SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO - HOMILIA DA MISSA NA SÉ NOVA

Caríssimos irmãos e irmãs!

Nesta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, renovamos a nossa ação de graças a Deus por estar no meio de nós e em nós pela Eucaristia. Este é o dom inestimável que nos deixou, quando, na Última Ceia, pronunciou as palavras que nos foram fielmente transmitidas pelo Apóstolo Paulo: “Isto é o Meu Corpo, entregue por vós”; “Este cálice é a nova aliança no Meu Sangue”; “fazei isto em memória de Mim”.

Estas palavras, pronunciadas pelo Senhor antes de sofrer a paixão e a morte, quando se oferece ao Pai em favor de todos os homens, exprimem toda a sua pessoa, o seu modo de agir, o seu programa, tudo o que Ele é para nós: amor, salvação e vida.

O Concílio Vaticano II, ao querer centrar a Igreja naquilo que para ela é essencial, reafirmou precisamente que “na santíssima Eucaristia, está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo” (Presbyterorum ordinis, 5).

Ao pronunciar as palavras “fazei isto em memória de Mim”, após a entrega do pão e do vinho, Jesus mandou-nos realizar os seus gestos e sinais da Última Ceia, pôs nas nossas mãos, nas mãos da Igreja, as realidades maiores a que podemos aceder: a possibilidade de estar com Cristo, de possuir Cristo e de viver em Cristo.

Dando continuidade à grande tradição cristã, acreditamos que a Igreja nasce do mistério pascal de Cristo e vive da Eucaristia, “fonte e centro de toda a vida cristã” (Lumen gentium, 11). A Igreja, desligada deste mistério da presença de Cristo, o mesmo é dizer, desligada de Cristo vivo e atuante na comunidade cristã, não passa de uma comunidade humana ou de uma sociedade filantrópica; cada cristão, apesar do batismo que recebeu, se vive alheado deste mistério e desta presença, se não celebra, se não acolhe na comunhão, se não adora, perde os laços espirituais e vitais de amor que o unem a Cristo.

À luz desta doutrina perene da Igreja, assente no gesto de Jesus e no seu mandato expresso na Última Ceia, compreenderemos que não é possível manter-se unido a Cristo, partilhar a sua atitude de vida, acolher a sua palavra salvadora e dar testemunho dele sem ser profundamente eucarístico. Daí nasce o ensinamento da Igreja acerca da participação na missa dominical, acerca da comunhão eucarística de coração purificado, acerca do testemunho de caridade que se segue ao momento celebrativo, acerca da adoração eucarística fora da missa, como meio de prolongar no coração e na vida quotidiana esse mesmo espírito eucarístico.

 

O texto da multiplicação dos pães e dos peixes, retirado do Evangelho de Lucas, que escutámos, apresenta-nos Jesus a falar às multidões sobre o Reino de Deus e a curar os que necessitavam. Começa, por isso, por afirmar que a missão de Jesus consistiu em anunciar o Reino de Deus, que Ele mesmo veio inaugurar e quer que esteja presente em nós. Ao referir as curas que realizava aponta para a libertação de todos os males que atingem o ser humano e para a salvação de que é portador.

Quando o dia começa a declinar, os Doze aconselham-no a mandar embora a multidão para que procure alimento nas aldeias vizinhas. Pensam somente no alimento para o corpo e não conhecem o alimento que conduz à vida eterna, não conhecem o Pão Vivo descido do Céu para dar a vida ao mundo.

“Dai-lhes vós de comer”, diz Jesus. O que têm, cinco pães e dois peixes, não é suficiente em quantidade para matar a fome à multidão, e muito menos tem a qualidade necessária para saciar a fome do espírito, a fome de eternidade e a fome de Deus.

Aquela é a ocasião preparada para que Jesus apresente a novidade da sua pessoa, da sua mensagem e da sua vida. Ao erguer os olhos ao Céu, pronunciar a bênção, partir os pães e dá-los aos discípulos para que eles os distribuam pela multidão, realiza um gesto que exprime e antecipa a verdadeira Eucaristia, a da oferta do seu corpo e sangue no ritual da Última Ceia e na realidade da sua paixão e ressurreição.

