I ANIVERSÁRIO DA MORTE DE D. ALBINO CLETO - BISPO DE COIMBRA - MISSA DO XI DOMINGO COMUM C, NA SÉ NOVA

Na nossa celebração de hoje recordamos D. Albino Cleto, bispo de Coimbra, por ocasião do primeiro aniversário da sua morte, que ocorreu ontem, dia 15 de junho. Agradecemos a Deus tudo o que ele foi, o grande testemunho da sua vida e o serviço que prestou à Igreja, concretamente, à nossa Igreja Diocesana de Coimbra.

Todos estamos marcados pela característica mais visível do seu testemunho: a proximidade na relação com todos, a simplicidade da sua amizade genuína. Quanto ao seu serviço à Igreja, não temos dificuldade em o caracterizar como homem e cristão de uma paixão plena, que preencheu todos os seus sonhos e desejos.

Pelos testemunhos espontâneos colhidos em toda a Diocese e pelo que vimos pessoalmente, sabemos que a vida de D. Albino Cleto foi uma autêntica página da Boa Nova de Deus, que não cessa de enviar homens e mulheres que incarnam o seu amor e o tornam visível aos que continuam sedentos dele.

 

“Como ousaste desprezar a palavra do Senhor?” Dura pergunta, inicialmente dirigida ao rei David, amado por Deus e escolhido para ser o condutor do seu povo. Não foi digno de tudo o que recebeu e desprezou inclusivamente o amor e a palavra de Deus, pecando gravemente contra os pobres do seu povo e contra Aquele que o escolheu.

Não é fácil enfrentarmos a mesma pergunta, nós, a quem Deus deu a conhecer o seu amor por meio da fé e a quem a vida ofereceu as maiores oportunidades. Como ousamos desprezar a palavra do Senhor, que se manifesta em tudo aquilo que somos, que temos e que conhecemos? Pelo pecado, em primeiro lugar, que é menosprezo de Deus e injustiça contra os outros, mas igualmente por muitas omissões, que privam a Igreja e o mundo de muito do que podíamos e devíamos dar-lhe.

O Senhor perdoou o pecado de David, concluía o Livro de Samuel, porque confessou o seu pecado e manifestou o arrependimento. No entanto, as consequências desse pecado, como o desprezo pelo próximo, a injustiça e a morte que gerou, não se podem apagar, ficam como resíduos indestrutíveis a pesar nas pessoas em particular e, de algum modo, em toda a humanidade. Todos sofremos de certo modo as consequências do pecado dos outros e eles as do nosso.

 

“Vivo animado pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. O cristão tem tudo em comum com os outros homens e mulheres, pois não é um ser de natureza diferente. O seu distintivo encontra-se admiravelmente formulado por Paulo na Epístola aos Gálatas, quando nos fala da fé de Jesus Cristo como a única realidade que nos justifica e salva, e fala-nos da vida em Cristo, como realidade que faz do cristão alguém que conhece e acolhe Deus.

Sem transformarmos a vida cristã num espiritualismo ou num intimismo, precisamos de continuar a fazer um caminho de aprofundamento da fé e da caridade que nos leve a aceitar que Cristo viva em nós para que nós vivamos n’Ele, parafraseando a máxima extremamente clara e expressiva do Apóstolo Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.

Totalmente tomado por Cristo e pelo seu amor, a viver em Cristo, Paulo não se tornou um homem distante dos outros homens, nem da sociedade do seu tempo. Pelo contrário, sentiu-se mais integrado e disponível para trabalhar incansavelmente pela humanidade, indo ao essencial: viver para Deus e dar a conhecer Jesus Cristo seu Senhor, que o amou e por ele se entregou à morte.

Com Paulo aprendemos que a fé sobrenatural é a realidade que faz a diferença na nossa vida de cristãos. Não nos definimos pela ação que desenvolvemos, nem pelas ideias que veiculamos, mas por acreditarmos em Jesus Cristo, por vivermos uma relação misteriosa com Ele e por fazermos d’Ele o fundamento da nossa vida.

