Homilia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus - 12-06-2015

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
ASSEMBLEIA DIOCESANA DO CLERO
CANTANHEDE – 2015.06.12

Caríssimos irmãos!
“Quando Israel era criança, já eu o amava”. Esta é a experiência original da fé de cada cristão: o conhecimento do amor de Deus, expresso na Escritura por este texto maravilhoso da Profecia de Oseias, que atribui a Deus os gestos e as atitudes mais caraterísticas de um pai ou de uma mãe.
Ele amou-nos desde crianças, chamou-nos para nos tirar dos lugares da destruição e da morte, Ela traz-nos nos braços, atrai-nos com laços humanos, laços de amor, inclina-se para nos dar de comer e estremece de compaixão divina, que ultrapassa completamente a compaixão humana, porque é Deus e não homem.
Caríssimos irmãos, precisamos de visitar continuamente esta experiência original da fé por meio da oração quotidiana, da celebração da Eucaristia, da Reconciliação e dos outros sacramentos, por meio da leitura orante da Palavra de Deus e da Liturgia da Horas, por meio do retiro anual e da recoleção mensal, por meio da meditação e contemplação silenciosa diante do Senhor no Santíssimo Sacramento da Eucaristia.
Mesmo quando já não compreendes que é o Senhor que cuida de ti, quando já te assemelhas a um funcionário da Igreja ou a um técnico do serviço religioso, Ele continua a vir ao teu encontro, porventura estremecendo ainda mais de compaixão, por ver a pobreza em que te encontras, a escravidão em que caíste; sobretudo aí, Ele não cede ao ardor da sua ira, mas revela-se como o Santo que está no meio de ti e que não vem para destruir, mas para perdoar, curar e salvar.
É esta experiência original do amor misericordioso de Deus, que está na origem da nossa fé, é ela que a alimenta e a faz crescer dia após dia. Todo o cristão e, por conseguinte, todo o sacerdote, é convidado a visitar e renovar constantemente esta experiência original, para fazer dela uma experiência sempre nova, sempre atual.
Pode acontecer que um padre, tão ocupado que anda com a ação pastoral, com o crescimento da fé do Povo de Deus, com a Evangelização, com a gestão e administração da Igreja, deixe para segundo plano o convite para crescer na fé, a tarefa de entrar em maior profundidade na experiência de encontro com Deus, a contemplação do coração misericordioso de Deus, a interiorização da certeza do seu perdão, o caminho de vida espiritual que faz parte da sua condição e da sua vocação.
Mesmo que a vida nos tenha dado momentos de maior distância ou ausência, mesmo que a experiência do amor misericordioso tenha fracassos, mesmo que a fé possa vacilar, o Senhor está disponível para nos ensinar de novo a andar, para nos levar nos braços, para cuidar de nós, para utilizar as expressões de Oseias. Diante de nós temos sempre aberta essa porta da revitalização da fé, que nos dará o novo ardor e nos fará estremecer de comoção diante da grandeza da misericórdia de Deus.

“É pela fé em Cristo que podemos aproximar-nos de Deus com toda a confiança”.
Sem sabermos como e sem explicação da lógica humana, Cristo irrompeu na nossa vida, pudemos conhecer a sua insondável riqueza, acolher o mistério escondido desde toda a eternidade, como nos dizia a Epístola aos Efésios.
A fé em Cristo Morto e Ressuscitado, um privilégio a que tivemos acesso por meio da graça de Deus que nos foi concedida, dá-nos a possibilidade de uma confiança e de uma esperança, cujo alcance não podemos compreender plenamente.
Quando falamos do testemunho que o mundo espera de nós, cristãos sacerdotes, devemos sentir que aqui se situa o seu núcleo central: o testemunho de alguém que vive na fé em Cristo Jesus, e que n’Ele encontra as razões mais profundas e mais autênticas para viver com confiança e esperança.
Ninguém aguarda simplesmente o testemunho de uma fé desencarnada, etérea, racional; a humanidade aguarda ansiosa por um testemunho de fé que faz viver com esperança, que tem uma resposta para as situações limite da vida, para a doença, para o sofrimento, para a morte, mas também para as situações quotidianas de solidão, falta de paz, ausência de sentido para o trabalho, para o sacrifício...
Ninguém aguarda simplesmente o testemunho de muito empenho religioso, de um exemplar cumprimento das regras e preceitos da Igreja, de um discurso teológico altamente elaborado; a humanidade aguarda o testemunho de homens de fé em Jesus Cristo, uma fé vivida na doação de si mesmo à Igreja, uma fé que preenche todos os recantos da vida, que motiva por dentro, que faz viver com esperança no meio de todas as provações e dá sentido a todas as alegrias.

“Profundamente enraizados na caridade”.
Na vida de Jesus como na vida dos seus discípulos, na vida do padre, tudo se resume na palavra amor/caridade.
O Evangelho, ao apresentar-nos Jesus na cruz, oferece-nos o ícone mais belo e mais perfeito da caridade de Deus como desafio à caridade dos homens.
O Coração de Jesus, que hoje celebramos, é o coração do Filho que acolhe o amor do Pai, que ama o Pai e que ama a humanidade até á morte e morte de cruz.
Podemos dizer que o padre, aquele que recebeu a vocação de se configurar com Cristo, recebeu o dom de O seguir naquilo que nos oferece de maior e melhor, o seu amor até ao fim.
Resta-nos discernir no Espírito os caminhos, os meios e os modos específicos da nossa vocação para realizarmos este desígnio; resta-nos depois pedir a força e a coragem para prosseguir com determinação e isso é fruto da conversão.
A nossa caridade de sacerdotes tem um nome, chama-se caridade pastoral, como forma específica de concretização do amor de Jesus no serviço à Igreja e a cada pessoa que tem o direito de chegar à fé, à esperança e ao amor com a ajuda do ministério que recebemos.

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