Homilia da Missa de Ordenações Sacerdotais e Diaconais - Sé Nova - 26 de junho de 2016

XIII DOMINGO COMUM C
ORDENAÇÃO DE PRESBÍTEROS E DIÁCONOS NA DIOCESE DE COIMBRA
SÉ NOVA – 2016.06.26

 

Caríssimos irmãos e irmãs!
Visto por fora, o sacerdócio é uma função, um serviço, um ministério para o qual alguém é escolhido por Deus e que decide aceitar fundado na fé e na certeza de que se trata de algo suficientemente grande e bom para si e para a Igreja.
Visto por dentro, o sacerdócio é um mistério, ligado ao mistério de Deus, que santifica os seus escolhidos e, por meio deles, realiza no tempo a santificação dos irmãos, já santificados pelo batismo na morte e ressurreição de Jesus Cristo.
O Salmo Responsorial, que cantámos, aponta para esse grande mistério, quando nos leva a dizer ao Senhor: “Vós sois o meu Deus”. Se procuramos uma explicação e um fundamento para o sacerdócio, mistério e ministério, é aqui que os encontramos. O deslumbramento diante de Deus, a contemplação da sua grandeza, da sua bondade, do seu amor e da sua misericórdia infinita, conduz, por meio da graça, à fé, que nos leva a pronunciar com o salmista: Senhor, vós sois o meu Deus!
O Salmo continua, dando a explicação mais concreta do alcance desta exclamação, que, sendo sincera, sai do coração, nunca é estéril e envolve a totalidade da nossa vida: Vós sois o meu refúgio, sois a minha herança e o meu cálice, estais sempre na minha presença, convosco a meu lado não vacilarei, não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida: alegria plena, delícias eternas.
No fundo, o mistério do sacerdócio é o mistério do encontro mais profundo e mais decisivo de Deus com o homem, a ponto de o tomar na totalidade para que se torne plenamente seu, com vontade e liberdade, para se lhe entregar sem reservar nada do que é para si mesmo. É a configuração com Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote, Aquele que tudo recebeu do Pai e tudo entrega ao Pai, o Seu Corpo e o Seu Sangue, a sua vontade e a sua liberdade, pois, como Filho, Ele rezou, com palavras, coração e vida, o mesmo salmo, dizendo, “Vós sois a minha herança”, “Vós sois o Meu Deus”, ou então, “Vós sois o Meu Pai”.

“Pela caridade, colocai-vos ao serviço uns dos outros”. Quando alguém se deixa tomar pela caridade de Deus e fica imerso no seu amor, torna-se disponível para se pôr ao serviço dos outros, pois a caridade abre sempre a uma resposta de serviço a Deus e de amor ao próximo. Quando se tem a graça de se ser escolhido e de ouvir o chamamento de Jesus, “Vem e segue-Me”, como aconteceu com os Apóstolos e os seus continuadores, a vocação para seguir Jesus abre-se ao ministério sacerdotal e o sacramento da Ordem, pela ação do Espírito Santo, realiza o grande milagre que hoje aqui celebramos.
Como aprendemos com o Senhor Jesus, a comunhão com Deus conduz sempre ao serviço ao seu Povo e a identificação com Jesus no sacerdócio ministerial conduz sempre a prolongar no mundo presente a sua entrega livre e generosa no serviço à Sua Igreja. O ideal do padre consiste em ser santo, participante da santidade de Cristo, por meio do Espírito, e não viver para si mesmo, mas para Aquele que o chamou, dedicando-se totalmente ao serviço dos irmãos.
Nos últimos tempos, o Magistério da Igreja, sobretudo pela pessoa e pela voz do Papa Francisco, tem-nos ajudado a concretizar melhor o que significa este ideal na vida do padre. Não se trata simplesmente de uma fundamental opção, genérica e teórica, porventura desencarnada, espiritualista, fechada em si mesma ou encerrada num coração zeloso no amor de Deus. Passa inevitavelmente pela inserção na Igreja, que tema a sua concretização visível nas comunidades cristãs, dioceses e paróquias, famílias e pessoas de todas as condições e em situações tão variadas, como as daqueles que creem em Deus, as daqueles que O procuram ou as daqueles que nem O conhecem nem estão disponíveis para O acolher.
Pôr-se ao serviço dos outros, na caridade, significa para o padre participar da caridade pastoral de Jesus  que, “intimamente conexa à Eucaristia, constitui o principio interior e dinâmico capaz de unificar as múltiplas e diversas atividades pastorais do presbítero e conduzir os homens à vida da Graça”, segundo o Diretório para a Vida e o Ministério dos Presbíteros (54).
A atitude de serviço dos Ministros da Igreja tem concretizações muito simples e quotidianas na vida das comunidades e pede-lhes sempre abertura à novidade de Jesus, à Boa Nova e aos métodos de evangelização suscitados pelo Espírito para cada tempo da história.
A atitude de serviço leva o padre a ir à frente, a tomar iniciativas evangelizadoras, a ir à procura dos que andam afastados, a convidar os excluídos, a entrar na vida diária dos outros, a encurtar as distâncias, a abaixar-se, se for necessário, até à humilhação e a assumir a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo, como nos sugere a Evangelii gaudium (cf 24).
O padre tem, por isso, um modo próprio de servir, de acordo com a vocação a que foi chamado e que livremente aceitou: assimilando a caridade de Cristo, torna-a a forma da sua própria vida e leva a todos o amor e a misericórdia do Bom Pastor (cf DVMP, 54). A sua liberdade e vontade, as suas capacidades e energias, o seu tempo, o seu corpo a sua pessoa pertencem ao Senhor e voluntariamente são postos ao serviço da Igreja. Só assim se pode entender o espírito de pobreza a que é chamado, a consagração no celibato por amor do Reino de Deus e a obediência prometida de forma tão solene.

