MISSA DE AÇÃO DE GRAÇAS PELA ELEIÇÃO DO PAPA FRANCISCO - SÉ NOVA DE COIMBRA - Missa da Solenidade de São José, Esposo da Virgem Santa Maria

Reunimo-nos hoje em ação de graças a Deus, que nos concedeu um novo Pastor segundo o Seu coração, o Papa Francisco. Enquanto Igreja Local de Coimbra, em comunhão com a Igreja Universal que tem no Sucessor de Pedro o sinal visível da unidade, elevamos a Deus um hino de louvor por nunca nos deixar sós e continuamente velar pelo seu rebanho.

Acreditamos que a Igreja é conduzida pelo Espírito Santo, desde que nós próprios, seus membros, aceitemos a sua força e, humildemente, acolhamos a riqueza dos seus dons. Estamos certos de que a eleição do Papa Francisco, no passado dia 13 de fevereiro, foi obra do Espírito Santo. Depois de tudo o que vimos e ouvimos na comunicação social, dos comentários sem fim acerca do perfil e das necessidades da Igreja e do mundo, surge um homem vindo “quase dos confins do mundo”, para apascentar o Povo de Deus, em nome do único Pastor, o Senhor Jesus Cristo.

Comoveu-nos a sua pessoa e a sua humildade, desde o momento em que o vimos pela primeira vez na sacada da Basílica de S. Pedro a pedir as orações dos fiéis e, inclinado diante da humanidade, abrindo o coração à bênção de Deus.

Provocaram-nos as suas palavras, quando nos pediu o amor a Cristo crucificado, sem o qual nada do que fazemos ou do que somos tem valor; quando explicou a razão de ser do nome escolhido por desejar acima de tudo uma Igreja dos pobres e para os pobres, construtora da paz, ou quando nos disse: “Eu queria que, depois destes dias de graça, todos nós tivéssemos a coragem, sim a coragem, de caminhar na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor; de edificar a Igreja sobre o sangue do Senhor, que é derramado na Cruz; e de confessar como nossa única glória Cristo Crucificado. E assim a Igreja vai para diante”. Provocaram-nos ainda mais os seus gestos simples, que falam por si e constituem a expressão mais real da grandeza interior da sua pessoa e do seu imenso amor a Cristo e à humanidade.

O novo Papa encontra uma Igreja a sofrer as consequências dos pecados dos seus membros, que é preciso consolar e animar; uma Igreja com graves divisões, que é preciso unir na comunhão humana e com a Santíssima Trindade; uma Igreja centrada em si mesma e nos seus problemas, que precisa de ir ao encontro da humanidade para partilhar as suas apreensões e lhe oferecer o Evangelho da Salvação.

O novo Papa encontra ainda uma humanidade desalentada pela falta de valores e esperança, ameaçada por graves problemas económicos geradores de desigualdades e injustiças, uma cultura de morte largamente difundida e uma grande ausência do desejo de Deus. Também diante da humanidade se esperam palavras, gestos e sinais, que ajudem a congregar, a unir, a abrir horizontes de esperança, por meio da força moral da sua pessoa e do seu ministério.

Na sua audiência aos membros do Colégio Cardinalício, o Papa Francisco tocou a questão absolutamente central na vida e na missão da Igreja e no seu pontificado: “levar Jesus Cristo ao homem e conduzir o homem para que se encontre com Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, realmente presente na Igreja e contemporâneo em cada homem”. Esta é a firmação de que a nossa missão eclesial consiste em viver Cristo, anunciar Cristo, levar Cristo aos homens e conduzir os homens a Cristo. Daqui tem de nascer todo o nosso dinamismo pastoral e para aqui tem de convergir toda a nossa ação na Igreja e no mundo. Trata-se da afirmação clara da centralidade de Cristo na nossa vida pessoal, na vida das nossas comunidades e na Igreja de Deus, que exige grandes mudanças no que respeita ao nosso modo de sentir a Igreja e de agir em seu nome.

Este momento tão particular da história da Igreja, que estamos a viver, marcado pela renúncia inédita do Papa Bento XVI e a não menos inesperada da eleição do Papa Francisco, proveniente do hemisfério Sul, é portador de um forte sopro do Espírito Santo, de um grande abanão às pessoas e estruturas, para que nos desinstalemos, nos abramos de novo à força de Cristo e do seu Evangelho.

A Igreja do nosso tempo, duramente atingida na sua unidade, na sua santidade e na sua pureza originais pela perversão e pelo pecado dos seus membros, tem pela frente a única via, que é a da conversão ao Senhor seu Deus, que implica centrar-se de novo na escuta, acolhimento e cumprimento da Sua vontade. Estamos num tempo que exige a purificação das nossas consciências, dos nossos ideais, objetivos e sonhos, porventura de muitos dos nossos hábitos e tradições, em nome da fidelidade a Cristo crucificado e ressuscitado, fundamento da Igreja, e da fidelidade ao homem salvo, a única glória de Deus.

Os poucos dias do exercício do ministério petrino pelo Papa Francisco já foram suficientes para nos recordar que a Igreja não tem outra força senão a força de Cristo, que nos conduz por meio do seu Espírito Santo, para nos dizer que a Igreja não tem outro poder senão o poder de Cristo crucificado, o poder do seu sangue derramado e do seu corpo entregue.

Quanto trabalho não temos a fazer dentro de nós, nas nossas comunidades e na nossa Igreja Diocesana para que esta novidade do Evangelho se torne uma realidade, para que a Igreja apareça diante do mundo pobre, serva, cheia de fé, esperança e amor – sacramento da salvação que Cristo nos oferece!

 

A Solenidade de São José, apresenta-nos esse grande modelo de humildade, serviço e santidade que o Senhor quis dentro da sua casa: o homem justo, que adora a Deus e respeita os homens.

Unido a Maria, a Mãe a Mulher e a Esposa, José como que se associa à sua condição de imagem e modelo da Igreja, pois com ela partilha a mesma fé em Jesus Salvador, a mesma esperança do perdão dos pecados e o mesmo amor por todos os filhos de Deus.

Com José e Maria, que se esquecem de si mesmos para apresentar Jesus ao mundo, a Igreja aprende a ficar na sombra para que brilhe mais o esplendor da glória de Deus que se manifestou em Cristo. José fez “como lhe ordenara o Anjo”, dizia o Evangelho de hoje; Maria disse “eis a serva do Senhor”, remata o Evangelho de Lucas – duas pessoas, a mesma atitude de humildade e de serviço a Deus e aos homens. Eis o caminho da Igreja: muitas pessoas, no mesmo desejo de apresentar Cristo aos homens e levar os homens e Cristo.

Este é o modo de ser e agir do Papa Francisco: trabalhar para que acima de tudo brilhe a luz de Cristo diante de todos os rostos carentes da Sua bondade e misericórdia. No desejo de uma comunhão efetivas e afetivas com ele, esse deve constituir também o nosso modo de ser e de agir, na fidelidade a Cristo e ao seu enviado para servir a Igreja una, santa, católica e apostólica.

Que nos proteja São José, patrono da Igreja, cuja solenidade hoje celebramos, São Francisco de Assis, grande inspirador do nosso Papa, e a Bem-aventurada Virgem Maria, nossa Mãe e Mãe da Igreja.

 

Coimbra, 19 de março de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes, bispo de Coimbra

Plano Pastoral


Bispo Diocesano


Vaticano