Homilia na Missa de Regresso da Imagem da Rainha Santa

XV DOMINGO COMUM C

MISSA NA SÉ NOVA E PROCISSÃO DE REGRESSO DA RAINHA SANTA ISABEL

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

A nossa cidade de Coimbra teve a graça de acolher Isabel de Aragão, de a ver percorrer os caminhos da santidade cristã e de a apresentar, hoje, ao mundo como Santa Isabel de Portugal, nossa protetora junto de Deus e brilhante inspiradora das nossas vidas.

A celebração dos 500 anos da sua beatificação mostra-nos como está bem viva a sua memória, como é grande a devoção que lhe dedica o povo de Coimbra e como pode continuar a ser figura de referência para todos, tanto para a Igreja, à qual aponta os caminhos da santidade, como para a sociedade civil, à qual indica as vias da concórdia e da paz, como para a comunidade académica e científica, à qual indica o grande desejo de procura da verdade mais profunda.

Se temos muitos homens e mulheres ilustres, que deixaram atrás de si um verdadeiro rasto de bondade, de justiça, de santidade, de humanidade e de sabedoria, nenhum entrou na memória coletiva do povo de Coimbra como a Rainha Santa Isabel, nenhum recebe um tão elevado grau de acolhimento como ela. E felizmente, porque ela foi uma mulher muito completa, que incarnou um ideal de vida repleto de valores humanos e cristãos perenes e universais, rapidamente reconhecidos pelo sentir do povo que a aclamou rainha e santa.

Passaram reis, nobres, plebeus, doutores, padres, religiosos; alguns deixaram os seus nomes inscritos nas ruas da cidade, ficaram ligados a monumentos, deixaram valioso património material e imaterial, fizeram progredir Coimbra no conhecimento, na fé e na cultura; a Rainha Santa ficou no coração do povo, que continua a aclamá-la com as suas palavras e com os seus gestos, que colhe dela luzes para a vida, lições de fé e de esperança para o seu peregrinar sobre a terra, com os olhos postos em Deus, que adoram e nos irmãos que servem.

 

O Evangelho de hoje, conhecido pelo episódio do Bom Samaritano, é uma das páginas incontornáveis do ensino de Jesus, que mais tem influenciado a história do mundo cristão.

Este ensinamento de Jesus trouxe algo de novo à humanidade e alargou as possibilidades de entender toda a pessoa como o próximo de qualquer outra pessoa, para além de qualquer outro qualificativo que possa ostentar.

Quando se assume abertamente o risco de criticar dois homens religiosos e pertencentes a um mesmo grupo étnico e político, para exaltar a atitude de um terceiro, estrangeiro e oficialmente pouco recomendável, afirma-se claramente que a dignidade de alguém não vem do seu estatuto social, da sua religião, da sua etnia. Todos participam da igual dignidade humana e o que os distingue é, acima de tudo, a atitude, a liberdade, a vontade, o coração, o lugar que dá a todos os outros mas, particularmente aos que estão em qualquer necessidade e nada têm para dar em troca.

Jesus assume abertamente que a pessoa está no centro e que como tal deve ser respeitada e amada com misericórdia. As circunstâncias da vida podem ser muito diversas, mas não eliminam a sua dignidade fundamental de pessoa e de criatura a quem Deus quer salvar, a quem oferece a vida em abundância. Nas condições mais deploráveis, um homem ou uma mulher, pobre, frágil, pecador, doente, à beira da morte, quase destruído pela suas escolhas erradas ou pela sua débil consciência, continua a ser uma pessoa a quem Deus ama e que somos convidados a amar.

Esta página do Evangelho ensina-nos qual é a verdadeira novidade trazida por Jesus. Um doutor da lei começa por perguntar o que deve fazer para alcançar a vida eterna. Pode ser um desejo comum ou quase universal, esse de cada um procurar o caminho da sua própria salvação, mas não corresponde ao que Jesus entende por um legítimo desejo humano e cristão.

O mesmo doutor da lei dá um passo significativo do seu percurso interior quando pergunta: e quem é o meu próximo? Percebe que fechado em si mesmo, no desejo de se salvar, não realiza a sua condição de pessoa. A abertura ao outro como seu próximo é essencial. O mesmo doutor da lei acaba por compreender que, afinal, o samaritano que reparou naquele que estava à beira do caminho, meio morto, que tratou dele e lhe deu novas condições de vida porque teve compaixão dele, foi, de facto, o seu próximo. O doutor da lei percebeu que a vida só tem pleno sentido se estamos disponíveis para ir e fazer o mesmo, ou seja, se aceitamos livre e responsavelmente ser o próximo de todo e qualquer um que se cruze connosco nas estradas da vida.

As nossas inquietações passam também por aqui. Frequentemente nos ficamos pela fundamental desejo de nos salvarmos a nós mesmos e ao nosso pequeno círculo familiar e humano. Algumas vezes, queremos saber quem é nosso próximo, assumimos a pergunta acerca dos outros e despendemos uma parte de nós, do nosso tempo, das nossas capacidades e dos nossos meios a procurar contribuir para o seu bem. Podemos mesmo chegar a sentir-nos o próximo dos outros e isso muda radicalmente os nossos objetivos, a nossa atitude de vida e as ações concretas a que realizamos.

 

Santa Isabel de Portugal entrou na devoção popular dos portugueses por encarnar esta novidade do Evangelho de Jesus. Não se tornou famosa por ser rainha, nem por ser rica e culta, e nem mesmo por ser cristã ou ter fé.

Ela entrou na devoção popular, que ainda hoje perdura, por olhar para cada pessoa em toda e qualquer circunstância, por reparar nas suas necessidades e sofrimentos, por ter compaixão por cada um.

Ela é amada pelo povo porque, como mulher, como cristã, como pessoa, acolheu a novidade do ensino e do agir de Jesus: tornou-se como Ele, boa samaritana da humanidade, usou de misericórdia como todo aquele que viu caído à beira do caminho.

Eis o grande milagre da sua vida. Eis o que significa a sua santidade. Eis o seu pão e as suas rosas. Eis a linguagem que toda a gente entende: cultos ou ignorantes, ateus ou crentes, estrangeiros ou cidadãos.

 

Obrigado, Rainha Santa Isabel, por continuardes a ser para Coimbra um ícone admirável da fé e das obras, a síntese acabada de uma peregrinação interior que nos mostra como podemos passar de levitas e sacerdotes a bons samaritanos da humanidade.

O pão distribuído em obras de misericórdia tem mais sabor quando perfumado pelo suave odor da fé e das rosas.

 

Coimbra, Sé Nova, 10 de julho de 2016

Virgílio do Nascimento Antunes

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