Homilia da Vigília Pascal 2014

Irmãos e irmãs

A noite santa da Páscoa leva-nos a atualizar a consciência da fé em Cristo Ressuscitado, o Senhor da morte e da vida.

Não há anúncio que a humanidade mais desejasse ouvir e nós ouvimo-lo na fé e acreditamos na sua verdade: podemos viver em Deus por toda a eternidade, vendo superados o sofrimento, o pecado e a morte.

Esta Solene Vigília Pascal leva-nos a reviver sacramentalmente essa novidade que chegou a nós e perdura no tempo da nossa história terrena, até que alcancemos a glória eterna, já aqui prefigurada.

A celebração Páscoa conduz-nos às raízes da nossa vida em Cristo, que é o acontecimento batismal, como nos refere o texto da Epístola aos Romanos.

Fazemos uma evocação histórica do batismo, mas fazemos igualmente memória no sentido de atualização permanente do que significa estar em Cristo em cada dia da nossa história.

No mais profundo de nós mesmos estamos unidos a Cristo pelos laços invisíveis da graça que nos foi concedida por meio da água e do Espírito Santo; em nós está a sua força e os gérmenes da santidade que somos convidados a desenvolver como resposta à sua vinda ao nosso encontro.

Somos novos por dentro, continuamente chamados a ser de Deus, a acolher a sua vontade, a dar lugar ao seu Espírito que renova todas as coisas, que nos santifica e nos abre as portas da vida.

A comunhão com Deus que nasce em nós pelo batismo tem a sua realização visível na comunhão com a Igreja, isto é, com os homens e mulheres que receberam o mesmo dom e nos quais, como ramos da mesma cepa, onde circula a seiva nova.

A comunhão eclesial faz-nos sentir irmãos uns dos outros, membros da mesma família espiritual, corresponsáveis uns com os outros e responsáveis uns pelos outros. Manifestamos a comunhão com Deus na comunhão com a Igreja concreta que formamos e que tem as suas diversas formas de realização: a nossa comunidade local, a comunidade paroquial, no dinamismo da Igreja Diocesana e da Igreja Universal.

Não há cristãos por conta própria, nem grupos, movimentos ou comunidades independentes desprovidos da comunhão eclesial como lugar de realização da comunhão com Cristo. Na mistério da comunhão está o nosso modo de ser cristãos, a nossa forma de viver o batismo e a nossa configuração com o Senhor Ressuscitado.

A vida em Igreja, no sentido de quem se sente acolhido por uma mãe atenta e cuidadosa, faz-nos sentir seguros do caminho que percorremos e é um indispensável amparo no meio das tribulações.

A vida em Igreja, no sentido de construir o Corpo de Cristo, harmonioso e belo, sinal da beleza criadora e salvadora de Deus, faz-nos sentir colaboradores da obra da redenção, apesar da nossa pobreza.

A vida em Igreja, no sentido de colaborar com ela na missão de irradiar a eterna novidade de Deus, resplandecente em Cristo Ressuscitado, faz-nos sentir pessoas amadas e escolhidas por Deus para levar a luz de Deus ao meio das trevas que cercam o mundo.

A novidade de Cristo deve transformar totalmente a nossa vida, por um lado, e transparecer como testemunho, por outro.

Ao falar da vocação universal à santidade, o Concílio Vaticano II quis afirmar que Cristo transforma a vida de cada cristão, para fazer dele uma pessoa íntegra em todas as dimensões. Este é um caminho porventura difícil, mas portador de uma paz que mais nada nem ninguém nos pode dar.

A novidade da vida do cristão define-se pelos objetivos evangélicos que se propõe alcançar, como a consciência reta, o amor como caminho, a partilha e o serviço como metas, a promoção da vida como objetivo, a comunhão humana como sinal de perfeição, a fé como horizonte, a esperança como abertura ao futuro terreno e eterno, a caridade como o corolário de tudo.

Além da dimensão pessoal e eclesial da sua vida, renovada pela união a Cristo, o cristão é chamado a transformar a comunidade humana e social de que faz parte. Não raro esta é a dimensão mais transcurada no nosso percurso individual e comunitário, porque ficamos voltados para dentro de nós, do nosso grupo, da comunidade cristã e da Igreja.

Uma das grandes novidades do nosso tempo, vindas do Espírito que renova a Igreja, pela voz do Papa Francisco, é a inserção do cristão e da Igreja no mundo. Não se trata somente, como se acentuou no passado, de se abrir ao mundo ou de dialogar com o mundo, como se de duas realidades totalmente distintas se tratasse.

Agora, o Papa pede-nos que estejamos no mundo, que transformemos este mundo que precisa do serviço imprescindível dos que são portadores da luz de Cristo, para que ilumine todas as suas realidades.

Irmãos e irmãs, correspondendo aos apelos de Jesus Cristo, expressos nas palavras do Papa, acolhamos a alegria do Evangelho, que “enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus” (EG 1) e disponhamo-nos a “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20).

Cristós anésti, Cristo ressuscitou! Aleluia.

Coimbra, Sé Nova, 19 de abril de 2014

 

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