IV DOMINGO DA QUARESMA B - NOMEAÇÃO DOS MINISTROS EXTRAORDINÁRIOS DA DISTRIBUIÇÃO DA COMUNHÃO, ANIMADORES DA ASSEMBLEIA DOMINICAL SEM CELEBRAÇÃO DA EUCARISTIA, ORIENTADORES DA CELEBRAÇÃO DAS EXÉQUIAS

Irmãos!

A caminhada da Quaresma leva-nos hoje a entrar no mistério do amor de Deus, que enviou o Seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.

Este é o discurso que as pessoas têm dificuldade de entender, por dois motivos: primeiro porque nos custa reconhecer a necessidade de uma salvação que não seja a imediata e a terrena; depois, porque a falta de humildade nos faz pensar que a salvação está nas nossas mãos, não precisando, por isso, de vir de Deus.

É comum, hoje, acreditar-se que Deus existe, que é o Criador do Universo e do Homem, mas sem se acreditar que Ele tenha algo mais a ver connosco, sem se acreditar que Ele seja um Deus pessoal e amigo dos homens. A arrogância humana conduz ao erro de nos fixarmos em nós como donos e senhores da nossa vida e de confiarmos de forma ilimitada nas nossas potencialidades.

O Segundo Livro das Crónicas falava das infidelidades do povo e dos seus costumes pagãos, causa da perda do sentido de Deus e de inúmeras desordens humanas e sociais. Riram-se diante dos mensageiros de Deus e desprezaram as suas palavras, recusaram-se a adorar a Deus e a respeitar o homem. No dizer da linguagem bíblica, cavaram a sua própria ruina, destruíram-se enquanto povo de Deus, tornaram-se escravos de si mesmos e dos outros, ficaram na desolação durante setenta anos.

Somente quando reconhecem a sua situação de miséria humana, moral e espiritual, iniciam o caminho da mudança e podem voltar a reconstruir a sua cidade. Na linguagem simbólica da Escritura, nessa altura disponibilizam-se para construir um templo ao Senhor na cidade de Jerusalém, isto é, voltam a situar-se na relação com Deus e a acolhê-lo como parte das suas vidas. Puseram-se a caminho, conscientes de que Deus estava com eles, iniciaram o caminho da conversão e voltaram a confiar no Deus que sempre os amparara e protegera.

Ainda hoje sofremos do mesmo problema: infidelidades, costumes pagãos, perda do sentido de Deus e dos outros, desordens humanas e sociais. Custa, no entanto, reconhecer que fomos nós a criar esse mal-estar, que somos nós os autores das ruina em que a sociedade se encontra; não aceitamos que se deva ao nosso agir errado, inclusivamente à nossa culpa e ao nosso pecado. Tudo se atribui a causas distantes, a conjunturas sem nome nem rosto, a origens que não podemos controlar; raramente se reconhece que as causas são pessoais e que inclusivamente nós temos responsabilidade e culpa, palavras em grande parte banidas do vocabulário corrente uma vez que, alegadamente, são causadoras de traumas pouco saudáveis. Temos, por isso, ainda hoje, uma tremenda dificuldade de dar passos no sentido da conversão do coração e da vida, apesar de acreditarmos em Deus.

O texto da Epístola aos Efésios, lido como segunda leitura da missa, elucida-nos claramente, ao dizer que, pelo pecado, todos nós estávamos mortos e que somente pela graça de Deus e por meio da fé, fomos salvos. Ao afirmar que a salvação não se deve às obras, mas é dom de Deus, convida-nos a uma atitude de humildade diante de Deus, que é, ao mesmo tempo, o reconhecimento daquilo que somos, da nossa condição humana, frágil e pecadora.

A Igreja que somos tem a missão de ajudar os homens a fazer este caminho de encontro com o Deus, que é rico em misericórdia, que nos restitui à vida e nos salva. Não precisa para isso de traçar um diagnóstico negro da realidade que vivemos, mas precisa de ser objectiva na leitura que faz da realidade. A Igreja precisa sim, de proclamar bem alto e de forma convincente a feliz notícia da “grande caridade com que Deus nos amou”; a Igreja precisa de dizer ao mundo com alegria que, estando nós mortos por causa dos nossos pecados, Ele nos restituiu à vida, nos ressuscitou e nos fez sentar nos Céus com Cristo.

Todas as vocações na Igreja estão ao serviço desta missão, tanto a dos sacerdotes como a dos religiosos e a dos leigos, a vossa, caríssimos irmãos, que hoje recebeis o mandato de realizar uma tarefa de serviço aos irmãos, enquanto Ministros Extraordinários da Distribuição da Comunhão, Animadores das Assembleias dominicais sem Celebração da Eucaristia e Orientadores da Celebração das Exéquias.

É uma graça que nunca agradeceremos convenientemente ao Senhor, esta de nos fazer seus colaboradores na distribuição dos dons da salvação, que nos foram alcançados pelo sacrifício de Cristo na cruz. A nossa oração de ação de graças, a fidelidade e a pureza do nosso coração, o amor aos irmãos e a oferta da nossa vida, serão os sinais de que reconhecemos tudo receber de Deus e ser simples vasos de barro, mas portadores do maior tesouro, Cristo que vem socorrer a nossa humanidade.

O vosso serviço à Igreja há-de ser realizado com toda a humildade. Sois depositários de um imenso dom de Deus, que é a fé e o baptismo que recebestes; e chamados a uma missão que não tem como objectivo engrandecer a vossa pessoa, mas fazer de vós servos do dom de Deus para os irmãos. E quão grande é o dom da Palavra da Vida e do Pão da Vida, que proclamais na assembleia dos fiéis e distribuís aos famintos de Deus!

Lembrai-vos sempre que todos aqueles a quem a Igreja confia uma missão, hão-de ser os primeiros no aprofundamento da fé, no crescimento do amor a Jesus Cristo e na construção da comunidade cristã alicerçada na Palavra, na Eucaristia e na caridade. Não procureis nenhuma recompensa que não seja a alegria de ser chamado por Deus e enviado em missão; trabalhai sempre conscientes, como dizia a segunda leitura de hoje, que a salvação não vem de vós, mas é dom de Deus. Sede boas testemunhas de Cristo, sal da terra e luz do mundo.

A nossa diocese de Coimbra vive numa enorme escassez de sacerdotes e vê-se impossibilitada de levar aos fiéis os dons da salvação, sobretudo pela celebração da Eucaristia dominical. Reconhecemos que são necessárias as celebrações da Palavra para que os que vivem mais afastados, os idosos ou os doentes possam celebrar o Domingo reunidos em assembleia cristã. Ao mesmo tempo, reconhecemos que o povo de Deus tem de fazer um grande esforço por celebrar o Domingo pela participação na Missa, memorial da Páscoa do Senhor.

Teremos todos bem presente a oração e o trabalho em favor das vocações sacerdotais, essenciais à vida da Igreja e à plena celebração do Domingo. Procuraremos conhecer, meditar e rezar a Palavra de Deus e desenvolver um intenso amor à Eucaristia, celebrada, adorada e partilhada como dom de amor.

Enquanto agradecemos ao Senhor ter-nos feito seus colaboradores na obra da salvação, invocamos a proteção da Virgem, Nossa Senhora, para que sejamos fieis à missão que agora recebemos.

 

Coimbra, Sé Nova, 18 de Março de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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