Homilia da Solenidade da Rainha Santa Isabel

SOLENIDADE DE SANTA ISABEL DE PORTUGAL
IGREJA DO SANTA CLARA A NOVA - COIMBRA

Irmãos caríssimos!

A Solenidade de Santa Isabel de Portugal, a nossa Rainha Santa, traz de novo à nossa reflexão cristã o cerne do Evangelho de Jesus Cristo, que é a caridade. Em primeiro lugar porque Deus é caridade, Deus caritas est; depois, porque o cristão é discípulo de Cristo, o Filho de Deus, que fez da caridade o seu modo de ser e atuar no mundo.
As três leituras que escutámos, retiradas de entre as que no lecionário se apresentam para os santos que se dedicaram às obras de misericórdia, deixam-nos a certeza de que a condição da santidade é exatamente a daqueles que seguiram Cristo pela via do amor ao próximo, expresso na sua vida ou, segundo a expressão mais habitual, pelas suas obras.
O profeta Isaías, numa palavra crítica relativamente àqueles que fazem das suas práticas religiosas um modo de se aproximar de Deus esquecendo os irmãos, fala das obras de misericórdia como o único jejum que agrada ao Senhor: quebrar cadeias injustas, desatar laços de servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir jugos, repartir o pão com os famintos, dar pousada aos sem abrigo, dar roupa aos que a não têm, acolher os desprezados.
Estes são os gestos mais simples, frequentemente menosprezados, em nome da procura organizada de resolução das causas estruturais das injustiças. Se esta tarefa, urgente e necessária, depende dos poderes instituídos, das organizações públicas e privadas dotadas de maior responsabilidade, a atenção pessoal, familiar, local, é de todos e depende de cada um. Acresce o facto de por detrás das mais variadas estruturas e organizações, económicas, políticas, laborais, associativas, estarem sempre pessoas que, ou estão impregnadas dos valores humanos fundamentais e do respeito pela pessoa, ou dispostas a passar por cima de tudo e de todos para atingir os seus objetivos.
A Primeira Epístola de S. João, usando uma linguagem extremamente dura, chega ao ponto de considerar aquele que odeia os seus irmãos como homicida. Propõe, depois, como ideal de vida o amor aos irmãos, a ponto de estarmos prontos a dar a vida uns pelos outros, começando precisamente por repartir os próprios bens com quem tem necessidade e abrir o coração ao que precisa.
Estas duas dimensões, a partilha dos bens e a partilha da vida, constituem os dois pilares fundamentais da vida humana numa perspetiva cristã e são a base de todas as consequências éticas pregadas pelo Evangelho.
O capítulo 25 do Evangelho de S. Mateus, remate do ensino acerca do que é a vida em Cristo, apresenta-a como um fazer a Cristo aquilo que fazemos aos outros. Esta é a palavra definitiva da revelação sobre o verdadeiro culto, a religião pura e sem mancha: sem negar que começam no lugar sagrado e que incluem a relação com Deus no coração de cada pessoa e da comunidade, afirma peremptoriamente que atinge a sua maior verdade no amor ao próximo, expresso por palavras e sentimentos, nas obras e na vida. 

O Papa Francisco inclui entre os temas centrais da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium a dimensão social da evangelização e diz que “o kerigma (ou primeiro anúncio) possui um conteúdo inevitavelmente social: no próprio coração do Evangelho, aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros” (177).
Usando uma linguagem atual da teologia, bem fundada na linguagem bíblica, ele recorda-nos que “confessar que o Filho de Deus assumiu a nossa carne humana significa que cada pessoa humana foi elevada até ao próprio coração de Deus”, “que confessar que Jesus deu o seu sangue por nós nos impede de ter qualquer dúvida acerca do amor sem limites que enobrece todo ser humano” e que “a sua redenção tem um sentido social, porque Deus, em Cristo, não redime somente a pessoa individual, mas também as relações sociais entre os homens” (178).
Convida-nos a fazer a evangelização do mundo pela via da caridade bem entendida, como incarnação da comunhão com Deus e da promoção humana, o que leva a “deixar-se amar por Deus e a amá-lo com o amor que Ele mesmo nos comunica” e que “provoca na vida da pessoa e nas suas ações uma primeira e fundamental reação: desejar, procurar e levar a peito o bem dos outros” (178).
Dada a complexidade da situação que se vive na terra, que é a nossa casa comum, somos chamados a dois tipos de ação: à prática de uma caridade pessoal, familiar, de proximidade, pessoa a pessoa, baseada em programas de promoção e assistência, que manifeste a atenção minuciosa aos outros e às suas necessidades, por um lado, e a dar um efetivo contributo em ordem à transformação das causas estruturais que estão na origem das injustiças e desigualdades gritantes presentes na nossa sociedade.
A opção pelos pobres, presente no Evangelho e reafirmada pela doutrina social da Igreja, exprime o nosso grande desafio que consiste em valorizar o serviço à pessoa humana na sua condição de pessoa, simplesmente pelo que ela é. A evangelização passa, por isso, pela oferta tanto dos bens materiais como dos bens espirituais, que manifeste o radical amor humano, totalmente gratuito, a melhor revelação do eterno amor divino.
A conversão do coração do cristão como a conversão pastoral da Igreja implicam, por isso, a purificação das motivações que nos levam ao encontro do nosso próximo, especialmente ao encontro dos pobres com o pão ou com a palavra do Evangelho. Essa conversão implica sair, ir ao encontro, sem procurar quaisquer dividendos, com um amor semelhante ao de Cristo, dádiva gratuita, unicamente para melhor bem de cada pessoa e de todas as pessoas.

Santa Isabel de Portugal continua a desafiar a nossa cidade e a nossa diocese de Coimbra para que nos convertamos ao amor de Deus e ao amor aos homens.
A sua intervenção, umas vezes discreta, outras vezes explícita e veemente, junto do poder político, económico e religioso, procura transformar as estruturas injustas da sociedade do seu tempo; a sua prática da caridade na relação com os pobres e miseráveis da nossa terra relevam o sentido da dignidade humana de todos os filhos de Deus, que têm direito à herança que lhes cabe na terra,  a nossa casa comum.
Com a sua voz forte e determinada fez ouvir o clamor dos pobres, sedentos de paz e de justiça; com a sua mão bondosa e pródiga de misericórdia saciou de pão os famintos e consolou os atribulados do coração. 

Padroeira da nossa cidade, possa ela inspirar todas as suas instituições eclesiais, políticas, académicas, sociais, para que, juntos, trabalhemos no sentido de minorar as causas dos males humanos e sociais que ferem a dignidade humana.
Rainha Santa, que tanto veneramos, possa ela ensinar as pessoas, as famílias, os vizinhos e todos os que sentem as necessidades e os sofrimentos dos outros a estarmos lá, bem perto, com o regaço cheio de rosas, com as mãos cheias de pão e com o coração cheio de amor.

Coimbra, 4 de julho de2014

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