Homilia XXVII Domingo Comum A - Abertura do Ano Pastoral -

O dia da abertura solene do novo ano pastoral da nossa Diocese de Coimbra é ocasião para reafirmarmos a alegria de conhecer o Evangelho, a alegria de sermos de Cristo e de vivermos na comunhão da Igreja. 
A liturgia deste domingo leva-nos ao essencial da fé e revela-nos o amor de Deus ao Seu Povo, a vinha que Ele protege e cultiva com o cuidado de amigo e de pai; revela-nos ainda que Deus precisa de nós como seus cooperadores e convida-nos a trabalhar com alegria e confiança para que o Seu Povo produza frutos de santidade.

Comecemos esta reflexão pela certeza de que a fé cristã não consiste simplesmente em acreditarmos que Deus existe, mas em conhecermos o seu amor por nós e pela humanidade, como os filhos conhecem o amor incondicional dos seus pais.
De facto, para que alguém dê o passo no sentido de ser cristão é preciso que chegue a conhecer o Deus pessoal com a inteligência e a senti-l’O com o coração; é preciso confiar que Ele se volta para nós com sentimentos de misericórdia, que toma as nossas alegrias e dores e não tem repouso enquanto não nos vê no caminho da salvação. 
Alguns precisam de percorrer um longo caminho, que pode ser toda uma vida, para apreenderem os sinais desse amor incondicional de Deus; outros têm a graça de, num dado momento da sua vida, embaterem contra essa muralha de misericórdia que se torna intransponível e faz ver a realidade à luz da fé.
Certo é que, tudo o que possam parecer sinais de fé que não assentem neste encontro pessoal com o Deus amor e misericórdia, podem reduzir-se a gestos e manifestações religiosas vazios de sentido sobrenatural.
A linguagem do Livro de Isaías e do Evangelho de São Mateus acerca do cuidado e desvelo que o Senhor tem com a sua vinha, pretende dar-nos a conhecer quem Deus é para nós e, ao mesmo tempo, o que espera de nós: sendo Ele amor para nós, só podemos responder-lhe fielmente com amor.
Depois de mandar os seus servos, o dono da vinha envia o seu próprio filho, numa alusão muito clara a Jesus, o Filho de Deus e enviado pelo Pai, como sinal máximo desse seu amor: para salvar os que eram escravos do pecado, entregou o seu próprio filho. Como poderemos ser cristãos e ter entusiasmo para viver a fé, para ser apóstolos missionários sem conhecer este amor de Deus, que nos foi revelado em Jesus Cristo?

A fé cristã faz de nós cooperadores de Deus na tarefa de cuidar da sua vinha, de fazer crescer e frutificar a sua Igreja. O cristão é chamado a ser servo do Senhor e é enviado em missão, a anunciar a Boa Nova do Reino dentro da Igreja e fora dela, onde quer que haja homens e mulheres a precisar do encontro com Cristo Salvador e necessitados de conhecer o poder transformador do seu amor. 
Nas novas circunstâncias em que vivemos a fé e no contexto de uma Igreja Povo de Deus, enriquecida com dons e carismas distribuídos pelo Espírito Santo para bem de todo o Corpo, sentimo-nos chamados a ser discípulos  enviados em missão.
A grande riqueza e a grande força da Igreja do nosso tempo não está na sua tradição, nem na sua cultura ou na sua longa história, mas está na pessoa de todos os seus membros que, animados pelo Espírito, assumem a sua vocação e missão de forma corajosa, como servos e cooperadores do Senhor Jesus Cristo que ama os seus irmãos e dá a vida por eles. 
O futuro das nossas comunidades cristãs está nas nossas mãos, pois o Senhor enviou-nos cheios do seu Espírito aos povos e nações como trabalhadores da sua vinha. O que seria a Igreja Diocesana nas suas variadas paróquias e comunidades sem a vossa fé e sem o serviço alegre e generoso que realizais? 
A fidelidade ao dom que recebemos é portadora de uma indizível alegria, semelhante à dos discípulos que regressavam cheios de entusiasmo depois de anunciarem a Palavra e verem os prodígios que ela realizava; mas é igualmente portadora de incompreensões e perseguições, semelhantes às experimentadas pelos servos descritos na parábola dos vinhateiros e por todos nós na ação pastoral. 
Caminhamos com coragem, determinação e amor, pois o discípulo missionário fiel vê para além das alegrias ou as perseguições de cada momento, ele apoia-se no poder de Deus e acredita que a pedra rejeitada veio a tornar-se pedra angular, isto é, que assim como Cristo crucificado foi exaltado por Deus, também aqueles que são crucificados com Ele receberão a consolação preparada para os eleitos de Deus.

Estamos a iniciar um novo ano pastoral orientados pelos quatro objetivos do Plano Pastoral dado à Diocese para que faça deles o elemento polarizador e mobilizador da sua ação. Continuaremos a desenvolver ações conducentes à realização do encontro pessoal com Cristo através do primeiro anúncio, à criação do dinamismo do discipulado missionário, à criação do sentido de pertença eclesial e ao fomento da corresponsabilidade nas unidades pastorais. 
Este ano aprofundaremos a nossa condição de discípulos de Jesus Cristo, missionários que anunciam por palavras e por obras a alegria de O conhecer e de O seguir na vida. Reconheceremos que a nossa primeira missão consiste em seguir o Mestre, condição essencial de credibilidade no momento de convidar outros a segui-l’O. 
 Prestaremos especial cuidado ao processo de implementação da catequese de adultos, tão necessária para aqueles que estão nas margens da fé, para os que precisam de conhecer melhor a Deus para O amar mais, para os que se encontram nas fronteiras da Igreja e podem vir a estar nela de forma consciente e alegre. 
No início deste ano pastoral temos um outro grande desafio pela frente. Trata-se da renovação do Semanário Diocesano “Correio de Coimbra” e do desenvolvimento do projeto já apresentado na peregrinação diocesana a Fátima, designado “Amo a Igreja, leio o seu jornal”. Pretende ser um meio de coesão diocesana, que potencie a comunhão entre todas as comunidades cristãs e fortaleça o sentido de pertença eclesial de todos nós. Já tive oportunidade de o definir como um projeto diocesano, a par de outros que, pela sua importância, devem envolver a totalidade do Povo de Deus e das comunidades cristãs, com os seus principais responsáveis na primeira linha: ministros ordenados, consagrados e leigos. O sucesso deste projeto constituirá um dos sinais da comunhão de pessoas, comunidades e objetivos da Igreja Diocesana.

Irmãos e irmãs, queira Deus que pela nossa negligência ou infidelidade o Reino de Deus não nos venha a ser tirado para ser dado a outros que lhe produzam os frutos, como referia a parábola acerca dos vinhateiros homicidas. 
Sentimo-nos pequenos e pobres diante desta imensa vinha, que é a humanidade de perto e de longe, que Deus ama e quer salvar pelo conhecimento do nome de Seu Filho Jesus Cristo. Animados pelo Espírito Santo e sentindo-nos amados de Deus por meio de Jesus Cristo, lançamo-nos nesta grande aventura de ser servos do Evangelho, servos de Deus, servos da Igreja e servos dos homens.

Coimbra, Sé Nova, 05 de outubro de 2014

 

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