MISSA DA MEMÓRIA LITÚRGICA DO BEATO JOÃO PAULO II - HOMILIA (Leituras: Ez 34, 11-16; Sl 22; Mt 16, 13-19)

A memória litúrgica do Beato João Paulo II dá-nos a oportunidade de entrar no segredo deste homem de Deus, Pastor da Igreja Universal, devoto incondicional da Virgem Maria e dedicado sem limites à causa da salvação da humanidade.

É uma daquelas figuras únicas que o nosso tempo teve a graça de conhecer e que o mundo inteiro deve agradecer a Deus com um cântico de louvor à Sua bondade e grandeza pelo dom do Papa e do Santo que quis dar-lhe. A Missa que agora celebramos, no final desta jornada organizada pelo Instituto Superior de Estudos Teológicos é um sinal da nossa comunhão com toda a Igreja que bendiz o Senhor pelas maravilhas que nela realizou por meio do Beato João Paulo II.

Ao reler a biografia de João Paulo II parece-nos ouvir os ecos da Palavra escutada no Evangelho, proferida por Pedro em Cesareia de Filipe: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Aquela profissão de fé do primeiro dos Apóstolos de Jesus, cheia de sinceridade, significou toda uma vida de serviço à Igreja, na dor e no sofrimento até ao martírio, como foi a história do Apóstolo.

“Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. E apesar de toda a fragilidade de Pedro, homem como os outros, Jesus Cristo edificou sobre o seu testemunho a sua Igreja, sacramento e porta de salvação universal contra o qual nada podem as portas do inferno.

É inevitável que olhemos para a figura do sucessor de Pedro, que foi João Paulo II. Homem como os outros, com uma infância duríssima numa Polónia marcada pela guerra, pelas perseguições e pela fome, órfão de mãe desde tenra idade, depois também o pai, sem família... num mundo que proclama o ateísmo como via única. Parece-nos ouvi-lo com uma voz forte e intrépida a proclamar a fé no único Senhor: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Esta foi, aliás, a nota mais marcante de toda a sua vida, tanto na infância e juventude, como depois na idade adulta até às últimas consequências.

Na sua pessoa compreendemos melhor o que Deus pode fazer no ser humano que se abre à fé, que aceita o desafio da conversão, acolhe chamamento e se disponibiliza para servir o Senhor. Nele ocorrem as maravilhas que Deus fez em Maria, a mais simples de todas as criaturas, e também a mais bela e a mais santa; aquela que nada tem como seu, mas em tudo vê o dom de Deus que olhou para a humildade da sua serva.

O Beato João Paulo II constitui um forte modelo para a Igreja de hoje, marcada por uma forte crise de fé sobrenatural. Impregnados do materialismo da cultura moderna, os cristãos têm dificuldade em confessar Jesus Cristo como o Messias e o Filho de Deus e em entrar no âmago do cristianismo. Ficam-se frequentemente por uma visão superficial de Jesus como um grande homem, porventura um sábio fundador de uma linha humanista de pensamento, mas não conseguem chegar a Ele como o Senhor e Salvador das suas vidas. João Paulo II revela um sentido tão profundo da fé, que informa toda a sua vida e o dispõe a dar-se na totalidade de si mesmo pelos outros e por amor a Cristo, que o amou e o chamou. Cristo, o Messias e Filho de Deus é a razão de ser de tudo o que é e de todo o seu agir, numa atitude de confiança inabalável,

Sobre esta estrutura humana, qual pedra firme, e sobre esta estrutura espiritual Jesus Cristo pode edificar a Sua Igreja. Como Pedro, João Paulo II torna-se o terreno em que Deus pode depositar o carisma do pastor bom e fiel, que nunca abandona o rebanho, mas sempre está disponível para ir ao encontro das ovelhas perdidas.

A profecia de Ezequiel traçava-nos o retrato do bom pastor, que se pode aplicar plenamente ao Beato João Paulo II. Num tempo difícil para a vida da humanidade, ele nunca desistiu de ir ao encontro de todos os homens e mulheres de boa vontade, desde os que ocupavam cargos mais altos na hierarquia social ou política, até aos mais humildes da terra. De uns e outros quis ser pastor, a uns e outros quis levar a exortação, a palavra e o gesto de amor, como acreditava que Deus levaria. Moveu muitos corações duros a enveredarem pelos caminhos da justiça e da paz, muitos outros a encontrarem o Deus vivo e a abraçarem a fé como caminho de vida.

Precisamos hoje na Igreja de bons pastores, apaixonados pela Igreja que apascentam e com um coração cheio de misericórdia e amor por cada pessoa, sobretudo pelas que se sentem perdidas, feridas ou enfraquecidas pela vida. Grande modelo para nós, associados à missão de Cristo Pastor; grande desafio para os que Cristo continua a chamar para O seguirem no caminho da vocação sacerdotal.

João Paulo II foi um apaixonado pelo sacerdócio que Deus lhe concedeu e encontro nele a maior joia da sua vida, o seu melhor meio de realização e o seu caminho de felicidade. O seu amor ao sacerdócio e à Eucaristia preenchem qualquer lugar que pudesse ficar vago no seu coração, pois ali se realiza a sua ânsia incontida de amar a Deus e aos irmãos. No sacerdócio e na Eucaristia encontra a razão de ser da sua vida: “Nada tem mais importância para mim, ou me dá uma alegria maior do que celebrar cada dia a missa ou servir o povo de Deus na Igreja. E isto foi assim desde o dia da minha ordenação sacerdotal. Nada o fez mudar, nem sequer o facto de me ter tornado Papa” (S. ODER, Perché è santo, Rizzoli, Milão 2010, p. 37).

João Paulo II foi um apaixonado pela oração. Sentia-se que a sua acção de pastor da Igreja Universal passava pela oração, a ponto de confidenciar com algumas pessoas: “o primeiro dever do Papa em relação à Igreja e em relação ao mundo é o de rezar”. Por meio da oração manifestava a orientação de toda a sua vida, a razão de ser de toda a sua actividade, desde as viagens às tarefas quotidianas de governo da Igreja.

Após a sua morte foram revelados muitos segredos da sua vida de homem orante, como confidenciou o Postulador da sua causa de beatificação: “a oração constituía a fonte essencial da qual João Paulo II tirava a própria energia espiritual no viver quotidiano. O seu ministério sacerdotal alimentava-se de um contínuo e extraordinário contacto com Deus” (S. ODER, Perché è santo, Rizzoli, Milão 2010, p. 153-154).

Por sua intercessão, peçamos a Deus o dom de uma fé forte em Jesus Cristo, o Messias e Filho de Deus, o dom de fazermos da nossa vocação um serviço à Igreja e a graça de perseverarmos na oração como alimento espiritual da nossa vida.

 

Coimbra, 22 de Outubro de 2011

Virgílio do Nascimento Antunes

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