MISSA DA CEIA DO SENHOR - QUINTA FEIRA SANTA - SÉ NOVA DE COIMBRA, 2013

“Isto é o Meu corpo; isto é o Meu sangue”.

Ao ouvirmos estas palavras de Jesus, na celebração da Missa da Ceia do Senhor, a primeira celebração do Tríduo Pascal, pensamos na liturgia inaugural da Última Ceia e na liturgia dominical da Igreja. De facto, o Senhor trouxe a novidade do culto cristão e ultrapassou o culto hebraico em que nasceu e viveu: começou por celebrar a páscoa judaica e terminou celebrando a sua páscoa, aquela que nós continuamos a celebrar como a páscoa cristã.

Apesar da tradição cristã em que crescemos e vivemos, continuamos a interrogar-nos constantemente sobre o sentido destas palavras e desta ação sagrada que celebramos na Eucaristia, semana a semana, de acordo com o testemunho dos evangelhos sinóticos e o anúncio feito por Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios.

Encontramos as respostas no conhecimento da revelação de Deus como amor, totalmente debruçado sobre nós, os seus filhos, interessado por nós, a sofrer por nós e disponível para se entregar por nós.

Ao mesmo tempo, encontramos as respostas para as nossas interrogações no conhecimento da realidade humana, absolutamente necessitada da redenção de Deus, impossibilitada de se salvar a si mesma dos seus pecados e da morte.

Conhecer Deus como Amor é resultado da caminhada na fé, dom do próprio Deus e ao mesmo tempo resposta do homem. Pode ser um processo muito longo e muito lento, composto por momentos de grande segurança ou por grande aridez, de muito entusiasmo ou por autêntico desânimo, consoante as circunstâncias da vida e da relação com os outros, com o mundo e com a própria interioridade.

Não se pode compreender o sentido das palavras de Jesus na Última Ceia sem se ter entrado nesse caminho de fé sobrenatural que, incluindo o conhecimento intelectual, é sempre encontro pessoal e compromisso com a comunidade cristã, com a Igreja, que vive, partilha e celebra.

Por sua vez, o olhar atento e inteligente para a condição humana e, mais ainda, para a realidade humana, que é a nossa e a dos outros, leva-nos a reconhecer nas palavras de Jesus a única atitude capaz de mudar o que somos e o mundo em que estamos. “Isto é o Meu corpo, isto é o Meu sangue”, condensa em si a mais radical mudança de perspetiva e mentalidade de que a história é testemunha: não sou para mim, mas para ti; não sou o centro de tudo e de todos, mas volto-me para os outros como a razão de ser do meu trabalho, doação, entrega e sacrifício; sou feito para amar sem exigir ser amado.

Estas palavras de Jesus constituem o centro da liturgia cristã, da liturgia da missa, o cume onde se realiza o encontro da ação de Deus com a ação do homem, onde Deus se oferece ao homem e o homem se oferece a Deus. As palavras de Jesus na Última Ceia sintetizam tudo o que possa afirmar-se sobre o ser de Deus, conteúdo da fé cristã, e, ao mesmo tempo, a atitude dela decorrente: o Deus Santíssima Trindade, é amor; e o homem que n’Ele crê, tem por vocação transformar-se em amor, segundo o modelo de Jesus Cristo, que oferece o Seu corpo e o Seu sangue.

 

“Fazei isto em memória de mim”.

Frequentemente estas palavras de Jesus pronunciadas após a oferta do pão e do vinho, se entendem como um mandato relativo à celebração do culto cristão, à celebração litúrgica da Ceia do Senhor. Essa é, sem dúvida, parte do seu conteúdo, porventura o de leitura mais imediata. Ele mandou-nos celebrar os sagrados mistérios da Sua morte e ressurreição, da Sua páscoa, em Sua memória. Mas, essas palavras constituem igualmente um mandato que nos conduz a seguir a atitude de Jesus significada nas expressões anteriormente referidas - isto é o meu corpo, isto é o meu sangue -, ou seja, pedem-nos que nos entreguemos a nós mesmos, de acordo com o modelo de entrega que Ele inaugurou.

“Fazei isto em memória de Mim” tem, portanto, um duplo significado e refere-se a duas realidades indissociáveis na fé cristã, o culto e a vida; ou, de acordo com a Carta de Bento XVI, A Porta da Fé, aponta para as diferentes dimensões do ato de crer: a profissão da fé por meio da recitação do Credo ou Símbolo da Fé, a oração crente como meio de expressão e alimento da fé, a celebração da fé na sagrada liturgia e a vivência da fé, que produz sempre um testemunho visível e contagiante.

A falta de qualquer uma destas dimensões é sinal de uma fé truncada, que pode reduzir-se a um espiritualismo subjetivo, a um ativismo sem alma, a um racionalismo desencarnado ou a uma religiosidade carente de sobrenatural.

 

 

“Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também”.

A vida de Jesus manifesta uma total harmonia entre a sua relação com o Pai e a sua relação com a humanidade, entre o culto e a vida. De entre os muitos gestos significativos desta harmonia, como são a atenção às pessoas, as curas e o perdão dos pecados, sobressai um que, pelo seu simbolismo, tocou os Apóstolos e continua a tocar a Igreja: o de lavar os pés aos seus discípulos no decorrer da Última Ceia.

Dentro da sua tradição religiosa seria mais fácil supor-se o seu amor a Deus, ao Pai, pois esse constituía o primeiro mandamento da Lei. Poderia ficar na sombra o mandamento do amor ao próximo, apesar de ele fazer parte integrante da mesma Lei. Poderiam ainda ser considerados como duas realidades distintas e separáveis, dando uma, origem ao culto e outra, à ação humana no mundo.

Na pessoa de Jesus não há divisão: o seu amor ao Pai é amor aos irmãos; o seu culto é entrega da sua vida pelos homens; o exemplo que nos deu, para que façamos tal como Ele fez, inclui tudo: seguir a sua pessoa, seguir a sua atitude e seguir a sua vida.

 

No início do Tríduo Pascal, reafirmemos a certeza de que a nossa fé em Deus implica o seguimento de Jesus, que se oferece, corpo e sangue, para salvação de todos; assumamos o significado pleno do mandato “fazei isto em memória de mim”, que inclui a celebração da fé em Igreja, mas igualmente o testemunho fiel de uma fé incarnada na vida, a entrega de nós mesmos numa dádiva de amor pelos outros; disponhamo-nos a servir os homens e mulheres do nosso tempo, na prática da caridade, que tudo pode, tudo suporta e tudo vence.

O lava-pés que aqui realizamos, simbolize a disponibilidade que manifestamos enquanto pessoas e enquanto Igreja, para dar a conhecer Cristo ao mundo, usando a única linguagem que o mundo compreende, a do serviço e a do amor.

Que nos acompanhe a proteção de Nossa Senhora, testemunha fiel do amor mais belo, revelado em Cristo. Ámen.

 

Coimbra, 28 de março de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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