SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR 2013 - MISSA DA MEIA NOITE COIMBRA - SÉ NOVA

“Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo, Senhor”.

Nesta noite, ecoa, de novo, a proclamação do Evangelho que anuncia a realização do plano de Deus: a salvação da humanidade por meio de Jesus Cristo, o Senhor. Nesta noite, renasce a alegria fundada na incarnação do Filho de Deus e, por isso, a alegria do natal como porta aberta à esperança da humanidade.

A celebração do natal constitui uma ato de fé em Jesus Cristo como o Senhor e único salvador do mundo. Esta é a certeza que nos move e que nos faz celebrar tanto na liturgia como nas mais variadas manifestações familiares, sociais ou eclesiais. Esta é a verdade que dá sentido à festa, à alegria, à fraternidade e ao amor, mais visíveis nos gestos, nas palavras e nas atitudes caraterísticas deste tempo.

 

“Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento”.

A alegria e o contentamento de que fala o profeta Isaías são expressão da fé na presença do Senhor na vida do seu povo, que teve a sua realização plena com a incarnação de Jesus no seio da Virgem Maria e com o seu nascimento em Belém. O Evangelista Lucas exprime-a por meio da proclamação solene do Anjo: “anuncio-vos uma grande alegria para todo o povo”, e por meio do canto do exército celeste: “glória a Deus nas alturas”.

Os evangelistas não deixam de insistir repetidamente nas referências à alegria de todas as personagens que acolheram o solene anúncio da presença de Jesus: Isabel, João Batista, José, Maria, os pastores, por altura do seu nascimento; as multidões, os discípulos e os apóstolos, quando se encontram com Ele nos caminhos da Palestina; as comunidades cristãs das origens referidas nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas do Novo Testamento, quando aderem à fé pascal e se tornam a Igreja nascente.

Ainda hoje, o sinal inequívoco da fé na presença do Senhor no meio do seu povo é a alegria com que os cristãos, as famílias e as comunidades cristãs celebram, vivem, partilham e testemunham.

O encontro com o Senhor e a fé na sua presença são portadores de uma grande consolação em todas as situações de vida, de um enorme gozo interior ou então de um grande contentamento, segundo a expressão do profeta Isaías. Quem alguma vez o experimenta nunca mais o esquece e encontra a condição essencial para perseverar na fé. Com razão, o Papa Bento XVI nos convidou a “descobrir de novo a alegria de crer e o entusiasmo de comunicar a fé” (PF 7) e nos disse que “ a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria” (Porta fidei 7). O natal consiste em assumir esse encontro e essa experiência de graça e de alegria como acontecimento maior da nossa vida.

Neste sentido a Igreja fala hoje do encontro pessoal com Cristo como a possibilidade de conhecer o Senhor vivo e atuante em cada pessoa e nas comunidades, como a via para a fé firme e perseverante, porque assente numa relação de amizade e de comunhão que preenche todos os vazios da alma. Agradecemos ao Papa Francisco por nos incentivar a fazer esse caminho na Exortação Apostólica a Alegria do Evangelho: “Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele... Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído” (Evangelii gaudium 3).

 

“Para estabelecer e consolidar (o seu reino) por meio do direito e da justiça”.

A fé na presença do Jesus Cristo no meio de nós leva-nos a trabalhar intensamente na construção de uma sociedade assente no direito e na justiça. Trata-se da dimensão social do Evangelho, que é uma expressão da fraternidade e da caridade trazidas pelo Senhor na sua vinda ao mundo.

Na mesma Exortação Apostólica, há pouco publicada, o Papa Francisco fala dela como uma “responsabilidade grave, pois algumas realidades hodiernas, se não encontrarem boas soluções, podem desencadear processos de desumanização tais que será difícil depois retroceder” (EG 51).

Esta responsabilidade é efetivamente real e tem de ser assumida em todos os tempos mas, de um modo especial no nosso, onde, como diz, “a maior parte dos homens e mulheres (...) vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver, frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade” (EG 52).

A fé na presença de Jesus Cristo no meio do seu povo e a mensagem evangélica são portadoras de uma boa nova a respeito das relações humanas e sociais; ela sempre iluminou os caminhos a percorrer no sentido de construirmos um mundo de justiça e de paz cujo fundamento é a igual dignidade de todos os seres humanos. A comunidade cristã que celebra o natal tem o grave dever de estar na primeira linha dos que trabalham efetivamente na promoção do direito e da justiça em todas as situações, por meio da difusão de uma cultura de fraternidade e por meio da denúncia de todas as agressões contra o bem maior de todos os cidadãos.

 

“Anuncio-vos uma grande alegria”.

Todas as páginas do Evangelho contêm implícito ou explícito o convite ao anúncio, como acontece com as narrações do natal do Senhor, da sua morte e ressurreição, da sua ascensão ao Céu ou da vinda do Espírito sobre a Igreja.

O dever de evangelizar o mundo faz parte integrante do processo de acolher a fé e de a viver. A evangelização a que a Igreja universal nos convida por meio do Sucessor de Pedro e também inscrita nos objetivos do Plano Pastoral da nossa Diocese, contempla as duas dimensões: a da vivência da fé como alegria pela presença do Senhor no meio de nós; e a do empenho na sua comunicação por meio da palavra e do testemunho de transformação das famílias, da comunidade cristã e da sociedade.

Ao celebrar o natal o cristão faz um ato de fé e acolhe o convite de evangelizar o mundo, exprimindo a sua alegria de crer e dando o seu contributo para a construção de uma sociedade assente no direito e na justiça, que respeite cada pessoa e todas as pessoas.

Que Maria e José nos ajudem a celebrá-lo com amor e a vivê-lo na fraternidade universal inaugurada por Jesus Cristo, o Filho de Deus e irmão de todos os homens.

A todos um santo e feliz natal.

 

Coimbra, 24 de dezembro de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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