MISSA DO CRISMA - SÉ NOVA DE COIMBRA, QUINTA FEIRA SANTA DE 2013

Caríssimos irmãos sacerdotes!

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu”.

Jesus entrou na Sinagoga de Nazaré, leu a passagem do profeta Isaías e concluiu ter-se cumprido a passagem da Escritura acabada de ouvir. Declarou, desse modo, estar cheio do Espírito Santo, o grande dom do Pai, que o conduzirá a cumprir a missão para a qual foi enviado.

Quis Deus que o mesmo dom do Espírito Santo fosse comunicado a toda a Igreja, para que cumpra a sua missão. Pelo batismo e pela confirmação, os membros do Povo de Deus ficaram cheios do Espírito Santo, tal como a assembleia eclesial reunida no dia do Pentecostes, com Maria.

De um modo particular, o Senhor concedeu a abundância do seu Espírito àqueles que ungiu por meio do sacramento da Ordem, unindo-os assim mais diretamente à sua pessoa e à sua missão. Todos nós, sacerdotes, fomos chamados pelo Senhor para andar com Ele, para partilhar a grandeza do seu coração, para distribuir com Ele e em seu nome os mistérios da graça e conduzir a Igreja às fontes da salvação.

Quem somos nós sem a graça e a força do Espírito que nos foi dado por meio da imposição das mãos e da unção com o óleo santo? O que poderíamos nós fazer sem o carisma e o ministério que o Senhor nos concedeu por meio da sua Igreja? Como levaríamos a riqueza do Deus Santo nos nossos vasos de barro sem o Espírito que nos santifica?

O dom do Espírito Santo, que recebemos, molda a nossa identidade mais profunda e a nossa missão, porque nos enraíza em Cristo, em cujo mistério se compreende e explica a nossa vocação e ministério. Com todos os cristãos, definimo-nos por permanecer em Cristo, pelo facto de termos sido incorporados n’Ele por meio do Baptismo e nos alimentarmos d’Ele na Eucaristia. Entre eles, os sacerdotes, “assinalados com a sagrada Ordem, ficam constituídos em nome de Cristo para apascentar a Igreja com a palavra e a graça de Deus” (LG 11).

O mesmo dom do Espírito Santo nos insere na Igreja, Corpo Místico de Cristo, a fim de sermos seus membros e associados ao Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas. A nossa vocação e a nossa missão de sacerdotes confunde-se com a vocação e a missão da Igreja, pois nela temos por vocação ser Corpo de Cristo e Povo de Deus, e com ela temos por missão trabalhar pela salvação universal. A razão de ser do nosso sacerdócio não é mais que a razão de ser da incarnação do Verbo de Deus e a razão de ser da Igreja, ou seja, é a salvação da humanidade pela qual Cristo entregou o seu corpo à morte e derramou o seu sangue na cruz.

 

“Para anunciar a Boa Nova aos pobres”.

Iluminados pelo Espírito Santo, homens de Deus, somos enviados a anunciar a Boa Nova aos pobres. Esta foi a missão que o Senhor assumiu e que nós, unidos a Ele, assumimos. Não somos padres para nós, mas para a Igreja, na qual temos a graça de servir enquanto portadores do Evangelho de Jesus Cristo e associados à sua própria missão.

Fomos convocados pela Igreja para uma nova evangelização do mundo, em circunstâncias muito particulares de indiferença em relação a Deus, à fé cristã e à Igreja. São necessários os novos métodos, capazes de fazer chegar a comunicação aos homens de hoje, culturalmente voltado para outros horizontes.

Homens cheios do Espírito que renova todas as coisas, não nos resignamos com a repetição dos métodos e meios que herdámos; havemos de procurar a abertura a outras formas de evangelização, caracterizadas pela intervenção ativa, pela oferta de propostas de encontro e reflexão, pelos momentos profundos de oração, pela liturgia celebrada com arte e com alma.

Como nos repetiu incessantemente o Magistério da Igreja, não basta investir em estruturas, métodos e meios, sendo essencial a todo o processo evangelizador o novo ardor, a alegria de acreditar e o entusiasmo na comunicação da fé. Se a alguns é dada a ciência da evangelização, a todos é dada a graça da fé e o dom de a testemunhar com uma vida que se torne mensagem e apelo para o mundo. Enquanto sacerdotes, temos por missão ser peritos no ardor da fé e na caridade pastoral.

