SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS - MISSA DA ASSEMBLEIA DO CLERO DA DIOCESE DE COIMBRA - IGREJA PAROQUIAL DE SOURE

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus constitui uma boa ocasião para nos encontrarmos como presbitério diocesano numa grande ação de graças ao Senhor pelo dom do sacerdócio ministerial que concedeu à Igreja e a cada um de nós. Aqui estamos para lhe agradecer por meio da oferta da Eucaristia, meta e cume de toda a oração da Igreja à qual nos associamos com a oferta das nossas vidas.

 

A liturgia de hoje centra-se no amor do Pastor pelas suas ovelhas, que vai até ao limite de dar por elas a sua vida, e na alegria que ele sente por uma só que encontre o caminho da vida, por meio da conversão.

A Primeira Leitura começava por nos apresentar Deus, enquanto condutor de toda a humanidade, representada no Povo de Israel disperso pelos montes, nas ribeiras e em todos os lugares habitados do país. Como um pastor Ele vigia o rebanho e sai à procura de todas as que andam tresmalhadas ou se desgarraram num dia de nevoeiro e de trevas. O seu desejo é reconduzi-las à sua própria terra, ao lugar da segurança e do aconchego, onde abundam os pastos abundantes e as águas frescas, que produzem e alimentam a vida.

Fazer repousar o rebanho, procurar a ovelha perdida, reconduzir a que anda tresmalhada, tratar a que estiver ferida, dar vigor à enfraquecida, velar pela gorda e vigorosa, apascentar com justiça, são as expressões do amor a cada uma, que tem em conta a sua condição e situação particular, como é próprio da caridade de Deus, pessoal e irrepetível.

Há neste texto do Profeta Ezequiel uma imensidão de intuições, que devem iluminar a atitude de cada um de nós, pastores da Igreja, unidos a Cristo para a realização do plano salvífico de Deus. Todas elas radicam no “amor de Deus [que] foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”, tal como afirmava o texto da Epístola aos Romanos.

 

Ao considerarmos a vocação e a missão que recebemos de Deus, havemos de voltar sempre a considerar o grande mistério do amor de Deus que nos ama e “prova o seu amor para connosco” por meio do acontecimento pascal de seu Filho: “Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. O que somos devemo-lo ao sacrifício redentor de Cristo, nós que fomos contados entre os ímpios e os pecadores por quem ofereceu a própria vida; a missão que recebemos e que não nos pertence é para nós motivo de gratidão infinita, pois, por ela, podemos tomar parte ativa e colaborante no plano de amoroso de Deus.

O caminho da Igreja radica no caminho de Cristo. Enquanto Sacramento Universal de Salvação, também ela manifesta ao mundo a maior prova do amor de Deus; também ela é enviada a viver com Cristo o acontecimento pascal, a morrer e a ressuscitar com Ele, a fim de salvar todos os que estão perdidos.

Pessoalmente associados a Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja, todos nós que recebemos o dom do sacerdócio ministerial, havemos de ser os primeiros, os mais ousados e os mais radicais na apresentação desta prova do amor de Deus ao mundo de hoje. A procura constante da santidade pessoal e a total dedicação ao serviço do Povo de Deus - duas realidades absolutamente interligadas - constituem as marcas específicas da nossa vocação, dentro da pluralidade das formas de vida a que os cristãos são chamados.

A nossa configuração com Cristo, se for assumida e séria, passará sempre pelo mistério da sua cruz e da nossa cruz, a garantia da autenticidade do seu amor, que será igualmente o sinal da autenticidade do nosso amor.

É fundamental que aceitemos na fé a finalidade da oferta de nós mesmos e o sentido da nossa cruz livremente assumida, tal como Cristo a aceitou e assumiu. Não é simplesmente um exercício de ascese ou uma mortificação sem objetivo: tratou-se, no caso de Cristo, de dar a vida pela salvação dos que estavam perdidos, e trata-se, no nosso caso, de nos oferecermos na totalidade de nós mesmos para que não se perca nenhum daqueles que o Pai criou. O que está em causa é sempre a pessoa humana, entendida integralmente, corpo e espírito, a pessoa humana que Deus quer ver salva já no tempo e a caminho da comunhão plena com Ele na eternidade.

