhão com a Cabeça, recebe d’Ele as linhas mestras da sua atuação no mundo. Nesse sentido, o Papa declara na Bula Misericordiae vultus: “A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo”.
Quando as pessoas ouvem falar de Jesus de Nazaré têm, talvez, facilidade em ligar imediatamente à bondade com que acolhe as crianças, os pobres e os doentes, às palavras de carinho com que se dirige a todos indistintamente, aos gestos de bênção e de perdão que reparte com os pecadores, à misericórdia com que acolhe todo o que regressa contristado e arrependido.
Quando se ouve falar de Igreja tem muito peso a dimensão institucional e burocrática, a dimensão legal e moral, o conjunto das regras e preceitos a cumprir, o código doutrinal, a organização sócio-caritativa. Ficam frequentemente na sombra aspetos como a dimensão pessoal, a relação, o acolhimento, a bondade, a compreensão, o perdão e a misericórdia. A Igreja que nós somos pode esconder ou pelo menos ofuscar o verdadeiro rosto de Deus, que é misericórdia, tal como Jesus no-lo revelou.
Quantas não são as pessoas que desconhecem o rosto de Deus porque o agir da Igreja lho escondeu? Quantas não são as pessoas que têm uma ideia errada de Deus, porque a exposição doutrinal, a liturgia, a catequese ou a pastoral da Igreja lhes anunciaram um rosto falso, que não condiz com verdadeira revelação feita por Jesus?
Que a nossa Igreja Diocesana acolha a força do convite à conversão que nos chega neste Ano Santo e que, em todas as suas pessoas, projetos e estruturas, faça da misericórdia a sua via, para que a sua ação exprima a ação de Jesus e revele ao mundo o rosto do Pai.

A misericórdia é também a via do agir de cada cristão, de cada discípulo de Jesus. É, de um modo especial, a via do agir dos sacerdotes, ou seja, daqueles que, pela imposição das mãos e pela unção com o óleo do crisma no sacramento da Ordem, receberam o dom da configuração com Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja. 
Se o Senhor olhou para nós com misericórdia, deu-nos também a graça de sermos misericordiosos como o Pai e de sermos missionários da misericórdia. A nossa pessoa, a nossa palavra e o nosso agir hão de revelar o rosto misericordioso de Deus a todos os irmãos que já creem em Cristo e participam na vida da Sua Igreja, mas também a todos os buscadores de Deus que aguardam o feliz momento de entrar no Seu Povo.
A grande revolução que somos chamados a realizar na Igreja, na fidelidade ao dom que recebemos, consiste em fazer a nova evangelização, repropondo a misericórdia “com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada”, como refere o Papa na Misericordiae vultus: “nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia”.
Acreditamos que, segundo a revelação bíblica, “a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para connosco”. Ela será igualmente a palavra-chave para indicar o nosso agir de sacerdotes e ministros da Igreja, que agem em nome de Cristo e na pessoa de Cristo, ao serviço dos irmãos. Ela há de transformar as nossas motivações pastorais, o nosso modo de estar na comunidade cristã e de a conduzir, as iniciativas de evangelização, a nossa relação com o mundo, o nosso discurso homilético, a nossa catequese, a forma de celebrar a liturgia e os sacramentos, até a ação social e caritativa.

O exercício do ministério sacerdotal pela via da misericórdia leva-nos a dar uma atenção privilegiada a algumas áreas da ação pastoral, apesar de sabermos que nenhuma delas se pode descurar. Ouso pedir-vos um cuidado especial a alguns sectores de maior sensibilidade para as pessoas a fim de melhor realizarmos a missão que nos foi confiada e melhor exprimirmos a misericórdia de Deus Pai:

- os acontecimentos da vida familiar, como o matrimónio, o nascimento dos filhos, as dificuldades relacionadas com a paternidade, os problemas dentro do casal... devem merecer uma especial presença por parte do sacerdote, pois constituem momentos de grande alegria ou então de enorme sofrimento em que a família precisa de proximidade;
- as situações de doença, sobretudo em idades em que não se espera ou quando traz mudanças radicais na vida das pessoas e das famílias, exigem a presença reconfortante do ministro da Igreja, com uma palavra de esperança ou simplesmente com o silêncio da solidariedade e da comunhão;
- a pastoral do acompanhamento nas situações de luto precisa de uma séria renovação entre nós, pois todos reconhecemos a sua importância mas com facilidade se subordina a outras urgências do exercício do ministério;
- o cuidado pastoral com os mais débeis, particularmente os idosos, que estão em casa ou nos lares, a atenção aos que vivem na solidão, a solicitude com os que se encontram nas diversas situações de pobreza ocupa um lugar especial na nossa vida;
- a pastoral do acolhimento a todos indiscriminadamente, mas sobretudo aos que precisam de desabafar, aos pecadores que querem reconciliar-se com Deus, aos que estão perturbados moral ou psicologicamente, aos que precisam de uma palavra de conselho para o crescimento espiritual, exige que gastemos muito tempo.

Com Maria, a Mãe que cantou a misericórdia de Deus, que se estende de geração em geração, prefigurou assim o caminho da Igreja, disponhamo-nos nós, os seus sacerdotes, a proclamar com a palavra, com os gestos e com a vida o coração misericordioso do nosso Deus. Ámen.

 

Coimbra, Sé Nova, 24 de março de 2016
Virgílio do Nascimento Antunes, Bispo de Coimbra

 

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