“Jesus tomou a decisão de se dirigir a Jerusalém”, quando se aproximavam os dias de subir a Jerusalém, dizia o texto do Evangelho. Numa tradução literal poderíamos dizer que Jesus endureceu a expressão do seu rosto diante da difícil decisão de caminhar para Jerusalém onde iria consumar-se a sua paixão e a sua morte. É que a decisão de dar a vida não se toma facilmente e o próprio Jesus tem de fazer apelo à sua liberdade, à certeza de que o Pai está com Ele, ao seu desejo eterno de amar a humanidade que quer salvar e à força do Espírito Santo que o torna fiel.
Para todo o cristão, a decisão de fazer da vida um dom a Deus e aos homens, exige um grande amor à humanidade, uma forte certeza da presença amorosa do Pai e uma fiel docilidade ao espírito Santo.
Para o padre, que tem por vocação seguir Jesus, que dá a vida pelas suas ovelhas, somente a graça de Deus, aliada à sua vontade e à força do Espírito Santo, permitirá tomar a decisão de se dirigir a Jerusalém, ou seja, de dar a vida na realização da sua condição de cristão e pastor do Povo de Deus.
Nas circunstâncias difíceis em que havemos de exercer o ministério sacerdotal, sujeitos a insucessos, perseguições, dispersões do rebanho, seduções provenientes das propostas do mundo ou desejos da carne, somente uma vocação alicerçada numa espiritualidade séria e profunda nos pode manter fiéis e felizes.
Havemos de ter a coragem de nos centrar continuamente em Deus e na sua graça mais do que no desejo de salvarmos o mundo com as nossas próprias capacidades e forças.
Havemos de renunciar a uma ativismo estéril, para privilegiar a ação de Deus em nós e na sua Igreja por meio do Seu Espírito.
Havemos de dedicar-nos totalmente à missão que nos foi confiada e de fazer dela lugar e meio de santificação pessoal e comunitária.
Não permitiremos que se apodere de nós o vazio espiritual, pois nessa altura correremos sem rumo à procura de satisfações humanas ou de uma realização pessoal que somente na fidelidade ao nosso coração indiviso e sintonizado com o coração de Deus podemos encontrar.
Enquanto diáconos e presbíteros, ou somos homens espirituais, verdadeiros homens de Deus, de coração aberto, em saída com a Igreja, ou nos tornamos estorvos à ação salvífica de Deus. Dai, por isso, grande espaço e tempo a Deus, na liturgia, na oração, na meditação da Palavra, na celebração da Reconciliação, na adoração da Eucaristia, na piedade mariana. Dai tempo ao acolhimento das pessoas e manifestai disponibilidade com para todos, especialmente para com os mais pobres, os doentes, os desanimados, os vacilantes na fé, os descrentes. No silêncio pacificador do santuário e no encontro perturbador com as pessoas sentireis o que é a verdadeira espiritualidade cristã e sacerdotal, que se enraíza em Deus por meio do seu Espírito e se manifesta viva na comunhão com os irmãos.

Caríssimos irmãos, o coração de Deus e o coração de Maria, sua Mãe, serão sempre o vosso refúgio, nos momentos altos de alegria e consolação interior, como nos momentos baixos de sofrimento e de fracasso.
Que a vossa ordenação neste Ano Santo Jubilar constitua para vós e para  a nossa Igreja Diocesana de Coimbra uma renovada bênção do Pai das Misericórdias. Ámen.

Coimbra, Sé Nova, 26 de junho de 2016

 

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