MISSA DA SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ - QUINQUAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA DEDICAÇÃO DA IGREJA DE SÃO JOSÉ, COIMBRA

Caríssimos irmãos!

Esta igreja paroquial de São José, sagrada há cinquenta anos, tem sido para muitos fiéis templo da adoração a Deus em espírito e verdade, escola de vida cristã, veículo da fé em Jesus Cristo, lugar de consolação nos sofrimentos e de celebração da vida em todas as suas etapas. Damos, por isso, graças a Deus, Santíssima Trindade, que aqui nos congregou e que não cessa de nos proporcionar os meios humanos, materiais e espirituais para que encontremos o caminho da salvação.

A comunidade cristã, embora constituída por pessoas, as pedras vivas de que fala o Evangelho, sempre precisou dos templos como locais de congregação da assembleia do Senhor, a ecclesia tou theou. Construídos pela mão humana para honra do nome de Deus, os templos tornaram-se um sinal visível das realidades invisíveis; implantados no meio da cidade dos homens, apontam para a cidade de Deus como caminho e meta do seu peregrinar, lembram a dimensão espiritual da vida e os apelos a caminhar na santidade de vida à semelhança do Deus Santo.

A pequena ermida no alto do monte, a igreja paroquial no centro do povoado ou a grande catedral, de épocas e estilos arquitectónicos diferentes, são sempre sinal de que Deus desceu até nós e montou a sua tenda no meio do seu povo, de que Ele se fez Deus connosco e Deus para nós. Esta igreja de São José, situada numa zona tão densamente povoada da cidade de Coimbra e rodeada por uma população tão rica de potencialidades humanas, é farol a alumiar muitas noites escuras de fé, é consolação para muitos corações amargurados pelo sofrimento, é sinal de esperança para muitas almas cansadas e é acolhimento para muitas vidas vazias sedentas de amor.

A leitura do Segundo Livro de Samuel apresentava-nos a profecia de Natã. O profeta promete ao rei David um descendente que há-de construir um palácio em honra do nome do Senhor. Esse descendente será senhor de um reino eterno e firme para sempre. Nesta linguagem figurada e profética, o Novo Testamento viu o anúncio da vinda do Rei-Messias, o descendente de David pela linhagem de José, esposo de Maria, do qual nasceu Jesus, chamado Cristo.

É na pessoa de Jesus Cristo que podemos compreender plenamente o significado de todas as palavras proféticas do Antigo Testamento, concretamente as que falam da presença do Senhor entre o seu povo, tanto na tenda da reunião durante a caminhada pelo deserto, como no Templo de Jerusalém, já na Terra Prometida. Tudo realidades transitórias e imperfeitas face à presença do Filho de Deus, no meio de nós, tanto na carne humana como no sacramento da Igreja.

Os lugares destinados ao culto cristão, templos, santuários ou igrejas, dedicados ao Senhor e destinados a reunir a comunidade cristã, hão-de ser bem cuidados, belos e respeitados. Para pouco servem, no entanto, se não albergam homens e mulheres de fé sincera, dispostos a oferecer um culto verdadeiro e sinal de amor a Deus e aos irmãos.

A grande novidade do cristianismo consistiu em operar uma mudança radical no culto antigo, baseado nos rituais de oferenda de produtos da terra, sacrifícios de animais, tudo coisas materiais. Jesus Cristo introduz a novidade da apresentação da sua própria vida e torna-se, como diz a liturgia, o sacerdote que oferece e a vítima que é oferecida. No mistério pascal da sua paixão, morte e ressurreição, nasce o culto cristão, como oferta de nós mesmos a Deus. Relativiza-se, deste modo, a importância dos lugares de culto para valorizar as pessoas, relativiza-se a oferta de sacrifícios para valorizar a oferta pessoal da vida como ato de amor.

Neste sentido, mais do que celebrar um lugar de culto dedicado há cinquenta anos, estamos a celebrar a presença do Senhor no meio de nós, aqui simbolizada e aqui tornada real na escuta da Palavra, na celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos, no encontro da assembleia que aqui reza em tom de ação de graças nos momentos de alegria ou de súplica no tempo da tribulação. Estamos a celebrar a presença do Espírito Santo nesta comunidade que, aqui, ganha forças para a evangelização e a catequese ou para a prática da caridade cristã das mais variadas formas. Estamos a celebrar os dinamismos de esperança que aqui nasce no coração de tantas pessoas, frequentemente abatidas pelo peso das dificuldades que a vida lhes oferece, pelo peso da idade, da doença ou da morte quando ela bate à porta de familiares e amigos.

Quiseram os que nos precederam dedicar esta igreja e esta paróquia a São José, cuja solenidade celebramos. A sua identidade era-nos oferecida pelo evangelista S. Mateus por meio de três breves expressões: o esposo da Virgem Maria, que era justo e que fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

Estas palavras podem muito bem funcionar como uma espécie de lema desta comunidade paroquial, no momento de investir na sua renovação neste momento festivo. A primeira expressão, “esposo da Virgem Maria”, constitui um incentivo à dimensão eclesial, pois Maria é esposa e imagem da Igreja, ambos são membros vivos da comunidade cristã, numa relação de amor entre si mesmos enquanto esposos, e com os outros enquanto membros do mesmo Corpo. O grande desafio à paróquia é o do crescimento na fé em Jesus Cristo e o do crescimento na dimensão comunitária da vida, característica essencial da Igreja Povo de Deus, como nos recordou o capítulo II da Constituição Dogmática da Igreja, do Concílio vaticano II.

A segunda expressão, “que era justo”, constitui um incentivo à procura das relações de justiça, assentes na igual dignidade de todos, enquanto pessoas humanas, filhos de Deus e irmãos em Jesus Cristo. A paróquia tem o dever de dar um sólido contributo para o crescimento de uma cultura da justiça e do respeito pelos direitos fundamentais do ser humano em todas as circunstâncias. De um modo particular, tem o dever de ser mensageira da cultura da vida, sinal e âncora de esperança no meio de tantas desilusões e desalentos. A par do trabalho em favor da justiça, não faltará a generosidade expressa em gestos de caridade, num registo de amor, proximidade e atenção às necessidades dos mais pobres. Aos longo de todos os tempos, mas de modo especial na situação em que se encontra a sociedade portuguesa, esta aparece hoje como o sinal mais visível da fé e do amor da comunidade cristã.

A terceira expressão, “fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor”, chama a atenção para a obediência da fé ao Senhor, nosso Deus, que há-de ter um lugar único nas nossas vidas e em todos os planos e projetos da comunidade paroquial. Ao fazer como lhe ordenara o Anjo, José identifica-se com a atitude de Maria, que diz “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, e manifesta ser discípulo fiel de Jesus, que diz, “Pai, faça-se a tua vontade e não a minha”. Sugere, no fundo, que, em tudo nesta paróquia, seja dada a primazia a Deus, para que, em todas as ações, obras e atividades, resplandeça a vontade amorosa de Deus a par da nossa disponibilidade para a cumprir.

Por intercessão de São José, esposo da Virgem Maria, peçamos ao Senhor o dom de, sempre e em tudo, fazermos a sua vontade e a graça de, tanto nesta igreja como no templo do coração e na vida toda, lhe prestarmos o culto agradável, que é a oferta de nós mesmos em favor dos irmãos e o cumprimento da sua vontade.

 

Coimbra, Igreja de S. José, 19 de Março de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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