MISSA DE AÇÃO DE GRAÇAS PELO PONTIFICADO DO PAPA BENTO XVI - SÉ NOVA DE COIMBRA, 2013-02-28

Leituras: Ez 34, 11-16; Sl 22 (23); 1 Cor 9, 16-19.22-23; Jo 10, 11-16

 

Caríssimos irmãos!

A renúncia do Papa Bento XVI ao ministério pontifício constitui forte motivo para toda a Igreja se unir em oração de ação de graças a Deus pela sua pessoa, pelo seu magistério e pelo seu pontificado.

Bastaria o nosso amor à Igreja e a todos os seus membros para que cantássemos o hino de gratidão e de louvor ao Senhor, que, em cada tempo, nos dá o pastor para nos apascentar em união consigo, o Bom Pastor do Seu Povo. Temos razões acrescidas para agradecer, pois vimos, ouvimos e acompanhámos passo a passo a vida da Igreja e do Papa. Podemos testemunhar o grande amor de Bento XVI ao Senhor e à Sua Igreja, a todos nós, rebanho que quis conduzir a pastagens abundantes e seguras.

Movidos pela fé cristã e membros da Igreja, vemos a pessoa do Papa a partir da pessoa de Jesus com quem se identifica de um modo mais pleno, por ter sido chamado a segui-l’O e a agir “in persona Christi” em virtude do sacramento da Ordem e do ministério que lhe foi confiado em favor de todas as Igrejas. Vemos a pessoa do Papa a partir de Pedro, o Apóstolo que o Senhor chamou a ser pescador de homens, o discípulo que por três vezes negou o Mestre e por outras tantas lhe reafirmou o seu amor incondicional, a rocha firme sobre a qual assentaria a Sua Igreja e aquele a quem concedeu o poder de ligar e desligar.

Desde o primeiro momento fomos edificados pela figura de Bento XVI, “o humilde servo da vinha do Senhor”. Num ato de fé e confiança n’Aquele que o chamou a ser cristão, continuou disponível para o ministério sacerdotal e episcopal, bem como para servir a sua Igreja Diocesana ou a Igreja Universal. Foi sempre o mesmo Cristo a chamar e sempre a mesma resposta pronta na atitude de O seguir. Mesmo a sua renúncia, decisão tanto ou mais difícil do que a de aceitar ser Papa da Igreja, se enquadra neste desejo de fidelidade até ao fim, por amor a Cristo e para bem da Igreja, pois, como afirmou, não renuncia por causa de si próprio, mas por causa do maior bem da Igreja.

O Magistério do Papa Bento XVI, constitui um monumento da fidelidade à procura da verdade pelas vias da razão humana e da fé sobrenatural. Desse modo falou à Igreja e ao mundo, foi lido pela Igreja e pelo mundo, assumiu os riscos de não ser compreendido por uns ou por outros.

Deixou-nos bem vincadas algumas convicções fundamentais acerca das questões mais perenes que se põem à humanidade, manifestou uma enorme fortaleza na apresentação dos pontos essenciais da fé cristã ou da moral decorrente dos valores evangélicos, não recuou diante da necessidade de propor abertamente os ideais mais altos, mesmo sabendo o preço a pagar.

A proclamação do Ano da Fé que estamos a viver e a ocasião em que renuncia ao ministério petrino pretendem recentrar a Igreja no seu único fundamento: Jesus Cristo, o único Salvador do Mundo, e o seu mistério anunciado pelo Kerigma cristão e acolhido pela fé apostólica. Num tempo difícil para a Igreja, temos de reconhecer que não temos outra esperança senão o Senhor e que a Igreja não pode ter outro desejo senão o de acreditar e ser fiel à fé e à Boa Nova que recebeu.

O pontificado do Papa Bento XVI fica marcado pela ânsia de “ganhar alguns a todo o custo”, como dizia a segunda leitura, e de tudo fazer “por causa do Evangelho”, que é a porta da salvação. Dificilmente alguém poderia apresentar-se ao mundo de forma tão livre, fazer-se escravo de todos “para ganhar o maior número possível” para Cristo.

Firme na fé e inabalável no testemunho de fidelidade, o papa saiu ao encontro da humanidade apresentando sem rodeios Jesus Cristo como verdade e vida, no meio de um relativismo generalizado e vivido como o caminho da modernidade. Bento XVI dispôs-se a ir até às últimas consequências na defesa da dignidade humana, na defesa da vida e na proposta de caminhos diversos da opinião comum. Não temeu quando pôs em causa interesses instalados na Igreja ou fora dela, quando enfrentou corajosamente os maiores pecados dos servidores da Igreja na sua condição de “pastor que vigia o rebanho”, quando chamou os pecadores à conversão e quando procurou reunir “as ovelhas que andavam tresmalhadas... para as tirar de todos os sítios em que se desgarraram num dia de nevoeiro e de trevas”, segundo a linguagem do profeta Ezequiel. Apesar de não ter sempre alcançado os objetivos pretendidos, deixou aberto o caminho, deu confiança e segurança.

Aceitar o ministério de Pedro ou renunciar a ele são as duas faces de uma mesma moeda que, segundo a parábola do Evangelho de São João, se define como “dar a vida pelas suas ovelhas”. Em nome da mesma oferta da vida está disponível para uma ou outra coisa, desde que entenda estar a dar a vida a Deus em favor dos irmãos. Enquanto sabe que dar a vida significa estar no seu lugar de Pontífice, permanece; quando acredita, em consciência seriamente examinada diante de Deus, que dar a vida consiste em retirar-se, não hesita em retirar-se. Eis a grandeza do amor à Igreja, sem apegos, sem desejo de protagonismo e no desprendimento evangélico exigido pelo seguimento incondicional, “sem cajado, nem alforge”.

Bento XVI deixa atrás de si um rasto de autenticidade e de verdade que tem de dar frutos na Igreja do futuro, que incomoda os membros da Igreja e a humanidade, frequentemente movidos por outros ideais e objetivos centrados no bem pessoal, no desejo de poder ou ávidos de impor o próprio modelo de Igreja ou sociedade a todos.

Ao mesmo tempo que agradecemos a Deus a Igreja e os seus fiéis servidores, pediremos insistentemente ao Senhor que nos dê um santo pastor, segundo a grandeza do seu coração e que faça de nós uma Igreja a viver da alegria da fé e cheia de entusiasmo no anúncio do Evangelho.

Pediremos ao Senhor uma Igreja unida em todas as suas comunidades e pessoas, aberta ao Espírito Santo que a ajudará a ultrapassar as divisões internas que minam a comunhão entre os seus membros, que seja serva de Deus, serva do homem e serva da verdade.

Nesta hora, imploramos a proteção de Nossa Senhora, para que acompanhe todos os passos da Igreja, repetindo-lhe continuamente: “Fazei tudo quanto Ele vos disser”.

 

Coimbra, 28 de fevereiro de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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