Homilia da Missa de Quarta-feira de Cinzas de 2017

Caríssimos irmãos e irmãs!

Este dia abre-nos as portas de um longo período de meditação sobre o que somos, a vida que vivemos e os dinamismos que nos movem: somos pó e terra na caducidade da matéria de que somos formados, e somos criaturas amadas, livres e vocacionadas para a felicidade na grandeza da nossa humanidade.
A quarta feira de cinzas é o pórtico da quaresma, que, por sua vez, é o grande átrio, lugar de espera sempre transitório que conduz à sala da grande festa da vida. Deste modo, o ano litúrgico nos ajuda a fazer um percurso interior e exterior, que não é mera repetição de ciclos temporais e rituais, mas verdadeira caminhada na renovação de nós mesmos à luz da Palavra reveladora de Deus e reveladora de nós mesmos.
Esta coincidência da celebração do dia da Universidade de Coimbra com a quarta feira de cinzas pode dar-nos a oportunidade de olharmos para esta instituição como um corpo sempre em renovação, como aliás acontece com todas as realidades humanas. Pode levar-nos a considerarmos a nossa condição pessoal como oportunidade de reencontro e como exigência interior de purificação e conversão. Pode ainda conduzir-nos a lançar um olhar sobre a sociedade em que vivemos e a desejar para ela mudanças significativas que, com esperança e com convicção, podemos ajudar a renovar-se.

O centro da fé cristã é a vida: a vida de Deus, a vida do homem, a vida de todos os seres criados para serem felizes. Mesmo em tempo de quaresma, imagem da nossa peregrinação terrena, marcada pela debilidade da carne e por um olhar contristado sobre o nosso egoísmo e o nosso pecado, o centro da nossa fé continua a ser a alegria da vida presente com horizontes de eternidade.
Não há quaresma sem esperança, porque não pode haver vida sem esperança, a esperança que tem um nome: Cristo morto e ressuscitado como sinal maior da nossa universal vocação à vida em plenitude.

“Convertei-vos a Mim de todo o coração”.
A longa meditação do povo de Israel resume a certeza de que somos seres em construção e humanidade em crescimento. A partir da fé sobrenatural, fruto da revelação de Deus, a Escritura Sagrada situa no interior do homem, no coração, o lugar da mais profunda identidade, que define o que somos, os desafios que trazemos inscritos em nós e os caminhos a percorrer.
A conversão é um dinamismo interior que nos impele a ter sempre presente o que somos, enquanto criaturas, filhos de Deus, com uma vocação sublime e grande, mas sempre em construção, a fim de edificarmos a mais bela obra de arte: a pessoa em relação de harmonia consigo mesma, com a criação e com Deus.
Quando no silêncio da consciência temos a coragem de nos confrontarmos connosco, com os nossos sentimentos e intenções, mas também com as nossas ações e palavras, encontramo-nos com esse material, frequentemente em estado bruto, que urge trabalhar com mãos de artista, à descoberta da bondade e da beleza que neles já se encontram inscritas. Quando dia após dia nos confrontamos seriamente com a avalanche de informação que nos chega e conseguimos a clarividência de uma observação menos apaixonada, deparamo-nos com sinais demasiado evidentes de uma sociedade que quase parece dar os primeiros passos. Essa harmonia na relação com os outros homens, com a criação e com Deus, continua a ser uma realidade muito distante, e o desejo de a encontrar não pode desaparecer dos nossos objetivos pessoais e comunitários.
Neste sentido, um dos sinais, senão o sinal mais preocupante do tempo presente, tem a ver com o modo como as sociedades sentem a vida humana e se relacionam com ela, com a própria e a dos outros. As muitas formas de instrumentalização da vida, como possibilidades abertas de a subjugar a outros valores, cria sociedades extremamente vulneráveis, pois desprovidas do seu fundamento essencial.
Converter-se a Deus de todo o coração significa converter-se ao Deus Vivo e ao Deus da vida, no respeito absoluto por aquilo que eu sou e por aquilo que são os outros enquanto seres frágeis e pecadores, mas sempre em construção e purificação da inteligência, da vontade, das motivações, numa palavra, do coração.

A tradição cristã alicerçada no Evangelho que escutámos, oferece-nos um caminho de renovação e conversão por meio da referência à trilogia que se tornou verdadeiramente clássica: o jejum, a oração e a esmola.
Se o jejum alude à vigilância que exercemos sobre nós mesmos para que não nos desviemos da grandeza da nossa condição humana, a oração remete-nos para a dimensão espiritual e crente segundo a qual é no encontro de amizade e gratidão com Deus que nos realizamos. A esmola manifesta a nossa fundamental orientação para os outros como um dom recíproco, o tema que o Papa Francisco escolheu para esta quaresma de 2017.
Embora o termo esmola tenha entre nós uma carga semântica muito redutora, lembrando uma perspetiva assistencialista, ele pode definir a essencial orientação para o próximo com o qual partilhamos a mesma humanidade e a mesma dignidade.
Todos somos testemunhas de uma enorme falta de sentido dos outros: à escala universal podemos ver nas tragédias humanitárias, na situação dramática dos refugiados e migrantes rejeitados em diferentes lugares do planeta, nos atentados ecológicos que causam sérios desequilíbrios na nossa casa comum, alguns dos sintomas mais evidentes; dentro dos âmbitos mais próximos em que nos movemos, encontramos todos os individualismos e egocentrismos que fazem de nós concorrentes uns dos outros no mundo familiar, laboral, económico ou político, algumas vezes estorvos uns dos outros, ou, no mínimo, autênticos estranhos uns aos outros.
O grande convite da quaresma “Convertei-vos a Mim de todo o coração” impele-nos a fazer caminho de mudança no pensamento, nos sentimentos, nas palavras e na ação, a fim de que o encontro com Deus nos leve a sentir que os outros, independentemente das circunstâncias pessoais que rodeiam a sua vida, são um dom para nós, e nós também somos um dom para eles.

Que o rito da imposição das cinzas, com um significado de tão grande alcance na tradição antropológica e religiosa judeo-cristã, nos conduza a um sério discernimento na mente e no coração e nos leve a intensificar o dinamismo da conversão, ou seja, a resituarmo-nos face ao que somos, ao que pensamos e ao que fazemos.

Coimbra, 1 de março de 2017
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra


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