O amor pela Igreja e pela humanidade, representado nos pobres referidos no texto do Evangelho, constitui a nossa motivação mais séria, juntamente com o amor ao Senhor nosso Deus, que nos amou primeiro. Exercer o ministério como ato de caridade é o grande desafio que o Senhor nos faz. Temos, por isso, um caminho longo de purificação das nossas motivações, pois frequentemente outras realidades se sobrepõem a estas, pervertendo o exercício do ministério que recebemos.

Ser padre é uma questão de amor, é uma forma bela de amar Deus e os irmãos, cuja grandeza nunca reconheceremos plenamente; é o dom maravilhoso que o Senhor nos concedeu de nos unir a Si, à Sua pessoa e ao seu coração enquanto sede do Seu amor universal, capaz de abraçar todos os homens, a começar pelos pobres, os cativos, os cegos, os oprimidos referidos pelo Evangelho.

No nosso ser padres e na nossa ação pastoral temos de recordar muitas vezes para nós próprios que o sacerdócio enquanto vocação e missão é um ato de amor de Deus a que se junta o nosso ato de amor. De facto, a nossa vocação e a nossa missão sacerdotal nascem de Cristo, do seu amor obediente ao Pai até à morte de cruz e do seu amor feito serviço à humanidade até à humilhação total expressa no lavar dos pés aos discípulos. Este constitui o nosso programa de vida: a obediência filial ao Pai e o serviço fraterno aos homens.

 

A Igreja está a viver uma nova primavera do espírito com o testemunho tocante do Papa Francisco. Sem diminuir em nada a atitude heroica e santa dos papas que o precederam e conduziram a Igreja guiados pelo mesmo Espírito, o Papa Francisco apareceu sem qualquer outra segurança senão a de Cristo; sem qualquer outra força senão a da humildade; sem qualquer outra glória senão a da cruz; sem qualquer outra bandeira senão a do serviço.

As palavras e gestos do Papa Francisco correm o risco de ser mais notórias fora da Igreja do que dentro dela, e podem mesmo tocar mais intensamente os leigos do a que nós sacerdotes. O seu modo de ser e a sua atitude põem de tal modo em causa as nossas seguranças humanas e a nossa tranquilidade instalada, que corremos o risco de os desvalorizar. Aliás, a atitude de Jesus foi tão desconcertante para os seus discípulos e propõe-nos uma radicalidade tão grande que nos causa perplexidade no momento de nos rendermos às suas propostas de vida.

A hora que vivemos é portadora de uma nova aurora de esperança, de novos sinais dos tempos, que havemos de ler como um convite à conversão pessoal e eclesial. Ao repropor Cristo como centro único da vida da Igreja e de cada um dos seus membros, o Papa está a reafirmar uma realidade de sempre, mas com um novo vigor, que nos deve levar a recentrarmo-nos n’Ele enquanto nosso caminho, nossa verdade e nossa vida. No fundo, está proclamar e testemunhar com a linguagem de hoje a fé transmitida por São João no texto do Apocalipse, que escutámos, quando diz: “Eu sou o Alfa e Ómega, Aquele que é, que era e que há-de vir, o Senhor do Universo”.

 

“Quantos os virem terão de os reconhecer como linhagem que o Senhor abençoou”.

Apesar de ser palavra do Antigo Testamento relacionada com o sacerdócio antigo, exprime bem o que a Igreja e o mundo esperam de nós, sacerdotes: o testemunho da comunhão que vivemos com o Senhor, que é fonte de bênção para nós e para aqueles que nos virem.

Convido-vos, caríssimos irmãos, a viver essa comunhão, em primeiro lugar dentro do presbitério que formamos. A compreensão, o perdão, a amizade, a disponibilidade e a entreajuda fraternas são os sinais mais visíveis da autenticidade da comunhão do presbitério. Se a não vivemos com os irmãos mais próximos com quem partilhamos a mesma vocação e o mesmo ministério, como a viveremos com a Igreja e com o próprio Deus?

Convido-vos a abrir as portas do coração ao Espírito Santo de Deus, para que continue a encher-nos de graça e a enviar-nos, com a mesma frescura do primeiro dia, quando o senhor nos chamou e lhe demos o nosso sim confiante.

Convido-vos a renovar a decisão de viver em Cristo e por Cristo todos os momentos da vida, numa dedicação e serviço livres e alegres, cheios do ardor da fé.

Acompanhe-nos a intercessão da Virgem Santa Maria, Mãe de todos os sacerdotes e Mãe da Igreja.

 

Coimbra, 28 de março de 2013

Virgílio do nascimento Antunes

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