SOLENIDADE DE SÃO TEOTÓNIO, NO 850º ANIVERSÁRIO DA SUA MORTE - IGREJA DE SANTA CRUZ DE COIMBRA

Assinalar os 850 anos da morte de São Teotónio constitui um acontecimento relevante para a cidade e para a diocese de Coimbra. O que agora somos é, em grande parte, fruto do húmus fértil em que germinaram dinamismos, ideias e valores no passado. Se muito é o resultado de conjunturas, confluir de circunstâncias, muito mais se forjou na vontade firme e fiel de pessoas com nome, ancoradas na determinação férrea de edificar algo de sólido, bom e belo, que perdura apesar da voragem do tempo.

São Teotónio é uma dessas pessoas que não são simplesmente o fruto do conjugar de sinergias, mas o produto acabado de um conjunto de opções pessoais, sérias e decididas, das que tomam toda a pessoa e comprometem a pessoa toda. Ele é exímio representante dos maiores, daqueles que investem tudo na tarefa de se construírem enquanto pessoas abertas a Deus pela fé, abertas à vida com esperança e abertas aos outros na caridade.

Ao ler a sua biografia escrita por um autor contemporâneo e seu discípulo, havemos de interpretar o texto de acordo com o género literário, ter em conta a época em que foi redigida, descontar inclusivamente o facto de ele ser seu discípulo e estar interessado em fazer a sua apologia. Temos, no entanto, igualmente, de concluir, que São Teotónio foi alguém cuja vida deixou marcas bem vincadas nas pessoas e instituições do seu tempo, tornou-se notório, de uma forma muito diferente de todos os outros sobre os quais se podia igualmente ter escrito.

Escasseavam na altura, e escasseiam talvez mais ainda hoje, figuras de grande envergadura moral, autênticos mentores da humanidade, quer se apresentem impregnados pela fé cristã, quer sejam homens de boa vontade. Não abundam as referências culturais capazes de aglutinar esforços e vontades em ordem ao bem comum e à construção de uma cidade dos homens assente na verdade e na justiça. Não abundam referências políticas, espirituais, religiosas, ficando a sociedade frequentemente à deriva e a correr atrás dos ecos das novidades que, como nuvens passageiras, assim como aparecem se desfazem.

Contam-se no passado e no presente muitos de quem se narram as obras realizadas, os feitos alcançados, mas de poucos se pode dizer como escreveu o hagiógrafo a propósito de São Teotónio: “A sua vida era para todo o povo de Deus um admirável exemplo de virtude”. Por muito que se admirasse a obra realizada, a cultura e sabedoria, o modo de gerir as comunidades por onde passou, a caridade em favor dos pobres, ou seja, tudo aquilo que fez, o que o deixou na mente dos seus discípulos foi a sua virtude, a força interior das suas convicções humanas e cristãs, a sua estatura moral e crente. Esta é, aliás, a única realidade que transforma a sociedade e o mundo, a que deixa marcas indeléveis ao elevar a humanidade a uma maior proximidade com a intenção original do Criador: criou-os homem e mulher, à sua imagem e semelhança os criou.

São Teotónio ficou como ícone de todo o que em primeiro lugar investe na “virtude” enquanto força interior que alavanca a vida. Não despreza o fazer, enquanto capacidade técnica ancorada pela inteligência e possibilidade de interferir na realidade. Num caso como noutro usa sempre de humildade, no trato com os outros porque são seus semelhantes, no trato com Deus porque é seu Criador – como disse o biógrafo: “metera-se em tal fortaleza de humildade que nem sequer quis nunca ter o nome de abade”.

De facto, interpretando à letra o texto do Evangelho há pouco escutado, nenhum título honorífico de autoridade ou de saber cabe em rigor ao homem; eles pertencem a Deus em quem reside a verdadeira sabedoria. Ao homem cumpre crescer na sabedoria, sem mais ambição que atingir a estatura do homem perfeito. Entendeu bem São Teotónio as palavras de Jesus referidas no Evangelho de Mateus: “aquele que for o maior entre vós será o vosso servo”. Encarou a totalidade da sua vida como lugar de serviço a Deus e aos homens e ficou, por isso, inscrito entre os maiores entre nós.

Não pode ter sido indiferente a São Teotónio a bela invocação sob a qual construiu este mosteiro, aqui na cidade de Coimbra, “do lado norte, onde eram os banhos reais” (Vida de S. Teotónio, p. 69), em honra da Santa Cruz e da Bem-aventurada Maria Mãe de Deus.

Homem ávido do conhecimento que o levou ao estudo e às viagens à Terra Santa, bem situado no melhor meio cultural da época, aberto às possibilidades da razão, foi ao mesmo tempo apaixonado pela fé que o levou à entrega de si mesmo no serviço de Deus. Encontrou em Cristo Crucificado a síntese perfeita do binómio fé/razão apresentado por Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, quando diz: “os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria”.

São Teotónio e este mosteiro, simbolizam para a cidade de Coimbra a possibilidade de conciliar fé e razão, “como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” (Fides et Ratio, introdução). Simbolizam para a Igreja o dinamismo da fé íntegra, refletida, aprofundada, que se faz testemunho de humildade e de serviço. Simbolizam ainda a força da cruz de Cristo enquanto sinal do amor, que tudo crê e tudo espera.

A Igreja de Coimbra, herdeira de tão grande património humano, cultural e espiritual, há-de voltar-se para as suas raízes. Ancorada no Evangelho da Cruz e da Ressurreição, e contando com tão elevados testemunhos, precisa de ganhar novo fôlego, munir-se de humilde entusiasmo, sólidos fundamentos doutrinais, e grande paixão por Cristo, a verdadeira sabedoria de Deus. No meio da inconstância das ideias e da transitoriedade dos valores, procuraremos ser fiéis à perenidade do Evangelho, que não temos complexos de anunciar com a palavra e com a vida, pois ele é já para nós caminho de vida e porta aberta ao diálogo com todos.

Rogue por nós S. Teotónio e proteja-nos a Santa Cruz e a Bem-aventurada Maria Mãe de Deus.

 

Coimbra, 19 de Fevereiro de 2012

Virgílio do Nascimento Antunes

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