Homilia Solenidade da Santíssima Trindade - Dia da Igreja Diocesana - 31-05-2015

PARQUE DOS HERÓIS DO ULTRAMAR, COIMBRA, 2015-05-30

Caríssimos irmãos e irmãs!
Este é o dia que esperávamos desde o princípio do ano pastoral, quando a nossa Diocese de Coimbra nos anunciou as linhas de força para a nossa vida de cristãos e para a nossa ação pastoral de membros da Igreja, enquanto discípulos missionários.
Estamos reunidos de todos os lugares para proclamarmos juntos as maravilhas que o Senhor tem feito em nós, desde que nos constituiu como porção do Seu Povo, como Diocese de Coimbra, na comunhão da Igreja Católica e Apostólica, que diariamente luta para ser una e santa.

Na Solenidade da Santíssima Trindade, ouvíamos como dirigida a nós a pergunta do livro do Deuteronómio: Qual foi o Deus que formou para si uma nação no seio de outra nação... como fez por vós o Senhor vosso Deus? De facto, tudo o que nós somos como cristãos e como Igreja começou com uma escolha amorosa do Senhor, que olhou para nós cheio de misericórdia e nos convidou a pertencer ao seu Povo, ao número dos seus filhos, daqueles a quem se deu a conhecer “por meio de provas, sinais, prodígios e combates, juntamente com tremendas maravilhas”, como continuava o autor sagrado.
Somos, hoje, a Igreja de Deus estabelecida em Coimbra, que nasceu já no séc. IV ou V, de acordo com os dados da História. Quantas provas, sinais, prodígios, combates e maravilhas, não passámos para chegar até ao momento presente! Sempre com a mesma certeza: “ para seres feliz, tu e os teus filhos depois e ti, e tenhas longa vida na terra que o Senhor teu Deus te vai dar para sempre”. Isto é, para que sejamos felizes no tempo e na eternidade, agora e no além, figurados na difícil permanência Do Povo de Israel no Egito, mas sempre na esperança de entrar na Terra da Promessa.
No meio das tribulações e combates que experimentamos para sermos fiéis ao chamamento que recebemos, enquanto Povo que caminha sobre esta terra, nunca deixamos de acreditar que a nossa pátria é o Céu, a eternidade, Deus, a felicidade e salvação para a qual fomos criados e escolhidos.
“O Senhor é o único Deus, no alto dos céus e cá em baixo na terra”, afirmava o texto sagrado, e nós fomos chamados a viver na Igreja dessa certeza, que mais ninguém nos pode dar. Abrirmo-nos à fé n’Ele e vivê-la com alegria e esperança é a marca caraterística da nossa identidade de crentes, é o nosso modo de ser e de estar no meio do um mundo que se agarra a muitas pretensas certezas, a variadas e parciais vias de salvação, a limitados caminhos de esperança. Nós proclamamos que o Senhor é o único Deus, que é o nosso Criador e o nosso Pai, Aquele que nos ama, nos faz felizes e nos oferece a esperança da salvação eterna.
A Segunda leitura que escutámos levava-nos a reconhecer a centralidade de Jesus Cristo como Filho de Deus e, por meio d’Ele, a acolher a condição de filhos de Deus, do Pai que nos ama e nos concede a graça de sermos herdeiros de todos os bens que nos oferece.
Animados pelo Espírito de adoção filial, podemos chamar a Deus: Abbá, Pai. Esta é a maior maravilha da fé: se nos deixamos conduzir pelo Espírito de Deus, somos filhos de Deus, abandonamos o espírito de escravidão e em nós não há temor, mas amor, porque estamos nas mãos de Deus, o nosso Pai.
Animado pelo Espírito, Jesus passou pelo sofrimento, pela paixão e pela morte, mas nunca ficou abandonado, estava nas mãos do Pai, a quem se confiou totalmente.
Não há grandeza maior do que ser filho de Deus, com Cristo e por meio da força do Espírito Santo. Esse é o mistério que nos envolve e a graça que nos permite viver.
Não somos simplesmente crentes em Deus, somos homens e mulheres que procuram acolher o Espírito, somos filhos de Deus e irmãos em Cristo. Não será esta a maior maravilha que o Senhor fez depois de nos ter criado, tornar-nos seus filhos e herdeiros da glória com Cristo e por meio de Cristo?
Quem algum dia aceitou o encontro pessoal e íntimo com Ele e experimentou o seu amor, tornou-se seu discípulo, permanece no seu amor, não pode viver sem a sua presença portadora de esperança em todos os momentos.