 

Como escreveu recentemente o Prefeito da Congregação do Clero em carta aos seminaristas, “a Igreja precisa sacerdotes, mas não de qualquer tipo de sacerdote”; precisa de padres segundo o coração de Deus, revelado em Jesus Cristo, que dá a sua vida por todos e cada um dos que ama.

Ser padre segundo o coração de Deus é, por isso, oferecer a sua vida por aqueles a quem somos enviados, em cada dia, em cada ação e em cada decisão pastoral; é acreditar que tudo o que somos e fazemos, desde as coisas mais pequenas às maiores, tem um significado muito preciso na história da relação de Deus com a humanidade da qual nos assumimos servos.

Nada em nós pode ser alheio a esta decisão de ser padre segundo o coração de Deus, porque se trata sempre de ser padre e nunca somente de agir como padre ou desempenhar a missão do padre.

 

Quando o Papa Francisco, na homilia da sua primeira Missa Crismal, nos disse que a Igreja precisa de padres com o “cheiro das ovelhas”, estava a usar uma expressão forte, inesperada, mas que exprime bem os desafios que Jesus no faz no Evangelho ao contar a parábola da ovelha perdida e das noventa e nove no deserto: vai à procura e, “quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’”.

Ir à procura pelas periferias geográficas e humanas, ainda segundo a expressão do Papa Francisco, carregar a ovelha que andava perdida sobre os ombros, exige decisão, desinstalação, renúncia às comodidades e até privilégios a que estamos habituados e apegados.

Dentre as muitas realidades que precisam de mudança e conversão na Igreja, o sacerdócio, o modo como o entendemos e vivemos, está em primeiro lugar. Ficámos felizes com a novidade trazida pelo Papa Francisco, portador de um novo modo de ser, de estar, de falar e de agir na sua condição de Bispo de Roma e Sucessor de Pedro.

Gostámos de saber que não se conforma com muito do que se passa na Igreja, que quer reformar, que levantou a voz contra o carreirismo eclesiástico, que simplificou a sua apresentação tanto na liturgia como na vida quotidiana, que se centra no essencial do Evangelho, da vida e da fé da Igreja.

Lembremo-nos sempre que a voz verdadeiramente profética do Papa se volta para cada um de nós, cristãos leigos, religiosos, diáconos, padres e bispos, e que o processo de mudança na Igreja tem de começar no coração de cada um de nós ou nunca acontecerá realmente na Igreja em que temos responsabilidades acrescidas.

Reconheçamos humildemente que precisamos de converter o homem, o cristão, o padre que há em nós - essa é a obra da nossa vida.

Qual ovelha perdida nas malhas da rotina pastoral e litúrgica, na frouxidão da fé, na debilidade do entusiasmo, no desencanto ou no cansaço, nos apegos ou no pecado, deixemo-nos encontrar e socorrer pelo Bom Pastor.

Qual ovelha entregue à vulnerabilidade da solidão, deixemo-nos tocar de novo pela frescura do primeiro amor, daquele amor que nos levou a deixar tudo para O seguir.

Deixemos que nos ponha alegremente aos ombros, chegue a casa e se alegre com amigos e vizinhos: encontrei a minha ovelha perdida! Sim, porque no redil de Deus, somos ovelhas com as ovelhas, porventura perdidas, apesar de, por graça e misericórdia, para elas, sermos pastores.

 

Que o ardor do Coração de Jesus nos deixe inquietos e a arder de zelo pelo povo ao qual somos enviados;

que a solicitude do Bom Pastor nos inspire a deixar tudo para ir à procura dos que andam perdidos e lhes levar a palavra da fé, a alegria da esperança e consolação da caridade;

e que o Coração Imaculado de Maria, nossa Mãe, nos guarde de todo o mal e de todo o pecado e seja o nosso refúgio no caminho que nos conduz até Deus. Ámen.

 

Coimbra, 7 de junho de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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