MISSA NOS 90 ANOS DA FUNDAÇÃO DA LEGIÃO DE MARIA - SÉ NOVA DE COIMBRA - 2011-09-18

Caríssimos irmãos!

Esta celebração constitui um momento especial de louvor a Deus pela ocorrência dos 90 anos da fundação da Legião de Maria, por Frank Duff, em 1921. Foi fundada como um movimento laical de apostolado, que acabou por se estender a todo o mundo e tem dado muitos frutos de evangelização e vida cristã em tantos lugares.

Ainda há poucos dias ouvi o testemunho comovente de um bispo católico, de rito caldeu, que contava, entre lágrimas, a acção corajosa de alguns grupos de cristãos perseguidos no Iraque; entre eles, destacavam-se pela fé e coragem os da Legião de Maria. Apesar da proibição de sair de casa e do perigo de morte que sabiam correr, não deixaram de comparecer em massa nas igrejas de Mossul para celebrar o Tríduo Pascal. Naquele momento senti o grande desejo de dar graças a Deus e de pedir o dom de uma fé forte e da coragem enérgica para a testemunhar, juntamente com todos vós, nesta celebração que agora fazemos.

É um facto que, nos países do Leste Europeu, durante os tempos da ditadura marxista, que proibiu a liberdade de culto e de religião e perseguiu de modo particular os católicos, muitas comunidades se aguentaram escondidas no silêncio, graças à devoção mariana veiculada por diversos movimentos de espiritualidade, entre eles a Legião de Maria. Ainda há pouco tempo tive oportunidade de conhecer alguns destes factos ocorridos na Polónia e na República Checa.

Tudo isto nos ajuda a compreender que a Legião de Maria tem ajudado muitas pessoas a conhecerem a sua fé, a aprofundá-la e a testemunhá-la, seguindo os métodos e regras próprias da sua estrutura organizativa e sempre alicerçada na mais bela devoção mariana.

 

Ao passar os olhos por alguma bibliografia relativa a este vosso movimento, percebi ali presentes algumas ressonâncias da Palavra do Senhor, que hoje escutámos e que, neste momento, vos proponho.

O grande apelo de todo o Evangelho, por isso, o grande apelo de Jesus a todos nós, é o da conversão. Antecipando o convite de Jesus, o livro de Isaías dirigia um forte convite a todo o homem pecador: “Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele, ao nosso Deus, que é generoso em perdoar”. Todos nós nos reconhecemos entre aqueles que, sendo pecadores, são chamados a um encontro forte com o Senhor, nosso Deus, que nos conduza pelos caminhos da conversão.

O texto de Isaías explicava o significados desse acontecimento: deixarmos que os nossos caminhos e os nossos pensamentos se encontrem e cruzem com os caminhos e os pensamentos de Deus. Dito de outro modo, significa permitirmos que seja Deus a ordenar segundo os seus critérios tudo o que nos move na vida: o pensamento, a acção, os valores, os objectivos, os sonhos e anseios mais profundos.

Nos apelos de conversão que sentis dentro da Legião de Maria, podeis perceber as ressonâncias das palavras de Isaías, completadas pelas palavras de Jesus no início do Seu ministério público: convertei-vos e acreditai no Evangelho. Esta é, sem dúvida a primeira obrigação do cristão e, concretamente, de todo aquele que sente o chamamento a integrar o vosso movimento, como ajuda para a vida cristã.

 

Por sua vez, o texto do Evangelho de S. Mateus apresentava-nos as exigências da missão da Igreja, à qual todos somos chamados a dar uma resposta. Por meio da parábola do proprietário que contrata trabalhadores para a sua vinha, o Senhor começa por nos fazer compreender que é uma graça sem preço podermos ser contados entre os que dedicam o seu tempo e a sua vida a anunciar o nome de Jesus e a salvação que oferece aos seus irmãos.

