Homilia de Quarta-feira de Cinzas - 10-02-2016

QUARTA FEIRA DE CINZAS DE 2016
HOMILIA DA MISSA NA SÉ NOVA DE COIMBRA

A Quaresma surge na nossa vida e na vida da Igreja como um forte convite à conversão: “Convertei-vos a mim de todo o coração”. O crente é aquele que acredita que não vive por si mesmo, mas está totalmente dependente do Senhor, que o criou pelo sopro do Seu espírito e o mantém na existência pelo Seu poder divino.
Converter-se a Ele de todo o coração é um movimento de fé, que nos leva pessoalmente e como Igreja a afirmar que queremos ir constantemente à fonte da vida. Somente quem crê que Deus está na origem de tudo o que existe e quem crê que Ele é a Vida, se dispõe a fazer este caminho, com esforço, mas igualmente com confiança e com alegria.
Como pessoas, somos fruto da iniciativa do Deus Criador que pensou em nós desde toda a eternidade; como filhos, nascemos da Sua vontade livre e amorosa que nos adotou para sermos seus; como Povo de Deus, somos comunidade que Ele estabeleceu no mundo para revelar as suas maravilhas e cantar a sua bondade sem fim.
A conversão é, por isso, a atitude livre de quem deixa de olhar para si mesmo, para os outros ou para as realidades deste mundo como fontes de vida e levanta os olhos para ver o rosto de Deus, em quem está a vida e a salvação. A conversão é uma atitude interior que nos faz esperar tudo de Deus, o Senhor, o Criador e a Fonte da Vida.

A Quaresma surge para nós e para a Igreja como uma confissão de fé em Deus, que é “clemente e compassivo, paciente e misericordioso”.
Na origem da profissão de fé está sempre uma experiência pessoal de encontro connosco e com os nossos pecados, que nos leva a ver os nossos limites; está igualmente presente uma experiência de encontro pessoal com Deus, Aquele que nos acolhe, nos liberta e nos perdoa.
O encontro pessoal com Cristo leva-nos a conhecer Deus, a perceber quem é e como nos trata. Nessa altura compreendemos que: mesmo quando os homens não são capazes de nos perdoar, Deus nos perdoa; quando os outros desistem de nos amar, Ele continua a amar-nos; quando os amigos já não nos suportam com paciência, Deus continua a aceitar-nos; quando já ninguém nos acompanha nos sofrimentos, Deus continua cheio de compaixão por nós, sofre connosco e comove-se interiormente por causa de nós.
O encontro com Cristo faz-nos conhecer a misericórdia do Pai e diz-nos do modo mais perfeito como Deus é e como Deus nos trata. O encontro com o Deus misericordioso é a porta aberta para a fé e para o caminho de conversão a que a Quaresma nos chama.

A leitura da Profecia de Joel convidava todo o Povo de Deus a fazer uma peregrinação interior, que o levaria à salvação: começava por fazer um forte apelo à conversão; proclamava que Deus é clemente e compassivo, paciente e misericordioso; conduzia ao reconhecimento do pecado e à súplica pelo perdão; por meio da pergunta “onde está o teu Deus?” declara que Ele está sempre presente junto dos que precisam de auxílio; e conclui com a afirmação de que Ele teve compaixão do seu povo e o salvou.
Também a nós o Senhor convida a viver a Quaresma deste ano como uma peregrinação interior marcada pelos mesmos momentos referidos pelo Profeta Joel.
Comecemos por acolher o chamamento à conversão como um convite pessoal, um convite que nos é dirigido a nós, homens que confiam nas suas capacidades e forças como se possuíssem a chave da vida e da morte, do sucesso e da felicidade, da alegria e da esperança. Acolhamos o chamamento à conversão dirigido à Igreja de que somos membros, em vez de pensar que pelo fato de estarmos nela e sermos praticantes já temos direitos adquiridos junto de Deus e já estamos salvos.
Professemos a fé em Deus, repetindo frequentemente, em oração, com a adesão da inteligência e do coração: “Senhor, Tu és clemente e compassivo, paciente e misericordioso. Nas variadas situações de debilidade, sofrimento e pecado que experimentamos, encontraremos espaço para afirmar o lugar de Deus em nós.
Serão muitos os momentos de pouca fé, em que sentimos a dúvida e a ausência que nos levam a perguntar: afinal “onde está o nosso Deus?”. Nessa altura, deixemos manifestar-se a Sua presença consoladora, permitamos que reavive a certeza de que nunca nos esquece nem abandona.
Tenhamos a coragem de reconhecer o nosso pecado e de pedir humildemente o seu perdão, por maior que seja o sentimento de culpa, por muito que nos atormente a ausência da graça que perdemos. Por muito que nos tenhamos afastado d’Ele, há sempre um pai de braços abertos para nos acolher e perdoar.
No silêncio da oração, agradeçamos ao Senhor porque tem compaixão do seu povo, porque tem compaixão de nós. Ele que é rico de misericórdia, porque é Deus e não um homem, aí estará sempre de coração aberto para curar, consolar e salvar os seus filhos.

Todos os tempos podem ser tempos favoráveis e de salvação. No entanto, este tempo santo da Quaresma, no Ano Santo da Misericórdia, constitui uma ocasião extraordinária para que se dê no coração de cada um de nós e no coração da Igreja o encontro pessoal que leva à conversão.
Que Maria, aquela que considerava tudo no silêncio do seu coração nos ajude a percorrer o caminho do encontro com Cristo que converte e que salva, o encontro com o Pai da misericórdia.

Coimbra, 10 de fevereiro de 2016

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