O texto do Evangelho de S. Mateus reafirmava a vocação missionária de todo o discípulo de Jesus. Trata-se de um imperativo do coração: o que se conhece e o que se ama tem de ser anunciado, não pode calar-se. O verdadeiro discípulo, aquele que se encontrou com a Boa Nova viva e atuante, é inevitavelmente missionário; quem tem Cristo no coração e na vida como a sua alegria e a sua esperança, corre incansavelmente para o levar aos outros, porque a caridade o impele.
Se frequentemente somos frouxos no desejo de evangelizar, se nos fechamos na nossa fé, se não fazemos crescer a Igreja, é porque somos fracos discípulos de Jesus Cristo, é porque a sua Boa Nova ainda não revolucionou a nossa vida, é porque ainda não deixámos que Ele aquecesse o nosso coração.
Se a Igreja Diocesana de Coimbra se vê com escassez de evangelizadores, sacerdotes, consagrados e leigos, é porque ainda vive mais da tradição cultural cristã do que da fé no Senhor Jesus Cristo, ainda confia mais na força da sua organização humana do que na força do Espírito de Deus.

“Ide e fazei discípulos de todas as nações ... batizando-as ... e ensinando-as”.
Estas são palavras do final do Evangelho, verdadeiramente inspiradoras para a atualidade da vida da Igreja e da nossa Diocese. No Plano Pastoral que estamos a executar como uma ajuda para fazermos a renovação da Igreja que se espera no nosso tempo, queremos privilegiar as seguintes dimensões, expressas na referida frase do Evangelho:
“Ide”. Este é o imperativo que o Senhor nos dirige. Não se trata de um conselho ou de uma simples exortação, mas de uma ordem ou preceito a cumprir. Numa outra linguagem, o papa Francisco falou-nos da Igreja em saída, que se desinstala, sai para fora de portas, proclama com alegria e entusiasmo o Evangelho que recebeu, o Cristo que tem no coração e dá sentido à vida.
“Fazei discípulos”. É o objetivo da saída. Não se trata de trabalhar para as estatísticas nem para o mérito pessoal ou institucional, mas para tornar mais belo e mais santo o Corpo de Cristo, a sua Igreja, sacramento de salvação universal. O discípulo é o que segue o Mestre para onde quer que vá e o que convida outros a serem discípulos. Não o fará sem o entusiasmo da experiência de fé. Também não poderá fazê-lo sem utilizar os meios e os métodos adequados para a transmissão da experiência de fé ao homem de hoje. Com razão o Papa João Paulo II nos convidou a fazer a nova evangelização, marcada pelo novo ardor e pelos novas formas de levar Cristo ao mundo.
“Batizando-as”. A comunidade cristã, povo de discípulos, nasce pelo batismo, a verdadeira porta da fé. Alimenta-se da Palavra de Deus e dos sacramentos, sobretudo da Eucaristia. Em toda a ação evangelizadora ocupa lugar central a liturgia celebrada com fé e como ação sagrada, por meio da qual Cristo vem ao nosso encontro e nos eleva até ao Pai, por meio da força do Espírito. Continuaremos a propor à Diocese a leitura orante da Palavra de Deus ou lectio divina, e a pedir a todas as comunidades que celebrem a Eucaristia e os outros sacramentos como os pontos mais altos da sua vida.
“Ensinando-as”. As comunidades cristãs primitivas levaram a sério a missão de ensinar, de tal modo que o Livro dos Atos dos Apóstolos refere diversas vezes esta ação como essencial para o processo de crescimento da Igreja tanto no mundo judaico como no mundo pagão. A catequese da infância já estruturada entre nós, responde a este requisito. O nosso esforço diocesano volta-se, agora, para a catequese de adultos que, desejamos se torne uma prática habitual em todas as comunidades cristãs.
Queremos corresponder ao mandato do Senhor, porque desejamos ser fiéis à nossa vocação cristã; queremos assumir a nossa condição de discípulos missionários; queremos levar aos outros o dom da fé que já habita nos nossos corações, porque a caridade nos impele.

A Maria confiamos esta Diocese de Coimbra que, desde sempre lhe pertence, a fim de que a proteja, guarde e acompanhe nos caminhos da fé e da evangelização, para que viva na esperança e seja salva no nome de seu Filho Jesus Cristo.

Plano Pastoral


Bispo Diocesano


Vaticano