Homilia do 11º Aniversário da morte daIrmã Lúcia - Carmelo de Santa Teresa

SÁBADO DEPOIS DAS CINZAS

A página do Evangelho de S. Lucas, que escutámos, deu-nos a conhecer o centro da mensagem e da missão de Jesus: Eu vim chamar os pecadores, para que se arrependam.

Ao chamar o publicano Levi, sentado no posto de cobrança, um homem mal visto pela sociedade e um pecador, Jesus manifesta em primeiro lugar o que a seguir iria dizer: Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.
Podíamos deter-nos na atitude de Levi, que deixou tudo e seguiu Jesus, e ofereceu um grande banquete em sua casa. Nada teria acontecido e teria continuado tranquilo no seu pecado e no seu posto de cobrança se Jesus o não olhasse com misericórdia e o não elegesse, de acordo com o famoso e antigo comentário.
Deus vê o pecado do homem, mas olha sobretudo para o homem pecador, que cava a sua ruina, que caminha para a morte e não tem forças suficientes para se libertar das cadeias que o amarram. Essa desgraça humana toca em profundidade o coração de Deus, fá-lo debruçar-se sobre o pecador, abrir-lhe as mãos num gesto de socorro, de perdão e de chamamento, para que não se perca, mas se arrependa e se salve.
Esta página do Evangelho é um dos verdadeiros ícones da misericórdia do Pai, revelada em Jesus Cristo, seu Filho. Para salvar os pecadores, todos os homens são pecadores, o Pai enviou Jesus ao meio dos homens, onde pode ver de perto as suas necessidades, tocar as suas feridas, consolar o seu coração, impor as mãos, perdoar os seus pecados. Aquilo que o Deus invisível deseja e quer revelar e realizar, torna-se palpável e visível nas mãos e nas palavras de Jesus. A misericórdia do Pai não é uma ideia, um conceito, um texto poético ou uma metáfora espiritual, mas é uma realidade que se exprime e se experimenta no contacto pessoal com a pessoa do Filho, que incarna a misericórdia do Pai.
A vocação de Levi nasce no momento em que Jesus o viu como pecador, amou-o por conhecer a sua doença e precisar de médico, olhou para ele com misericórdia e propôs-lhe um caminho de cura, de arrependimento e de conversão. Nada nem ninguém, nenhum fariseu ou escriba, nenhum preconceito social ou religioso podia sobrepor-se ao amor misericordioso de Jesus por Levi, porque Ele ama e salva aquele homem pecador, acima de tudo deseja que ele se converta e viva.

A história da relação pessoal de Deus connosco tem os mesmos contornos e nasce do mesmo olhar misericordioso de Jesus, que nos vê, olha para nós, conhece o nosso pecado e chama-nos para que O sigamos no caminho do arrependimento a fim de que sejamos salvos. Nós somos os doentes que precisam de médico, os pecadores que precisam de arrependimento, aqueles que o Senhor escolheu por misericórdia.
O simples fato de sermos cristãos não nasce de uma descoberta, de um ato de boa vontade ou de uma decisão nossa, mas de uma eleição de Deus, que olha para nós e nos chama. A nossa vocação não nasce de um ato de generosidade da nossa parte, mas de um amor predileto de Deus, que nos descobre nos enredos da vida e nos convida a pormo-nos no caminho do seguimento. A vocação de consagração a que muitos de nós fomos chamados, a começar pelas irmãs deste Carmelo, não é o resultado de uma imensa capacidade de viver as virtudes humanas e cristãs, mas o fruto de uma especialíssima misericórdia divina que eleva o nosso nada até às alturas. 
Jesus viu cada um de nós sentado no seu posto de cobrança, tranquilo na sua condição de doente e pecador, instalado na rotina diária, satisfeito com a sua fé, pacificado com a sua religiosidade, ancorado no seu código de valores, descansado na sua segurança espiritual e na sua mediania moral.
As circunstâncias que nos deixam sentados e tranquilos motivam um eterno sobressalto do Senhor, a sonolência que nos deixa paralizados na vida é causa da comoção e convulsão de Deus até às entranhas mais profundas, o que tranquilamente nos leva à morte terrena e eterna faz o Filho de Deus vir ao mundo e entregar a sua vida ao Pai até à morte de cruz. 
Conhecer a notícia deste amor misericordioso de Deus, que ouvimos, vemos e tocamos na pessoa de Jesus, faz-nos levantar do sossego dos postos de cobrança que são a nossa vida, faz-nos elevar o olhar para cruzar com Ele o nosso olhar, faz-nos ouvir o imperativo claro e direto, “segue-Me”, faz-nos deixar tudo e segui-l’O. Nessa altura irrompe a maior alegria de Deus por um só pecador que se arrepende e renasce a alegria do filho perdido que se põe a caminho ao encontro do Pai, acolhe o seu abraço e entra de novo na Sua casa.

Quando pensamos nas aparições de Nossa Senhora em Fátima, parece-nos ver-se claramente atualizado este mistério de graça narrado pelo Evangelho. Como enviada de Deus, ela vem ao encontro da humanidade pecadora, traz no olhar triste e no coração cercado de espinhos o sofrimento de Deus que viu a miséria do seu povo, traz no rosto espelhado o olhar misericordioso do Pai que se comove com os seus filhos perdidos e está disposto a perdoar até à milésima geração.
Os Três Pastorinhos contemplam por graça esse olhar terno da Mãe que reflete o olhar de Deus. Como crianças totalmente desprovidas de poder, deixam-se tocar por dentro, acolhem e aceitam a força do Amor, que transforma, converte e salva, põem-se a caminho confiados na palavra reveladora do coração de Deus por meio do coração da Mãe de Misericórdia.
Os apelos repetidos de sacrifícios e orações pela conversão dos pecadores tornam-se a causa maior das suas vidas. A perdição maior só encontra saída no amor maior, o arrependimento é o sinal humano da fé no Deus que chama os pecadores para que se convertam e vivam.
“De tudo que puderdes, oferecei a Deus sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e súplica pela conversão dos pecadores (Segunda Memória da Irmã Lúcia). O pedido de Nossa Senhora entra no coração dos Pastorinhos como Palavra de Deus, de tal modo que se torna a motivação central das suas vidas e faz deles humildes servos do Evangelho da misericórdia.
A vida de Lúcia, Jacinta e Francisco é um autêntico sinal da fé no Deus de misericórdia, que se revela a todos os seus filhos e pode transformá-los para sempre. Por outro lado, mostra-nos como podemos viver a missão de testemunhar aos homens a misericórdia que abre as portas da conversão.

Não cessamos, por isso, de pedir o dom da sua canonização, para que a luz de Deus que brilhou nas suas vidas se torne mais refulgente no meio das trevas do nosso mundo, para que os homens se convertam e sejam salvos.

Coimbra, 13 de fevereiro de 2016

Plano Pastoral


Bispo Diocesano


Vaticano