Abertura da Porta Santa - Homilia do III Domingo do Advento

ANO SANTO DA MISERICÓRDIA
ABERTURA DA PORTA SANTA DO JUBILEU DA MISERICÓRDIA, SÉ NOVA
III DOMINGO DO ADVENTO B

Caríssimos irmãos e irmãs!

Abrimos, hoje, solenemente, na Diocese de Coimbra, a Porta Santa do Jubileu da Misericórdia, um sinal visível do convite que o Senhor nos faz a entrarmos por ela e sermos salvos. Este é um momento privilegiado de graça que Deus nos concede por meio da sua Igreja e fruto da iniciativa inspirada do Papa Francisco.
Queremos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que este ano jubilar chegue ao coração e à vida da Igreja, de cada comunidade e de cada fiel cristão, pois a misericórdia de Deus é sem fim e deve chegar a todos. Desejamos também que, por meio da Igreja, a graça do jubileu chegue às variadas realidades do mundo e às periferias existenciais da humanidade, onde se encontram muitos que nem sequer ousam esperar que Deus se lembre deles e olhe para eles.Que esta Porta Santa nos incentive a ir ao encontro de Deus, em caminho de conversão, e a ir ao encontro dos irmãos como mensageiros da misericórdia. Entrar por ela significa aproximar-se de Deus, que tomou a iniciativa de vir ao nosso encontro; sair por ela significa partir com o desejo de se converter, de transformar a Igreja e o Mundo segundo os desígnios de misericórdia do nosso Deus.
“O Senhor teu Deus está no meio de ti como poderoso salvador... renova-te com o seu amor”. A única via para a renovação pessoal e eclesial é a certeza de que o Senhor está no meio de nós como único salvador. Nem o poder da Lei, nem a força das palavras, nem a boa vontade das pessoas ou instituições têm capacidade para converter cada um de nós, a Igreja ou a humanidade, mas somente o conhecimento do amor de Deus, que se nos revela em Jesus Cristo, o rosto da misericórdia do Pai.

Diante do desafio de evangelizar o mundo, como marca fundamental da identidade e da missão da Igreja, há um caminho definido a percorrer, o da descoberta do Senhor presente em todas as situações da vida do Seu Povo. Ele está nas alegrias e tristezas de cada um de nós, nos momentos felizes e de sofrimento de cada povo, com uma palavra e um gesto, mas acima de tudo com uma presença silenciosa, quando todos os gestos ou palavras parecem estar a mais, por não haver ouvidos capazes de ouvir ou sensibilidade capaz de sentir. Estar simplesmente presente, acompanhar no caminho direito ou tortuoso da vida, sentir connosco, exclamar com alegria ou gritar de angústia, é a sua forma de se fazer um com cada pessoa e com cada comunidade. Este é o modo de ser de Deus, Aquele que é, que está e que permanece, não na distância dos céus, mas na proximidade da terra, onde há alguém, seja ele quem for, que vive e que sente, que fala e que faz silêncio, que sou eu e que és tu, os de dentro e os de fora, os justos e os pecadores...“Seja de todos conhecida a vossa bondade”.

A Epístola aos Filipenses convidava-nos a exprimir a misericórdia de Deus por meio da nossa bondade, que há de ser real e conhecida por todos. O caminho do seguimento de Cristo, bondoso, manso e humilde de coração é o caminho que temos de seguir para evangelizar o mundo.
Os homens e mulheres nossos irmãos têm o direito de esperar dos cristãos e da Igreja a bondade como modo de pensar, de sentir e de agir. Se as nossas palavras têm um impacto muito pequeno fora da Igreja, somente o testemunho de uma vida marcada pela radicalidade evangélica do serviço e da caridade podem entrar pelos olhos dos que esperam a novidade de Jesus Cristo.
É certo que a Igreja já realiza muitas obras concretas de caridade e de misericórdia, mas também é certo que, à mistura, há ainda muita incongruência, muito discurso vazio de conteúdo e de sentido, muita doutrina que não tem o suporte da vida, muito contra testemunho, muito escândalo, muitos interesses que abafam e destroem a credibilidade. Como diz a Escritura, ainda não foi até ao sangue o testemunho que damos, estamos muito presos a direitos, prerrogativas, desejos mundanos e pecados.
A bondade que o mundo espera de nós e que falará mais alto do que as nossas palavras passa pelo sacrifício de nós mesmos e das nossas instituições, passa pela mudança de costumes e de atitudes, passa pelo despojamento à maneira de Jesus, que não veio para ser servido, mas para dar a vida em resgate pela multidão.Quantas inquietações ainda temos, apesar de o Senhor nos pedir que não nos inquietemos com coisa alguma? Quanto pensamos em nós e no poder da Igreja, apesar de o Senhor nos ter enviado sem nada para o caminho? Quanta hipocrisia transportamos em nós, a ponto de nos sentirmos os mais puros e santos, apesar de o Senhor nos convidar à conversão e renovação do coração e da vida, para que tudo esperemos da sua graça?A caridade, o amor, a misericórdia, a bondade não é orgulhosa, não se vangloria, não se anuncia, mas vive-se na humildade, no aniquilamento, na entrega de si, no serviço absolutamente desinteressado.“Que devemos fazer?”