Os trabalhadores contratados, cada um à sua maneira teve dificuldade de compreender a oportunidade do chamamento, a finalidade do convite e os critérios da recompensa. O mesmo acontece connosco, homens e mulheres, cristãos de hoje, a quem se aplica o sentido da parábola do Evangelho. Precisamos de compreender à luz da fé, que é um grande privilégio do amor e da graça do Senhor sermos chamados a partilhar a sua missão de anunciar por toda a parte as suas maravilhas. Por outro lado, essa convicção tem de ser motivo de acção de graças a Deus; em vez de lamentarmos as dificuldades da vida e de testemunhar a fé com coragem, temos de agradecer a Deus com a oração e a vida a possibilidade que nos deu de nos associarmos à sua acção em favor dos homens.

Frequentemente ouvimos algumas pessoas lamentarem a idade que já têm e as dificuldades crescentes na realização do apostolado directo a que se sentiram chamadas. Na alvorada e na juventude da vida, como a meio ou no fim do dia e do percurso, sobre esta terra, é o mesmo Senhor que chama e envia. Como nos ensinou a parábola, de manhã cedo, a meio da manhã, à tarde ou mesmo ao anoitecer, cada um é convidado a pôr à disposição de Deus e dos irmãos o dom do seu tempo, das suas capacidades e da sua disponibilidade. Independentemente das condições ou da idade, cada um tem a sua quota parte de responsabilidade na Igreja. Edifica-nos muito o trabalho de algumas pessoas aqui presentes, já com o peso da idade ou da falta de saúde, mas que não regateiam nada a Deus; edifica-nos o trabalho persistente, discreto, simples de muitos que visitam os doentes, que fazem companhia sem contar o tempo gasto, que confortam e animam, que vão de casa em casa a falar do Deus bondoso e compassivo ou que se expõem à crítica dos demais quando fazem o anúncio porta a porta ou pessoa a pessoa; edifica-nos o espírito de oração constante de muitos que já não podem fazer mais nada, mas deitam mão ao meio mais poderoso de acção em favor dos outros: a oração que move o coração dos homens e o coração de Deus.

Ao contrário dos convidados a trabalhar na vinha, nós aprendemos a não procurar nem esperar recompensa. Que recompensa maior pode haver do que trabalhar por Cristo e com Cristo em favor da salvação da humanidade? Que recompensa maior do que ser associados à missão cristã? De facto, o que mais dignifica qualquer acção humana é o amor com o qual se realiza; o que mais dignifica a acção do cristão é o amor a Cristo, que nos enche de todos os bens.

 

Finalmente, S. Paulo na Epístola aos Filipenses, dá-nos a frase chave que há-de conduzir toda a nossa vida: “Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro”. Parece-me que a vida do membro da Legião de Maria tem de estar marcada por esta convicção central: a vida e acção valem se estamos em Cristo. No meio de alegrias e tribulações, na vida ou na morte, queremos ser de Cristo. Entenderam-no bem alguns mártires do século XX para quem viver ou morrer não contava, desde que estivessem com Cristo. Assim cumpriram o mandato de Paulo, que hoje ouvimos: “Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo”.

 

Esta celebração, caríssimos irmãos, renove em todos nós o ardor da conversão a Cristo para que seja muito mais sério o nosso empenho na missão evangelizadora da Igreja.

A abertura ao Espírito Santo, tão característica da vida do legionário, dar-vos-á a iluminação necessária para partir com confiança quando o senhor vos chama com trabalhadores para a sua vinha.

A companhia de Maria nunca deixará só cada um de vós nos difíceis caminhos do apostolado. Maria há-de continuar a moldar-vos segundo a sua própria maneira de ser e a potenciar a vossa acção apostólica, pois como diz o Manual da Legião de Maria: “Maria sem maternidade e o cristão sem apostolado são ideias paralelas; quer uma quer outra seriam incompletas, irreais, inconsistentes e falsas, segundo as intenções divinas”.

Que Maria vos acompanhe em todas as vossas tarefas apostólicas e vos ensine a trabalhar do alvorecer ao entardecer do dia na vinha do Senhor, sem esperar recompensa, mas antes agradecidos pelo dom de colaborar com Cristo na salvação do mundo.

 

Coimbra, 18 de Setembro de 2011

Virgílio do Nascimento Antunes

(bispo de Coimbra)

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