Missa Quarta Feira de Cinzas 2014

MISSA DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS 2014

SÉ NOVA DE COIMBRA

 

“Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus”.

A Quarta-feira de Cinzas, porta de entrada no tempo da Quaresma, é o dia do apelo de Deus à conversão do seu povo. “Convertei-vos a Mim de todo o coração”, ouvíamos na Profecia de Joel, palavra escolhida pela Igreja para nos acompanhar neste tempo favorável da graça e da salvação.

A conversão supõe a centralidade de Deus, que é Ele a nossa referência, a razão de ser da nossa vida, quem conduz as nossas opções mais sérias e mais profundas. Supõe que nos sentimos numa tal relação de confiança com Ele, que estamos disponíveis para nos abandonar à sua vontade, seguros de que nada nos faltará, de que a sua palavra é a verdade e de que o seu amor é puro e santo.

Tempo forte de caminhada na conversão, a Quaresma prolonga-se de algum modo na totalidade da nossa vida, que é um contínuo progredir na conversão a Deus, entrar em Deus e assumir Deus em toda a nossa existência.

O fim da vida cristã consiste em permanecer na comunhão com Deus por meio de Jesus Cristo e o caminho é a conversão, que nos leve a uma identificação cada vez mais perfeita com Ele, até que o nosso coração esteja unido ao coração de Deus e as nossas obras exprimam o amor de Deus.

O encontro pessoal com Cristo, inscrito no Plano Pastoral da nossa Diocese, é outro nome da conversão, pois é identificação com Cristo a quem conhecemos, em quem acreditamos e a quem amamos.

“Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo”.

A Quaresma recorda-nos também que o reconhecimento da nossa debilidade de criaturas e do nosso pecado humano é condição para a realização do processo da conversão.

Numa perspetiva simplesmente humana é, hoje, muito difícil que alguém reconheça a sua culpa e o seu pecado. A cultura dominante leva-nos antes a entender os acontecimentos negativos como fruto das circunstâncias e a ver a realidade dos nossos insucessos como inevitável. Se dificilmente as pessoas assumem a culpa e a responsabilidade na relação com os outros, menos ainda a assumem no que respeita às ofensas a Deus.

Pedir perdão aos outros, sendo algo raro, é algo essencial nas relações maduras e responsáveis, pois exige a grandeza da confiança e do amor, disponíveis para ir até ao fim. Pedir perdão a Deus, para além de ser fruto do reconhecimento da nossa pequenez e da sua santidade, supõe esse encontro pessoal e confiante com Ele, que, por um lado, é já fruto da conversão e, por outro, faz progredir no caminho da mesma conversão.

“Onde está o seu Deus?”

A Quaresma constitui ainda uma escola de vida para o cristão e uma oportunidade para crescer na clareza do testemunho de vida.

A cada um de nós, cristãos, ajuda a perceber o lugar e a centralidade efetiva de Deus na vida. Mais do que uma ideia, um código moral, um sistema religioso, Deus passa a ser Alguém que nos ama, que nós amamos, que está em nós e permite que estejamos n’Ele. À pergunta dos povos, “onde está o teu Deus?”, o cristão pode responder com certeza e clareza: o meu Deus está em mim e eu estou n’Ele.

Para os outros, particularmente para os que não creem, aquele que está em Deus torna-se uma testemunha e um agente da transformação do mundo. Deus passa também a estar no mundo por meio daqueles que n’Ele creem, a Ele se convertem e n’Ele vivem.

A discrição de que fala o Evangelho a propósito da oração, do jejum e da esmola pretende ensinar-nos que o segredo da transformação do mundo é a ação e a vida silenciosas dos que percorrem os caminhos da conversão, dos que procuram mais viver em Deus do que fazer propaganda de Deus.

Além da dimensão pessoal até agora referida, a nossa caminhada quaresmal de conversão a Cristo tem uma essencial dinâmica eclesial. Ainda na perspetiva de implementação do Plano Pastoral Diocesano, propusemos a toda a Diocese o fortalecimento desta certeza de fé, por meio da leitura orante da Palavra de Deus, a lectio divina.

 Propusemos ainda a partilha de bens em favor dos mais pobres, destinando o produto da Renúncia Quaresmal a ajudar o Projeto Ergue-te, da Fundação Madre Sacramento das Irmãs Adoradoras, que lidera em Coimbra uma Estrutura de Emprego Protegido para mulheres que abandonam a prostituição.

Estas ações como todas as outras que desenvolvermos a nível pessoal ou como comunidade cristã, hão-de ser resposta a dizer: Deus está em mim, Deus está na Igreja que somos e por nós quer chegar aos homens do nosso mundo.

A cinza que impomos sobre as nossas cabeças signifique a nossa humildade e disponibilidade para nos convertermos a Deus, para recebermos o perdão dos nossos pecados e para incarnarmos a sua presença amorosa no nosso mundo.

Brilhará para nós e para os homens nossos irmãos a luz da Páscoa, a luz do Deus que nos ilumina e nos salva. Ámen.

 

Coimbra, 05 de março de 2014

 

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