Homilia Solenidade da Imaculada Conceição - Universidade de Coimbra - 08-12-2014

Irmãos e irmãs!

No meio das longas controvérsias históricas acerca do lugar de Nossa Senhora no contexto da fé cristã, a Diocese de Coimbra foi das primeiras cidades a acolher, professar e celebrar a sua Imaculada Conceição. Logo a seguir se juntou a Universidade, num gesto de louvor e gratidão a Deus, mas também altamente desafiador da fé e da razão, as duas asas do saber teológico. 
Ao longo da história, sempre as grandes questões de difícil resposta foram objecto de controvérsia e, ao mesmo tempo, despertaram o desejo de investigar para conhecer mais. Se as questões ligadas à vida e à sua preservação estão entre as que mais mobilizam todo o processo, não menos importantes são as que se prendem com o sentido da vida, que preocuparam filósofos, teólogos e cientistas, porque existem em todas as pessoas que querem correr o risco de o ser com consciência, responsabilidade e liberdade.
Diante de uma certa crise de pensamento, consequência da ditadura do imediato e dos desafios incontrolados do pragmatismo, passa-se a viver ao ritmo das circunstâncias impostas pela sociedade e, frequentemente, ficam na sombra as tentativas de dar resposta às grandes questões de sempre.

O dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, orientado para o mistério da incarnação do Verbo de Deus e enquadrado no conteúdo fundamental da fé cristã, que tem por centro a morte e ressurreição de Jesus, constitui um desses desafios que, por um lado, provocam a fé e a razão e, por outro, provocam a vida e o modo de estar nela. No fundo, trata-se sempre do lugar de Deus no conhecimento, na fé e na vida da humanidade, das inquietações e provocações que traz tanto ao homem da rua como ao investigador da academia.
Se há questões que é difícil arrumar, a fé em Deus é uma delas e nós, todos os anos temos a graça de a retomar de muitas maneiras, incluída esta celebração da Padroeira da Universidade de Coimbra, a Solenidade da Imaculada Conceição. Havemos de ser gratos para com os nossos antepassados que, entre as inúmeras possibilidades de escolha de um patrono para a Universidade, escolheram precisamente a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, um dos dogmas que mais desafiam a inteligência, a razão e até a fé, como que a traçar a vocação da Academia, unida à vocação de toda a pessoa: nunca desistir de procurar o conhecimento da verdade, numa perspectiva de abertura total a percorrer os caminhos para a encontrar; nunca desistir de viver de acordo com a verdade que liberta, mesmo sabendo que se trata de um processo sempre inacabado. 
Na sua linguagem própria, a leitura do Livro do Génesis dá-nos conta dessas interrogações e anseios que sempre habitam o coração da humanidade. Por meio da confluência de duas diferentes tradições ou fontes literárias, a que se refere à árvore do conhecimento do bem e do mal e a que se refere à árvore da perenidade da vida, o hagiógrafo abre-se à possibilidade de transformação da realidade e da vida.
A oposição entre a serpente enganadora e incapaz de procurar a verdade, que rastejará e comerá do pó da terra, e a mulher, que não se contenta com os seus enganos, mas procura a verdade e será a mãe de todos os viventes, fala-nos de todas as possibilidades de renovação e transformação do que somos, vivemos ou fazemos. 
A humanidade tem sempre a possibilidade de se renovar e transformar, desde que se abra à verdade e não se canse de procurar ser livre diante de todas as propostas de escravidão que a cercam e prendem ao pó da terra. 
Na sua interpretação deste passo do Livro do Génesis, a fé cristã identificou a profecia messiânica acerca da vinda do Filho de Deus e Salvador do mundo, incarnado no seio puro de Maria, a mulher, a nova Eva, a Mãe do Vivente e de todos os viventes. Conhecê-l’O, aderir a Ele, amá-l’O, fazer d’Ele o caminho para a Verdade e permanecer n’Ele como a Vida, são passos essenciais da existência cristã, que abrem horizontes de renovação e transformação pessoal e comunitária. 
A Solenidade da Imaculada Conceição de Maria e a Solenidade do Natal do Senhor que celebraremos dentro de pouco tempo constituem dois momentos significativos do arco de todo o Ano Litúrgico a desinstalar-nos das nossas comodidades interiores e existenciais, mas também das nossas passividades familiares, sociais, laborais ou humanitárias. 
É preciso ir mais longe no caminho de construção interior de nós mesmos, pois há ideais de liberdade por percorrer; é preciso ir mais longe na missão de transformar a sociedade, porque há situações gritantes de infelicidade e injustiça, cuja superação está claramente ao nosso alcance; é preciso ir mais longe na procura da verdade, livres das cadeias dos preconceitos de qualquer ordem, porque o espírito livre chega mais alto. 
A conclusão do trecho do Evangelista Lucas, hoje escutada, dá-nos a metodologia adequada, que é a atitude fundamental de Nossa Senhora, que nos leva a celebrar a sua memória, expressa na frase da sua vida: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”. Trata-se da humildade diante do mistério de Deus e diante do mistério do Homem; da disponibilidade para acolher Deus, o Senhor, como amor e verdade; e ainda da grandeza de coração para amar os irmãos, com o sacrifício de planos, projetos, gostos e da própria vida.
Esta Solenidade diz-nos que é possível renovar e transformar a sociedade que nós somos, repleta de debilidades, sofrimentos e injustiças, se estivermos disponíveis para mudar de metodologia e atitude, inspirados no lema de Maria: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo o tua palavra”.

Capela de S. Miguel, Universidade de Coimbra, 08 de dezembro de 2014

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