“Não temos senão cinco pães e dois peixes”, respondem os Doze, “só se formos nós mesmos comprar comida para todo este povo”. A esta forma humana, comercial, de tentar resolver as coisas, sempre limitada, incompleta e parcial, Jesus contrapõe um modo divino: a dádiva, a oferta, a distribuição. Essa é a novidade que traz, é a Sua marca e o caminho que nos ensina a percorrer, em comunhão com Ele.

Neste sentido, o papa Bento XVI retomou a teologia da tradição segundo a qual a Eucaristia é o Sacramento da Caridade e afirma que “a santíssima Eucaristia é a doação que Jesus Cristo faz de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. Neste sacramento admirável, manifesta-se o amor «maior»: o amor que leva a «dar a vida pelos amigos» (Jo 15, 13). De facto, Jesus «amou-os até ao fim» (Jo 13, 1). Com estas palavras, o evangelista introduz o gesto de infinita humildade que Ele realizou: na vigília da sua morte por nós na cruz, pôs uma toalha à cintura e lavou os pés aos seus discípulos. Do mesmo modo, no sacramento eucarístico, Jesus continua a amar-nos «até ao fim», até ao dom do seu corpo e do seu sangue. Que maravilha deve suscitar, também no nosso coração, o mistério eucarístico!” (Sacramentum Caritatis, 1).

Mesmo quando, por hipótese teórica, a humanidade for capaz de resolver todos os problemas sociais ou económicos e todos tiverem o necessário para viver dignamente, continuará a subsistir uma fome no interior de cada pessoa que somente Deus pode matar. Há um alimento que vem do Céu e que o Pai nos oferece; há um Pão Vivo que se dá para alimentar o coração humano e a comunidade cristã, que celebra a Eucaristia e vive dela.

Quem celebra a Eucaristia dispõe-se, portanto, a viver unido a Cristo pelos laços de amor que o levou a vir a ao nosso encontro e a oferecer-se por nós; mas, quem celebra a Eucaristia dispõe-se igualmente a viver a caridade na relação com os irmãos, isto é, a dar a vida pelos irmãos, na entreajuda, na partilha, na comunhão e no amor. Da Eucaristia nasce, portanto, toda a caridade fraterna expressa de muitas formas na vida da Igreja e dos seus membros, desde a ação pessoal de atenção aos outros até à ação sócio-caritativa organizada pela comunidade cristã.

 

Somente a Igreja que vive da Eucaristia tem a força necessária para ser transformadora do mundo presente e para ser nele sinal universal da salvação de Deus. A missão da Igreja está, por isso, completamente dependente do modo como vive e celebra a Eucaristia, do amor que tem a Cristo morto e ressuscitado, da realização do mandato de continuar a fazer memória do Corpo entregue e do Sangue derramado do Senhor.

As próprias tarefas de evangelização e anúncio que não nascem da Eucaristia e não conduzem à Eucaristia ficam reduzidas a ações de alfabetização doutrinal, promotoras de uma certa consciência histórica e cultural, mas não são capazes de levar à verdadeira fé transformadora da vida. Uma catequese infantil, juvenil ou adulta que não se centre na Eucaristia celebrada e vivida, reduz-se a uma escola no sentido mais redutor do termo - lugar de transmissão de conhecimentos.

Esta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo recorda-nos que toda a vida da Igreja se centra neste sacramento do amor de Deus para connosco. Tudo procuraremos fazer para que a liturgia eucarística tenha cada vez maior expressão entre nós e irradie para toda a ação pastoral, tanto na diocese, como nas paróquias, movimentos e grupos. Tudo faremos para que a Eucaristia celebrada, adorada e levada para a vida constitua a alma da Igreja, tanto enquanto comunidade cristã congregada pelo Espírito, como enquanto comunidade missionária enviada a fazer o anúncio de Cristo Salvador a todos os povos da terra.

 

Confiamos a Nossa Senhora, imagem da Igreja que vive da Eucaristia, todo o povo cristão, para que dela aprenda a amar e levar Cristo aos outros, como o Pão e Vinho de salvação. Ámen.

 

Coimbra, 02 de junho de 2013

Virgílio do Nascimento Antunes

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