Missa de comemoração do Dia da Universidade - Capela da Universidade de Coimbra

 CAPELA DE SÃO MIGUEL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Missa do Espírito Santo, no dia da Universidade: Gn 11, 1-9; Act 2, 1-11; Jo 20, 19-23

 

Estamos a dar graças a Deus pela Universidade de Coimbra, um dos maiores símbolos da grandeza do ser humano, dotado de inteligência e vontade, de engenho e de arte para conhecer e construir o mundo.

A grande aspiração da humanidade, conhecer e construir, está espelhada nas páginas do Livro do Génesis, na antiquíssima perícopa da Torre de Babel. Os homens, que tinham uma só língua e usavam as mesmas palavras, decidiram edificar uma cidade com uma torre cujo cimo tocasse os céus. Deus confundiu as suas línguas e dispersou-os pela superfície da terra e eles desistiram de construir a cidade.

Na sua linguagem milenar, o trecho aponta para as imensas possibilidades do ser humano, dotado de faculdades necessárias para edificar a sua vida e a sua cidade na harmonia do encontro com todos os outros. Edificar sem respeito pelo que há de mais sagrado, Deus e o homem, perverte o sentido original da construção e torna-se pernicioso. O autor sagrado percebe que a realidade nem sempre respeita o plano de Deus nem o recto ordenamento em favor do homem; percebe que são inúmeros os desvios, cujo resultado é a confusão das línguas e a dispersão pela superfície da terra, com a consequente desistência de construção da cidade.

A história do passado, mas também a história recente tem sido prolixa em projetos de investigação e conhecimento, em programas de construção e desenvolvimento que carecem de respeito por Deus e que não servem o bem do homem. A cidade dos homens continua ainda hoje muito longe de garantir a todos o respeito pela sua condição de pessoa, pela sua liberdade e pela sua dignidade. A cidade dos homens continua dividida não tanto pelas línguas, mas sobretudo por muitos interesses particulares, que colidem com o bem comum, pela reivindicação de direitos individuais que embatem contra os direitos de todos, pelo acesso aos bens materiais e espirituais por parte de alguns, que contrasta com a pobreza geral da maior parte.

O Livro dos Atos dos Apóstolos oferece-nos o contraponto do texto do Génesis, na perícopa da vinda do Espírito sobre os Apóstolos e a multidão reunida em Jerusalém. A confusão das línguas pode dar lugar à unidade da língua que todos falam e compreendem; a dispersão sobre a face da terra pode dar lugar à congregação de todos os povos.

O Espírito de Deus, que é Espírito de amor e de paz, derramado sobre a multidão das criaturas dá-nos a nossa vocação fundamental: construir uma cidade dos homens caraterizada pelo amor e pela paz, nos objetivos e nas realizações; edificar um mundo unido e justo, onde as pessoas se compreendam e se respeitem; onde se viva e se trabalhe dando a primazia absoluta ao sentido dos outros, o mesmo é dizer, procurando em tudo o bem supremo das pessoas ao qual nada se pode sobrepor.

O Evangelho segundo São João sugere-nos a atitude de Jesus Cristo como inspiradora do nosso caminho de edificação do mundo: conscientes da nossa vocação fundamental, o amor, assumirmos a vida como um serviço à humanidade. Ao mostrar-lhes as mãos e o lado fez-lhes ver os sinais eloquentes de uma atitude de vida caraterizada pelo sentido dos outros levado às últimas consequências; ao repetir a saudação “a paz esteja convosco”, levou-os a conhecer os caminhos de construção da justiça e da paz na cidade dos homens.

Na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, o Papa Francisco afirma que “toda a cultura e todo o grupo social necessitam de purificação e amadurecimento” (69).

Ao contemplarmos o mundo em que vivemos, marcado por tantas assimetrias, divisões, atentados à liberdade e ao respeito pelo ser humano, tomamos consciência dessa necessidade de purificação e amadurecimento cultural, apesar dos milénios de história que já levamos e do longo caminho já feito.

Este trabalho tem entre os seus principais agentes a Universidade, enquanto lugar de conhecimento e de cultura, autêntico protagonista do desenvolvimento civilizacional.

Possa a Universidade de Coimbra com a sua longa e gloriosa história enraizada nos  ideais humanistas de matriz judeo-cristã ser parte privilegiada neste caminho de construção da cidade dos homens, promovendo em todas as suas instâncias a purificação e amadurecimento culturais que conduzam à justiça e à paz, passando pelo crescimento do sentido dos outros e pela cultura do serviço.

Ao Espírito Santo confiamos toda a comunidade académica e pedimos que lhe conceda o dom da verdadeira sabedoria, no temor de Deus e no respeito pelo Homem.

 

Coimbra,  1 de Março de 2014

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