Homilia das Vésperas da Solenidade da Imaculada Conceição

ANO SANTO DA MISERICÓRDIA
ABERTURA DO SANTUÁRIO DE SANTA MARIA, MÃE DA MISERICÓRDIA

 

Caríssimos irmãos e irmãs

Este é o primeiro ato celebrativo do Ano Santo da Misericórdia a nível diocesano, após a abertura da Porta Santa em Roma, que o Papa Francisco quis que fosse no dia 8 de dezembro, a Solenidade da Imaculada Conceição.
Este dia foi escolhido, porque, como ele nos disse na Bula O Rosto da Misericórdia, “Esta festa litúrgica indica o modo de agir de Deus desde os primórdios da nossa história. Depois do pecado de Adão e Eva, Deus não quis deixar a humanidade sozinha e à mercê do mal. Por isso, pensou e quis Maria santa e imaculada no amor (cf. Ef 1, 4), para que Se tornasse a Mãe do Redentor do homem. Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa.”
É para nós altamente simbólico realizar este primeiro ato, aqui, na Sé Velha, o lugar mais carregado de significado espiritual e eclesial em toda a nossa cidade e diocese de Coimbra. O facto de ter sido consagrada como Igreja Mãe e dedicada a Santa Maria de Coimbra sintetiza a teologia acerca da relação indissociável entre Maria e a Igreja, a Mulher e Mãe e o Povo de Deus ou Povo de Filhos.
POr meio de Maria, Jesus chegou até nós, entrou no tempo e na história, vimos o rosto misericordioso do Pai. Por meio da Igreja, continua a chegar a nós o mesmo dom de Deus, sempre novo e sempre atual, conhecemos o amor, a misericórdia e a  salvação alcançada pelo Senhor Jesus Cristo.
Ao longo da história, o povo cristão teve a capacidade de unir a devoção a Maria com a fé na Igreja. A piedade popular bem enraizada na nossa tradição religiosa portuguesa e na nossa diocese de Coimbra, manifestou uma força superior à elaborada tradição doutrinal das academias. Se muitos mestres se calaram aniquilados pelos argumentos de uma lógica racionalista, o Povo de Deus continua a proclamar com o coração e com a vida a certeza da fé em Deus, rico de misericórdia, apoiado pela mão materna de Maria.

A Igreja está no mundo com a missão de continuar a anunciar a todos os povos a grande misericórdia de Deus que nos ama e nos oferece os caminhos da salvação em Jesus Cristo. No fundo, a evangelização consiste em anunciar esta maravilha do amor de Deus, que salva, por meio de gestos concretos de misericórdia.
Noutras épocas a palavra de anúncio teve uma força mobilizadora, hoje valem sobretudo os testemunhos fiéis, de tal modo que a misericórdia é o caminho da Igreja no presente e no futuro, porque, poupando as palavras, profere corajosamente o discurso da vida.
Nalguns tempos da Igreja insistiu-se muito no sentido de pecado como caminho para a fé e criticou-se a falta de sentido de pecado como o seu maior obstáculo; hoje, sentimos que é essencial levar as pessoas a descobrir o sentido do amor e da misericórdia de Deus, cuja perda causou uma autêntica tragédia nos corações, pois o homem moderno é mais sensível ao anúncio da misericórdia do que à acusação de pecado.
“Onde abundou o pecado superabundou a graça”, afirma a Epístola aos Romanos escutada, pois a força do amor de Deus é sempre maior do que a infidelidade do nosso pecado. Por outro lado, o reconhecimento do pecado é o maior fruto do conhecimento do Deus misericórdia; de outro modo poderia tornar-se ocasião de revolta e motivo de desespero.
Na atualidade, os caminhos da evangelização passam pela tomada de consciência de que a Igreja e todos os seus membros são missionários da misericórdia. Nesse sentido, tem pleno cabimento o apelo à via mariana da evangelização, pois a palavra e os gestos de Maria constituem um verdadeiro caminho de evangelização por meio da experiência da misericórdia. A prática das obras de misericórdia corporais e espirituais, presentes na mensagem evangélica e sintetizadas pela tradição da Igreja continua a ser portadora de um potencial evangelizador, que não deixa ninguém indiferente, a ponto de o Papa declarar que “A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo.”

Ao convidar a Diocese a passar por este Santuário de Santa Maria, Mãe da Misericórdia, no âmbito da peregrinação jubilar, queremos repropor a via mariana para o encontro com a fé em Jesus Cristo, o rosto da misericórdia do Pai e, ao mesmo tempo, a via mariana para a evangelização do mundo, por meio do testemunho de pessoas e comunidades misericordiosas.
Ninguém como Maria viveu unida a Cristo e conheceu o verdadeiro rosto da misericórdia, como refere o Papa Francisco: “Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou, mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém” (O Rosto da Misericórdia).

Aqui, na Sé Velha, de forma solene, confiamos o caminho jubilar da Igreja à intercessão de Santa Maria e pedimos que conceda a todo o Povo de Deus o dom de acolher a graça e a misericórdia que supera todo o pecado e abre as portas da vida eterna.

Coimbra, Sé Velha, 8 de dezembro de 2015

 

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