Com Paulo aprendemos que a evangelização não é algo facultativo na nossa vida de cristãos ou algo de acessório na vida da Igreja. Trata-se de ir ao essencial no que respeita ao contributo específico que podemos dar à humanidade: levar ao encontro pessoal com Cristo, Único Salvador.

A Igreja é evangelizadora por meio do seu testemunho e por meio das ações organizadas que desenvolve e que envolvem muitos dos seus membros a tempo inteiro ou parcial; o cristão é evangelizador desempenhando tarefas diretamente orientadas nesse sentido, mas é igualmente evangelizador exercendo com espírito de fé e em Cristo todas as tarefas humanas e sociais que fazem parte do seu estado de vida.

Todos vós, caríssimos irmãos, que habitualmente aqui celebrais a missa dominical e que estais envolvidos em tarefas académicas, tendes a grande missão de ser cristãos bem enraizados na fé em Cristo e de evangelizar o mundo universitário de Coimbra. Como dizia Paulo, não podeis tornar inútil a graça que recebestes ou esvaziar a cruz de Cristo, a sua paixão, a sua morte e a sua ressurreição.

Para além do testemunho pessoal de fé que somos chamados a dar, precisamos de desenvolver neste meio académico uma ação organizada, entusiasta e ousada de anúncio do Evangelho. Enquanto Igreja havemos de nos centrar no essencial, que consiste em proporcionar os meios de encontro com pessoal com Cristo pela promoção da vida espiritual, da leitura das realidades sociais, culturais e humanas à luz do Evangelho, de momentos fortes de oração e de catequese e ainda por meio de uma liturgia bem celebrada e densa de espiritualidade.

Temos de interrogar-nos muito seriamente acerca do modo como estamos a realizar a nossa de evangelizar este mundo académico onde somos cristãos. Permito-me deixar uma pergunta inquietante para mim e para vós, caríssimos amigos: que meios, propostas e iniciativas de primeiro anúncio, de aprofundamento e crescimento da fé, de inserção na vida eclesial, de vivência espiritual, de catequese e de oração encontra quem chega a Coimbra para fazer o seu percurso académico?

Ouso pedir a todos os organismos, movimentos, secretariados, serviços, entidades aqui representadas e que integram de alguma forma a pastoral universitária e a pastoral do ensino superior, que avaliem o que já se está a fazer e sobretudo que renovem o entusiasmo na programação mais ousada para os próximos anos, indo ao que é específico e essencial na missão da Igreja.

 

“A tua fé te salvou”. Esta frase do Evangelho, que Jesus dirige à mulher pecadora, sintetiza todas as motivações que temos para realizar a missão evangelizadora: a salvação da pessoa humana, que é obra de Deus, por meio da fé.

A fé transforma o coração das pessoas, permite-lhes conhecer o amor de Deus e amar de forma diferente; a fé leva sempre à mudança interior, aproxima de Deus e dos outros, rasga horizontes e esclarece o sentido da vida, anima, regenera e fortalece, abre caminho de encontro com Cristo, Único Salvador.

A mulher do Evangelho, figura de toda a pessoa humana, frágil, pecadora, conheceu o Senhor, fez um caminho de purificação do seu amor, encontrou em Jesus Cristo tudo o que ao longo de uma vida tinha procurado. Começou a viver, a fé a salvou, recuperou a paz que nunca tivera ou que já perdera.

O milagre da fé e do amor continuará a acontecer em nós e, com a nossa alegria e o nosso entusiasmo, continuará a acontecer em muitos outros homens e mulheres, que estão à espera do momento adequado e da ocasião oportuna.

Peçamos ao Senhor que realize em nós o mesmo milagre da fé, que nos levará a nunca desprezar a palavra que recebemos, a permanecer sempre em Cristo, à paixão pela evangelização e a saborear desde já a alegria da salvação.

 

Creio que o bispo D. Albino, na comunhão de Deus, intercede por nós e pela sua e nossa amada Igreja de Coimbra. Enquanto pedimos a Deus o seu descanso eterno, comprometemo-nos a permanecer fiéis ao legado de amor e de fé que nos deixou.

 

 

Coimbra, 16 de junho de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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