SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO - CAPELA DE SÃO MIGUEL, NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra, Senhores Professores, Caros Alunos, Senhor Capelão, Irmãos e Irmãs

 

A Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria dá-nos a oportunidade de reunir a Academia de Coimbra na Capela de São Miguel, um dos maiores símbolos da matriz cristã da nação portuguesa, um lugar que fala do nosso modo de ser enquanto povo com uma cultura própria, com aspetos peculiares que nos caraterizam e definem a nossa identidade.

Dentro da universalidade dos povos e apesar das tendências globalizadoras da atualidade, persiste uma cultura portuguesa, entendendo cultura como “um estilo de vida que uma determinada sociedade possui, da forma peculiar que têm os seus membros de se relacionar entre si, com as outras criaturas e com Deus” (Evangelii gaudium, 115). É incontornável o facto de que a cultura portuguesa não se entende sem a compreensão da fé cristã que lhe dá forma e que a permeia de valores, experiências e intuições próprias.

Se “o ser humano está sempre culturalmente situado” (Evangelii gaudium, 115), é fundamental que desenvolvamos a capacidade de conhecimento acerca do húmus em que germinámos, das vagas que nos fizeram aportar nesta praia, e dos sedimentos nos quais se caldeou a nossa identidade.

Qualquer negação ou obscurecimento de uma matriz multimilenar, consequência fácil de uma permeabilidade acrítica à globalização cultural, leva a uma possível perda de horizontes, tão caraterística das gerações mais jovens. Neste sentido, a própria academia, bem situada no seu meio cultural envolvente, só ganhará em potencialidades se souber colher as dominantes fundamentais da cultura popular, entendida como cultura do povo, expressão depurada dos valores mais profundos que nos movem e definem o que é ser “português”.

Qualquer divórcio entre a erudição, o progresso no conhecimento, o desenvolvimento técnico e científico, e a tradição cultural de um povo, produz uma crise de identidade, uma desorientação e até uma perda de horizontes nocivos à comunidade que somos.

Muitas das dificuldades que hoje vivemos podem ter as suas raízes neste divórcio extemporâneo que nos levou a cortar os laços que nos uniam a um modo de ser culturalmente bem definido para nos lançar nos braços de uma novidade não refletida nem compreendida, mas deslumbrante, porque portadora de possibilidades de realização imediatista, nem sempre respeitadora da cultura, no sentido antes referido de um estilo de vida que carateriza o modo de os membros de uma sociedade se relacionarem entre si, com as outras criaturas e com Deus.

A Solenidade da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal e padroeira da Universidade de Coimbra lembra-nos a necessidade que temos de fortalecer laços culturais que nos levem a melhorar o modo de nos relacionarmos com os outros, com as outras criaturas e com Deus. Da qualidade desses laços, dessas relações, depende muito do que somos e a qualidade do progresso que desejamos.

 

A Primeira Leitura desta missa, tirada do Livro do Génesis, juntamente com o texto do Evangelho de São Lucas, que ouvimos, ofereciam-nos três expressões que nos apontam algumas pistas orientadoras desse modo de ser e de nos relacionarmos que fazem parte do nosso ideal de vida, enquanto património estruturante da nossa procura de identidade.

“Onde estás?” é a pergunta de Deus à humanidade criada. Inclui uma chamada de atenção relativamente aos desvios e fugas, bem como uma indicação do lugar onde é preciso estar. Subtrair-se ao olhar de Deus e à fé em virtude de um desejo de afirmação de uma visão parcial da autonomia humana é uma tentação de todos os tempos, que se concretiza em formas diversas de indiferença ou de incredulidade.

Excluir os outros do próprio projeto de realização ou tratá-los como meios a utilizar e a descartar consoante os objetivos a atingir, tem também muitas concretizações no agir do nosso tempo, entre elas as diferentes formas de desumanização mesmo que protagonizadas em nome da promoção do ser humano.

“Que fizeste?” é a segunda interpelação, neste caso relativa ao nosso agir, respeitador ou não da liberdade enquanto caraterística integrante da nossa condição humana.

A árvore da ciência do bem e do mal colocada no meio do jardim, ou seja, no local onde se vivem as relações com Deus, com os outros e com a natureza, simboliza as diferentes possibilidades de escolha de projetos de vida e de ações a realizar, sabendo-se à partida, que somente a escolha do bem condiz com a nossa condição.

Esta mesma pergunta leva-nos a perguntar de que modo temos assumido a nossa responsabilidade diante das questões mais sérias ou das opções fundamentais da nossa vida e na realização das ações quotidianas. Numas e noutras se joga a questão da liberdade, nossa grandeza e nossa missão.

O Livro do Génesis junta a estas duas uma terceira pergunta, que não ouvimos na leitura de hoje: “Onde está o teu irmão?” Refere-se à fundamental fraternidade e solidariedade que nos carateriza como pessoas, iguais em dignidade, responsáveis umas pelas outras, pelo simples facto de sermos pessoas e criaturas amadas de Deus.

O texto do Evangelho conduz-nos à descoberta de Jesus Cristo, raiz e inspiração fundamental do modo de ser pessoa, sociedade, cultura de matriz cristã. Ele é a resposta de Deus às nossas muitas questões, formuladas de modo sintético nas que nos ofereceu o livro do Génesis. Ele está na comunhão de amor com Deus; Ele é o Homem livre diante da realidade e das pessoas, que escolhe o que é justo, reto e bom; Ele sabe onde está cada um dos seus irmãos, pois elegeu a fraternidade universal como a sua marca sem qualquer rival. Ao dizer que “o Seu reinado não terá fim”, o Evangelho tem em conta a totalidade do texto bíblico segundo o qual o reinado de Jesus Cristo é o do serviço, da fraternidade e do amor, exaltado na cruz.

 

Ao pronunciar a frase chave da sua vida, “eis a escrava do Senhor”, Nossa Senhora, uma mulher, figura da Igreja e da humanidade, aceita livremente situar-se na mesma perspetiva de serviço, fraternidade e amor, na relação com os outros e com Deus. Por isso, figura entre nós como ícone religioso e, ao mesmo tempo, ícone da nossa matriz cultural.

Que ela, Santa e Imaculada, Sede da Sabedoria, vele constantemente por nós. Ámen.

 

Coimbra, 8 de dezembro de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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