MISSA DA BÊNÇÃO DAS PASTAS DOS FINALISTAS DO ENSINO SUPERIOR DE COIMBRA, NA SÉ NOVA (Lecionário do Tempo Comum, sábado da Semana VII, anos ímpares)

Caríssimos irmãos e irmãs, finalistas!

Esta celebração da bênção dos finalistas reveste-se de um ambiente de festa por verdes chegar ao fim uma importante etapa da vossa vida. Nos vossos rostos jovens espelha-se a certeza de uma etapa vencida com muito trabalho, algumas apreensões e porventura desilusões, mas vê-se sobretudo muita esperança num futuro que tendes pela frente e que todos desejamos que seja promissor de um ponto de vista pessoal, familiar e social.

Como em todos os momentos fortes da vossa vida, estão convosco os vossos pais, familiares e amigos, que vos desejaram ainda antes de nascerdes, vos amaram desde o princípio, vos ajudaram a crescer e lutaram para vos dar as melhores condições de educação e formação. Estamos convosco todos nós, desde a escola que vos acolheu até à Igreja que, como mãe e mestra, vos quer ver felizes. Está convosco o Deus que vos criou e vos ama com um coração grande, que vos abençoa e fortalece com o dom do seu Espírito, a fim de que vos torneis construtores de uma sociedade plenamente humana e digna desse nome.

Hoje, rezamos por vós e rezamos convosco, conscientes de que a grandeza de uma pessoa não se encontra no seu estatuto social, nem no seu título académico, naquilo que faz ou naquilo que sabe, mas acima de tudo naquilo que é, naquilo que serve e naquilo que ama. Se pedimos a bênção de Deus para as vossas pastas e para as vossas fitas no final do vosso curso, é porque estamos certos de que simbolizam um pouco daquilo que vós sois e do desejo que tendes de colaborar com Ele na obra maravilhosa da sua criação, que tem por cume a pessoa humana.

Grande é este mistério de Deus, que nos criou e que nos ama, a ponto de fazer de nós, viventes e felizes, a Sua coroa de glória. Neste sentido, a primeira leitura que escutámos, tirada de um dos livros da sabedoria bíblica, o livro de Ben Sirá, afirmava que Ele nos criou à Sua imagem, nos dotou de razão e inteligência e nos deu a conhecer o bem e o mal.

O próprio texto bíblico exalta o ser humano, a sua razão e a sua inteligência, a sua capacidade de desvendar os mistérios da ciência e as suas possibilidades de construir um mundo bom e belo. Não deixa, porém, de afirmar também que Deus deu ao ser humano como herança a lei da vida. O mesmo é dizer que todas as potencialidades da humanidade se orientam para o serviço à vida própria e dos outros.

De que serviriam todos os vossos conhecimentos e as vossas mais variadas especializações se não se orientassem para a harmonia do mundo, para o bem e a felicidade de cada pessoa e de todas as pessoas?

“Deu-lhes a conhecer o bem e o mal”, isto é, por meio do Seu Espírito, forneceu-nos o dom de discernir o que está ao serviço da pessoa e o que a prejudica, oprime e mata nos seus anseios e nas suas esperanças.

“Guardai-vos de toda a injustiça”, concluía o texto citado, precavendo-nos do mais generalizado e impune crime contra os outros, o culto do “eu”, a exaltação do indivíduo, e o desprezo pelo bem da sociedade e pelo bem comum. Ao dizer que Deus “a cada um impôs deveres para com o próximo”, o texto revelado reafirma um princípio fundamental da nossa condição humana: somos para os outros, o nosso conhecimento é útil se eleva e promove o nosso próximo, a nossa inteligência e a nossa razão são verdadeiramente humanas quando servem a verdade e a justiça.

Caríssimos amigos, a vossa vinda a esta celebração da fé é um sinal da grandeza da vossa alma, que quer fortalecer-se com a ajuda de Deus, para que o exercício da vossa profissão, mais do que um trabalho penoso, seja uma missão alegremente assumida. Humildemente, como as crianças de que falava o Evangelho que ouvimos, desejais que o Senhor vos abençoe, pois reconheceis os limites do vosso coração, mesmo que seja excelente, como desejamos, a vossa formação académica e científica ou a vossa prestação técnica.

Recordai-vos sempre que, assim como Deus é grande porque pôs em nós o seu amor de Criador e Senhor, também vós sereis grandes se puserdes amor na vossa vida, se estiverdes dispostos a ir ao encontro dos outros com a vossa sabedoria para fazer dela um ato de serviço.

Saís do Ensino Superior num tempo em que a sociedade portuguesa atravessa um grave e duro período da sua história. Há já muito sofrimento por causa da pobreza económica, pela falta de trabalho, de pão e de condições de vida dignas; há também muito sofrimento causado pela falta de esperança, fruto da impossibilidade de realização profissional, da ausência dos meios adequados para a paz e harmonia familiar; há ainda muito sofrimento causado por uma certa ansiedade e pela incerteza relativamente ao futuro.

Esperamos que a sociedade com todas as suas instituições vos não deixe sozinhos diante de um futuro incerto; esperamos que o Estado assuma as suas responsabilidades e, com um grande sentido de humanidade promova os meios necessários para o vosso sucesso, que é o sucesso de todos nós; esperamos igualmente que vós sejais cidadãos justos e responsáveis na aplicação do vosso saber e na vossa dedicação às tarefas que vierdes a assumir.

Além de uma esperança humana, que vos levará a não desanimar diante das dificuldades que poderão surgir, acolhei a esperança teologal, ou seja, aquela que nasce da fé em Jesus Cristo, Aquele que venceu todas as barreiras humanas, mesmo a do mal e a da morte. Na relação pessoal, fraterna, amiga e confiante com Ele, encontrareis uma palavra de conforto e de ânimo, um novo entusiasmo para continuar a esperar mesmo quando o cansaço parece vencer e as desilusões perecem tomar conta de vós.

Nunca deixeis que as dificuldades sejam maiores do que a vossa força de vontade; nunca permitais que a vossa esperança ceda diante da tentação de desistir. Que nesses momentos tenhais sempre ao vosso lado a presença dos vossos familiares e amigos, pois a presença do Senhor Jesus Cristo nunca vos abandonará.

Imploro para vós o auxílio de Nossa Senhora, a Sede da Sabedoria, e peço-lhe que, como Mãe, vos guarde e, como Mestra, vos guie. Ámen.

 

Coimbra, 25 de maio de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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