SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS - 2012 - SÉ NOVA DE COIMBRA

A Igreja dedica o primeiro dia do ano a Santa Maria, Mãe de Deus, a rainha da Paz e Mãe do Príncipe da Paz. Em ambiente natalício, recordamos o anúncio dos Anjos na noite de Belém e o seu canto de glória a Deus no Céu e paz na terra aos homens.

Neste Dia Mundial da Paz, somos confrontados com inúmeras situações de guerra armada, que fere e mata pessoas inocentes e indefesas, nas mais variadas partes do mundo, sobretudo no Médio Oriente, onde não se vislumbram soluções eficazes para os conflitos entre nações e entre povos.

Noutras partes do mundo assistimos a graves divisões causadas por fundamentalismos religiosos, que fizeram renascer ações terroristas, perpetradas, na maior parte dos casos, contra os cristãos minoritários em muitos países da Ásia.

A guerra surda contra a vida humana nascida ou por nascer, resultado do mais feroz egoísmo, continua a ser a que deixa atrás de si maior rasto de violência e de morte. Igualmente sem voz é toda a guerra psicológica, que leva a constrangimentos e violências por parte dos mais fortes sobre os mais fracos. É a guerra cuja arma é o sofrimento que se inflige aos outros por meio de palavras, gestos e atitudes de vida, dentro de cada casa, nos locais de trabalho ou no mundo das relações pessoais.

Somos ainda confrontados com as guerras que são a pobreza, o desemprego, o desnorteamento dos mercados financeiros, todas as formas de especulação, a supremacia dos países ricos e o crescendo sem fim da dívida pública, que deixa pessoas e nações à mercê da avidez de alguns.

Como recorda o papa Bento XVI na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, os jovens são os que se apresentam mais vulneráveis face a estas realidades, que os atingem numa fase crucial da sua vida. Face a um conjunto de más experiências de vida e a um mau testemunho da sociedade em que nasceram, eles correm o risco de não acreditar no ser humano, nas sua bondade natural e nas suas capacidades de construir o futuro pela via da justiça e da paz. Os jovens, que esperavam um conjunto de oportunidades e condições para a construção do seu futuro pessoal, familiar, social, laboral, encontram pela frente um conjunto de portas fechadas e barreiras intransponíveis. Eles mesmos podem tornar-se protagonistas de um futuro sem esperança e agentes de uma cultura sem objectivos justos e válidos.

Urge, nestas circunstâncias, promover uma verdadeira educação dos jovens para a justiça e para a paz, que envolva a família, a escola, a Igreja.

O Livro dos Números sugeria-nos na Primeira Leitura da Missa de hoje que o futuro de paz é fruto da bênção e da proteção do Senhor, nosso Deus, que volta para nós o seu olhar de bondade. É este olhar de Deus, cheio de graça e de misericórdia, que, ao cruzar-se com o nosso olhar, tem o dom de nos transformar interiormente e de provocar em nós a mudança radical da nossa mentalidade e da nossa formas de agir. Esse olhar e Deus, acolhido por nós, provoca a conversão do coração, condição essencial para a construção da justiça e da paz.

Foi deste olhar de Deus que o mundo se foi afastando; fomo-nos escondendo de Deus neste jardim em que nos colocou, para que o construíssemos e o fizéssemos prosperar de todos os bens e para todos os homens. A educação dos jovens em vez de os levar a sair para fora de si mesmos, em vez de os abrir aos outros e a Deus, fechou-os na procura de si mesmos, impeliu-os a afirmar-se pelo conhecimento, enquanto nova forma de poder e de domínio. Aquilo que devia ser educação, tornou-se um conjunto de meios para ultrapassar os outros, numa competição louca pela conquista dos lugares de trabalho, pela melhor remuneração e pelas maiores seguranças materiais da vida.

A pedagogia de Deus apresentada na Segunda Leitura, da Epístola aos Gálatas, vai numa linha claramente contrária: Deus enviou o Seu Filho para resgatar todos os que eram escravos e nos tornar seus filhos adoptivos. Esta é a pedagogia da educação para a liberdade face às pessoas e face às coisas; a pedagogia da educação para a justiça, conscientes de que o mundo e os seus bens e recursos não são propriedade de alguns afortunados, mas devem estar adequadamente ao serviço do bem de todos; esta é a pedagogia da educação para a paz, pois ela nunca existirá sem recto uso da liberdade nem sem justiça nas relações sociais ou no uso dos bens deste mundo.

Ao apresentar os pastores a dirigir-se apressadamente para Belém, o Evangelho de S. Lucas diz-nos que os caminhos da justiça e da paz dependem de uma séria decisão, que há-de ter lugar dentro de nós. Movidos pela voz do coração, da consciência e de Deus, os pastores partiram e puderam contemplar a novidade da família do Filho de Deus. Como que a dizer que, movidos pela voz do coração, da consciência e de Deus, havemos de construir um mundo diferente e, enquanto famílias, escolas, Igreja, havemos de proporcionar aos jovens a possibilidade de fazer um percurso diferente, na procura livre da justiça e da paz.

Ao darem ao Menino o nome indicado pelo Anjo, Maria e José professam a sua fé em Jesus, o Deus que salva. Também nós, neste primeiro dia do ano e Dia Mundial da Paz, professamos a nossa certeza de que a presença de Jesus, o Deus que salva, na educação familiar, escolar e eclesial, é garantia segura de construção de uma sociedade onde reine a justiça e a paz para todos.

A Santa Maria, Mãe de Deus, consagramos este novo ano, e suplicamos que nos ensine a conservar no coração as palavras de amor e de paz de Jesus, o Deus que salva. Ámen.

 

Coimbra, 1 de janeiro de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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