Homilia da Missa da Ceia do Senhor - 02-04-2015

Caríssimos irmãos e irmãs!

Na tarde desta Quinta-feira Santa voltamos a cumprir o mandato do Senhor que, durante a Última Ceia, depois de abençoar e repartir o Pão e o Vinho, ordenou aos Apóstolos: “Fazei isto em memória de Mim”. Sempre que celebramos a Eucaristia, memorial da entrega do Senhor, cumprimos o seu mandato e anunciamos a sua morte até que Ele venha. 
Este momento da celebração litúrgica do Sacramento da Eucaristia, sintetiza toda a fé cristã, que se centra precisamente no mistério pascal de Jesus, na sua paixão, morte e ressurreição. Por isso, na tradição doutrinal, litúrgica e pastoral, a celebração da Eucaristia ocupa um lugar cimeiro de toda a vida da Igreja. Não se pode confessar Cristo, estar em Cristo e viver em Cristo, como é próprio da vida cristã, sem O acompanhar na totalidade da sua entrega à morte como caminho da ressurreição, que se celebra ritual e existencialmente no sacramento da Eucaristia.
Defendem-se, hoje, muitas formas de ser cristão e, por isso, permanecer em Cristo, sem passar pelo cumprimento deste seu mandamento, “fazei isto em memória de Mim”, e excluindo a participação viva e ativa nos sacramentos da Igreja, concretamente na Eucaristia. Depois de vários períodos da vida da Igreja em que se acentuou acima de tudo a dimensão cultual e litúrgica, que frequentemente conduziu a um marcado ritualismo, estamos a passar por um período em que se acentua a fé pessoal e, frequentemente individual e privada, que relativiza e chega a desprezar o encontro sacramental com Cristo na Eucaristia.
“Fazei isto em memória de Mim”, é um mandato do Senhor, pronunciado no momento extremamente denso de significado da sua presença entre nós, quando se aproxima a sua paixão e morte salvadora. Ele quis que tivéssemos acesso à força redentora do seu mistério pascal por meio da celebração do memorial da sua entrega. Ali manifestamos, pela fé, a nossa livre decisão, de acolher o dom que nos oferece. 

A tarde de Quinta-feira Santa convida-nos também a aprofundar o sentido da fé, que nos leva a chamar a Jesus Mestre e Senhor, como assegurava o Evangelho de S. João, que escutámos.
Acreditar, consiste precisamente em confessar que Jesus Cristo é o Senhor, porque é o Filho de Deus, glorificado e exaltado à direita do Pai; confessar que Ele é o Salvador do Mundo pela sua paixão, morte e ressurreição.
Nesta tarde manifestamos a nossa disponibilidade interior para continuar a fazer o caminho da fé, nunca concluído. Acolhemos o desafio de trabalhar na Igreja ao serviço do crescimento da fé dos homens e mulheres já crentes, e dar o nosso contributo para que os não crentes acolham o anúncio do Evangelho.
Uma certa crise de fé e a incerteza a cerca da sua necessidade para acolher a salvação de Deus levou a uma crise de anúncio evangelizador, que precisamos de ultrapassar. Quem confessa que Jesus Cristo é o Senhor, com a sua inteligência e com o seu coração, chegará também a confessá-lo com a sua vida e com a sua voz, isto é, assumirá com alegria a vocação missionária própria de todo o discípulo cristão.  

A tarde de Quinta-feira Santa impõe-nos ainda o cumprimento de outro mandamento do Senhor, que nasce da autenticidade da Eucaristia que celebramos e da força da fé que professamos: “Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”.
A vida cristã não se reduz a um conjunto de rituais, nem a um discurso sobre Deus ou à manifestação de uma conjunto de convicções doutrinais, mas inclui sempre a imitação da atitude de Jesus que desce até nós, se aproxima dos homens, se dá na totalidade, porque veio para servir e porque nos ama.
A nossa fé encontra na nossa frequente falta de espírito de serviço a razão de ser da sua esterilidade. Belas celebrações, elaborados discursos teológicos, espirituais e pastorais, mas pouco amor, compromete a autenticidade da fé e limita o valor do testemunho evangelizador.
A pregação de Jesus ao longo de toda a sua vida pública encontra a sua força maior no sinal da sua Páscoa, sinal de amor; a Última Ceia encontra o selo da sua verdade na entrega da vida que se lhe segue; o testemunho dos Apóstolos convence os que o conhecem porque inclui o martírio que sofreram. 

Que este feliz momento em que celebramos a Eucaristia como memorial da Páscoa do Senhor e em que professamos a fé em Jesus, Mestre e Senhor, nos leve ao único testemunho que permanece, o que tem a marca do amor, e nos faz sair daqui dispostos a lavar os pés dos nossos irmãos, como fez connosco Aquele que veio para servir e dar a vida.
Esta é a vocação da Igreja e a vocação dos cristãos, no seguimento do caminho aberto pelo Senhor. Estamos no tempo do testemunho mais do que das palavras, estamos no tempo em que somente a linguagem da cruz acolhida e amada pode levar a Igreja a fazer caminho no meio de um mundo incrédulo.
Que a contemplação da paixão do Senhor e da paixão da humanidade desperte em nós a força do amor, que permanece e que salva.

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