O Evangelho de Lucas oferecia a pergunta fundamental de todo aquele que se dispõe a ser discípulo e missionário da misericórdia do Pai. À pergunta das multidões -“que havemos de fazer?” – o Evangelho responde com as palavras de João Batista que convidam a praticar a misericórdia e conclui que ele “anunciava ao povo a Boa Nova”.Há um caminho que todos havemos de percorrer como pessoas, como comunidades e como Igreja para concretizarmos este objetivo central que é o anúncio da Boa Nova da misericórdia ou a evangelização do mundo.
O primeiro passo consiste em acolhermos nós próprios a misericórdia do Pai, que nos leva a sentir que somos os primeiros e os mais necessitados do abraço de Deus, que nos abençoa, nos consola e nos ama, no meio das nossas dores e pecados.
O segundo passo é a mudança de atitude de vida, a conversão de tudo em nós, inclusivamente a conversão do nosso modo de ser cristãos, de nos relacionarmos com Deus e de estar em Igreja. Passar de um a atitude passiva, de pessoas acomodadas nas suas certezas e seguranças a uma atitude ativa, própria do modelo proposto pelo Evangelho e relevado pelo Papa Francisco, quando nos falou da Igreja em saída.
O terceiro passo consiste em assumirmos que toda a Igreja é missionária da misericórdia e, por isso, reveladora do modo de ser de Deus. Cada cristão é missionário da misericórdia de Deus; cada comunidade é missionária da misericórdia do Pai; a Igreja realiza-se como sinal da salvação de Deus quando tem a ousadia de se esquecer de si para se centrar nos homens e os fazer sentir como Deus os ama incondicionalmente.
Em quarto lugar, havemos de organizar toda a pastoral da Igreja de modo a tornar visível o rosto do Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas.
Cabe-nos a nós, aos ministros ordenados, dar o primeiro passo, ir à frente, apontar caminhos que nós mesmos procuramos decididamente seguir e consolar as dores espirituais dos homens; cabe aos consagrados, que receberam o dom de Deus para o testemunho radical de entrega da vida, tocar com as suas mãos nas feridas daqueles que o Senhor quer curar; cabe, com certeza aos fiéis leigos, homens e mulheres, estar atentos e próximos de todos os que se cruzam nos seus caminhos, em todos os lugares do mundo em que vivem e trabalham.

Renovo o convite já feito aos cristãos a nossa Diocese de se deixarem seduzir pela misericórdia do Pai e trabalharem para ser fiéis missionários da misericórdia.A realização da peregrinação jubilar à Igreja de Santa Cruz, Santuário da Reconciliação, à Sé Velha, Santuário de Santa Maria, Mãe da Misericórdia, e à Sé Nova, passando pela Porta Santa do Jubileu, ajudará a fazer caminho interior e a alcançar a graça deste Ano Santo.

Confio a Nossa Senhora todos os irmãos e irmãs da nossa Diocese de Coimbra e peço-lhe que nos toque o coração com a alegria do encontro com o Seu filho Jesus, o rosto da misericórdia do Pai.


Coimbra, Sé Nova, 13 de dezembro de 2015

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